Tumores Neuroendócrinos e a Síndrome Carcinoide
Os Tumores Neuroendócrinos (NETs) são neoplasias que se originam de células neuroendócrinas dispersas — aquelas que têm características neurais (vesículas de secreção, resposta elétrica) E endócrinas (secretam peptídeos e aminas).
Epidemiologia:
- NETs: 2,5–5 por 100.000/ano (incidência crescendo por melhor diagnóstico)
- Prevalência crescente: NETs são indolentes e pacientes vivem muitos anos → acumula casos
- Localizações: Intestino delgado (midgut — 25%), pâncreas (20%), pulmão (25%), reto (13%)
A síndrome carcinoide ocorre em ~10% dos pacientes com NETs e quase exclusivamente em casos com metástases hepáticas (daí a importância das mets no diagnóstico/manejo).
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Serotonina: O Mensageiro Central da Síndrome Carcinoide
Biossíntese de Serotonina nos NETs
As células enterocromafins (EC — Enterochromaffin cells) do intestino são as maiores produtoras de serotonina do corpo:
- 90–95% da serotonina corporal está nos enterócitos EC do trato GI (não no SNC!)
- Precursor: Triptofano (aminoácido essencial) → 5-hidroxitriptofano (5-HTP) por TPH1 (Tryptophan Hydroxylase 1 — isoforma intestinal) → serotonina (5-HT) por AADC
Nos NETs midgut (carcinoides):
- Tumor deriva das células EC → TPH1 muito upregulado
- Produção de serotonina 10–100× maior que EC normais
- Tumor local: Serotonina vai para veia porta → fígado inativa (MAO-A + aldehyde dehydrogenase → 5-HIAA — 5-hydroxyindoleacetic acid → excretado na urina)
- COM mets hepáticas: Serotonina cai diretamente na veia hepática → circulação sistêmica → síndrome carcinoide
Por Que Metástases Hepáticas São Necessárias?
- Intestino delgado → veia mesentérica → veia porta → fígado
- Fígado: MAO-A + ALDH → degrada quase toda a serotonina local → sem síndrome
- Mets hepáticas: Drena para veia hepática + cava → pulmão (pulmão tem pouca MAO) → circulação sistêmica → síndrome carcinoide
Exceção: NETs de pulmão e ovário que drenam para veia cava (não porta) → síndrome sem mets hepáticas.
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Manifestações da Síndrome Carcinoide
1. Flushing (Rubor) — 95% dos casos
- Episódico (30 segundos a 30 min)
- Vermelhidão de face, pescoço, tronco
- Pode ser desencadeado: Álcool, queijo, exercício, estresse, palpação abdominal
- Mecanismo: Serotonina + substância P + histamina + prostaglandinas → vasodilatação periférica + taquicardia
2. Diarreia — 80% dos casos
- Aquosa, múltiplas evacuações/dia
- Serotonina → 5-HT3 e 5-HT4 nos enterócitos → hiperperistalse + hipersecreção
- Tratamento: Antagonistas de 5-HT3 (ondansetrona) + análogos de SS (octreotida)
3. Broncospasmo — 15–20%
- Serotonina → broncoconstrição (5-HT2)
- Típico: Durante flushing ou crise carcinoide
4. Doença Cardíaca Carcinoide (Síndrome de Hedinger) — 20–50%
A complicação mais grave a longo prazo:
- Serotonina circulante → fibroses valvares do lado DIREITO do coração (pulmonar e tricúspide)
- Por que direito? Pulmão degrada quase toda serotonina → lado esquerdo protegido (normalmente)
- Espessamento das cúspides de tricúspide e valva pulmonar → insuficiência tricúspide (regurgitação) + estenose pulmonar
- Insuficiência cardíaca direita progressiva → principal causa de morte em NETs
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Substância P e Taquicininas na Síndrome Carcinoide
A substância P (SP — 11 aa, descoberta por Euler e Gaddum em 1931) é co-secretada com serotonina pelos NETs:
- NK1R (receptor de neurocinina 1) de SP nos vasos: Vasodilatação + extravasamento
