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← Blog·Saúde21 de junho de 2026

Síndrome Carcinoide e Tumores Neuroendócrinos: Serotonina, Substância P e Taquicininas

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Equipe PeptídeosBio
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Tumores Neuroendócrinos e a Síndrome Carcinoide

Os Tumores Neuroendócrinos (NETs) são neoplasias que se originam de células neuroendócrinas dispersas — aquelas que têm características neurais (vesículas de secreção, resposta elétrica) E endócrinas (secretam peptídeos e aminas).

Epidemiologia:

  • NETs: 2,5–5 por 100.000/ano (incidência crescendo por melhor diagnóstico)
  • Prevalência crescente: NETs são indolentes e pacientes vivem muitos anos → acumula casos
  • Localizações: Intestino delgado (midgut — 25%), pâncreas (20%), pulmão (25%), reto (13%)

A síndrome carcinoide ocorre em ~10% dos pacientes com NETs e quase exclusivamente em casos com metástases hepáticas (daí a importância das mets no diagnóstico/manejo).

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Serotonina: O Mensageiro Central da Síndrome Carcinoide

Biossíntese de Serotonina nos NETs

As células enterocromafins (EC — Enterochromaffin cells) do intestino são as maiores produtoras de serotonina do corpo:

  • 90–95% da serotonina corporal está nos enterócitos EC do trato GI (não no SNC!)
  • Precursor: Triptofano (aminoácido essencial) → 5-hidroxitriptofano (5-HTP) por TPH1 (Tryptophan Hydroxylase 1 — isoforma intestinal) → serotonina (5-HT) por AADC

Nos NETs midgut (carcinoides):

  • Tumor deriva das células EC → TPH1 muito upregulado
  • Produção de serotonina 10–100× maior que EC normais
  • Tumor local: Serotonina vai para veia porta → fígado inativa (MAO-A + aldehyde dehydrogenase → 5-HIAA — 5-hydroxyindoleacetic acid → excretado na urina)
  • COM mets hepáticas: Serotonina cai diretamente na veia hepática → circulação sistêmica → síndrome carcinoide

Por Que Metástases Hepáticas São Necessárias?

  • Intestino delgado → veia mesentérica → veia porta → fígado
  • Fígado: MAO-A + ALDH → degrada quase toda a serotonina local → sem síndrome
  • Mets hepáticas: Drena para veia hepática + cava → pulmão (pulmão tem pouca MAO) → circulação sistêmica → síndrome carcinoide

Exceção: NETs de pulmão e ovário que drenam para veia cava (não porta) → síndrome sem mets hepáticas.

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Manifestações da Síndrome Carcinoide

1. Flushing (Rubor) — 95% dos casos

  • Episódico (30 segundos a 30 min)
  • Vermelhidão de face, pescoço, tronco
  • Pode ser desencadeado: Álcool, queijo, exercício, estresse, palpação abdominal
  • Mecanismo: Serotonina + substância P + histamina + prostaglandinas → vasodilatação periférica + taquicardia

2. Diarreia — 80% dos casos

  • Aquosa, múltiplas evacuações/dia
  • Serotonina → 5-HT3 e 5-HT4 nos enterócitos → hiperperistalse + hipersecreção
  • Tratamento: Antagonistas de 5-HT3 (ondansetrona) + análogos de SS (octreotida)

3. Broncospasmo — 15–20%

  • Serotonina → broncoconstrição (5-HT2)
  • Típico: Durante flushing ou crise carcinoide

4. Doença Cardíaca Carcinoide (Síndrome de Hedinger) — 20–50%

A complicação mais grave a longo prazo:

  • Serotonina circulante → fibroses valvares do lado DIREITO do coração (pulmonar e tricúspide)
  • Por que direito? Pulmão degrada quase toda serotonina → lado esquerdo protegido (normalmente)
  • Espessamento das cúspides de tricúspide e valva pulmonar → insuficiência tricúspide (regurgitação) + estenose pulmonar
  • Insuficiência cardíaca direita progressiva → principal causa de morte em NETs

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Substância P e Taquicininas na Síndrome Carcinoide

A substância P (SP — 11 aa, descoberta por Euler e Gaddum em 1931) é co-secretada com serotonina pelos NETs:

  • NK1R (receptor de neurocinina 1) de SP nos vasos: Vasodilatação + extravasamento
  • Contribui para: Flushing + queda de PA durante crise carcinoide

