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← Blog·Pneumologia20 de junho de 2026

Peptídeos em Pneumologia: Fibrose Pulmonar Idiopática, Asma Grave e DPOC — Nintedanibe, Pirfenidona, Tezepelumabe e Benralizumabe

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Equipe Peptídeos Bio
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# Peptídeos em Pneumologia: Fibrose Pulmonar, Asma Grave e DPOC

As doenças respiratórias crônicas — fibrose pulmonar idiopática (FPI), asma grave e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) — têm em comum o envolvimento de mediadores peptídicos e proteicos em suas fisiopatologias. A revolução terapêutica recente nessas condições reflete a identificação de vias inflamatórias específicas (eosinofílica na asma, fibrótica/remodeladora na FPI) e seu bloqueio com biológicos ou pequenas moléculas altamente seletivas.

Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI): TGF-β, PDGF e Inibidores

Fisiopatologia da FPI

A fibrose pulmonar idiopática é caracterizada por destruição progressiva do parênquima pulmonar por fibrose — depósito excessivo de MEC (colágeno I/III, fibronectina, elastina) por fibroblastos/miofibroblastos ativados. Padrão histológico: UIP (usual interstitial pneumonia) com fibroblastic foci, "faveolamento" subpleural, honeycombing.

Vias patogênicas fundamentais:

  • TGF-β1 (Transforming Growth Factor-β1): Citocina fibrogênica central → ativa SMAD2/3 → transcrição de colágeno, fibronectina, CTGF; induz transição epitélio-mesenquimal (TEM) de pneumócitos tipo II → miofibroblastos
  • PDGF (Platelet-Derived Growth Factor): Receptor TK PDGFR → sinalização de proliferação e sobrevivência de fibroblastos; migração de pericitos para alvéolos lesados
  • VEGF e FGF: Angiogênese aberrante + expansão de fibroblastos
  • IL-4/IL-13: Citocinas Th2 que ativam macrófagos M2 (macrofago alternativo) → produtores de TGF-β e fibronectina

Nintedanibe (Ofev®, Boehringer Ingelheim)

Mecanismo: Inibidor de tirosina quinase de múltiplos receptores (FGFR1/2/3, VEGFR1/2/3, PDGFRα/β) → bloqueia sinalização pró-fibrótica e pró-angiogênica em fibroblastos e células endoteliais.

INPULSIS-1 e INPULSIS-2 (Richeldi L et al., NEJM 2014, N=1066 FPI): Nintedanibe 150 mg 2×/dia vs. placebo (52 semanas):

  • Declínio de CVF (capacidade vital forçada): −113,6 mL/ano (nintedanibe) vs. −223,5 mL/ano (placebo) — redução de declínio em 50%
  • Exacerbações agudas: redução numérica, sem significância estatística individual (mas metanálise positiva)
  • Diarreia em 62% vs. 18% — principal efeito adverso; tratável com loperamida/redução de dose
  • FDA aprovado 2014 para FPI

SENSCIS (Distler O et al., NEJM 2019, N=576 Esclerose Sistêmica-ILD): Nintedanibe em SSc-ILD → declínio CVF: −52 mL/ano vs. −93 mL/ano — aprovação em ILD associada à SSc (2019). INBUILD: nintedanibe em fibrose pulmonar progressiva (FP-UIP de outras causas) — CVF decline −80 vs. −128 mL/ano.

Pirfenidona (Esbriet®, Roche/Genentech)

Mecanismo: Molécula de piridona com múltiplos efeitos anti-fibróticos e anti-inflamatórios — mecanismo exato incompleto: redução de TGF-β1 e PDGF, supressão de citocinas TNF-α/IL-1β, inibição de proliferação de fibroblastos ativados.

ASCEND (King TE Jr et al., NEJM 2014, N=555 FPI, 52 semanas): Pirfenidona 2403 mg/dia (801 mg 3×/dia) vs. placebo:

  • Declínio de CVF ≥ 10% (ou morte): 16,5% (pirfenidona) vs. 31,8% (placebo) (P<0,001)
  • Sem exacerbações agudas com redução estatística
  • CAPACITY trials (Noble PW et al., Lancet 2011): Dois ensaios — resultado positivo no CAPACITY-2, marginal no CAPACITY-1 → metanálise combinada positiva
  • Fotossensibilidade (sunburn com pequena exposição solar em 9%) — fotoproteção; náusea; perda de peso

Comparação nintedanibe vs. pirfenidona: Ensaio direto (INJOURNEY/fase II) demonstrou segurança combinada (uso concomitante tolerável); eficácia equivalente em declínio de CVF — escolha por tolerabilidade e preferência do paciente.

Novos Alvos em FPI

Pamrevlumabe (anti-CTGF, FibroGen): CTGF (connective tissue growth factor/CCN2) — mediador downstream de TGF-β → fase III ZEPHYRUS-1 negativo 2023 (CVF não preservado vs. placebo); desenvolvimento interrompido.

Bexotegrast (PLN-74809, Pliant Therapeutics): Inibidor dual αvβ6/αvβ1 integrinas → bloqueia ativação de TGF-β latente por integrinas expressa em pneumócitos tipo II em FPI → fase II INTEGRIS-IPF 2023: redução de declínio de CVF vs. placebo (NEJM Evid 2023).

