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← Blog·peptideos20 de junho de 2026

Vasopressina (ADH): Diabetes Insípido, SIADH, Terlipressina, Desmopressina e Receptores V1a/V1b/V2

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Vasopressina: Síntese e Estrutura

A Molécula ADH

Vasopressina (AVP — Arginine Vasopressin):

  • Nonapeptídeo (9 aminoácidos): Cys-Tyr-Phe-Gln-Asn-Cys-Pro-Arg-Gly-NH₂
  • Ponte dissulfeto: Cys1-Cys6 → estrutura cíclica N-terminal + cauda linear C-terminal
  • Idêntica à oxitocina exceto por posição 3 (Phe vs. Ile) e posição 8 (Arg vs. Leu)
  • Gene AVP (cromossomo 20p13): codifica pré-pró-vassopressina → AVP + Neurofisina II + Copeptina

Síntese e transporte:

  • Neurônios magnocelulares: núcleos supraóptico (SON) + paraventricular (PVN) do hipotálamo
  • Transporte: axônios → trato hipotálamo-neurohipofisário → neurohipófise (lobo posterior da hipófise) → armazenamento + secreção

Copeptina:

  • Pró-peptídeo co-secretado com AVP em proporção equimolar
  • Meia-vida mais longa e estável no sangue → uso clínico: copeptina substitui medição direta de AVP
  • Elevada em: sepse, choque, infarto, politrauma → biomarcador de estresse e síndrome coronariana aguda

Regulação da Secreção de AVP

Osmolalidade:

  • Osmoreceptores: no órgão vascular da lâmina terminal (OVLT) + SON
  • Osmolalidade > 280 mOsm/kg → AVP secretada → V2R no ducto coletor → mais AQP2 → reabsorção de água → dilui plasma
  • Limiar osmótico: ~280 mOsm/kg (pequena elevação já libera AVP)

Volume e pressão:

  • Barorreceptores de baixa pressão (átrios + veias pulmonares): hipovolemia → sinal aferente via vago → NTS → hipotálamo → mais AVP
  • Barorreceptores de alta pressão (seio carotídeo + croça da aorta): hipotensão → mais AVP (mecanismo de emergência)
  • Hipovolemia: mais potente estímulo para AVP que hiperosmolalidade (volume > osmolalidade em emergência)

Outros estímulos:

  • Náusea: potente estímulo para AVP (mediado pela área postrema — sem BHE)
  • Hipoglicemia, hipóxia, estresse
  • Morfina e opioides: estimulam AVP
  • Etanol: inibe AVP → diurese alcoólica (mas efeito temporário)

Receptores de Vasopressina

V1a, V1b, V2

V1aR (Vascular):

  • Localização: músculo liso vascular (artérias, artérias esplâncnicas), hepatócitos, plaquetas, uterino, SNC
  • Sinalização: Gαq → PLC → IP3/Ca²⁺ → PKC → contração do ML vascular
  • Função: vasoconstrição sistêmica; glicogenólise hepática; agregação plaquetária; toco (contração uterina em altas doses)
  • Base terapêutica de terlipressina: vasoconstrição esplâncnica seletiva → mais fluxo para circulação sistêmica → menos hemorragia varicosa

V1bR (Pituitária):

  • Localização: adeno-hipófise (corticotrofos), adrenal
  • Sinalização: Gαq → PLC → Ca²⁺ → secreção de ACTH (sinérgico com CRH)
  • Função: amplifica ação do CRH na secreção de ACTH durante estresse
  • Base terapêutica: agonista V1b usado como teste diagnóstico de reserva hipofisária de ACTH (teste da CRH + vasopressina)

V2R (Renal):

  • Localização: ducto coletor + porção ascendente espessa da Alça de Henle (TAL)
  • Sinalização: Gαs → AMPc → PKA → fosforila AQP2 (aquaporina-2) → vesículas de AQP2 se fundem com membrana apical → canal de água inserido → água reabsorvida
  • Função: reabsorção de água livre → concentração de urina → osmolalidade plasmática reduz
  • Também no ducto coletor: V2R → mais expressão de AQP2 (efeito a longo prazo: síntese de nova AQP2)
  • Na vascular endotelial: V2R → liberação de von Willebrand (vWF) e fator VIII → hemostasia

Aquaporinas (AQP)

Família das aquaporinas:

