Prolactina: Fisiologia
Síntese e Estrutura
Prolactina (PRL):
- Hormônio peptídico de 199 aminoácidos; 23 kDa; 3 pontes dissulfeto
- Gene PRL (cromossomo 6p22.2)
- Produzida por: lactotrofos da adeno-hipófise (~ 25–30% das células hipofisárias)
- Família: superfamília GH/PRL/Lactogênio placentário (estrutura helicoidal 4 feixes)
Isoformas de PRL:
- PRL monômero (23 kDa): principal isoforma biologicamente ativa
- Big-PRL (dímero, 48–56 kDa): menor atividade biológica
- Big-Big-PRL (macroprolactina, 150–170 kDa): complexo PRL + IgG; baixíssima atividade biológica — IMPORTANTE: pode elevar PRL no ensaio sem causar sintomas
Receptor:
- PRL-R (prolactin receptor): família de receptores de citocinas tipo I
- PRL → homodimerização do PRL-R → JAK2 → STAT5a/5b → transcrição de genes de lactação (caseína, lactoalbumina)
- Expresso em: glândula mamária, ovário, testículo, fígado, rim, imunócitos
Regulação da Secreção de Prolactina
Controle hipotalâmico:
- PRL é o ÚNICO hormônio hipofisário com controle hipotalâmico predominantemente INIBITÓRIO
- Dopamina (DA): principal regulador; neurônios tuberoinfundibulares (núcleo arcuato + periventricular) → DA → portal hipofisário → lactotrofos → D2R → menos AMPc → menos PRL
- TRH (Thyrotropin-Releasing Hormone): estimula PRL (menor efeito)
- VIP (Peptídeo Intestinal Vasoativo): estimula PRL
- Serotonina: estimula PRL (via hipotálamo)
Short-loop feedback:
- PRL → hipotálamo → mais DA → menos PRL (autorregulação)
Estímulos para secreção:
- Sucção mamária → aferentes sensitivos → hipotálamo → menos DA → mais PRL
- Estrogênio: estimula síntese de PRL + proliferação de lactotrofos
- Estresse, exercício, sono (fase de ondas lentas): discreto aumento de PRL
- Relações sexuais em mulheres: discreto aumento de PRL
Inibição pela dopamina:
- D2R em lactotrofos: acoplado a Gi → menos AMPc → menos PKA → menos CRE (cAMP Response Element) → menos PRL
- Bloqueadores de D2R → aumentam PRL (antipsicóticos, metoclopramida)
Ações Fisiológicas da Prolactina
Lactação:
- Durante gravidez: altos estrogênios → estimulam PRL (lactotrofos proliferam) + bloqueiam ação de PRL na mama (estrogênio bloqueia ativação de PRL-R na mama)
- Pós-parto: queda de estrogênio + mais PRL → ação de PRL liberada → lactogênese
- Sucção → aumento agudo de PRL → mantém produção de leite
Supressão do eixo reprodutivo:
- PRL elevada → hipotálamo → inibe pulsatilidade de GnRH → menos LH/FSH → amenorreia + anovulação + infertilidade
- Mecanismo: PRL → inibe kisspeptina → menos GnRH pulsátil
- Imunológico: PRL tem papel em modulação de respostas imunes (receptor em linfócitos)
Hiperprolactinemia
Causas
Causas Fisiológicas:
- Gravidez, amamentação, estresse, exercício, sono, relação sexual
Causas Farmacológicas (mais comuns):
- Antipsicóticos típicos (haloperidol, clorpromazina): bloqueio D2R hipofisário
- Antipsicóticos atípicos: risperidona (muito) > olanzapina (moderado) > clozapina, quetiapina (pouco)
- Metoclopramida, domperidona: antagonistas D2 gastrocinéticos → hiperprolactinemia significativa
- Outros: verapamil, SSRIs (menos comum), opioides, ranitidina, estrogênios exógenos
Causas Hipofisárias:
- Microprolactinoma (< 10 mm): mais comum em mulheres; PRL 100–200 ng/mL
- Macroprolactinoma (≥ 10 mm): PRL frequentemente > 200–500 ng/mL; compressão de quiasma/estruturas
- Outros tumores hipofisários: adenomas não-secretores comprimem o pedículo hipofisário (PRL por desconexão — stalk effect) → PRL raramente > 100 ng/mL
- GH-omas: podem co-secretar PRL
Causas Hipotalâmicas:
- Tumor, cirurgia, radiação, craniofaringeoma → interrompem fluxo de DA → PRL por desconexão (não tão alta quanto prolactinoma)
Hiperprolactinemia de desconexão (stalk effect):
- Qualquer lesão que comprime o pedículo hipofisário → menos DA chega à hipófise → mais PRL
