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← Blog·peptideos23 de junho de 2026· 13 min de leitura

Dopamina, dobutamina, norepinefrina, vasopressina e milrinona — inotrópicos e vasopressores no choque cardiogênico e séptico

Inotrópicos e vasopressores são a farmacologia do choque na UTI. Norepinefrina é o vasopressor de primeira linha no choque séptico. Dobutamina é o inotrópico principal no choque cardiogênico. Milrinona (inibidor de PDE3) aumenta cAMP sem receptor beta. Vasopressina (ADH) é vasopressor de segunda linha. Bases fisiopatológicas de cada tipo de choque e seleção de agentes.

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Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que o choque séptico continua sendo tão letal se temos antibióticos?+

Esta é uma das perguntas mais importantes da medicina intensiva, e a resposta revela a complexidade da sepse. A mortalidade do choque séptico permanece em 25-40% nas UTIs, mesmo com antibióticos modernos e cuidados intensivos. Os antibióticos tratam a infecção subjacente, mas não resolvem a cascata inflamatória que já foi desencadeada. Uma analogia: é como apagar o fósforo que causou um incêndio — mas o incêndio já está alastrando. A fisiopatologia da sepse envolve: (1) Hiperinflamação inicial: liberação maciça de citocinas (TNF-α, IL-1β, IL-6), ativação do complemento, tempestade de óxido nítrico → vasoplegia (vasos se dilatam e perdem tônus); (2) Coagulopatia: ativação da coagulação → CID (coagulação intravascular disseminada) → trombose de microvasos + hemorragia paradoxal; (3) Disfunção mitocondrial: as células não conseguem usar O₂ mesmo com oxigênio disponível (citopathy hipóxica); (4) Disfunção múltipla de órgãos (DMOS): rim (IRA), pulmão (SDRA), fígado, coração, cérebro; (5) Fase de imunossupressão tardia: após a hiperinflamação, o sistema imune fica demasiado tolerante → infecções secundárias (fungos, bactérias resistentes) matam muitos pacientes que sobreviveram a fase inicial. As tentativas de bloquear mediadores inflamatórios (anti-TNF, anti-IL-6, corticosteroide em altas doses) falharam em múltiplos ensaios. O tratamento atual (Surviving Sepsis Campaign) foca em: antibiótico precoce, ressuscitação volêmica guiada, controle da fonte infecciosa, vasopressores (norepinefrina) para manter perfusão, ventilação protetora — mas sem alvo específico da cascata que funcione consistentemente.

Qual é a dose renal da dopamina e por que foi abandonada?+

A chamada dose renal da dopamina (1-3 mcg/kg/min) foi durante décadas uma das práticas mais utilizadas em UTI, baseada na ideia de que doses baixas de dopamina estimulariam os receptores D1/D2 renais e mesentéricos → vasodilatação renal → ↑fluxo sanguíneo renal → ↑diurese → proteção renal. O conceito surgiu de estudos fisiológicos em voluntários saudáveis nos anos 1970. O problema: os estudos clínicos nunca confirmaram esse benefício em pacientes criticamente doentes. O estudo decisivo foi o ANZICS (Australian and New Zealand Intensive Care Society) Clinical Trials Group 2000 (Bellomo 2000, Lancet): 328 pacientes com oligúria aguda em UTI randomizados para dopamina em dose renal ou solução salina — NENHUMA diferença em: necessidade de diálise, recuperação de função renal, dias em UTI, mortalidade. E mais: a dopamina em dose renal não é tão inócua quanto se pensava — causa: supressão de TSH (efeito hipotalâmico), imunossupressão (reduz proliferação de linfócitos T), náusea/vômito (D2 do centro do vômito), e pode precipitar arritmias em pacientes cardíacos. As diretrizes atuais (KDIGO para IRA, Surviving Sepsis Campaign) recomendam explicitamente NÃO usar dopamina em dose baixa para proteção renal. A prevenção real de IRA em UTI passa por: hidratação adequada, evitar nefrotóxicos, controle glicêmico, antibiótico precoce na sepse — não pela dopamina.

Qual diferença entre norepinefrina e vasopressina e quando usar cada um?+

Norepinefrina e vasopressina são ambos vasopressores mas com mecanismos completamente diferentes. Norepinefrina: agonista de receptores adrenérgicos (α₁ principalmente) → ativa o sistema nervoso simpático farmacologicamente → vasoconstrição via sinalização de Ca²+ em músculo liso vascular. Vasopressina (ADH): agonista de receptores V1a (não-adrenérgicos) em músculo vascular → vasoconstrição via IP3/Ca²+; também ativa receptores V2 renais → ↑reabsorção de água; e V1b hipofisário → ↑ACTH → ↑cortisol. A lógica de combinar os dois: durante a sepse, os níveis endógenos de vasopressina caem (por esgotamento das reservas hipofisárias), criando uma deficiência relativa de vasopressina. Adicionando vasopressina exógena (0.03-0.04 UI/min), você age por um mecanismo não-adrenérgico que é complementar à norepinefrina. O estudo VASST (Russell 2008) mostrou que a combinação vasopressina + norepinefrina poupou dose de norepinefrina e houve tendência de benefício em subgrupos menos graves. As diretrizes atuais recomendam: norepinefrina como 1ª linha no choque séptico; vasopressina 0.03-0.04 UI/min adicionada quando se precisa de doses crescentes de norepinefrina (segundo vasopressor para poupar catecolaminas e potencialmente reduzir burden adrenérgico); terlipressina (análogo de vasopressina) tem evidência específica para síndrome hepatorrenal.

