Infertilidade Masculina: Um Problema Subestimado
Em 40–50% dos casais com infertilidade, o fator masculino é responsável ou contribui. No Brasil, estima-se que 7–10% dos homens em idade reprodutiva têm algum grau de comprometimento da fertilidade.
Parâmetros do Espermograma
OMS 2021 — Valores de Referência: | Parâmetro | Referência (5º percentil) | |-----------|--------------------------| | Volume seminal | ≥ 1,4 mL | | Concentração de espz. | ≥ 16 milhões/mL | | Contagem total | ≥ 39 milhões/ejaculado | | Mobilidade progressiva | ≥ 30% | | Morfologia (Kruger estrita) | ≥ 4% | | Vitalidade | ≥ 54% |
Classificações:
- Oligozoospermia: concentração < 16M/mL (grave: < 5M/mL)
- Astenozoospermia: mobilidade progressiva < 30%
- Teratozoospermia: morfologia normal < 4%
- Azoospermia: ausência de espermatozoides no ejaculado
Causas de Infertilidade Masculina
Pré-testicular (eixo HPG comprometido) — 1–2%:
- Hipogonadismo hipogonadotrófico (HH): hipotálamo ou hipófise não produzem GnRH/LH/FSH em quantidade suficiente
- Congênito: Síndrome de Kallmann (anosmia + HH), HH idiopático
- Adquirido: tumor hipofisário, trauma, hiperprolactinemia, uso de esteroides anabolizantes (a causa mais comum de HH adquirido)
Testicular (problema na gônada) — ~60%:
- Criptorquidia (testículo não descido)
- Varicocele (veia varicosa testicular — causa tratável mais comum)
- Orquite (inflamação pós-caxumba, autoimune)
- Trauma testicular
- Causas genéticas: síndrome de Klinefelter (47,XXY), microdeleções do cromossomo Y (regiões AZF)
- Quimioterapia/radioterapia prévia
- Temperatura elevada crônica (profissão, laptop no colo, calça justa)
Pós-testicular (obstrução ou disfunção de transporte) — ~30%:
- Obstrução do epidídimo ou deferente (pós-vasectomia, pós-infecção)
- Agenesia bilateral dos vasos deferentes (CBAVD — associada a CFTR/fibrose cística)
- Disfunção ejaculatória (ejaculação retrógrada)
O Eixo HPG e a Espermatogênese
Como o Eixo HPG Regula a Fertilidade Masculina
Hipotálamo → Hipófise → Testículos
- Neurônios KNDy (Kisspeptin-Neurokinin B-Dynorphin) no hipotálamo → pulsátil de GnRH (a cada ~90 minutos)
- GnRH → células gonadotróficas da hipófise → LH e FSH
- LH → células de Leydig (testicular) → testosterona
- FSH → células de Sertoli → suporte nutricional dos espermatozoides, espermatogênese
- Testosterona intratesticular (TT) = 50–100× maior que circulante → essencial para espermatogênese
- Inibina B (de células de Sertoli) → retroalimentação negativa no FSH
Por Que TRT Causa Infertilidade
Testosterona exógena → RETROALIMENTAÇÃO NEGATIVA no eixo HPG:
- T exógena → hipotálamo detecta T elevada → para de secretar GnRH
- Sem GnRH → hipófise para de secretar LH e FSH
- Sem LH → células de Leydig param de produzir T intratesticular
- Sem FSH + sem T intratesticular → espermatogênese cessa
- Resultado: azoospermia ou oligospermia grave em 65–90% dos usuários de TRT após 6–18 meses
Este é o maior efeito colateral da TRT que os pacientes não são adequadamente informados quando ainda querem ter filhos.
