O Que É Bradicinina
Bradicinina (BK — de 'bradys' = lento e 'kinein' = mover, por sua ação de contração lenta do músculo liso) foi descoberta em 1948 por Rocha e Silva e colaboradores (São Paulo, Brasil) ao injetar veneno de cobra Bothrops jararaca em plasma. Esta descoberta brasileira revelou o sistema calicreína-cinina.
O sistema calicreína-cinina Cascata de produção de bradicinina:
- Cininogênios (precursores proteicos): de alto peso molecular (HMW-cinogen) e baixo peso (LMW-cininogen), produzidos no fígado
- Calicreína plasmática: serina-protease ativada pelo fator XII (Hageman) → cliva HMW-cininogen → bradicinina (9aa)
- Calicreína tecidual: presente em rim, glândula salivar, intestino → cliva LMW e HMW-cininogen → calidina (Lys-bradicinina, 10aa)
- Calidina: convertida em bradicinina pela aminopeptidase N (remoção do Lys N-terminal)
Estrutura de Bradicinina
- BK: Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe-Arg (9 aa)
- Calidina: Lys-Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe-Arg (10 aa)
- Des-Arg⁹-BK: bradicinina sem o Arg C-terminal — agonista preferencial de B1R
Receptores B1R e B2R Dois receptores GPCRs:
- B2R (Receptor de bradicinina tipo 2): constitutivo (sempre expresso), ligante principal = BK intacta; Gq-acoplado (↑IP3/Ca²⁺ + ↑NO/prostaciclina)
- B1R (tipo 1): induzível por inflamação/lesão tecidual (citocinas TNF-α, IL-1β); ligante preferencial = des-Arg⁹-BK e des-Arg¹⁰-calidina; mediador de dor crônica inflamatória
Degradação de bradicinina
- ECA (Enzima Conversora de Angiotensina, kininase II): principal enzima que degrada BK → peptídeos inativos
- Neprilisina (NEP/kininase III): também degrada BK
- Carboxipeptidase N (plasma): remove Arg C-terminal → des-Arg⁹-BK (agonista B1R)
- t½ plasmática de BK: ~30 segundos
Bradicinina: Dor, Inflamação e Efeitos Vasculares
Bradicinina e dor (nocicepção) BK é um dos mais potentes algesígenos endógenos:
- BK → B2R em fibras Aδ e C do DRG → ↑sensibilidade de nociceptores
- Mecanismo: ↑IP3/Ca²⁺ → sensibilização de TRPV1 (termorreceptor de calor/pimenta) → hiperalgesia térmica
- ↑liberação de prostaglandinas (↑COX-2) → amplificação da dor inflamatória
- BK + prostaglandinas: sinergia em dor pós-operatória e inflamatória
B1R e dor crônica
- Inflamação crônica: B1R induzido em neurônios sensoriais → des-Arg⁹-BK → sensibilização mantida
- Antagonistas de B1R: potencial analgésico sem tolerância (diferente de opioides)
- B1R em modelos de dor neuropática: papel na alodínia mecânica crônica
Bradicinina e vasodilatação B2R no endotélio → ↑NO + prostaciclina:
- Vasodilatação potente — opõe-se à ET-1 e angiotensina II
- ↑permeabilidade vascular: extravasamento de plasma → edema
- BK é mediador do edema inflamatório local (eritema + calor + edema + dor)
Bradicinina e contrações de músculo liso
- BK → B2R em músculo liso uterino: contrações dolorosas (dismenorreia)
- B2R em musculatura lisa intestinal: cólicas e dor abdominal
- B2R nas vias aéreas: broncoconstrição (relevante em asma)
Bradicinina e pele
- Queimaduras: BK elevada na área lesada → dor
- Picadas de inseto: kallikrein ativado → BK → inflamação local
Bradicinina e os IECAs: Tosse e Angioedema
Por que IECAs causam tosse? Os IECAs (captopril, enalapril, lisinopril, ramipril) inibem a ECA que também degrada bradicinina:
- ECA inibida → bradicinina NÃO é degradada nas vias aéreas → acúmulo
- BK → B2R em nervos sensoriais das vias aéreas → estímulo de tosse reflexa
- Prevalência: tosse em 5-15% dos europeus, até 40% dos asiáticos (polimorfismo de B2R)
- Mecanismo mediador: bradicinina + substância P (ambas acumulam com IECA)
- Solução: trocar IECA por BRA (valsartan, losartan, etc. — não afetam a degradação de BK)