Família das Taquicininas

Taquicininas = família de neuropeptídeos com C-terminal conservado (Phe-X-Gly-Leu-Met-NH₂):

  • Substância P (11 aa): NK1R preferencial
  • Neurocinina A (NKA — 10 aa): NK2R preferencial
  • Neurocinina B (NKB — 10 aa): NK3R preferencial
  • Hemoquinina-1 (HK-1): NK1R

NETs e taquicininas:

  • NETs midgut: Expressam proTA (gene de SP + NKA) → secreção de ambas
  • NKA + NK2R: Broncoconstrição + vasodilatação
  • SP + NK1R: Vasodilatação + dor + inflamação

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Diagnóstico Bioquímico de NETs

Cromogranina A (CgA)

A Cromogranina A é uma proteína de grânulos de secreção de células neuroendócrinas:

  • CgA: 439 aa — glicoproteína acídica nos grânulos de células neuroendócrinas
  • Co-secretada com praticamente todos os hormônios peptídicos neuroendócrinos
  • Marcador pan-NET: CgA elevada em todos os tipos de NETs (mas inespecífica)
  • CgA normal: <100 ng/mL; em NETs com mets: frequentemente >400–1000 ng/mL

Interferentes de CgA:

  • IBP (omeprazol): Hipergastrinemia → hiperplasia de ECL → CgA elevada (falso positivo)
  • DRC: Clearance renal reduzido → CgA acumulada
  • Carcinoma de células pequenas, feocromocitoma: CgA muito elevada

5-HIAA Urinário

5-HIAA (5-hydroxyindoleacetic acid) = metabólito urinário de serotonina:

  • 24h urine 5-HIAA: Elevado em NETs serotonina-secretores (NETs midgut)
  • Normal: < 10 mg/24h
  • Em síndrome carcinoide: 30–300 mg/24h
  • Sensibilidade para NETs midgut com mets: 73%; especificidade: 88%
  • Interferência: Alimentos ricos em triptofano/serotonina (banana, abacate, nozes, kiwi) — suspender 72h antes

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Tratamento: Análogos de Somatostatina como Pilar

Octreotida e Lanreotida

  • Octreotida LAR 20–30 mg IM q28d: Controla flushing e diarreia em 70–80% dos casos
  • Mecanismo: SSTR2 em células tumorais + células EC → menos secreção de serotonina e SP
  • Também anti-proliferativo (menor benefício): SSTR2 → menos AMPc → menos divisão celular

Crise Carcinoide Intraoperatória

Durante cirurgia em paciente com síndrome carcinoide ativo → liberação massiva de peptídeos → colapso cardiovascular:

  • Tratamento: Octreotida IV bolus 500 mcg → infusão 500 mcg/h durante cirurgia

Telotristat Etibúmido (Xermelo® — FDA 2017)

  • Inibidor de TPH1 (triptofano hidroxilase 1 — a enzima que faz serotonina) — NÃO inibe TPH2 (central — poupa SNC)
  • Efeito: Menos serotonina intestinal → menos diarreia (em pacientes já em octreotida)
  • Estudo TELESTAR: +diarreia controlada em 44% vs. 20% placebo

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Referências

  1. Kulke MH, Mayer RJ. "Carcinoid tumors." *N Engl J Med.* 1999;340(11):858–868.
  2. Moller JE, et al. "Factors associated with progression of carcinoid heart disease." *N Engl J Med.* 2003;348(11):1005–1015.
  3. Dasari A, et al. "Trends in the incidence, prevalence, and survival outcomes in patients with neuroendocrine tumors in the United States." *JAMA Oncol.* 2017;3(10):1335–1342.
  4. Pavel M, et al. "Telotristat etibúmide for carcinoid syndrome in patients with neuroendocrine tumors (TELESTAR)." *Lancet Oncol.* 2017;18(6):770–780.
  5. Rinke A, et al. "Placebo-controlled, double-blind, prospective, randomized study on the effect of octreotide LAR in the control of tumor growth in patients with metastatic neuroendocrine midgut tumors (PROMID)." *J Clin Oncol.* 2009;27(28):4656–4663.
  6. Sundin A, et al. "ENETS Consensus Guidelines for the Standards of Care in Neuroendocrine Tumors: radiological, nuclear medicine & hybrid imaging." *Neuroendocrinology.* 2017;105(3):212–244.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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