Tumores Neuroendócrinos: Visão Geral
Definição e Classificação
TNEs (Tumores Neuroendócrinos):
- Neoplasias derivadas de células neuroendócrinas do sistema difuso neuroendócrino
- Expressam: cromogranina A (CgA), sinaptofisina, NSE (Enolase Neuronal Específica)
- Variante: PanNET (pancreáticos), GEP-NET (gastro-entero-pancreáticos), pulmonares, outros
Classificação OMS 2022 (bem diferenciados):
- NET G1: Ki-67 < 3%, mitoses < 2/10 HPF
- NET G2: Ki-67 3–20%, mitoses 2–20/10 HPF
- NET G3: Ki-67 > 20%, mitoses > 20/10 HPF (ainda bem diferenciado, mas alto grau)
- NEC (carcinoma neuroendócrino pouco diferenciado): Ki-67 > 20% + morfologia agressiva (G3 de alto grau por definição)
Localizações:
- Intestino delgado/íleo distal: mais comum (40%)
- Pâncreas: 10–25% (insulinoma, gastrinoma, glucagonoma, VIPoma)
- Pulmão: segundo mais comum (30%)
- Reto/apêndice: frequentes
Síndromes Funcionais
Síndrome carcinoide:
- TNEs do intestino secretam serotonina (5-HT) + substância P + histamina + calicreína
- Sintomas: rubor facial (flushing), diarreia, broncoespasmo, cardiomiopatia (valvulopatia de câmaras direitas — Síndrome de Hedinger)
- Ocorre principalmente com metástases hepáticas (fígado normalmente degrada serotonina)
Gastrinoma (Síndrome de Zollinger-Ellison):
- Gastrina excessiva → hipercloridria → úlceras pépticas múltiplas (duodenais + jejunais)
- 25% associados a MEN1 (múltiplas neoplasias endócrinas tipo 1)
- Tratamento: IBP em altas doses + localização e ressecção
Insulinoma: células beta → hipoglicemia em jejum (C835)
VIPoma (Síndrome WDHA): VIP excessivo → diarreia aquosa, hipocalemia, acloridria
Somatostatina e Seus Receptores em TNEs
Os Receptores SSTR
Receptores de Somatostatina (SSTR1-5):
- 5 subtipos: SSTR1, 2, 3, 4, 5 — todos GPCRs acoplados a Gi
- SSTR2: mais expresso em TNEs GEP (intestino, pâncreas); principal alvo terapêutico
- SSTR3 e SSTR5: também expressos; pasireotida tem afinidade por 1-3-5 (além do 2)
Por que TNEs expressam SSTR2:
- Células neuroendócrinas normais expressam SSTR2
- TNEs bem diferenciados (G1-G2): mantêm a expressão de SSTR2 (alta em 70–90%)
- TNEs pouco diferenciados (G3 NEC): SSTR2 baixo ou ausente → refratários a análogos
Análogos de Somatostatina
Somatostatina nativa:
- 14 aminoácidos (SRIF-14); meia-vida < 3 min → inviável clinicamente
Octreotida (Sandostatin):
- Octapeptídeo cíclico com D-Phe e D-Trp (substituições que aumentam a meia-vida)
- Meia-vida SC: ~2h; IV: ~1,5h
- Afinidade: SSTR2 > SSTR5 > SSTR3 (não se liga SSTR1 ou 4)
- Formulações: SC 3×/dia; LAR (Long-Acting Release) IM/4 semanas
Lanreotida (Somatuline Autogel):
- Octapeptídeo cíclico; formulação em hidrogel aquoso → liberação prolongada
- SC profundo (sem reconstituição) a cada 4 semanas
- Afinidade: similar à octreotida (SSTR2/5 predominantemente)
Eficácia antiproliferativa:
- PROMID (octreotida LAR 30 mg vs. placebo em TNE de intestino médio): tempo para progressão dobrado (14,3 vs. 6 meses)
- CLARINET (lanreotida 120 mg vs. placebo em GEP-NET não-funcionantes): PFS significativamente prolongado (NR vs. 18 meses)
Efeitos sistêmicos da octreotida/lanreotida:
- Controle de sintomas da síndrome carcinoide: redução de flushing em 70–80%
- Supressão de serotonina + substância P → diarreia melhora em 60%
- Antiproliferativo: estabilização de doença em 40–50%
Pasireotida: Multirreceptor
Pasireotida (Signifor):
- Ciclohexapeptídeo; afinidade para SSTR1, 2, 3 e 5 (vs. octreotida/lanreotida: apenas 2 e 5)
- Indicação primária: Síndrome de Cushing (C837 deste blog)
- Em TNEs: dados de atividade em resistência a octreotida (SSTR2-baixo → SSTR5-alto → switch para pasireotida)
- Pasireotida LAR: disponível para TNEs refratários (off-label)
68Ga-DOTATATE PET/CT: Imagem de Receptores de Somatostatina
Como Funciona
DOTATATE:
- DOTA-Tyr³-octreotata: quelante DOTA + octreotato → chelato com Gálio-68 (68Ga, emissor de pósitrons)