Angioedema por IECA Forma grave e potencialmente fatal:
- IECA → ↑BK → BK na submucosa de língua, lábios, garganta → edema angioneurótico
- Incidência: 0.1-0.7% dos usuários de IECA (mais comum em afro-americanos)
- Apresentação: edema de língua/lábio/laringe de início súbito; pode obstruir vias aéreas
- Tratamento de angioedema por IECA: parar IECA + icatibant (antagonista B2R) ou C1-inibidor
Angioedema Hereditário (AEH) — papel de BK AEH é causado por deficiência de C1-inibidor (HAE tipo I e II):
- C1-inibidor normal: bloqueia calicreína plasmática → impede produção de BK
- AEH: C1-inibidor deficiente → calicreína ativa sem inibição → ↑BK → edema recorrente
- AEH tipo III (mutação FXII): produção excessiva de BK sem inibição
Tratamentos aprovados para AEH
- Icatibant (Firazyr, Shire): antagonista seletivo de B2R — tratamento agudo de crises de AEH; SC autoadministrado; aprovado FDA 2011
- Berinert/Cinryze/Haegarda: concentrado de C1-inibidor — tratamento e profilaxia de AEH
- Lanadelumab (Takhzyro): anticorpo anti-calicreína plasmática — profilaxia de AEH (aprovado 2018)
- Garadacimab: anticorpo anti-fator XIIa — profilaxia de AEH (aprovado 2022 no Canadá/Europa)
Bradicinina, Inflamação, Coração e Perspectivas
Bradicinina e proteção cardíaca O eixo bradicinina é protetor no coração:
- B2R em cardiomiócitos: ↑NO → ↓apoptose + ↓hipertrofia
- Pré-condicionamento isquêmico: BK é mediador do fenômeno cardioprotetor
- IECAs: parte do benefício cardíaco vem do acúmulo de BK (além da inibição de angiotensina II)
- Estudos CONSENSUS, SOLVD: IECAs ↓mortalidade na IC - Estudo de comparação IECA vs. BRA: IECAs têm maior benefício em alguns subgrupos — hipótese: porque acumulam BK (BRA não afetam BK)
Bradicinina e diabetes
- B2R em células beta pancreáticas: BK → ↑secreção de insulina
- B1R e resistência insulínica: B1R induzido em tecido adiposo obeso → inflamação → RI
- IECAs retardam progressão de nefropatia diabética: parcialmente via BK/NO
Bradicinina e inflamação sistêmica
- Bradicinina na sepse: ativa B2R no endotélio → ↑permeabilidade + vasodilatação → contribui ao choque
- Kallikrein inhibitor (ecallantide): aprovado para AEH — investigado em sepse (proteção de permeabilidade)
Perspectivas terapêuticas
- Antagonistas de B1R para dor crônica inflamatória: BI 113823, LF 22-0542 — ensaios Fase II com resultados modestos
- Agonistas de B2R para proteção cardíaca pós-infarto: bradicinina potenciada?
- Bradicinina e COVID-19: tempestade de bradicinina proposta como mecanismo de lesão pulmonar grave — ainda controverso
- Inibidores de calicreína tecidual: potencial em hipertensão resistente (kallidinogenase ou inibidores como ecallantide)
A descoberta brasileira Rocha e Silva (USP Ribeirão Preto) e colaboradores em 1948 descobriram a bradicinina usando veneno de Bothrops jararaca — marco da farmacologia brasileira. A calicreína tecidual (presente em alta concentração no veneno de jararaca) cliva o cininogênio plasmático, produzindo BK. Essa descoberta gerou décadas de pesquisa e os IECAs modernos.
Pontos-chave
Tabela: Receptor B2R vs B1R na Sinalização da Bradicinina
| Parâmetro | B2R (BDKRB2) | B1R (BDKRB1) | |---|---|---| | Expressão | Constitutiva (ubíqua) | Induzível (inflamação, IL-1, TNF) | | Ligante preferencial | Bradicinina (BK) | Des-Arg9-BK (metabolito de BK) | | Via de sinalização | Gq → ↑IP3/DAG → ↑Ca²⁺ | Gq + Gi; ↑NO/prostaglandinas | | Papel na dor aguda | Central (trauma, queimadura) | Dor crônica inflamatória | | Relevância terapêutica | Icatibant (anti-B2R para AEH) | Antagonistas B1R em pesquisa |
7 pontos essenciais sobre bradicinina:
- Bradicinina (BK) é um nonapeptídeo (9aa) do sistema calicreína-cinina; gerada pelo clivamento do cininogênio pela calicreína plasmática.
