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← Blog·peptideos18 de julho de 2026· 12 min de leitura

Tratamento da enxaqueca — sumatriptano, rizatriptano, erenumabe e rimegepante: receptores 5-HT1B/1D, CGRP e fisiopatologia da crise

Enxaqueca é distúrbio neurovascular com ativação do sistema trigeminovascular e liberação de CGRP. Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, eletriptano) são agonistas 5-HT1B/1D — vasoconstrição meníngea e bloqueio da liberação de CGRP. Erenumabe e fremanezumabe bloqueiam o CGRP ou seu receptor (prevenção). Rimegepante e ubrogepante (gepants) são antagonistas de CGRP oral para crise aguda E preventivo. Lasmiditan (ditan) atua em 5-HT1F — sem vasoconstrição.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiopatologia da enxaqueca — sistema trigeminovascular e CGRP

ENXAQUECA — epidemiologia e definição: Segunda causa mais frequente de incapacitação neurológica no mundo (GBD 2019). Prevalência: 12-15% da população geral; predominância feminina (3:1 pós-puberdade); pico dos 25-55 anos. Critérios diagnósticos ICHD-3: ≥5 ataques de cefaleia de 4-72h com ≥2 características (unilateral, pulsátil, moderada/grave, piora com atividade física) + náusea/vômitos OU foto/fonofobia. Com aura: sintomas neurológicos reversíveis antes/durante a crise (escotoma cintilante, parestesia hemicorporal, afasia).

FISIOPATOLOGIA DA ENXAQUECA — modelo trigeminovascular:

  1. Desencadeantes (triggers): privação de sono, estresse, hormônios (queda de estrogênio pré-menstrual), alimentos (vinho tinto, queijo curado, glutamato, aspartame), luz intensa, odores fortes, jejum, mudanças de pressão atmosférica
  1. Ativação cortical (teoria da depressão alastrante cortical — CSD — Leão 1944): onda de despolarização neuronal que se propaga lentamente (2-3 mm/min) pelo córtex → explica a AURA (escotoma visual progressivo, parestesia que se move pelo hemicorpo); a CSD ativa o sistema trigeminovascular
  1. Sistema trigeminovascular: fibras Aδ e C do nervo trigêmeo (V1 — divisão oftálmica) inervam os vasos meníngeos (artéria meníngea média, seio dural) → quando ativadas (por CSD ou diretamente) → liberam neuropeptídeos vasoativos nas terminações perivasculares:

- CGRP (Calcitonin Gene-Related Peptide): o mais importante; vasodilatador potente dos vasos meníngeos; também sensibiliza os neurônios (central e periférico); encontrado elevado no sangue jugular durante crise de enxaqueca; infusão de CGRP induz cefaleia similar à enxaqueca em pacientes com enxaqueca (mas não em voluntários saudáveis) - Substância P, PACAP (pituitary adenylate cyclase-activating peptide)

  1. Inflamação neurogênica: os neuropeptídeos causam vasodilatação + aumento da permeabilidade vascular das meninges → plasma extravasa → prostaglandinas → sensibilização das fibras C perivasculares (sensibilização periférica) → qualquer pulsação vascular agora é percebida como dor (daí a cefaleia pulsátil)
  1. Transmissão central: os neurônios trigeminais de 1ª ordem fazem sinapse no núcleo trigeminocaudal (NTC — no bulbo/corno posterior C1-C2) → neurônios de 2ª ordem projetam para o tálamo → córtex somatossensorial (dor) + hipotálamo (náusea, fotofobia, fonofobia, osmofobia)
  1. Sensibilização central: com crises recorrentes ou crises prolongadas → o NTC se sensibiliza → allodinia cutânea (a pele do couro cabeludo/pescoço torna-se dolorosa ao toque — sinal de sensibilização central estabelecida → nesse ponto, os triptanos são MENOS eficazes; janela terapêutica dos triptanos é ANTES da allodinia)

TRATAMENTO DA ENXAQUECA — estrutura geral:

  • Tratamento agudo (abortivo): medicamentos tomados durante a crise para interrompê-la rapidamente; eficácia = ausência de dor em 2h OU dor branda sem limitação; medidas não-farmacológicas + analgésicos simples (paracetamol, AINEs) para crises leves/moderadas; triptanos ou gepants para crises moderadas-graves
  • Profilático (preventivo): tomado diariamente para reduzir frequência, duração e intensidade das crises; indicado se ≥4 crises/mês, ≥8 dias com cefaleia/mês, crises muito incapacitantes/longas, uso de abortivos > 10 dias/mês (risco de cefaleia por uso excessivo — MOH: medication overuse headache), ou condições específicas (hemiplégica, basilar, aura prolongada)

