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← Blog·Urologia21 de junho de 2026

Peptídeos em Urologia: Câncer de Próstata CRPC — Enzalutamida, Abiraterona, Lútetio-177-PSMA e PARP Inibidores

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Equipe Peptídeos Bio
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# Peptídeos em Urologia: Câncer de Próstata CRPC

O câncer de próstata (CaP) é o câncer mais prevalente em homens no Brasil e o segundo em mortalidade. ~10-15% dos pacientes diagnosticados terão câncer de próstata metastático resistente à castração (mCRPC) — doença em que o tumor progride apesar da supressão androgênica (testosterona < 50 ng/dL = castração). O entendimento dos mecanismos moleculares do CRPC (receptor androgênico AR como driver central, mutações AR, splice variants AR-V7, amplificação AR, vias bypass) levou a uma geração de agentes que superam a resistência à castração com significativo benefício de sobrevida.

Biologia do CRPC: Por que Persiste Apesar da Castração?

Receptor Androgênico (AR) como Driver Central

O AR é um receptor nuclear (superfamília de receptores esteroides) que, na presença de testosterona/DHT:

  1. Ligante se une ao domínio de ligação do ligante (LBD, C-terminal) → conformação ativa
  2. Dissociação de heat shock proteins (HSP90/HSP70)
  3. Translocação nuclear do complexo AR-ligante-Hsp
  4. Ligação a sequências ARE (androgen response elements) em promotores de genes-alvo: PSA (KLK3), TMPRSS2, NKX3.1, FKBP5
  5. Transcrição de genes pró-proliferativos e anti-apoptóticos

Mecanismos de resistência no CRPC:

  • Amplificação de AR (30-50% dos CRPC): Aumento de cópias do gene AR → hipersensibilidade a baixos níveis de androgênio residual
  • Mutações no LBD do AR (AR-LBD mutações, ex. AR-L702H, AR-W742C)**: Promiscuidade de ligante → ativação por glucocorticoides, progesterona, estrogênio, anti-androgênios de 1ª geração (bicalutamida funcionando como agonista)
  • AR Splice Variants (AR-V7): Isoforma truncada sem LBD → constitutivamente ativa no núcleo sem ligante → resistência a enzalutamida e abiraterona (não tem sítio de ligação para esses agentes)
  • Via bypass (MAPK, PI3K/AKT → via PTEN deletada em 50% CRPC, Wnt): Proliferação AR-independente
  • Síntese intratumoral de androgênio: Tumor sintetiza DHT a partir de colesterol e adrenal DHEA via CYP17A1 hepático e adrenal → estimulação autócrina de AR

Bloqueio Androgênico de Segunda Geração

Abiraterona (Zytiga®, J&J/Janssen)

Mecanismo: Inibidor irreversível de CYP17A1 (17α-hidroxilase/17,20-liase) → bloqueia síntese de androgênio nos testículos, adrenais E no próprio tumor → ↓ testosterona e DHT a < 1 pg/mL (castração mais profunda). Administrado com prednisona (contrapõe o excesso de mineralocorticoides por bloqueio upstream de CYP17A1 → aldosterona ↑ via mineralocorticoide excess syndrome — HAS + hipopotassemia).

COU-AA-301 (de Bono JS et al., NEJM 2011, N=1195 mCRPC pós-docetaxel, 2L): Abiraterona + prednisona vs. placebo + prednisona:

  • OS mediana: 14,8 vs. 10,9 meses (HR 0,65, P<0,001) — aprovação inicial FDA 2011

COU-AA-302 (Ryan CJ et al., NEJM 2013, N=1088 mCRPC quimio-naïve 1L): OS mediana: 34,7 vs. 30,3 meses (HR 0,81, P=0,0033); radiographic PFS: 16,5 vs. 8,3 meses (HR 0,53, P<0,001) — aprovação 1L.

Enzalutamida (Xtandi®, Astellas/Pfizer)

Mecanismo: Anti-androgênio de 2ª geração — compete com testosterona/DHT pelo sítio LBD de AR com 5-8× maior afinidade que bicalutamida; inibe translocação nuclear de AR (liga AR no citoplasma impedindo entrada nuclear); inibe ligação de AR ao DNA (mesmo após translocação); inibe recrutamento de co-ativadores de AR. Múltiplos pontos de bloqueio vs. 1 ponto da bicalutamida.

AFFIRM (Scher HI et al., NEJM 2012, N=1199 mCRPC pós-docetaxel, 2L): OS mediana: 18,4 vs. 13,6 meses (HR 0,63, P<0,001) — aprovação 2L FDA 2012.