O que é ECMO e quando é indicada no choque cardiogênico?+

ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) é um circuito que retira sangue do paciente, oxigena e remove CO₂ em uma membrana artificial, e devolve o sangue ao paciente — substituindo temporariamente a função do coração e/ou dos pulmões. Na terapia do choque cardiogênico, usa-se a configuração Veno-Arterial (V-A ECMO): cânula venosa (saída de sangue venoso) + cânula arterial (retorno de sangue oxigenado) → o circuito bypassa o coração, fornecendo débito cardíaco mecânico enquanto o coração repousa e se recupera. A V-A ECMO pode fornecer até 4-6 L/min de débito cardíaco artificialmente. Indicações no choque cardiogênico: (1) IAM com choque cardiogênico refratário (quando angioplastia + IABP + dobutamina/norepinefrina são insuficientes); (2) Miocardite fulminante (coração inflamado que pode recuperar se sobreviver a fase aguda); (3) Transplante cardíaco como ponte (bridge to transplant); (4) Parada cardíaca refratária (ECPR — ECMO-RCP); (5) Intoxicação com cardiotoxinas graves (bloqueadores de canal de cálcio, betabloqueadores em overdose). A evidência do benefício em mortalidade do V-A ECMO em choque cardiogênico por IAM é controversa — o estudo ECMO-CS (2023) não mostrou benefício claro. Em centros experientes, entretanto, V-A ECMO é considerado para pacientes selecionados como ponte para recuperação miocárdica ou para dispositivo de suporte de longa duração.

Milrinona é preferível à dobutamina em pacientes usando betabloqueador crônico?+

Sim — essa é uma das indicações clássicas de milrinona sobre dobutamina. Pacientes com IC crônica em uso de betabloqueador (carvedilol, metoprolol) têm receptores β₁ downregulados — dobutamina age via esses receptores e fica menos eficaz. Milrinona não depende de receptores β (age por inibição de PDE3, a jusante do receptor) — mantendo efeito inotrópico mesmo com betabloqueador. Além disso, milrinona tem efeito vasodilatador que favorece sobrecarga do VD.

Norepinefrina causa isquemia intestinal em doses altas?+

Esse é um risco real em doses muito altas de norepinefrina (>0.5-1 mcg/kg/min). A vasoconstrição esplâncnica acentuada pode reduzir perfusão intestinal e elevar lactato. Na prática, quando se precisam doses crescentes de norepinefrina, adicionar vasopressina (0.03-0.04 UI/min) permite reduzir a dose de norepinefrina (efeito poupador de catecolaminas) reduzindo o risco de isquemia mesentérica.

Vasopressina é indicada em anafilaxia refratária?+

Sim — em anafilaxia refratária à adrenalina, vasopressina (0.03-0.04 UI/min) é uma opção de resgate. O mecanismo é complementar à adrenalina: vasopressina age via V1a (receptor não-adrenérgico) — portanto mantém vascular tone mesmo com receptores α-adrenérgicos downregulados pelo choque anafilático severo. Casos de relatos e séries clínicas suportam o uso; não há ensaios randomizados nessa indicação específica.

Referências Científicas

  1. De Backer D, Biston P, Devriendt J, et al. (NEJM 2010 — norepinephrine vs dopamine in shock) Comparison of Dopamine and Norepinephrine in the Treatment of Shock (SOAP II trial). N Engl J Med, 2010.
  2. Russell JA, Walley KR, Singer J, et al. (VASST trial — vasopressin in septic shock) Vasopressin versus Norepinephrine Infusion in Patients with Septic Shock (VASST trial). N Engl J Med, 2008.
  3. Bellomo R, Chapman M, Finfer S, et al. (ANZICS trial — low-dose dopamine) Low-dose dopamine in patients with early renal dysfunction: a placebo-controlled randomised trial. Lancet, 2000.
  4. Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. (Surviving Sepsis Campaign 2021 guidelines) Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Med, 2021.
  5. Felker GM, O'Connor CM, Braunwald E. (OPTIME-CHF trial — milrinone in decompensated HF) Loop Diuretics in Acute Decompensated Heart Failure — Necessary? Evil? A Necessary Evil?. Circ Heart Fail, 2009.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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