Triptanos, gepants, ditans, anticorpos anti-CGRP e preventivos clássicos

TRIPTANOS — agonistas de receptores 5-HT1B/1D:

Mecanismo de ação dos triptanos:

  • Agonistas seletivos dos receptores de serotonina 5-HT1B (vascular) e 5-HT1D (neural) — e fraca atividade em 5-HT1F:

- 5-HT1B nas paredes dos vasos meníngeos → vasoconstrição das artérias meníngeas dilatadas → reduz o componente vascular da dor - 5-HT1D nos neurônios trigeminais perivasculares → inibição pré-sináptica da liberação de CGRP, substância P e outros neuropeptídeos → bloqueio da inflamação neurogênica - 5-HT1D no núcleo trigeminal → inibição da transmissão central (efeito central secundário)

  • Resultado: triplo mecanismo → vasoconstrição + bloqueio de inflamação neurogênica + inibição central

Vasoconstrição — importância clínica e contraindicações:

  • A atividade em 5-HT1B causa vasoconstrição NÃO APENAS meníngea, mas também coronariana e cerebral → CONTRAINDICADOS em: doença arterial coronariana (DAC), AVC/AIT nos últimos 24h, hipertensão arterial não controlada, hemiplégica ou basilar (contraindicação relativa), síndrome de Raynaud grave
  • Não usar triptanos + alcaloides do ergot (ergotamina/di-hidroergotamina) simultaneamente (vasoespasmo)

Principais triptanos disponíveis (ordem de lipofilia/início de ação/duração):

SUMATRIPTANO (Imigran® — GSK; Sumax® — Libbs; genérico): o pioneiro e mais estudado; início de ação 30-60 min VO; disponível em SC (6 mg — início em 10-15 min, mais eficaz para crises muito intensas, usado em cluster headache), nasal, supositório; 50 mg e 100 mg VO; biodisponibilidade oral baixa (14%) → dose oral mais alta necessária; meia-vida 2h

RIZATRIPTANO (Maxalt® — MSD; genérico): oral 10 mg; biodisponibilidade oral ~45%; início rápido 30-45 min; mais eficaz que sumatriptano oral em alguns estudos de comparação; disponível em comprimido bucodispersível (wafer — dissolve na boca sem água; conveniente); evitar se uso de propranolol (propranolol inibe MAO-A → aumenta nível de rizatriptano; reduzir dose para 5 mg)

ELETRIPTANO (Relpax® — Pfizer): 40 mg VO; maior potência e lipofilia; início 30 min; duração ligeiramente maior; menor taxa de recorrência; metabolizado por CYP3A4 — cuidado com cetoconazol/claritromicina

ZOLMITRIPTANO (Zomig® — AstraZeneca): 2.5-5 mg VO; disponível nasal; penetra BHE melhor; pode ter componente central maior

USO CORRETO DOS TRIPTANOS:

  • Tomar NO INÍCIO da crise (fase de cefaleia leve/moderada — ANTES da allodinia)
  • Combinação com AINE (naproxeno 500 mg, ibuprofeno 400 mg) aumenta eficácia e reduz recorrência
  • Se a 1ª dose não funcionar dentro de 2h → uma 2ª dose pode ser tomada; NUNCA tomar a 2ª dose se a 1ª não aliviou nada (provavelmente não é enxaqueca ou erro de diagnóstico)
  • Limite: 2 doses em 24h; ≤ 10 dias/mês → acima = risco de MOH (cefaleia por uso excessivo — o tripano se torna paradoxalmente agravante de cefaleia)

LASMIDITAN (Reyvow® — Eli Lilly): ditan — 5-HT1F agonista:

  • Agonista SELETIVO do 5-HT1F (sem 5-HT1B — sem vasoconstrição coronariana) → pode ser usado em pacientes com DAC ou com contraindicação vascular a triptanos
  • 100-200 mg VO; eficácia similar aos triptanos em alguns parâmetros
  • Altamente lipossolúvel → grande penetração no SNC → efeito adverso PRINCIPAL: sedação e tontura (20-40% — não dirigir por 8h após a dose); DESVANTAGEM vs triptanos