PREVAIL (Beer TM et al., NEJM 2014, N=1717 mCRPC quimio-naïve 1L): OS mediana: 35,3 vs. 31,3 meses (HR 0,77, P<0,001); rPFS: HR 0,19 (P<0,001) — aprovação 1L FDA 2014.

Apalutamida (Erleada®, J&J) e Darolutamida (Nubeqa®, Bayer/Orion)

SPARTAN (Smith MR et al., NEJM 2018, N=1207 CRPC não-metastático de alto risco = M0CRPC, PSA doubling time < 10 meses): Apalutamida vs. placebo: Metastasis-free survival (MFS): 40,5 vs. 16,2 meses (HR 0,28, P<0,001) — aprovação M0CRPC 2018.

TITAN (Chi KN et al., NEJM 2019, N=1052 mCSPC = metastático sensível à castração): Apalutamida + ADT vs. ADT: OS a 4 anos: 65,1% vs. 51,8% (HR 0,65, P<0,001) — aprovação mCSPC.

ARAMIS (Fizazi K et al., NEJM 2019, N=1509 M0CRPC PSA DT < 10 meses): Darolutamida vs. placebo: MFS: 40,4 vs. 18,4 meses (HR 0,41, P<0,001). Darolutamida — estrutura única (ligação fraca a GABA/P-gp) → menos cruzamento de BHE → menos efeitos neurológicos (menos fadiga, menos quedas) vs. enzalutamida.

PARP Inibidores no CRPC: Targeting HRR

Olaparibe (Lynparza®): PROfound

PROfound (de Bono J et al., NEJM 2020, N=387 mCRPC em progressão com ARSI, BRCA1/2 ou HRR mutado):

Olaparibe 300 mg 2×/dia vs. enzalutamida ou abiraterona (cruzamento permitido):

  • Coorte A (BRCA1/2 mutados — germinativo e somático, N=245): rPFS mediana: 7,4 vs. 3,6 meses (HR 0,34, P<0,001); OS: 19,1 vs. 14,7 meses (HR 0,69, P=0,02)
  • **Coorte B (HRR = ATM, CDK12, CHEK2, FANCA, PALB2, RAD51): benefício menor, incerto em ATM/CDK12
  • FDA aprovado 2020 para BRCA1/2 pós-ARSI; 2023: combo olaparibe + abiraterona 1L mCRPC (PROpel trial)

PROpel (Clarke N et al., NEJM Evid 2022, N=796 mCRPC 1L, qualquer status HRR): Olaparibe + abiraterona vs. placebo + abiraterona: rPFS: 24,8 vs. 16,6 meses (HR 0,66, P<0,001) na população geral (não apenas BRCA); benefício maior em HRR+ (BRCA1/2/ATM — 37,2 vs. 18,1 meses). FDA aprovado 2023.

Niraparibe (Zejula®): MAGNITUDE trial: niraparibe + abiraterona → benefício apenas em BRCA1/2 (rPFS 16,6 vs. 10,9 meses HR 0,53) — sem benefício em HRR não-BRCA. FDA aprovado 2023 apenas BRCA1/2.

Rucaparibe (TRITON-2/3): Descontinuado (empresa faliu em 2023).

Radioterapia com Ligante PSMA: Lútetio-177

Conceito: Radiofármaco Teranóstico

PSMA (Prostate-Specific Membrane Antigen): Glutamate carboxypeptidase II (GCPII/FOLH1) — glicoproteína transmembrana 2× superexpressa em 90%+ dos CaP (>6-fold vs. prostatectomia benigna) — alvo ideal para terapia dirigida. PSMA-PET (Ga-68-PSMA-11/F-18-DCFPyl) — imagiologia altamente sensível (superior à TC e cintilografia óssea para estadiamento).

Lútetio-177-PSMA-617 (177Lu-PSMA-617, Pluvicto®, Novartis): 177-Lútetio (emissor β−, E = 0,5 MeV, alcance 2-3 mm) conjugado a PSMA-617 (inibidor de PSMA que se liga ao sítio ativo externo) → receptor-mediated endocytosis → radiação β− intracelular + gamaemissão (208 keV, imagem com câmara gama/SPECT) → "theranostics" (mesmo ligante para diagnóstico em Ga-68 e terapia em Lu-177).