- A ECA (enzima conversora de angiotensina) também é a quinase II que degrada bradicinina — IECAs bloqueiam essa degradação, acumulando BK e causando tosse em 5–40% dos usuários.
- B2R é constitutivo e media efeitos agudos (vasodilatação, dor por lesão); B1R é induzido por citocinas inflamatórias e responde a Des-Arg9-BK, mediando dor crônica.
- Bradicinina foi descoberta no Brasil por Rocha e Silva (USP Ribeirão Preto, 1948), usando veneno de Bothrops jararaca — marco histórico da farmacologia.
- No Angioedema Hereditário (AEH), deficiência de C1-inibidor permite que a calicreína produza BK sem controle; icatibant (antagonista B2R) é o tratamento de crise aprovado.
- BK tem ação cardioprotetora via B2R em cardiomiócitos (↑NO → ↓apoptose); parte do benefício dos IECAs na insuficiência cardíaca vem do acúmulo de BK.
- A 'tempestade de bradicinina' foi proposta como mecanismo de lesão pulmonar na COVID-19 grave (Garvin et al., eLife 2020) — ainda controversa, mas investigada.
Saiba mais sobre moléculas sinalizadoras: Ciência e Conceitos de Peptídeos.
Leituras relacionadas: Bradicinina — visão geral · Cininas e vasodilatação · Angioedema Hereditário e bradicinina
Erros comuns sobre bradicinina
1. Confundir BRA com IECAs — ambos causam tosse? BRA (losartan, valsartan) bloqueiam o receptor AT1 de angiotensina II, mas não inibem a ECA — logo, não acumulam bradicinina e não causam tosse. IECAs (captopril, enalapril) inibem a ECA diretamente, acumulando BK. Trocar IECA por BRA resolve a tosse; a recíproca não é verdadeira.
2. Tratar angioedema por bradicinina com anti-histamínicos Angioedema por IECA ou AEH é mediado por bradicinina, não por histamina. Anti-histamínicos e corticoides não funcionam nesse cenário. O tratamento correto é icatibant (antagonista B2R), C1-inibidor concentrado ou ecallantide. Usar anti-histamínicos atrasa o tratamento correto — o que pode ser fatal quando a laringe está comprometida.
3. Considerar bradicinina sempre prejudicial BK em níveis fisiológicos é protetora: vasodilatação via ↑NO e prostaciclina, cardioproteção pós-infarto, melhora da sensibilidade à insulina, proteção renal. A toxicidade ocorre com acúmulo excessivo (IECA + predisposição, AEH) — não com os níveis endógenos normais.
4. Tratar Des-Arg9-BK como sinônimo de bradicinina Des-Arg9-BK é um metabólito de BK gerado pela carboxipeptidase N. Tem baixa afinidade por B2R, mas alta afinidade por B1R (receptor induzível pela inflamação). São moléculas com papéis fisiológicos distintos — especialmente em dor crônica inflamatória.
5. Esperar que a tosse por IECA desapareça em dias Após suspender o IECA, a tosse pode levar semanas a meses para resolver em alguns pacientes — a sensibilização das vias aéreas por bradicinina não cessa imediatamente. O reaparecimento da tosse ao retomar o IECA confirma o diagnóstico.
Quando procurar avaliação profissional
Este conteúdo é educativo sobre a biologia da bradicinina. Consulte um médico se:
- Você usa IECA (captopril, enalapril, ramipril) e desenvolveu tosse seca persistente — substituição por BRA é geralmente eficaz e deve ser avaliada com seu médico.
- Apresentar edema súbito de língua, lábios, face ou garganta, especialmente sem urticária ou rash — pode ser angioedema por bradicinina; trata-se de emergência médica: procure pronto-socorro imediatamente.
- Tiver histórico familiar de angioedemas recorrentes sem causa alérgica clara — pode ser Angioedema Hereditário (AEH); avaliação imunológica com dosagem de C1-inibidor e C4 é indicada.
- Tiver dor crônica refratária e quiser saber se opções envolvendo o sistema calicreína-cinina existem — consulte um especialista em dor.
- Quiser participar de ensaios clínicos com moduladores do sistema calicreína-cinina — verifique elegibilidade com seu médico.
Sistema calicreína-cinina e SRAA: dois sistemas que se cruzam
O sistema calicreína-cinina (KKS) e o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) compartilham a enzima ECA — e essa convergência tem implicações profundas para a farmacologia cardiovascular moderna.