- 68Ga: T½ 68 min; PET (emissão de pósitrons)
- Liga-se a SSTR2 com alta afinidade → TNEs SSTR2-positivos iluminam na PET
Vantagens sobre octreocintilografia (OctreoScan):
- Resolução muito superior (PET vs. SPECT)
- Detecção de lesões menores (< 1 cm)
- Resultado em 2h vs. 24h do OctreoScan
- Sensibilidade: 97%; especificidade: 93% (meta-análise 2022)
177Lu-DOTATATE: Terapia com Receptor de Peptídeo (PRRT)
Princípio da PRRT
PRRT (Peptide Receptor Radionuclide Therapy):
- Principio: peptídeo que liga receptor tumoral + emitente de radiação ligado → deliver de radiação ao tumor
- 177Lu (Lutécio-177): emissor beta-menos (T½ 6,7 dias) + gama (para imagem)
- 177Lu-DOTATATE: octreotato quelatado com 177Lu → liga SSTR2 nos TNEs → radiação beta destrói célula tumoral
Mecanismo:
- 177Lu-DOTATATE administrado IV
- Liga SSTR2 nas células do tumor → internalização + retenção
- Emissão beta (alcance 2 mm): destrói DNA tumoral + células vizinhas (crossfire effect)
- Emissão gama: permite imagem dosimétrica pós-terapia (SPECT/CT)
NETTER-1 (2017 — N Engl J Med)
Estudo NETTER-1:
- 229 pacientes com TNE de intestino médio Ki-67 < 20% (G1-G2), expressão de SSTR ≥ 2 na OctreoScan/DOTATATE PET, progressão após octreotida LAR 30 mg
- 177Lu-DOTATATE 7,4 GBq × 4 doses a cada 8 semanas vs. octreotida LAR 60 mg
Resultados:
- PFS aos 20 meses: 65,2% (177Lu) vs. 10,8% (octreotida 60 mg)
- Redução de risco de progressão: HR 0,21 (79% de redução)
- Resposta objetiva: 18% vs. 3%
- Doença estável: 66% vs. 41%
- Sobrevida global (OS): análise mais longa → benefício de sobrevida confirmado
Aprovação:
- FDA: janeiro 2018 (Lutathera, Advanced Accelerator Applications / Novartis)
- ANVISA: em revisão (acesso limitado no Brasil)
Efeitos Adversos da PRRT
Toxicidade hematológica:
- Mielossupressão: leucopenia/plaquetopenia grade 3-4 em 5–10%
- Síndrome mielodisplásica (MDS): risco acumulativo ~2–3% após múltiplos ciclos
Toxicidade renal:
- Rim: SSTR2 em túbulos renais → captação de 177Lu → risco de nefrotoxicidade
- Prevenção: aminoácidos IV (lisina + arginina) durante cada infusão de 177Lu → competição com tubular → proteção renal
Toxicidade hepática:
- Metástases hepáticas grandes: risco de hepatotoxicidade com doses altas
- Monitoramento: ALT/AST + creatinina antes de cada ciclo
Referências
- Strosberg J, et al. "Phase 3 Trial of 177Lu-Dotatate for Midgut Neuroendocrine Tumors." *N Engl J Med*. 2017;376(2):125-35. DOI: 10.1056/NEJMoa1607427
- Rinke A, et al. "Placebo-controlled, double-blind, prospective, randomized study on the effect of octreotide LAR in the control of tumor growth in patients with metastatic neuroendocrine midgut tumors: a report from the PROMID Study Group." *J Clin Oncol*. 2009;27(28):4656-63. DOI: 10.1200/JCO.2009.22.8510
- Caplin ME, et al. "Lanreotide in metastatic enteropancreatic neuroendocrine tumors." *N Engl J Med*. 2014;371(3):224-33. DOI: 10.1056/NEJMoa1316158
- Hofman MS, et al. "High management impact of Ga-68 DOTATATE (GaTate) PET/CT for imaging neuroendocrine and other somatostatin expressing tumours." *J Med Imaging Radiat Oncol*. 2012;56(1):40-7. DOI: 10.1111/j.1754-9485.2011.02327.x
- Öberg K, et al. "Neuroendocrine gastro-entero-pancreatic tumors: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up." *Ann Oncol*. 2012;23(Suppl 7):vii124-30. DOI: 10.1093/annonc/mds295
- Bodei L, et al. "Peptide receptor radionuclide therapy with 177Lu-DOTATATE: the IEO phase I-II study." *Eur J Nucl Med Mol Imaging*. 2011;38(12):2125-35. DOI: 10.1007/s00259-011-1902-1
- Brabander T, et al. "Long-term efficacy, survival, and safety of [177Lu-DOTA0,Tyr3]octreotate in patients with gastroenteropancreatic and bronchial neuroendocrine tumors." *Clin Cancer Res*. 2017;23(16):4617-24. DOI: 10.1158/1078-0432.CCR-16-2743
Veja também: Síndrome Carcinoide e Tumores Neuroendócrinos: Serotonina, Substância P e Taquicininas.