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← Blog·Saúde21 de junho de 2026

Bradicinina e Cininas: Os Peptídeos da Dor, Inflamação e Vasodilatação — Angioedema Hereditário

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Equipe PeptídeosBio
Equipe Peptídeos Bio
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Bradicinina: O Peptídeo que Faz Tudo Dói

Em 1949, Rocha e Silva e colaboradores no Brasil descobriram que incubação de plasma com veneno de cobra (Bothrops jararaca) gerava uma substância que contraía lentamente o útero de rato (ao contrário da histamina, que age imediatamente). Chamaram de bradicinina — do grego *bradys* (lento) + *kinein* (mover).

A descoberta brasileira foi fundamental para a farmacologia cardiovascular: os mesmos peptídeos de bradicinina potenciadores no veneno de cobra levaram ao desenvolvimento dos IECAs (captopril) — os anti-hipertensivos que salvaram milhões de vidas.

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O Sistema Calicreína-Cinina

Cininas = família de peptídeos vasoativos gerados enzimaticamente de kininogênios:

Precursores: Cininogênios (Kininogens)

HMWK (High Molecular Weight Kininogen — Cininogênio de Alto Peso Molecular):

  • Cofator do sistema de contato (Fator XII → Fator XIa → calicreína plasmática)
  • Substrato para calicreína plasmática → libera bradicinina (9 aa)

LMWK (Low Molecular Weight Kininogen):

  • Substrato para calicreína tecidual/glandular → libera Lys-bradicinina (calidina — 10 aa, com Lys extra no N-terminal)

Calicreínas: As Enzimas que Geram Cininas

Calicreína Plasmática (Factor XIIa → Pré-calicreína → Calicreína):

  • Gerada na fase de contato da coagulação
  • Cliva HMWK → bradicinina
  • Em superfícies carregadas negativamente (colágeno, vidro, superfícies bacterianas)

Calicreínas Teciduais (glandulares — KLK1):

  • Expressas em: Rins, pâncreas, glândulas salivares, intestino
  • Cliva LMWK → calidina (Lys-bradicinina)
  • Calidina pode ser convertida para bradicinina por aminopeptidase

Bradicinina e Calidina (Lys-Bradicinina)

| Molécula | Estrutura | Gerada por | |---------|----------|-----------| | Bradicinina | Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe-Arg | Calicreína plasmática + HMWK | | Calidina (Lys-BK) | Lys-Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe-Arg | Calicreína tecidual + LMWK | | Des-Arg9-BK | Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe | Carboxipeptidase B de BK | | Des-Arg10-calidina | Lys-Arg-Pro-Pro-Gly-Phe-Ser-Pro-Phe | Carboxipeptidase de calidina |

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Receptores B1 e B2: Dois Perfis Inflamatórios

Receptor B2 (constitutivo):

  • Alta afinidade para bradicinina e calidina
  • Localização: Vasos sanguíneos (células endoteliais + músculo liso), rins, nervos sensoriais (Aδ e C), pulmão
  • Sinalização: Gαq → PLC → IP3 → Ca2+ → eNOS (NO) + COX → PGI2 + PGE2
  • Efeitos: Vasodilatação imediata, extravasamento vascular, dor aguda, broncoconstrição

Receptor B1 (induzível — "inflamatório"):

  • Alta afinidade para Des-Arg-cininas (metabólitos de bradicinina)
  • QUASE AUSENTE em tecidos normais → fortemente upregulado por: IL-1β, TNF-α, LPS (bacteriana), trauma
  • Gαq + Gαi → Ca2+ + menos AMPc
  • Efeitos: Dor crônica inflamatória, extravasamento vascular persistente, hiperalgesia

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Bradicinina e IECAs: A Conexão Crucial

Um dos efeitos menos conhecidos dos IECAs é o acúmulo de bradicinina:

ACE tem dois substratos principais:

  1. Ang I → Ang II (a via de hipertensão)
  2. Bradicinina → fragmentos inativos (BK 1-5 + BK 1-7)

Com IECA (captopril, enalapril, lisinopril):