Asma Grave: Via Th2 e Biológicos

Asma Grave Eosinofílica: IL-5/IL-4/IL-13/TSLP

Asma grave afeta ~5-10% dos asmáticos mas responde por >50% dos custos da doença. Fenótipos:

  • Eosinofílica grave (eosinófilos sanguíneos ≥ 300-500/µL ou esputo ≥ 3%): Via Th2/IL-5/IL-4/IL-13/IgE dominante
  • Não-eosinofílica (neutrofílica ou paucigranulocítica): Via Th1/Th17, mais resistente a biológicos anti-Th2

Tezepelumabe (Tezspire®, AstraZeneca/Amgen): Anti-TSLP

Mecanismo: Anti-TSLP (thymic stromal lymphopoietin) — alarmina epitelial upstream de toda a cascata Th2 (ativa DCs → Th2/ILC2 → IL-4/5/13) E Th1/Th17. Bloqueia TSLP antes da diversificação → mais amplo que anti-IL5 ou anti-IL4Rα.

NAVIGATOR (Menzies-Gow A et al., NEJM 2021, N=1061 asma grave não-controlada a despeito de corticoide inalatório de dose alta + LABA): Tezepelumabe 210 mg q4sem vs. placebo (52 semanas):

  • Exacerbações anualizadas: 0,93 (tezepelumabe) vs. 2,10 (placebo) — redução de 56% (P<0,001)
  • Benefício em TODOS os subgrupos de eosinófilos (incluindo eosinófilos < 150/µL) — primeira vez que biológico mostra eficácia em não-eosinofílica
  • VEF1 (pré-broncodilatador): +0,23 L vs. +0,09 L; IOS (resistência): melhora
  • PATHWAY (fase IIb): redução de exacerbações dose-dependente
  • FDA aprovado 2021; EMA 2022

Benralizumabe (Fasenra®, AstraZeneca): Anti-IL-5Rα (ADCC-enhanced)

Mecanismo: Anti-IL-5Rα com afucose → potente ADCC (antibody-dependent cellular cytotoxicity via NK cells) → depleção DIRETA de eosinófilos (e basófilos) portadores de IL-5Rα. Redução de eosinófilos de 90-100% (maior que mepolizumabe, que bloqueia apenas ligante IL-5).

SIROCCO (Bleecker ER et al., Lancet 2016, N=1204) e CALIMA (FitzGerald JM et al., Lancet 2016, N=1306): Benralizumabe q4sem (8 doses) → q8sem vs. placebo:

  • Exacerbações anualizadas em eosinófilos ≥ 300/µL: −51% (SIROCCO) e −44% (CALIMA) vs. placebo
  • ZONDA (Nair P et al., NEJM 2017): Benralizumabe permitiu redução de prednisona oral de 75% vs. 25% placebo — steroid-sparing confirmado
  • Administrado a cada 8 semanas após indução (conveniência vs. mepolizumabe q4sem)

Mepolizumabe (Nucala®, GSK): Anti-IL-5

MENSA (Ortega HG et al., NEJM 2014, N=576 asma grave eosinofílica): Mepolizumabe 75 mg IV ou 100 mg SC q4sem → exacerbações anualizadas: −47% (IV) e −53% (SC) vs. placebo. SIRIUS (Oral steroid sparing): Dose prednisona reduzida em ≥50% em 59% vs. 37%. Aprovado em asma grave eosinofílica, síndrome hipereosinofílica, GEPA (granulomatose eosinofílica com poliangiite).

Dupilumabe em Asma (Dupixent®)

QUEST (Castro M et al., NEJM 2018, N=1902 asma moderada-grave): Dupilumabe 200/300 mg q2sem → exacerbações: −47,7% (200 mg) e −45,8% (300 mg) vs. placebo; VEF1: +0,32 L vs. +0,18 L. Efeito em eosinófilos ≥ 150/µL e IL-13 elevada. FDA aprovado 2018. Aprova também rinossinusite crônica com pólipo (RS-CRSwNP) e esofagite eosinofílica — via Th2 compartilhada.

Omalizumabe (Xolair®, Novartis/Genentech): Anti-IgE

Mecanismo: Liga-se ao domínio CH3 de IgE livre → previne ligação a FcεRI em mastócitos/basófilos → ↓ degranulação mediada por IgE; também ↓ receptor FcεRI em mastócitos circulantes.

INNOVATE (Humbert M et al., J Allergy Clin Immunol 2005): Omalizumabe em asma grave alérgica (IgE 30-700 UI/mL) → redução exacerbações −25% vs. placebo; melhora de controle. Indicado: asma moderada-grave alérgica mal-controlada com IgE elevada e sensibilização alérgena comprovada (RAST/SPT). Dosagem calculada por IgE sérica + peso corporal.