A ECA como nó de cruzamento: A Enzima Conversora de Angiotensina (ECA, também chamada cininase II) realiza duas funções opostas simultaneamente:
- Converte angiotensina I (Ang I) em angiotensina II (Ang II) — efeito vasoconstritor, pró-hipertensivo
- Degrada bradicinina — eliminando seu efeito vasodilatador e pró-inflamatório local
Quando um IECA bloqueia a ECA, os dois efeitos ocorrem em paralelo: ↓Ang II (vasodilatação/anti-hipertensiva) + ↑bradicinina (vasodilatação adicional + NO + prostaglandinas). Isso explica por que os IECAs têm um duplo mecanismo hipotensor — não apenas pela redução de Ang II, mas pela potencialização da bradicinina.
Bradicinina e a proteção cardiovascular dos IECAs: O benefício dos IECAs além da redução da PA inclui proteção endotelial e cardioproteção. Estudos como CONSENSUS e SOLVD demonstraram redução de mortalidade em insuficiência cardíaca com IECAs. Análises comparativas sugerem que os IECAs têm vantagem sobre os BRA em alguns subgrupos — hipótese: o acúmulo de bradicinina nos IECAs contribui para esse benefício adicional via ↑NO, ↑prostaciclina e ↑pré-condicionamento isquêmico cardíaco. BRAs não afetam a ECA, logo não acumulam BK.
ACE2 e Ang-(1-7): o eixo contraregulatório: A descoberta do receptor ACE2 (ECA2) adicionou um terceiro eixo: ECA2 degrada Ang II em Ang-(1-7), que age no receptor MAS produzindo efeitos anti-proliferativos, anti-fibróticos e vasodilatadores — opostos a Ang II. ECA2 também degrada des-Arg9-BK (agonista de B1R) em fragmentos inativos. Essa complexidade do SRAA × KKS × ACE2 ganhou relevância durante a pandemia de COVID-19: SARS-CoV-2 usa ECA2 como receptor de entrada, reduzindo sua disponibilidade e potencialmente alterando o equilíbrio BK/Ang-(1-7).
Aprofunde: Hub de Ciência e Conceitos · O que é Bradicinina · CGRP e neuropeptídeos vasoativos.
Bradicinina em pesquisa ativa: COVID-19, sepse e terapêutica futura
O sistema calicreína-cinina ressurgiu como área de pesquisa intensa em condições clínicas complexas, com estudos que vão além do angioedema hereditário e da tosse por IECA.
Bradicinina e COVID-19 — a 'tempestade de bradicinina': Em julho de 2020, Garvin et al. (eLife) propuseram o mecanismo de 'tempestade de bradicinina' na COVID-19 grave: SARS-CoV-2 se liga ao ECA2 para entrar nas células, reduzindo a disponibilidade de ECA2 para degradar Ang II e des-Arg9-BK. Paralelamente, o vírus upregula genes do sistema calicreína (KLKB1, F12) — resultando em excesso de bradicinina e des-Arg9-BK. Des-Arg9-BK (agonista de B1R) induz inflamação sustentada e aumento de permeabilidade pulmonar, potencialmente contribuindo para o SDRA. A hipótese é biologicamente plausível, mas permanece controversa: outros mecanismos (NF-κB, citocinas, NET) também explicam a lesão pulmonar grave, e o papel relativo da bradicinina no COVID-19 está sendo investigado em estudos clínicos.
Bradicinina em sepse: Na sepse, ativação do fator XII (proteína de fase aguda) → calicreína plasmática → bradicinina → vasodilatação sistêmica + ↑permeabilidade capilar → contribuição ao choque séptico. Ecallantide (inibidor de calicreína) foi investigado para sepse para reduzir a permeabilidade vascular, com resultados mistos. A interação com o sistema de coagulação (fator XII ativa tanto a cascata da coagulação quanto a calicreína) torna o KKS um alvo de interesse em coagulopatias inflamatórias.
Antagonistas de B1R para dor crônica — perspectivas: B1R é induzível por inflamação (IL-1β, TNF-α) e mediador de dor crônica neuropática e inflamatória. Antagonistas seletivos de B1R (BI 113823, LF 22-0542) foram investigados em ensaios Fase I e II para dor crônica, com perfil de tolerância razoável mas eficácia modesta nos estudos disponíveis. O alvo B1R permanece de interesse por sua seletividade — ativo principalmente em tecidos inflamados, com menor risco de efeitos sistêmicos vs opioides ou AINEs.
*Este conteúdo é educativo. Para diagnóstico e tratamento de condições relacionadas ao sistema calicreína-cinina, consulte um especialista.*