GEPANTS — antagonistas de receptor CGRP orais:

RIMEGEPANTE (Nurtec® ODT — Pfizer/Biohaven):

  • Antagonista do receptor de CGRP (CGRP-R) — bloqueia a ligação do CGRP ao receptor sem causar vasoconstrição (o CGRP em si não causa vasoconstrição; é o triptano — a vasoconstrição vem do 5-HT1B, não do bloqueio de CGRP)
  • DUPLA INDICAÇÃO: (1) tratamento AGUDO de crise (75 mg ODT — dissolve sob a língua; início 1-2h) e (2) profilaxia quando tomado em dias alternados (75 mg em dias alternados — única molécula aprovada para agudo E profilaxia)
  • Sem vasoconstrição → pode ser usado em pacientes com DAC, AVC recente, hipertensão não-controlada onde triptanos são contraindicados
  • SEM risco de MOH (medication overuse headache) nos dados clínicos (ao contrário de triptanos e AINEs)
  • Efeitos adversos: náusea, hipersensibilidade (cutânea — atenção em histórico de alergia grave)

UBROGEPANTE (Ubrelvy® — AbbVie): gepant oral 50-100 mg para crise aguda; sem indicação preventiva; similar ao rimegepante

ANTICORPOS ANTI-CGRP — preventivos de alta eficácia:

ERENUMABE (Aimovig® — Novartis/Amgen): anti-receptor de CGRP (CGRP-R) — único entre os mAbs que bloqueia o receptor (não o ligante); 70 mg ou 140 mg SC uma vez ao mês; seringa/autoaplicador

FREMANEZUMABE (Ajovy® — Teva): anti-CGRP ligante; 225 mg SC mensal OU 675 mg SC trimestral

GALCANEZUMABE (Emgality® — Eli Lilly): anti-CGRP ligante; 120 mg SC mensalmente (com dose de ataque de 240 mg); também aprovado para cluster headache (episódico)

EPTINEZUMABE (Vyepti® — Lundbeck/H. Lundbeck): IV trimestral (100 ou 300 mg); início de ação mais rápido (IV)

Eficácia dos anti-CGRP: redução de ~50% nos dias de enxaqueca/mês vs ~20-30% com preventivos clássicos; 30-40% de pacientes respondem com redução ≥ 75%; resposta já na 1ª semana em IV; respondedores a um anti-CGRP que não respondem podem responder a outro

Efeitos adversos dos anti-CGRP: reações no sítio de injeção; constipação (mais frequente com erenumabe — CGRP no intestino regula motilidade); hipertensão arterial (pequeno aumento com erenumabe em alguns estudos — CGRP é vasodilatador); raros: hipersensibilidade

PREVENTIVOS CLÁSSICOS (primeira linha quando anti-CGRP não está disponível ou como alternativa):

  • Betabloqueadores (propranolol 40-240 mg/dia, metoprolol): primeira linha, mais evidência; mecanismo incerto (inibição de receptores β2 nos vasos cerebrais? Normalização de hiperexcitabilidade cortical?); contraindicados em asma, DPOC, bradicardia, depressão
  • Topiramato (Topamax®): anticonvulsivante; 50-100 mg/dia; eficaz para enxaqueca crônica (≥15 dias/mês); TERATOGÊNICO (não usar na gravidez); efeitos: parestesias (carbonato inibe AC), confusão cognitiva, perda de peso, cálculos renais
  • Amitriptilina (antidepressivo tricíclico): 10-75 mg ao deitar; eficaz especialmente em enxaqueca + tensional + insônia; sedativo (vantagem em insônia); efeitos anticolinérgicos
  • Valproato de sódio (Depakote® — AbbVie): 500-1500 mg/dia; alta eficácia; ALTAMENTE TERATOGÊNICO (diminuição de QI fetal, defeitos de tubo neural) → contraindicado em mulheres em idade fértil sem anticoncepção eficaz
  • Candesartana (antagonista AT1): 16 mg/dia; boa tolerabilidade; opção em pacientes com hipertensão
  • Flunarizina (bloqueador de canal de Ca²⁺): muito usada no Brasil; eficaz; efeitos: sonolência, ganho de peso, parkinsonismo reversível (Classe II em parkinsonismo — evitar em > 65 anos e em risco de Parkinson)