VISION (Sartor O et al., NEJM 2021, N=831 mCRPC pós ARSI + docetaxel, PSMA-PET positivo): 177Lu-PSMA-617 q6sem × 6 ciclos + standard care vs. standard care alone:

  • OS mediana: 15,3 vs. 11,3 meses (HR 0,62, P<0,001) — 3,9 meses de benefício
  • rPFS: 8,7 vs. 3,4 meses (HR 0,40, P<0,001)
  • Taxa de resposta PSA (≥ 50% redução): 46% vs. 7,1%
  • FDA aprovado Março 2022 (primeiro radiofármaco para CaP aprovado)
  • Toxicidade: Xerostomia (38%) — PSMA expresso em glândulas salivares; anemia (13% G3), neutropenia (11% G3)

TheraP vs. VISION

TheraP (Hofman MS et al., Lancet 2021, N=291 mCRPC, 177Lu-PSMA-617 vs. cabazitaxel): PSA response 66% vs. 37%; rPFS 7,1 vs. 4,4 meses (HR 0,57) — superiority vs. quimioterapia; menos toxicidade hematológica.

Taxanos no CRPC

Docetaxel (Taxotere®): Estabilizador de microtúbulos → bloqueia depolimerização → pára mitose em M phase. TAX 327 (Tannock IF et al., NEJM 2004): Docetaxel 75 mg/m² q3sem vs. mitoxantrona → OS: 18,9 vs. 16,5 meses (HR 0,76, P=0,009) — aprovação 2004, 1ª quimioterapia a melhorar OS em CRPC.

Cabazitaxel (Jevtana®): Taxano de 2ª geração com menor afinidade para P-gp → menos efeito do MDR (multi-drug resistance) que causa resistência a docetaxel. TROPIC (de Bono JS et al., Lancet 2010): Cabazitaxel 25 mg/m² q3sem vs. mitoxantrona pós-docetaxel: OS 15,1 vs. 12,7 meses (HR 0,70, P<0,001). CARD trial (Poon DMC et al., NEJM 2019): Cabazitaxel vs. enzalutamida/abiraterona pós-ARSI + docetaxel → rPFS: 8,0 vs. 3,7 meses (HR 0,54, P<0,001) — cabazitaxel superior a ARSI alternativo pós-falha de 2 ARSIs.

Imunoterapia: Sipuleucel-T

Sipuleucel-T (Provenge®, Dendreon): Vacina de células dendríticas autólogas pulsadas com PA2024 (prostatic acid phosphatase fused to GM-CSF) → ativa CTLs específicos para PAP. IMPACT (Kantoff PW et al., NEJM 2010, N=512 mCRPC assintomático/minimamente sintomático): OS mediana: 25,8 vs. 21,7 meses (HR 0,78, P=0,03) — 4,1 meses benefício; sem benefício em PFS (mede imunidade, não redução de tumor). Aprovado 2010 — custo elevado e desaparecimento do tumor não visível → limita adoção; empresa declarou falência 2014, produto ainda disponível.

Referências Científicas

  1. de Bono JS et al. (COU-AA-301). Abiraterone and increased survival in metastatic prostate cancer. *NEJM*. 2011;364(21):1995-2005. PMID: 21612468
  2. Scher HI et al. (AFFIRM/Enzalutamida). Increased survival with enzalutamide in prostate cancer after chemotherapy. *NEJM*. 2012;367(13):1187-1197. PMID: 22894553
  3. de Bono J et al. (PROfound/Olaparibe). Olaparib for metastatic castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2020;382(22):2091-2102. PMID: 32343890
  4. Sartor O et al. (VISION/177Lu-PSMA-617). Lutetium-177-PSMA-617 for metastatic castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2021;385(12):1091-1103. PMID: 34161051
  5. Beer TM et al. (PREVAIL/Enzalutamida 1L). Enzalutamide in metastatic prostate cancer before chemotherapy. *NEJM*. 2014;371(5):424-433. PMID: 24881401
  6. Smith MR et al. (SPARTAN/Apalutamida). Apalutamide treatment and metastasis-free survival in prostate cancer. *NEJM*. 2018;378(15):1408-1418. PMID: 29420164
  7. Kantoff PW et al. (IMPACT/Sipuleucel-T). Sipuleucel-T immunotherapy for castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2010;363(5):411-422. PMID: 20818862
  8. Hofman MS et al. (TheraP). [177Lu]Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel in patients with metastatic castration-resistant prostate cancer (TheraP): a randomised, open-label, phase 2 trial. *Lancet*. 2021;397(10276):797-804. PMID: 33617773
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Referências Científicas

  1. Shore ND, De Giorgi U, Tutrone RF et al. Enzalutamide Monotherapy for the Treatment of Prostate Cancer With High-Risk Biochemical Recurrence: EMBARK Secondary End Points. The Journal of urology, 2026.O ensaio EMBARK relatou desfechos secundários da enzalutamida em monoterapia para câncer de próstata com recorrência bioquímica de alto risco, fundamentando a discussão sobre terapias de privação androgênica avançada.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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