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← Blog·Oncologia20 de junho de 2026

Peptídeos em Oncologia Pulmonar: KRAS G12C (Sotorasibe/Adagrasibe), Fusões NTRK e Terapias-Alvo em NSCLC

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Equipe Peptídeos Bio
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# Peptídeos em Oncologia Pulmonar: KRAS G12C, NTRK, RET e Terapias-Alvo em NSCLC

O câncer de pulmão é a primeira causa de morte por câncer no mundo (~1,8 milhões de óbitos/ano). O NSCLC (non-small cell lung cancer) representa 85% dos casos — adenocarcinoma (40%), carcinoma escamoso (25%), carcinoma de células grandes (15%). A revolução molecular das últimas duas décadas transformou o NSCLC de uma doença tratada apenas com quimioterapia em uma série de subtipos moleculares definidos por driver oncogênico — cada um com terapia-alvo específica. O mapeamento molecular (NGS/liquid biopsy) é obrigatório no diagnóstico.

Landscape de Alterações Moleculares no NSCLC

Frequências aproximadas (adenocarcinoma):

  • KRAS: 25-30% (G12C ~13%, G12V/G12D/outros)
  • EGFR: 15-20% (ex19del, L858R — maior em asiáticos/não-fumantes)
  • ALK: 3-7% (fusões EML4-ALK e variantes)
  • ROS1: 1-2% (fusões CD74-ROS1, SDC4-ROS1)
  • RET: 1-2% (fusões KIF5B-RET, CCDC6-RET)
  • MET: 3-5% (exon 14 skip) + amplificação MET como mecanismo de resistência
  • NTRK1/2/3: < 1% (fusões ETV6-NTRK3, TPM3-NTRK1, LMNA-NTRK1)
  • BRAF V600E: 1-3%
  • ERBB2 (HER2): 2-4% (mutações exon 20 insertion)

KRAS G12C: Quebrando o "Undruggable"

Biologia do KRAS e Mutação G12C

O KRAS (Kirsten RAS) é uma GTPase monomérica — oncoproteína que cicla entre GDP-bound (inativa) e GTP-bound (ativa). Na forma wild-type: GTP hidrolisado para GDP pela atividade GTPase intrínseca (acelerada por GAPs — GTPase-activating proteins). Mutações em G12 (Glicina12) → perda de atividade GTPase intrínseca → KRAS-GTP constitutivo → ativação permanente de RAF/MEK/ERK e PI3K/AKT/mTOR.

A mutação G12C (Glicina→Cisteína no codon 12): Apenas em G12C, a cisteína oferece um grupo sulfidril reativo → permite desenvolvimento de inibidores covalentes irreversíveis que se ligam à bolsa Switch-II (S-IIP) do KRAS-GDP — bloqueando o ciclo de nucleotídeo → KRAS preso em estado inativo GDP-bound.

Sotorasibe (Lumakras®, AMG 510, Amgen)

Primeiro inibidor covalente de KRAS G12C aprovado FDA (maio 2021) para NSCLC KRAS G12C previamente tratado.

Mecanismo: Liga-se covalentemente à Cys12 na S-IIP do KRAS G12C-GDP → impede troca GDP→GTP catalisada por GEFs (SOS1/SOS2) → KRAS preso inativo → sem sinalização downstream RAS-MAPK.

CodeBreaK 100 (Hong DS et al., NEJM 2020 — fase I/II, N=129 NSCLC KRAS G12C):

  • 960 mg VO 1×/dia → ORR 37,1%, DCR 80,6%, mediana PFS 6,8 meses, mediana OS 12,5 meses
  • Efeitos adversos: diarreia (31%), náusea (19%), hepatotoxicidade ALT/AST ≥ G3 (15% — monitorar transaminases)

CodeBreaK 200 (fase III vs. docetaxel, N=345, NSCLC 2ª linha):

  • Sotorasibe vs. docetaxel → PFS 5,6 vs. 4,5 meses (HR 0,66, P=0,002); ORR 28% vs. 13%; OS sem diferença significativa (10,6 vs. 11,3 meses — potencialmente por crossover e tratamentos pós-progressão)

Resistência a sotorasibe: Mutações secundárias em KRAS (Y96D — bloqueia ligação à S-IIP; R68S/H95), ativação de outras vias (EGFR, MEK, AXL amplificação), amplificação KRAS G12C adicional → combinações em investigação (sotorasibe + EGFR inibidor).

Adagrasibe (Krazati®, MRTX849, Mirati/BMS)

Mecanismo: Inibidor covalente de KRAS G12C-GDP similar ao sotorasibe, mas com maior meia-vida (24h vs. 5h sotorasibe) e penetração no SNC.

KRYSTAL-1 (Hallin J et al., Cancer Discov 2020; Jänne PA et al., NEJM 2022 — fase I/II, N=116 NSCLC):

  • 600 mg VO 2×/dia → ORR 42,9%, DCR 79,5%, mediana PFS 6,5 meses, mediana OS 12,6 meses
  • ORR em metástase cerebral: 42% intracraniana (única KRAS G12C inibi com dados SNC robustos)
  • Efeitos adversos: GI (diarreia 87% qualquer grau, náusea 69%), prolongamento QTc (grau 3+ 6,2%)

Comparação sotorasibe vs. adagrasibe: Sem estudo head-to-head; adagrasibe possivelmente superior em SNC (meia-vida longa, penetração cerebral); sotorasibe melhor tolerabilidade QTc. Ambos aprovados FDA 2ª linha+.

