O Que É Gastrina
Gastrina é um hormônio peptídico descoberto em 1905 por John Sidney Edkins — o primeiro hormônio gastrointestinal identificado. É secretada pelas células G do antro gástrico (e em menor grau pelo duodeno proximal e células delta das ilhotas pancreáticas fetais).
Formas moleculares da gastrina A gastrina existe em múltiplas isoformas derivadas do mesmo gene (GAST, cromossomo 17q21):
- G-34 (Big Gastrin): 34 aminoácidos — forma mais abundante em jejum, meia-vida mais longa (~38 min)
- G-17 (Little Gastrin): 17 aminoácidos — forma predominante pós-prandial, mais potente no estômago (~2 min meia-vida)
- G-14 (Mini Gastrina): 14 aminoácidos — minoritária
- G-71 (Component I): 71 aminoácidos — precursor circulante menor
Todas as formas têm o mesmo C-terminal pentapeptídeo ativo: Gly-Trp-Met-Asp-Phe-NH₂ (sequência 13-17 da G-17), que também é idêntico ao C-terminal ativo da CCK (colecistocinina). Isso explica por que gastrina pode ligar fracamente ao receptor CCK-A.
Receptor de gastrina (CCK-B/CCKR-B) Gastrina age via receptor CCK-B (gastrin/CCK-B receptor, GPCR Gq-acoplado):
- Expresso em células parietais (HCl)
- Células ECL (enterocromafim-like, histamina)
- Mucosa gástrica (crescimento)
- SNC (neuropsiquiatria, potencial no pânico)
Histamina media parte da ação: gastrina → células ECL → histamina → receptor H2 nas células parietais → ↑HCl (explica por que anti-H2 inibem o efeito de gastrina).
Regulação da Secreção de Gastrina
Estímulos para secreção de gastrina (células G)
- Distensão gástrica: alongamento mecânico do antro ativa reflexo vago-vagal → ↑gastrina. Explica por que grandes refeições têm maior estímulo.
- Aminoácidos e peptídeos intraluminais: proteínas semidigeridas no antro são o estímulo mais potente. Aminoácidos específicos: Phe, Trp, Leu (aromáticos e hidrofóbicos são mais eficazes). Neonatos: leite materno = estímulo poderoso.
- Estímulo vagal: ACh (acetilcolina) libera GRP (peptídeo liberador de gastrina) de neurônios entéricos → células G → gastrina. Fase cefálica (ver/cheirar comida) contribui via vago.
- pH gástrico: mecanismo de feedback crítico:
- pH > 3.0 → secreção normal de gastrina - pH < 2.5 → inibição progressiva (feedback negativo direto) - pH < 1.5 → supressão quase completa (somatostatina de células D mediando o efeito inibitório)
Inibidores de gastrina
- Ácido intraluminal (pH baixo) via somatostatina de células D
- Secretina (duodeno) — antagoniza gastrina
- CCK em altas concentrações
- GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose)
- Prostaglandinas E2
Variação circadiana Gastrina basal é mais alta de manhã e mais baixa à noite — coordenada com o ciclo alimentar. Em pacientes usando IBP (inibidores de bomba de prótons) cronicamente, o feedback ácido está abolido → gastrina basal eleva-se 2-4x (hipergastrinemia secundária).
Hipergastrinemia e Síndrome de Zollinger-Ellison
Hipergastrinemia: causas
*Hipergastrinemia hipossecretora (pH alto = estímulo não suprimido):*
- Gastrite atrófica (H. pylori ou autoimune) — destruição de células parietais → ↑pH → não há feedback inibitório → gastrina elevada
- Anemia perniciosa — acloridria autoimune → gastrina muito elevada (500-1000+ pg/mL)
- IBP (inibidores de bomba de prótons) em uso crônico — 2-3x elevação de gastrina, geralmente < 500 pg/mL
*Hipergastrinemia hipersecretora (autônoma):*
- Gastrinoma (síndrome de Zollinger-Ellison — ZES): tumor neuroendócrino secretor de gastrina. Mais comum no pâncreas (60%) e duodeno (30%). 25% no contexto de MEN1.
