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Sistema endocanabinoide e eixo intestino-cérebro
O trato gastrointestinal contém uma das maiores concentrações de receptores canabinoides fora do sistema nervoso central. CB1 está presente em neurônios do sistema nervoso entérico (plexos de Auerbach e Meissner), células musculares lisas intestinais e células epiteliais do cólon. CB2 é abundante nas células imunes da lâmina própria e nas células de Küpffer do fígado. O 2-AG é o endocanabinoide predominante no intestino — sintetizado localmente em resposta a estímulos locais como distensão, inflamação e alimentos gordurosos.
Funções do SEC gastrointestinal bem documentadas: (1) Motilidade intestinal — ativação de CB1 reduz o trânsito gastrointestinal (hipomotilidade); CB1 em terminações nervosas entéricas inibe a liberação de acetilcolina, reduzindo contrações. THC pode causar náusea a curto prazo mas reduz o vômito em náuseas graves — aparente paradoxo explicado por diferentes vias; (2) Secreção e permeabilidade — CB1 reduz a secreção de fluidos intestinais; endocanabinoides reforçam as junções tight entre enterócitos, reduzindo a permeabilidade intestinal; (3) Dor visceral — CB1 em neurônios aferentes reduz a sensação de dor intestinal — mecanismo relevante em síndrome do intestino irritável (SII) e doença de Crohn; (4) Saciedade e sinalização de nutrientes — 2-AG intestinal sinaliza ao cérebro a ingestão de gordura via nervo vago; explica parcialmente os "munchies" do THC — CB1 vagal amplifica o prazer da alimentação.
Disfunção do SEC entérico em doenças: em doença inflamatória intestinal (DII — Crohn e RCU), há upregulation de receptores CB1 e CB2 nas células imunes intestinais — resposta endógena anti-inflamatória compensatória. 2-AG e AEA estão elevados nas mucosas inflamadas em DII. Pacientes com SII têm polimorfismos no gene FAAH que alteram a disponibilidade de AEA no cólon — correlacionando-se com hipersensibilidade visceral. O SEC intestinal representa um alvo terapêutico emergente para distúrbios funcionais gastrointestinais, mas a maioria das terapias experimentais ainda está em fase pré-clínica ou fase 1/2.
Endocanabinoides, neuroinflamação e neuroproteção: perspectivas em longevidade cerebral
O envelhecimento cerebral está associado à neuroinflamação crônica de baixo grau — mediada por microglia ativada, astrócitos reativos, redução de neurotrofinas (BDNF, NGF) e acúmulo de proteínas mal-dobradas. O sistema endocanabinoide interage com esses processos em múltiplas camadas.
CB2 na microglia: microglia em repouso expressa pouco CB2; microglia ativada (inflamação, dano) upregula drasticamente CB2. Agonismo de CB2 em microglia ativa a via anti-inflamatória: reduz produção de TNF-α, IL-1β, IL-6 e radicais livres (espécies reativas de oxigênio). Em modelos animais de Alzheimer, Parkinson e lesão cerebral, agonistas CB2 reduziram a neuroinflamação e melhoraram sobrevida neuronal sem efeitos psicoativos centrais. Isso posiciona CB2 como alvo terapêutico de interesse para doenças neurodegenerativas — sem o ônus da psicoatividade do CB1. Em humanos, polimorfismos em CNR2 (gene CB2) foram associados a depressão, esquizofrenia e maior risco de Alzheimer em alguns estudos.
2-AG como mediador anti-inflamatório endógeno: após lesão cerebral, síntese de 2-AG aumenta rapidamente como resposta de neuroproteção — ligando CB1 e CB2 para reduzir excitotoxicidade (via redução de liberação de glutamato) e neuroinflamação. Inibidores de MAGL (que degradam 2-AG) como JZL184 e ABX-1431 aumentam 2-AG após lesão e demonstraram neuroproteção em modelos de AVC, Parkinson e Alzheimer em animais. ABX-1431 (Neurocrine Biosciences) está em fase 2 de ensaios clínicos.
Endocanabinoides e declínio cognitivo por envelhecimento: CB1 diminui com a idade no córtex e hipocampo — correlacionando-se com declínio na plasticidade sináptica e memória. Ratos velhos tratados com THC em doses baixas (micro ou nanodoses) tiveram reversão de déficits cognitivos em estudos (Bilkei-Gorzo 2017, Nature Medicine). O mecanismo proposto envolve reativação de plasticidade sináptica dependente de CB1 e melhora de sinalização DSI/DSE. Isso não deve ser traduzido como recomendação de THC para idosos — os efeitos negativos em cognição em usuários regulares são bem documentados. Representa uma janela de pesquisa sobre modulação fina do SEC no envelhecimento.