Perguntas frequentes sobre enxaqueca e seu tratamento

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Tripano não aliviou minha enxaqueca — estou tomando errado ou não é enxaqueca?+

A não-resposta ao triptano pode ter várias explicações: 1) Momento errado de tomada: triptanos são mais eficazes quando tomados no início da crise, durante a fase de cefaleia LEVE (antes de a dor ficar intensa e antes da allodinia cutânea — quando o couro cabeludo fica sensível). Tomar o triptano quando a dor já está grave ou quando há allodinia pode resultar em resposta insuficiente. A janela ideal é nas primeiras 30-60 minutos da cefaleia; 2) Dose insuficiente: sumatriptano 50 mg tem resposta 2h em ~50% dos pacientes; 100 mg melhora para 60-65%. Tente a dose máxima; 3) Triptano errado: há variabilidade individual na resposta — um paciente que não responde ao sumatriptano pode responder bem ao rizatriptano ou eletriptano. Não concluir que triptanos não funcionam após testar apenas um; 4) Diagnóstico: triptanos não funcionam em cefaleia tensional, cefaleia em cluster (neste caso podem funcionar, mas há alternativas superiores como O2 100% e sumatriptano SC), cefaleia secundária (hipertensão grave, meningite, hemorragia subaracnóidea — sinal de alarme: pior cefaleia da vida de início súbito = thunderclap — vai ao pronto-socorro); 5) Absorção prejudicada: durante a crise intensa, há gastroparesia → absorção oral lenta; metoclopramida 10 mg IM/IV antes do triptano melhora a absorção E alivia a náusea; alternativa: triptano nasal ou SC que não dependem da absorção GI. Recomendação: tente o triptano no início da próxima crise, na dose máxima, com AINE e antinauseoso. Se não funcionar após 2 tentativas corretas, converse com neurologista sobre gepants ou sobre diagnóstico.

Qual a diferença entre anticorpo anti-CGRP e triptano para enxaqueca? Posso usar os dois?+

Triptanos e anticorpos anti-CGRP atuam em diferentes estágios do processo da enxaqueca e têm funções complementares. Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, etc.) são ABORTIVOS — tomados durante a crise para interrompê-la; agem rápido (30-60 min), mas têm duração curta e risco de MOH (cefaleia por uso excessivo) se utilizados frequentemente; causam vasoconstrição, o que os contraindica em doença cardiovascular. Anticorpos anti-CGRP (erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe) são PREVENTIVOS — administrados mensalmente/trimestralmente por SC para reduzir a frequência das crises; não interrompem a crise quando ela já está iniciada; sem vasoconstrição; sem risco de MOH; podem ser usados por pacientes com contraindicação vascular a triptanos. Podem ser usados juntos? SIM — a combinação de preventivo anti-CGRP + abortivo (triptano ou gepant) é a estratégia padrão. O anti-CGRP reduz quantas crises o paciente terá; quando uma crise acontece mesmo assim, o triptano (ou gepant) é usado para abortá-la. Não há interação farmacológica relevante entre anti-CGRP preventivo e triptano abortivo. A única superposição é se usar RIMEGEPANTE como preventivo (em dias alternados) e também como abortivo — é a mesma molécula, mas dois papéis. Recomendação: preventivo anti-CGRP para pacientes com ≥4 crises/mês ou que usam abortivos frequentemente; abortivo (triptano ou gepant) para as crises que escapam ao preventivo.

Referências Científicas

  1. Goadsby PJ, Reuter U, Hallstrom Y, et al. (STRIVE — erenumab for episodic migraine prevention — N Engl J Med) A controlled trial of erenumab for episodic migraine. N Engl J Med, 2017.
  2. Croop R, Goadsby PJ, Stock DA, et al. (CONQUER — rimegepant for migraine prevention — Lancet) Efficacy, safety, and tolerability of rimegepant orally disintegrating tablet for the acute treatment of migraine: a randomised, phase 3, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet, 2019.
  3. Ashina M, Saper J, Cady R, et al. (SAMURAI — lasmiditan for migraine acute treatment — Cephalalgia) Lasmiditan in episodic migraine — SAMURAI and SPARTAN clinical trial results. Cephalalgia, 2019.
  4. Dodick DW, Silberstein SD, Bigal ME, et al. (ACHIEVE — erenumab in chronic migraine prevention — N Engl J Med) Effect of fremanezumab compared with placebo for prevention of episodic migraine: a randomized clinical trial. JAMA, 2018.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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