Síndrome de Zollinger-Ellison (ZES) Descrita por Zollinger e Ellison em 1955 — tríade clíssica:
- Hipersecreção gástrica maciça de HCl
- Úlceras pépticas graves e refratárias
- Diarreia/esteatorreia (ácido inativa lipase pancreática)
Diagnóstico de ZES
- Gastrina em jejum: > 1000 pg/mL = muito sugestivo de gastrinoma (normal < 110 pg/mL)
- Gastrina 100-1000 pg/mL: teste de estimulação com secretina:
- Injeção IV de secretina (2 U/kg) - ZES: gastrina ↑ > 200 pg/mL em 5-15 min (paradoxal: secretina inibe gastrina normal mas estimula gastrinoma) - Normal: gastrina cai ou não muda
Tratamento
- IBP em doses altas (omeprazol 60-120 mg/dia) para controle do ácido
- Ressecção cirúrgica do gastrinoma quando localizável
- Análogos de somatostatina (octreotida) para gastrinomas irressecáveis
Gastrina, H. pylori e Câncer Gástrico
H. pylori e gastrina H. pylori coloniza preferencialmente o antro gástrico → inflamação (gastrite) → disfunção das células D produtoras de somatostatina → ↓inibição de células G → ↑gastrina → ↑HCl → úlcera duodenal.
Erradicação de H. pylori normaliza a gastrina em semanas — comprovando o eixo causal H. pylori → hipergastrinemia → ácido excessivo.
Gastrina como fator trófico gástrico Gastrina, além de estimular ácido, é mitogênica para a mucosa gástrica (age em CCK-B/gastrin-R em células mucosas):
- Hipergastrinemia crônica → hiperplasia de células ECL (enterocromafim-like)
- Em casos extremos (anemia perniciosa de décadas) → carcinoide gástrico tipo 1 (tumor neuroendócrino) a partir de células ECL hiperplásicas
- Gastrinomas esporádicos de longa evolução elevam risco de progressão tumoral local
IBP e risco de câncer Uso crônico de IBP → hipergastrinemia secundária + acloridria → risco de carcinoide gástrico (raro, principalmente tipo 1 associado a gastrite atrófica). O risco absoluto com IBP moderados é muito baixo — nenhum estudo mostrou aumento clinicamente relevante de câncer com uso terapêutico adequado.
Gastrina no SNC CCK-B/gastrin-R é expresso em cérebro — especialmente amígdala e hipocampo. Gastrina e CCK têm papel em ansiedade e mediação de ataques de pânico. Antagonistas de CCK-B (devazepide, CI-988) foram investigados para pânico e esquizofrenia em estudos clínicos.
Hormônios Reguladores do Ácido Gástrico — Tabela Comparativa
O pH gástrico é regulado por um conjunto de hormônios e neurotransmissores com efeitos estimulatórios e inibitórios coordenados:
| Hormônio / Mediador | Célula de origem | Efeito sobre HCl | Mecanismo | Relevância clínica | |---|---|---|---|---| | Gastrina (G-17/G-34) | Células G antro gástrico | ↑↑ Estimula | CCK-BR em células parietais e ECL | Gastrinoma (ZES), IBP elevam gastrina | | Histamina | Células ECL (via gastrina/ACh) | ↑↑ Estimula | H2R em células parietais → ↑cAMP | Alvo de anti-H2 (ranitidina, famotidina) | | Acetilcolina (ACh) | Nervo vago | ↑ Estimula | M3R em células parietais | Fase cefálica (ver/cheirar comida) | | Somatostatina (SST) | Células D antro + fundo | ↓↓ Inibe | SSTR2 em células G e parietais | Feedback ácido → SST → freia gastrina | | Secretina | Células S duodeno | ↓ Inibe | Inibe células G; ↑bicarbonato | Paradoxalmente estimula gastrinoma (teste de secretina) | | CCK | Células I duodeno | ↓ Inibe (indireta) | ↑SST; potencia saciedade | CCK-AR (vesícula biliar); CCK-BR (pânico, SNC) |
O eixo parietal central A célula parietal (oxíntica) do fundo gástrico integra os três estímulos — histamina via H2R (principal), gastrina via CCK-BR, e ACh via M3R — todos convergindo para ↑Ca²⁺ e ↑cAMP → ativação da H⁺/K⁺-ATPase (bomba de prótons). IBP bloqueiam irreversivelmente essa bomba, independentemente do estímulo.