  • Proteínas integrais de membrana formadoras de canais de água
  • Homotetrâmero (4 monômeros, cada um é um canal)
  • AQP1: eritrócitos, epitélio tubular proximal, túbulo de Henle descendente fino
  • AQP2: ducto coletor (membrana apical, controlada por AVP) — principal alvo de AVP
  • AQP3/AQP4: membrana basolateral do ducto coletor (constituivas — não reguladas por AVP)
  • AQP2 constitutiva (fusão de vesículas): ausente sem AVP → sem canal → urina diluída
  • AQP2 com AVP: PKA fosforila Ser256 no C-terminal → vesículas de AQP2 → inserção → canal → água reabsorvida

Diabetes Insípido

Central vs. Nefrogênico

Diabetes Insípido Central (DI Central):

  • Déficit parcial ou completo de AVP
  • Causas: craniofaringeoma, tumor hipofisário, traumatismo craniano, cirurgia hipofisária, histiocitose de Langerhans, autoimune (anti-neurohipófise), Wolfram (síndrome DIDMOAD)
  • Apresentação: poliúria hipotônica (5–15 L/dia) + polidipsia compensatória
  • Diagnóstico: osmolalidade urinária < 300 mOsm/kg com osmolalidade plasmática > 295 mOsm/kg
  • Teste de privação de água (water deprivation test): privação → AVP não sobe (central) ou AVP sobe mas rim não responde (nefrogênico)
  • Teste de DDAVP: após privação, dar DDAVP → osmolalidade urinária sobe > 50% (central) vs. não sobe (nefrogênico)

Diabetes Insípido Nefrogênico (DI Nefrogênico):

  • V2R não funcional (mutação AVPR2 em homens: gene no X) ou AQP2 mutada
  • Causas adquiridas: lítio (inibe V2R/AMPc em ducto coletor — DI em 40–50% dos usuários crônicos), hipercalcemia, hipocalemia, obstrução urinária, doença falciforme
  • DDAVP: não funciona (rim não responde)
  • Tratamento: hidroclorotiazida (paradoxal — gera hipovolemia → NaCl reduzido → menos dilução) + indometacina + amilorida (lítio)

DI Gestacional:

  • Aumento de vasopresinase placentária → degrada AVP
  • Desmopressina funciona (vasopresinase não degrada)

SIADH (Secreção Inapropriada de ADH)

Critérios de Schwartz-Bartter (SIADH):

  • Hiponatremia + osmolalidade plasmática baixa (< 275 mOsm/kg)
  • Osmolalidade urinária inapropriadamente elevada (> 100 mOsm/kg) com Na+ urinário > 40 mmol/L
  • Euvolêmico (sem sinais de desidratação ou hipervolemia)
  • Função renal, adrenal, tireoidiana normais
  • Sem uso de diuréticos

Causas de SIADH:

  • SNC: meningite, encefalite, acidente vascular cerebral, TCE, psicose, epilepsia
  • Pulmonar: pneumonia, TB, atelectasia, ventilação mecânica com PEEP
  • Neoplasias: SCLC (carcinoma de pulmão de pequenas células) — produção ectópica de AVP
  • Medicamentos: SSRIs, carbamazepina, vincristina, ciclofosfamida, haloperidol, oxibutinina
  • Idiopático

Tratamento SIADH:

  • Restrição hídrica: linha primária (600–1000 mL/dia) → hiponatremia leve/crônica
  • Tolvaptana (Samsca — Otsuka): antagonista oral de V2R → aquarética → aumenta Na+ sem sódio → aprovado FDA 2009 para SIADH + IC + cirrose
  • Demeclociclina: tetracicline que inibe AMPc renal → DI nefrogênico iatrogênico → menos reabsorção de água (menos usada hoje)
  • NaCl hipertônico 3%: hiponatremia sintomática grave (risco de convulsões/coma) → corrigir lentamente (< 10 mEq/L em 24h, < 18 mEq/L em 48h) → risco de mielinólise pontina (ODS)

Terlipressina e Desmopressina

Terlipressina

Terlipressina:

  • Análogo sintético (pró-droga): Gly-Lys-Arg-Pro-Cys-Asn-Gln-Tyr-Cys-Pro-Lys-Gly-NH₂ → metabolismo → lisina-vasopressina → agonista V1a
  • Meia-vida: 6 horas (vs. AVP 2–4 min)
  • Aprovado no Brasil/Europa: hemorragia varicosa (sangramento de varizes esofagianas) + síndrome hepatorrenal (SHR)