DPOC: Broncodilatadores, Anti-inflamatórios e Biológicos

Broncodilatadores de Ação Longa (LABA/LAMA)

Tiotropio (Spiriva®, Boehringer): Antagonista muscarínico M1/M3 de ação ultra-longa (>24h) — M3 nos brônquios medeia broncoconstrição → inibição → broncodilatação. UPLIFT (Tashkin DP et al., NEJM 2008, N=5993, 4 anos): Tiotropio vs. placebo → VEF1 pré-BD maior durante todo estudo (+87-103 mL vs. placebo) mas sem redução na taxa de declínio (diferença pós-BD 43 mL). Redução de exacerbações −14%; hospitalização -14%. No efeito em mortalidade (estudos de 4 anos). Evento: retenção urinária em HBP; glaucoma de ângulo fechado.

FLAME (Wedzicha JA et al., NEJM 2016, N=3362 DPOC GOLD B/C, comparativo ativo vs. LABA+ICS): Indacaterol/glicopirrônio (LABA/LAMA combo = Ultibro®) vs. salmeterol/fluticasona (LABA/ICS = Seretide®) — exacerbações/ano: 3,59 vs. 4,03 — LABA/LAMA superior a LABA/ICS em prevenção de exacerbações. Mudança de paradigma: combinação broncodilatadora mais eficaz que broncodilatador+ICS na maioria dos DPOC sem asma concomitante.

Triple therapy (LAMA+LABA+ICS): IMPACT trial (Lipson DA et al., NEJM 2018): Fluticasona furoato/umeclidínio/vilanterol (Trelegy® = FF/UMEC/VI) vs. LABA/LAMA → exacerbações moderadas/graves reduzidas em -15% vs. LABA/LAMA, −25% vs. LABA/ICS. Benefício em eosinófilos ≥ 150/µL.

Roflumilaste (Daliresp®): Anti-PDE4

Mecanismo: Inibidor seletivo de PDE4 (fosfodiesterase-4) → ↑ AMPc em células inflamatórias e musculares lisas → ↓ TNF-α, IL-8, LTB4, neutrófilos → anti-inflamatório sistêmico. Oral (500 µg 1×/dia).

HERMES e GALILEO/GEMINI (Calverley PM et al., Lancet 2009): Roflumilaste em DPOC grave com bronquite crônica → exacerbações: redução −17% vs. placebo; VEF1: +48 mL. Indicado: DPOC grave (VEF1 < 50%) + fenótipo bronquite crônica + ≥2 exacerbações/ano. Efeitos adversos: náusea/diarreia em primeiros meses, perda de peso (−2 kg mediana), depressão (monitorar humor).

Biológicos em DPOC

Dupilumabe (BOREAS/NOTUS — DPOC com eosinófilos ≥ 300/µL): BOREAS (Bhatt SP et al., NEJM 2023, N=939): Dupilumabe 300 mg q2sem → exacerbações moderadas/graves: 0,78 vs. 1,10 placebo (redução de 30%); VEF1 pré-BD: +0,16 L — primeiro biológico aprovado em DPOC (FDA 2024, eosinófilos ≥ 300). NOTUS confirmou achados.

Mepolizumabe (METREX/METREO): Resultados mistos em DPOC; METREX (N=836): redução exacerbações apenas em eosinófilos ≥ 150/µL −18%.

Referências Científicas

  1. Richeldi L et al. (INPULSIS). Efficacy and safety of nintedanib in idiopathic pulmonary fibrosis. *NEJM*. 2014;370(22):2071-2082. PMID: 24836310
  2. King TE Jr et al. (ASCEND). A phase 3 trial of pirfenidone in patients with idiopathic pulmonary fibrosis. *NEJM*. 2014;370(22):2083-2092. PMID: 24836312
  3. Menzies-Gow A et al. (NAVIGATOR). Tezepelumab in adults and adolescents with severe, uncontrolled asthma. *NEJM*. 2021;384(19):1800-1809. PMID: 33979486
  4. Bleecker ER et al. (SIROCCO). Benralizumab for inadequately controlled asthma. *Lancet*. 2016;388(10056):2115-2127. PMID: 27609408
  5. Ortega HG et al. (MENSA). Mepolizumab treatment in patients with severe eosinophilic asthma. *NEJM*. 2014;371(13):1198-1207. PMID: 25199059
  6. Tashkin DP et al. (UPLIFT). A 4-year trial of tiotropium in chronic obstructive pulmonary disease. *NEJM*. 2008;359(15):1543-1554. PMID: 18836213
  7. Wedzicha JA et al. (FLAME). Indacaterol-glycopyrronium versus salmeterol-fluticasone for COPD. *NEJM*. 2016;374(23):2222-2234. PMID: 27181606
  8. Bhatt SP et al. (BOREAS). Dupilumab for COPD with type 2 inflammation indicated by eosinophil counts. *NEJM*. 2023;389(3):205-214. PMID: 37272521
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Referências Científicas

  1. Pellicano C, Cusano G, Colalillo A et al. Thymic stromal lymphopoietin in systemic sclerosis interstitial lung disease: a pilot study. Clinical and experimental rheumatology, 2025.O estudo piloto avaliou TSLP — alvo molecular do tezepelumabe — em doença pulmonar intersticial associada à esclerodermia, conectando o mecanismo de ação do biológico ao contexto clínico discutido.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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