HCG: O Principal Peptídeo para Fertilidade Masculina
O Que é HCG e Como Age nos Testículos
HCG (Gonadotrofina Coriônica Humana) é um hormônio glicoproteico:
- Produzido naturalmente pela placenta durante a gravidez
- Estrutura semelhante ao LH (mesma subunidade α, subunidade β única)
- Liga-se ao mesmo receptor que o LH (receptor LH/HCG = LHCGR)
- Meia-vida muito mais longa que LH endógeno (24–36h vs. 20 min do LH)
Efeito em células de Leydig:
- HCG → LHCGR nas células de Leydig → adenilil ciclase → cAMP → StAR → síntese de testosterona
- 1 injeção de HCG 1.500–2.500 UI = aumento de testosterona equivalente a dias de LH pulsátil
HCG para Preservar Espermatogênese em TRT:
- Adicionar HCG 500 UI 2–3×/semana ao protocolo de TRT → mantém estímulo das células de Leydig
- Resultado: testosterona intratesticular suficiente para continuar espermatogênese mesmo com T exógena suprimindo eixo HPG
- Meta: testículo não atrofia (um efeito colateral cosmético e funcional do TRT sem HCG)
Para Hipogonadismo Hipogonadotrófico (HH):
- HCG monoterapia ou HCG + FSH = protocolo padrão para induzir fertilidade
- HCG 1.500–2.000 UI SC 2–3×/semana por 3–6 meses → espermograma evolui progressivamente
- Adição de FSH quando HCG isolado é insuficiente
Apresentações disponíveis:
- HCG 5.000 UI ampolas para reconstituição (Pregnyl, Ovidrel)
- Diluir em água bacteriostática para uso SC repetido
- Conservar refrigerado após reconstituição (uso em 28–30 dias)
FSH Recombinante: Para as Células de Sertoli
Quando o FSH é Necessário
O FSH age diretamente nas células de Sertoli:
- Sertoli são as "babás" dos espermatozoides — nutrem, protegem e coordenam cada etapa da espermatogênese
- Sem FSH: Sertoli não funciona adequadamente → espermatogênese comprometida mesmo com T intratesticular normal
Indicações para FSH:
- Hipogonadismo hipogonadotrófico que não responde completamente ao HCG isolado
- Azoospermia não-obstrutiva (NOA) com alguma produção residual
- Estimulação em casos de oligospermia grave
Produtos disponíveis:
- FSH urinário (uFSH): Menopur, Fostimon — mistura de FSH + LH de urina de mulheres menopausadas
- FSH recombinante (rFSH): Gonal-F, Puregon — FSH puro, DNA recombinante
- rFSH + rLH: Pergoveris — combinação para casos que precisam dos dois
Protocolo padrão HH:
- HCG 1.500–2.000 UI 3×/semana por 3–6 meses (primeiro, para estabelecer T intratesticular)
- Se espermograma não normaliza → adicionar rFSH 75–150 UI 3×/semana
- Durar 12–24 meses para avaliar resposta completa (espermatogênese é lenta)
Kisspeptin: Ativando o Hipotálamo
Veja o perfil completo do Kisspeptin — mecanismo GPR54, eixo HPG, fertilidade e protocolos.
Por Que Kisspeptin é a Chave do Sistema
Kisspeptin é o neuropeptídeo produzido pelos neurônios KNDy no hipotálamo:
- Kisspeptin → receptor GPR54 nos neurônios de GnRH → disparo pulsátil de GnRH
- Kisspeptin é o "interruptor master" que liga ou desliga o eixo HPG
- Sem Kisspeptin → nenhum GnRH → nenhum LH/FSH → hipogonadismo
- Mutações em KISS1 ou GPR54 = causa genética de HH
Por que isso importa terapeuticamente:
Para casos de HH funcional (não anatômico — eixo HPG intacto mas suprimido), a administração de Kisspeptin ou de GnRH pulsátil pode RESTAURAR o eixo endógeno em vez de apenas substituir os hormônios (HCG/FSH):
- Kisspeptin-10 ou Kisspeptin-54: Pulsatilidade restaurada → GnRH endógeno → LH/FSH endógenos → testosterona + espermatogênese naturais
- Vantagem sobre HCG: mantém o eixo em funcionamento (não o substitui) → mais fisiológico
- Desvantagem: administração pulsátil a cada 90 min necessária para imitar GnRH fisiológico (difícil na prática)
Kisspeptin-10 na pesquisa clínica:
- Estudos de Dhillo WS et al. (Imperial College London): kisspeptin IV estimulou LH pulsátil em homens com HH idiopático
- Ensaios em andamento para tratamento de HH congênito e HH funcional (supressão por anorexia, atletas de elite)
- Não disponível comercialmente como medicamento aprovado; uso experimental
Enclomifeno e Clomifeno: SERMs para Fertilidade Masculina
Como SERMs Aumentam LH/FSH Endógenos
Clomifeno (citrato de clomifeno) e Enclomifeno:
- São SERMs (Selective Estrogen Receptor Modulators) — agem no hipotálamo bloqueando receptores de estrogênio
- O estrogênio (aromatização da testosterona) normalmente dá retroalimentação negativa no hipotálamo
- Clomifeno/Enclomifeno → bloqueia esse feedback → hipotálamo aumenta GnRH → hipófise aumenta LH e FSH → mais testosterona + espermatogênese