Hemorragia varicosa:

  • Terlipressina IV: vasoconstrição de artérias esplâncnicas → menos fluxo portal → menos pressão varicosa → controle de sangramento
  • Usado em conjunto com endoscopia + bandagem
  • Alternativas: octreotida + somatostatina (efeito similar)

Síndrome Hepatorrenal (SHR):

  • Vasoconstrição de arteríolas aferentes dos rins em cirrose avançada → IRA pré-renal funcional
  • Mecanismo: vasodilatação esplâncnica (NO + prostanoides) → hipovolemia efetiva → vasopressina + SRAA → vasoconstrição renal
  • Terlipressina + albumina: vasoconstrição esplâncnica → melhora de hemodinâmica sistêmica → melhora de IRA
  • CONFIRM trial (2021 — NEJM): terlipressina + albumina vs. placebo → SHR-AKI revertida: 32% vs. 17% (p=0,006)

Desmopressina (DDAVP)

Desmopressina (1-deamino-8-D-arginine vasopressin):

  • Modificações: desamidação em Cys1 + D-Arg em posição 8
  • Resultado:

1. Mais seletividade V2R sobre V1aR (sem vasoconstrição) → segura em cardíacos 2. Meia-vida maior: 4–8 horas (vs. AVP 2–4 min) 3. Resistência à vasopresinase

Indicações:

  • DI central: intranasal (10–20 mcg) ou oral (0,1–0,4 mg) → concentra urina → reduz poliúria
  • Enurese noturna: crianças → desmopressina oral ao dormir → menos urina noturna
  • Doença de von Willebrand tipo 1 (vWD1) e hemofilia A leve: DDAVP IV → V2R endotelial → libera vWF e FVIII das células de Weibel-Palade → hemostasia transitória para procedimentos cirúrgicos pequenos
  • Coagulopatia urêmica: DDAVP → melhora função plaquetária em uremia (mecanismo: mais vWF + menos bridging defect)
  • Hiponatremia grave pós-DDAVP: risco em idosas, pacientes com alto risco de hiponatremia → usar com cautela

Referências

  1. Verbalis JG, et al. "Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Hyponatremia: Expert Panel Recommendations." *Am J Med*. 2013;126(10 Suppl 1):S1-42. DOI: 10.1016/j.amjmed.2013.07.006
  1. Robertson GL. "Diabetes insipidus: Differential diagnosis and management." *Best Pract Res Clin Endocrinol Metab*. 2016;30(2):205-18. DOI: 10.1016/j.beem.2016.02.007
  1. Guevara M, et al. "Terlipressin and albumin for type 1 hepatorenal syndrome associated with sepsis." *J Hepatol*. 2010;53(5):990-7. DOI: 10.1016/j.jhep.2010.07.003
  1. Wong F, et al. "Terlipressin plus Albumin for the Prevention of Type 1 Hepatorenal Syndrome (CONFIRM)." *N Engl J Med*. 2021;384(9):818-28. DOI: 10.1056/NEJMoa2008290
  1. Bichet DG. "Vasopressin receptor mutations causing nephrogenic diabetes insipidus." *Semin Nephrol*. 2008;28(3):245-51. DOI: 10.1016/j.semnephrol.2008.03.005
  1. Furst H, et al. "Urine electrolytes and osmolality: when and how to use them." *Am J Nephrol*. 2000;20(1):89-99. DOI: 10.1159/000013539
  1. Desmopressina revisão clínica: Mannucci PM. "Desmopressin in the treatment of bleeding disorders: the first 20 years." *Blood*. 1997;90(7):2515-21. DOI: 10.1182/blood.V90.7.2515

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Veja Também: Explore nosso Hub de Ciência e Conceitos para aprofundar o estudo de peptídeos neuro-hipofisários e suas aplicações. Leia também: Guia Completo de Peptídeos, O Que São Peptídeos Antimicrobianos, Peptídeos e Longevidade Anti-Aging.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Referências Científicas

  1. Atila C, Leibnitz S, Nikaj A et al. Oxytocin substitution therapy in patients with AVP deficiency (central diabetes insipidus): study protocol of a double-blind, randomised placebo-controlled trial. BMJ open, 2026.O protocolo de ensaio clínico avaliou a substituição por oxitocina em pacientes com deficiência de AVP (diabetes insípido central), explorando alternativa terapêutica à desmopressina.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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