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Pontos-chave: enxaqueca, CGRP e farmacoterapia moderna
1. CGRP é o neuropeptídeo central da enxaqueca: liberado pelos neurônios trigeminais perivasculares durante a crise; eleva nos vasos meníngeos, causa vasodilatação e sensibilização neuronal; encontrado aumentado no sangue jugular durante crises. Infusão de CGRP provoca cefaleia tipo enxaqueca em pacientes com enxaqueca (não em controles saudáveis).
2. Sistema trigeminovascular: fibras Aδ e C do V1 inervam vasos meníngeos → ativação → liberação de CGRP + substância P → inflamação neurogênica + sensibilização periférica → allodinia cutânea (sinal de sensibilização central estabelecida, associado a menor resposta a triptanos).
3. Triptanos (agonistas 5-HT1B/1D): vasoconstrição meníngea (5-HT1B) + bloqueio de liberação de CGRP (5-HT1D pré-sináptico) + inibição central. CONTRAINDICADOS em DAC, AVC/AIT recente, HAS não controlada. Janela terapêutica: início da crise (fase leve, antes da allodinia).
4. Gepants (rimegepante, ubrogepante): antagonistas do receptor de CGRP orais — sem vasoconstrição; seguros em doença cardiovascular; sem risco de MOH (medication overuse headache). Rimegepante tem dupla indicação (agudo + preventivo em dias alternados).
5. Lasmiditan (ditan, 5-HT1F): sem vasoconstrição (não age em 5-HT1B); indicado em pacientes com contraindicação vascular a triptanos; sedação e tontura são efeitos adversos principais — não dirigir por 8h.
6. Anti-CGRP preventivos: erenumabe (anti-receptor), fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe (anti-ligante) — redução de ~50% nos dias de enxaqueca/mês; 30-40% respondem com ≥75% de redução; resposta já na 1ª semana (IV).
7. MOH (cefaleia por uso excessivo): triptanos ou AINEs usados > 10 dias/mês por > 3 meses → paradoxalmente pioram a enxaqueca. Gepants não parecem causar MOH nos dados clínicos.
Saiba mais: CGRP e tratamento moderno da enxaqueca · CGRP — o peptídeo da cefaleia · substância P e dor inflamatória · ciência dos neuropeptídeos
Comparativo: triptanos disponíveis — perfil clínico
| Triptano | Biodisponibilidade oral | Início de ação | Meia-vida | Formas disponíveis | Diferencial | |---|---|---|---|---|---| | Sumatriptano | 14% | 30-60 min | 2h | VO 50/100 mg, SC 6 mg, nasal, supositório | Pioneiro; SC = mais rápido (10-15 min); referência para cluster headache | | Rizatriptano | 45% | 30-45 min | 2-3h | VO 10 mg, bucodispersível (wafer) | Superior ao sumatriptano oral em estudos; evitar com propranolol (reduzir para 5 mg) | | Eletriptano | 50% | 30 min | 4-5h | VO 40 mg | Maior potência e lipofilia; menor recorrência; CYP3A4 | | Zolmitriptano | 40% | 30-45 min | 2.5h | VO 2.5/5 mg, nasal | Boa penetração no SNC; nasal disponível | | Naratriptano | 63-74% | 60-90 min | 6h | VO 2.5 mg | Início lento, longa duração; menos recorrência; boa em menstrual |
*Regra geral: triptanos são mais eficazes tomados no início da crise (fase de dor leve, antes da allodinia). Combinar com naproxeno 500 mg aumenta eficácia e reduz recorrência. Limite: ≤10 dias/mês para evitar MOH.*
Erros comuns no tratamento da enxaqueca
Erro 1 — Tomar o triptano quando a dor já está grave ou com allodinia: Triptanos são mais eficazes na fase inicial da cefaleia (dor leve, antes de a pele do couro cabeludo/pescoço ficar sensível ao toque). Depois da allodinia, a sensibilização central está estabelecida e a eficácia dos triptanos cai significativamente. Tomar logo ao início da crise, não esperar piorar.
Erro 2 — Usar triptano por mais de 10 dias por mês: Uso frequente de triptanos (e AINEs) > 10 dias/mês por > 3 meses cronifica a enxaqueca (MOH — medication overuse headache), transformando enxaqueca episódica em crônica (≥15 dias/mês). O triptano paradoxalmente vira agravante. Gepants (rimegepante) parecem não causar MOH.
Erro 3 — Usar triptano como preventivo diário: Triptanos são abortivos — tomados na crise. Para pacientes com ≥4 crises/mês, o tratamento certo é um PREVENTIVO (betabloqueador, topiramato, ou anti-CGRP monoclonal), não triptano diário.
Erro 4 — Desistir dos triptanos após a primeira tentativa frustrada: A resposta aos triptanos é variável — um paciente que não responde ao sumatriptano oral pode responder bem ao rizatriptano ou eletriptano. Não concluir que 'triptanos não funcionam' sem testar dose correta, momento certo e ao menos 2 drogas diferentes.
Erro 5 — Usar triptano em paciente com doença coronariana, AVC recente ou HAS grave: A atividade em 5-HT1B causa vasoconstrição coronariana além da meníngea. Em pacientes com DAC, AVC/AIT nos últimos 24h ou HAS não controlada, preferir gepants (rimegepante, ubrogepante) ou lasmiditan que não causam vasoconstrição.
Quando procurar avaliação profissional
Pior cefaleia da vida com início súbito (thunderclap headache): cefaleia de início explosivo que atinge o pico em segundos — é sinal de alarme para hemorragia subaracnóidea, trombose de seio venoso ou outros emergências neurológicas. Ir ao pronto-socorro imediatamente, não tratar como enxaqueca.
Cefaleia com sinais neurológicos focais persistentes: déficit de força, afasia, visão dupla, ataxia ou alteração de consciência associados à cefaleia requerem avaliação neurológica de urgência — descartam enxaqueca com aura e investigam AVC ou lesão estrutural.
Enxaqueca com ≥4 crises por mês ou uso de abortivos > 10 dias/mês: indicação formal de tratamento preventivo. Um neurologista pode indicar betabloqueador, topiramato, amitriptilina ou — quando disponível — anticorpo anti-CGRP.
Enxaqueca que não responde a nenhum triptano em dose correta: considerar gepants, ditans ou diagnóstico diferencial (cefaleia em cluster, cefaleia de tensão crônica, cefaleia secundária).
Enxaqueca em gestante ou ao planejar gravidez: topiramato e valproato são altamente teratogênicos — contraindicados. O manejo preventivo na gravidez requer discussão especializada; sumatriptano tem dados de segurança razoáveis em 2T/3T mas uso cauteloso.