  • Menos Ang II (objetivo terapêutico) → anti-hipertensivo + cardioprotetor
  • Menos degradação de bradicinina → BK acumula

Bradicinina acumulada → 2 efeitos:

  1. Benéfico: Mais NO + PGI2 via B2R → vasodilatação adicional + anti-trombótico + cardioprotetor
  2. Adverso: BK em vias aéreas → B2R → tosse seca e persistente (em 10–15% dos usuários de IECA, mais em asiáticos ~30%)
  3. Raro mas grave: BK excessiva no tecido subcutâneo/mucosas → angioedema (lábios, língua, laringe — potencialmente fatal)

Por que BRAs não causam tosse?:

  • BRAs bloqueiam AT1R mas não inibem ACE → ACE continua degradando bradicinina normalmente → sem acúmulo de BK → sem tosse

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Angioedema Hereditário (HAE): Bradicinina Excessiva

O Angioedema Hereditário (HAE — Hereditary Angioedema) é uma doença genética rara mas potencialmente fatal:

Mecanismo

  • Mutação de perda de função em SERPING1 (gene do C1-Inibidor/C1-INH)
  • C1-INH normalmente inibe calicreína plasmática + Fator XIIa + C1s/C1r do complemento
  • Sem C1-INH: Calicreína ativa livremente → HMWK → mais bradicinina → episódios agudos de angioedema

Tipos:

  • Tipo I (85%): Menos proteína C1-INH (quantitativo — C1-INH antígeno e funcional ambos baixos)
  • Tipo II (15%): C1-INH disfuncional (antígeno normal, funcional baixo)
  • Tipo III (estrogênio-dependente): Mutação em Fator XII → mais ativação de calicreína (especialmente com estrogênio — piora em mulheres com pílula ou gravidez)

Manifestações de HAE

Episódios agudos de angioedema (sem urticária — diferente de angioedema alérgico/histamínico):

  • Cutâneo: Edema subcutâneo (extremidades, face, genitais) — não pruriginoso
  • GI: Edema da mucosa intestinal → cólica, náusea, vômito — frequentemente diagnosticado erroneamente como abdome agudo
  • Laríngeo: Mais perigoso → obstrução de via aérea → morte em 25–40% das crises laríngeas não tratadas

Tratamento de HAE

Crise aguda:

  • Icatibanto (Firazyr®): Antagonista sintético de B2R (estrutura similar à bradicinina mas bloqueia o receptor) — SC 30 mg/dose → melhora em 30–60 min
  • C1-INH concentrado (Berinert®, Cinryze®): Derivado plasmático ou recombinante → repõe C1-INH → calicreína inibida → menos bradicinina
  • Ecallantide (Kalbitor®, EUA): Inibidor de calicreína plasmática → menos bradicinina gerada

Profilaxia a longo prazo:

  • C1-INH concentrado IV a cada 3-4 dias
  • Lanadelumab (Takhzyro®): Anticorpo monoclonal anti-calicreína plasmática → SC a cada 2-4 semanas — reduz crises em 87%
  • Danazol (andrógeno atenuado) — histórico mas com muitos efeitos adversos

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Referências

  1. Rocha e Silva M, et al. "Bradykinin, a hypotensive and smooth muscle stimulating factor released from plasma globulin by snake venoms and by trypsin." *Am J Physiol.* 1949;156(2):261–273.
  2. Kaplan AP, Joseph K. "The bradykinin-forming cascade and its role in hereditary angioedema." *Ann Allergy Asthma Immunol.* 2010;104(3):193–204.
  3. Cicardi M, Zuraw BL. "Hereditary angioedema." *N Engl J Med.* 2020;382(12):1136–1148.
  4. Erdős EG, Skidgel RA. "Bradykinin and the kallikrein-kinin system." *N Engl J Med.* 2017;377(23):2272–2274.
  5. Ferreira SH. "A bradykinin-potentiating factor (bpf) present in the venom of Bothrops jararaca." *Br J Pharmacol.* 1965;24(1):163–169.
  6. Zuraw BL. "Hereditary angioedema." *N Engl J Med.* 2008;359(10):1027–1036.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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