- PRL geralmente < 100–150 ng/mL (diferentemente do prolactinoma verdadeiro)
Hipotireoidismo:
- TSH elevado → TRH elevado → TRH estimula PRL → hiperprolactinemia funcional
- Tratar hipotireoidismo normaliza PRL
Macroprolactinemia (Big-Big-PRL)
Macroprolactina:
- PRL + IgG autoanticorpo: forma inativos mas detectados nos ensaios imunométricos
- Prevalência: 15–25% das hiperprolactinemias "bioquímicas"
- Paciente: geralmente assintomático (sem galactorreia, menstrua normalmente)
- Diagnóstico: teste de polietilenoglicol (PEG) — precipita macroprolactina → reduz PRL > 60% = macroprolactinemia
- Importância: não tratar (não há hormônio ativo; paciente bem)
Apresentação Clínica
Mulheres:
- Galactorreia (50–80% dos prolactinomas em mulheres)
- Amenorreia ou oligomenorreia
- Infertilidade anovulatória
- Diminuição da libido
Homens:
- Disfunção erétil + libido reduzida
- Galactorreia (menos frequente)
- Ginecomastia (rara)
- Macroprolactinomas: mais sintomas compressivos (cefaleia, déficit visual de quiasma)
Sintomas compressivos (macroprolactinoma):
- Cefaleia
- Hemianopsia bitemporal (compressão do quiasma óptico): perda de campo visual externo bilateral
- Hipopituitarismo: compressão de células hipofisárias normais → déficit de GH, TSH, ACTH, LH/FSH
Diagnóstico
Investigação:
- PRL basal em jejum + sem estímulo (não coletar pós-esforço/pós-sucção)
- Excluir gravidez → hCG
- TSH (excluir hipotireoidismo)
- Medicamentos revisados
- PRL > 20 ng/mL (mulheres) / > 15 ng/mL (homens): anormal
- RM hipofisária com contraste: para todo paciente com PRL elevada sem causa óbvia
Regra de correlação PRL-tamanho:
- Microprolactinoma: PRL 100–200 ng/mL tipicamente
- Macroprolactinoma: PRL > 200 ng/mL (muito grandes: > 1000 ng/mL)
- PRL > 500 ng/mL: quase sempre macroprolactinoma verdadeiro
- Efeito gancho (hook effect): PRL muito alta pode dar resultado falsamente baixo → diluir amostra 1:100
Tratamento
Cabergolina (Dostinex)
Cabergolina:
- Agonista D2/D3 de longa ação (meia-vida: 63–69 horas → dose semanal ou bisemanal)
- Dose inicial: 0,25 mg 2×/semana → titular até normalizar PRL + resolver sintomas
- Macro: doses maiores (1–3,5 mg/semana)
Eficácia:
- Normaliza PRL: 80–90% dos microprolactinomas; 70% dos macroprolactinomas
- Redução de tamanho tumoral: 70–80% dos macroprolactinomas em 12–24 meses
- Recuperação de campo visual: 80–90% (melhora frequentemente em semanas)
- Superior à bromocriptina: mais eficaz + menos efeitos adversos
Efeitos adversos:
- Náusea, hipotensão postural, cefaleia (geralmente leves)
- Fibrose valvular cardíaca: em doses MUITO altas (doses usadas em Parkinson: 3–4 mg/dia) → risco em Parkinson mas não nas doses usadas em prolactinoma (< 2 mg/semana)
- Impulso de jogo/hipersexualidade: risco de comportamento compulsivo (monitorar)
Duração e remissão:
- Após 2 anos de tratamento com PRL normal e tumor < 10 mm: tentativa de suspensão → 35% permanece em remissão sem droga
- Dopamina agonistas não curam definitivamente (exceto alguns casos favoráveis)
Bromocriptina
Bromocriptina:
- Agonista D2 de curta ação (2× ao dia)
- Mais náusea/intolerância que cabergolina
- Uso em gravidez: maior experiência de segurança (usada há mais tempo)
- Prolactinoma em gravidez: se necessário tratar, preferir bromocriptina (mais dados de segurança)
Cirurgia
Cirurgia transesfenoidal:
- Indicações: resistência ou intolerância a agonista dopaminérgico, macroprolactinoma com compressão aguda não responsiva, desejo de cura definitiva
- Taxa de remissão: microprolactinoma 80%; macroprolactinoma 40–50% (menos eficaz)
- Complicações: hipopituitarismo, fístula de LCR, diabetes insípido transitório
Referências
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