- Mantém o eixo HPG ATIVO (diferente da TRT que o suprime)
Enclomifeno vs. Clomifeno:
- Clomifeno é mistura racêmica (enclomifeno + zuclomifeno)
- Zuclomifeno tem ação estrogênica agonista — pode causar efeitos colaterais visuais e humorais
- Enclomifeno é o isômero ativo (apenas antagonista) — perfil mais limpo
- Enclomifeno 12,5–25 mg/dia aumenta T e preserva espermatogênese em homens com hipogonadismo leve-moderado
Indicação clínica:
- Hipogonadismo secundário leve-moderado em homem que AINDA QUER FERTILIDADE (em vez de TRT)
- Oligospermia idiopática moderada
- "Ponte" para suspender TRT e restaurar eixo
Peptídeos Adjuvantes para Saúde Testicular
BPC-157 e Saúde Gonadal
Evidências pré-clínicas (modelos animais):
- BPC-157 tem receptores no tecido testicular
- Em modelos de torção testicular (isquemia): BPC-157 SC reduziu atrofia pós-torção e preservou espermatogênese residual
- Via VEGF: angiogênese no parênquima testicular — potencialmente protetora em varicocele ou trauma
Uso empírico:
- BPC-157 250 µg SC 3–5×/semana como adjuvante em protocolos de fertilidade (sem evidência em humanos, mas perfil de segurança favorável)
GHK-Cu e a Barreira Hemato-Testicular
A barreira hemato-testicular (BTB = Blood-Testis Barrier) é análoga à barreira hematoencefálica:
- Formada por tight junctions entre células de Sertoli
- Protege espermatozoides em desenvolvimento de autoimunidade
- GHK-Cu modula tight junctions e síntese de colágeno IV — potencialmente útil na integridade da BTB
IGF-1 e Espermatogênese
IGF-1 (factor de crescimento insulina-like):
- Receptor de IGF-1 presente nas células de Sertoli e nos próprios espermatozoides
- IGF-1 intratesticular é produzido localmente e aumenta sobrevivência de células germinativas
- Fragmento IGF-1 LR3 (usado em contexto esportivo): pode ter efeitos no parênquima testicular, mas não é indicação clínica estabelecida
Protocolo para Preservar Fertilidade em TRT
Para o Homem que Usa TRT e Planeja Ter Filhos
Opção 1: TRT + HCG (preservação ativa):
- Testosterona Cipionato/Enantato 100–150 mg/semana SC
- HCG 500 UI SC 2–3×/semana
- Monitoramento: espermograma a cada 3 meses
- Adicionar FSH recombinante se oligospermia persistente
Opção 2: Substituição de TRT por enclomifeno:
- Suspender TRT → enclomifeno 12,5–25 mg/dia
- Eixo HPG retoma em semanas a meses
- T endógena + espermatogênese restauradas
- Ideal para hipogonadismo leve que não necessariamente precisava de TRT
Opção 3: Suspensão de TRT + HCG/FSH para recuperação:
- Suspender TRT por 3–6 meses antes de tentar engravidar
- HCG 2.000–3.000 UI 3×/semana para acelerar recuperação de células de Leydig
- FSH 75 UI 3×/semana para Sertoli
- Espermograma a cada 2–3 meses
Tempo de recuperação após TRT:
- Leve (< 2 anos de TRT): recuperação em 3–6 meses na maioria
- Prolongado (> 5 anos): pode levar 12–24 meses; alguns não recuperam completamente
Referências
- Bhasin S, et al. "Testosterone Therapy in Men with Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline." *J Clin Endocrinol Metab*. 2018;103(5):1715-44. DOI: 10.1210/jc.2018-00229
- Dwyer AA, et al. "Restoration of fertility with gonadotropin therapy in men with hypogonadotropic hypogonadism." *Endocrinol Metab Clin North Am*. 2015;44(4):749-62. DOI: 10.1016/j.ecl.2015.07.008
- Dhillo WS, et al. "Kisspeptin-54 stimulates gonadotropin release most potently during the preovulatory phase of the menstrual cycle in women." *J Clin Endocrinol Metab*. 2007;92(10):3958-66. DOI: 10.1210/jc.2007-1104
- Wiehle RD, et al. "Enclomiphene citrate stimulates serum testosterone levels in healthy adult male subjects." *Int J Impot Res*. 2014;26(2):53-9. DOI: 10.1038/ijir.2013.43
- Sigman M, Jarow JP. "Endocrine evaluation of infertile men." *Urology*. 1997;50(5):659-64. DOI: 10.1016/s0090-4295(97)00322-3
- WHO. "WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen." 6th ed. Geneva: World Health Organization; 2021. ISBN: 9789240030787
- Cooper TG, et al. "World Health Organization reference values for human semen characteristics." *Hum Reprod Update*. 2010;16(3):231-45. DOI: 10.1093/humupd/dmp048
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Para aprofundar o tema, confira também: Jornada: Peptídeos para Saúde Masculina, Fertilidade Masculina: Kisspeptina e GnRH e TRT e Hipogonadismo: Peptídeos Adjuvantes.
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Veja também: O Que É Hormônio Antimülleriano (AMH)? e O Que É Prolactina? — hormônios relevantes na avaliação da fertilidade.