Pontos-Chave sobre Gastrina
- Gastrina é o primeiro hormônio gastrointestinal descoberto (Edkins, 1905) — secretada pelas células G do antro gástrico em resposta a proteínas e distensão
- Formas principais: G-17 (pós-prandial, mais potente), G-34 (jejum, meia-vida mais longa); todas com mesmo C-terminal ativo (Gly-Trp-Met-Asp-Phe-NH₂)
- Age via receptor CCK-B (Gq-acoplado) em células parietais e ECL → ↑HCl pela H⁺/K⁺-ATPase
- Feedback ácido-gastrina: pH < 2.5 → somatostatina de células D → inibe células G → ↓gastrina (sistema de segurança auto-regulatório)
- Síndrome de Zollinger-Ellison (ZES): gastrinoma pancreático/duodenal secreta gastrina autônoma → hipersecreção maciça de HCl → úlceras refratárias
- IBP crônico → remove feedback ácido → hipergastrinemia secundária (tipicamente < 500 pg/mL e benigna)
- H. pylori no antro → disfunção de células D → ↑gastrina → úlcera duodenal (erradicação normaliza gastrina)
- Saiba mais: O que é CCK | Zinco-Carnosina e Mucosa | Digestivo e Peptídeos | Hub Ciência e Conceitos
Erros Comuns sobre Gastrina
1. 'Gastrina alta sempre indica câncer' Falso. A causa mais comum de gastrina elevada é o uso de IBP (omeprazol, pantoprazol) ou gastrite atrófica — ambas são hipergastrinemia reativa (pH alto remove o freio). Gastrinoma (ZES) representa apenas uma fração dos casos, geralmente com gastrina > 1000 pg/mL + pH baixo. O contexto clínico é fundamental para interpretar o valor isolado.
2. 'Anti-H2 (ranitidina) bloqueiam a gastrina' Não — anti-H2 bloqueiam o receptor H2 da histamina nas células parietais, não a gastrina diretamente. Gastrina age via CCK-BR nas células parietais e ECL (que produz histamina). IBP bloqueiam a H⁺/K⁺-ATPase diretamente e são mais eficazes porque agem no ponto final da via, independentemente do estímulo (histamina, gastrina, ACh).
3. 'Gastrina elevada por IBP é perigosa' Na imensa maioria dos casos, não. A hipergastrinemia secundária a IBP é moderada (< 500 pg/mL) e reverte ao parar a medicação. O risco de carcinoide gástrico com IBP em estômago saudável é muito baixo — o risco relevante ocorre quando há gastrite atrófica concomitante (anemia perniciosa).
4. 'Teste de secretina é contraditório — secretina deveria inibir gastrina' Precisamente — e esse é o fundamento do teste. Secretina inibe normalmente a secreção de gastrina de células G normais. Em gastrinoma, o tumor secreta gastrina autonomamente e a secretina paradoxalmente a estimula (mecanismo incerto — pode envolver receptor VIP/VPAC expresso no tumor). Resposta paradoxal (↑ > 200 pg/mL) confirma gastrinoma.
5. 'H. pylori faz gastrite = mais ácido em todos os casos' Não é universal. H. pylori no antro (tipo úlcera duodenal) → ↑gastrina → ↑ácido. H. pylori com pangastrite progressiva → destruição de células parietais → ↓ácido a longo prazo → hipergastrinemia por acloridria → paradoxalmente menor risco de úlcera duodenal mas maior risco de câncer gástrico. O padrão de colonização determina o desfecho.
Quando Procurar Avaliação Profissional
Úlceras pépticas recorrentes ou refratárias Úlceras que recidivam após tratamento adequado, úlceras em localizações atípicas (duodeno distal, jejuno) ou múltiplas úlceras simultâneas levantam suspeita de ZES (gastrinoma). Gastroenterologista deve solicitar gastrina em jejum, pH gástrico e teste de secretina.
Diarreia inexplicada com úlcera péptica A tríade de úlcera péptica + diarreia + esteatorreia é clássica do ZES (ácido excessivo inativa lipase pancreática → diarreia gordurosa). Gastroenterologista ou endocrinologista especializado em tumores neuroendócrinos.
Valor de gastrina > 300–500 pg/mL em jejum Valores significativamente elevados merecem investigação independente da causa suspeita. Distinguir IBP-relacionado (suspender IBP, remedir) de gastrite atrófica (anticorpos anti-células parietais, B12) de gastrinoma (teste de secretina, cintilografia de somatostatina).
Anemia perniciosa ou suspeita de gastrite atrófica autoimune Gastrite atrófica autoimune → acloridria → hipergastrinemia crônica → risco de carcinoide gástrico tipo 1. Endoscopia de vigilância periódica com biópsias é indicada — gastroenterologista ou clínico especializado.
Veja também: O que é o GRP (Bombesina)?.