- Contribui para: Flushing + queda de PA durante crise carcinoide
Família das Taquicininas
Taquicininas = família de neuropeptídeos com C-terminal conservado (Phe-X-Gly-Leu-Met-NH₂):
- Substância P (11 aa): NK1R preferencial
- Neurocinina A (NKA — 10 aa): NK2R preferencial
- Neurocinina B (NKB — 10 aa): NK3R preferencial
- Hemoquinina-1 (HK-1): NK1R
NETs e taquicininas:
- NETs midgut: Expressam proTA (gene de SP + NKA) → secreção de ambas
- NKA + NK2R: Broncoconstrição + vasodilatação
- SP + NK1R: Vasodilatação + dor + inflamação
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Diagnóstico Bioquímico de NETs
Cromogranina A (CgA)
A Cromogranina A é uma proteína de grânulos de secreção de células neuroendócrinas:
- CgA: 439 aa — glicoproteína acídica nos grânulos de células neuroendócrinas
- Co-secretada com praticamente todos os hormônios peptídicos neuroendócrinos
- Marcador pan-NET: CgA elevada em todos os tipos de NETs (mas inespecífica)
- CgA normal: <100 ng/mL; em NETs com mets: frequentemente >400–1000 ng/mL
Interferentes de CgA:
- IBP (omeprazol): Hipergastrinemia → hiperplasia de ECL → CgA elevada (falso positivo)
- DRC: Clearance renal reduzido → CgA acumulada
- Carcinoma de células pequenas, feocromocitoma: CgA muito elevada
5-HIAA Urinário
5-HIAA (5-hydroxyindoleacetic acid) = metabólito urinário de serotonina:
- 24h urine 5-HIAA: Elevado em NETs serotonina-secretores (NETs midgut)
- Normal: < 10 mg/24h
- Em síndrome carcinoide: 30–300 mg/24h
- Sensibilidade para NETs midgut com mets: 73%; especificidade: 88%
- Interferência: Alimentos ricos em triptofano/serotonina (banana, abacate, nozes, kiwi) — suspender 72h antes
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Tratamento: Análogos de Somatostatina como Pilar
Octreotida e Lanreotida
- Octreotida LAR 20–30 mg IM q28d: Controla flushing e diarreia em 70–80% dos casos
- Mecanismo: SSTR2 em células tumorais + células EC → menos secreção de serotonina e SP
- Também anti-proliferativo (menor benefício): SSTR2 → menos AMPc → menos divisão celular
Crise Carcinoide Intraoperatória
Durante cirurgia em paciente com síndrome carcinoide ativo → liberação massiva de peptídeos → colapso cardiovascular:
- Tratamento: Octreotida IV bolus 500 mcg → infusão 500 mcg/h durante cirurgia
Telotristat Etibúmido (Xermelo® — FDA 2017)
- Inibidor de TPH1 (triptofano hidroxilase 1 — a enzima que faz serotonina) — NÃO inibe TPH2 (central — poupa SNC)
- Efeito: Menos serotonina intestinal → menos diarreia (em pacientes já em octreotida)
- Estudo TELESTAR: +diarreia controlada em 44% vs. 20% placebo
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Referências
- Kulke MH, Mayer RJ. "Carcinoid tumors." *N Engl J Med.* 1999;340(11):858–868.
- Moller JE, et al. "Factors associated with progression of carcinoid heart disease." *N Engl J Med.* 2003;348(11):1005–1015.
- Dasari A, et al. "Trends in the incidence, prevalence, and survival outcomes in patients with neuroendocrine tumors in the United States." *JAMA Oncol.* 2017;3(10):1335–1342.
- Pavel M, et al. "Telotristat etibúmide for carcinoid syndrome in patients with neuroendocrine tumors (TELESTAR)." *Lancet Oncol.* 2017;18(6):770–780.
- Rinke A, et al. "Placebo-controlled, double-blind, prospective, randomized study on the effect of octreotide LAR in the control of tumor growth in patients with metastatic neuroendocrine midgut tumors (PROMID)." *J Clin Oncol.* 2009;27(28):4656–4663.
- Sundin A, et al. "ENETS Consensus Guidelines for the Standards of Care in Neuroendocrine Tumors: radiological, nuclear medicine & hybrid imaging." *Neuroendocrinology.* 2017;105(3):212–244.