Adagrasibe + cetuximabe (KRYSTAL-1 coorte, Yaeger R et al., NEJM 2023): Em CRC KRAS G12C — ORR 34% (vs. 19% adagrasibe mono) → combinação bloqueia feedback de EGFR que reativa KRAS.

Combinações e Pipeline KRAS G12C

  • Sotorasibe + panitumumabe (CodeBreaK 101) — NSCLC e CRC
  • Sotorasibe + pembrolizumabe — cautela: CodeBreaK 101 hepatotoxicidade elevada em combinação → descontinuado
  • MRTX1133 (G12D-specific, Mirati): Não-covalente para G12D (mais frequente que G12C em pâncreas)
  • RMC-9805 (Revolution Medicines): Pan-KRAS, pan-RAS — em fase I 2024
  • SOS1 inibidores (BI-3406, BAY-293): Bloqueiam GEF SOS1 → menos troca GDP→GTP → downstream sem KRAS ativo; eficazes pan-KRAS (não exige G12C)

Fusões NTRK: Tumor-Agnostic (NSCLC e além)

Biologia das Fusões NTRK

Os genes NTRK1/2/3 codificam os receptores tirosina quinase TRKA/B/C — neurotrofinas (NGF, BDNF, NT-3/4) → sinalização de sobrevida neural. Fusões cromossômicas (ETV6-NTRK3 em fibroblasto secretório; TPM3-NTRK1 em NSCLC; LMNA-NTRK1 em câncer de tireoide) → quinase constitutivamente ativa independente de ligante → ativa RAS/MAPK, PI3K/AKT, PLCγ.

NTRK no NSCLC: Raro (< 1%) — maior frequência em tumor congênito das células fusiformes/fibrossarcoma infantil (ETV6-NTRK3 ~90%) e carcinoma papilífero de tireoide, NSCLC "pan-negativo" (sem EGFR/ALK/ROS1/KRAS).

Detecção: NGS (DNA panel ou RNA fusion panel), FISH, IHC pan-TRK (clone EPR17341 — alto NPV, PPV variável); RNA sequencing é gold standard para fusões.

Larotrectinibe (Vitrakvi®, LOXO-101/TRK-001, Lilly)

Primeiro inibidor TRK aprovado tumor-agnostic FDA (novembro 2018) — baseado em biomarcador, não histologia.

Mecanismo: Inibidor ATP-competitivo pan-TRK (TRKA/B/C) altamente seletivo; IC50 sub-nanomolar para fusões NTRK.

Ensaio pivotal (Drilon A et al., NEJM 2018 — Basket, N=55 pacientes com fusões NTRK 17 tipos tumorais):

  • ORR 75%, CR 22%, DCR 93%; mediana DOR: 44,2 meses (atualização 2021)
  • NSCLC: ORR ~70% (coorte pequena N=12)
  • Benign tolerability: efeitos adversos grade 1-2 predominantes (tonteira, astenia, náusea); raros G3 (< 10%)

Resistência: Mutações no domain kinase (solvent front: G595R/G667C; gatekeeper: F589L; DFG-loop: G667C) → resistência adquirida → resposta a larotrectinibe de 2ª geração.

Entrectinibe (Rozlytrek®, RXDX-101, Genentech/Roche)

Mecanismo: Inibidor TRK/ROS1/ALK (pan-TRK + ROS1 + ALK) — especificidade maior que larotrectinibe para ROS1; penetração no SNC significativa.

STARTRK-2 + ALKA + STARTRK-1 (pooled, Doebele RC et al., Lancet Oncol 2020 — N=54 fusões NTRK):

  • ORR 57% (vs. 75% larotrectinibe — diferença por inclusão de casos refratários); intracraniana: ORR 55% em 7 pacientes
  • Efeitos adversos: sabor metálico, constipação, diarréia, peso, bradicardia, anemia

FDA aprovado 2019 para adultos/pediátricos com fusões NTRK (tumor-agnostic) + NSCLC ROS1+.

Repotrectinibe (Augtyro®, TPX-0005, BMS)

Mecanismo: TRK/ROS1/ALK inibidor "next-generation" — macrocíclico, menor footprint no sítio de ligação → mantém atividade contra mutações de resistência (G595R, G667C, solvent front).

TRIDENT-1 (FDA aprovado outubro 2023): NSCLC ROS1+ (linha 1 e TKI-pretratados); em fusões NTRK com resistência a larotrectinibe/entrectinibe → ORR em resistentes 47%.

Fusões RET em NSCLC

Biologia RET e Fusões

RET (REarranged during Transfection) — proto-oncogene codificando receptor tirosina quinase (ligante: GDNF-família neurotrofinas) → normalmente expresso em tecido neural/tireoide. Fusões (KIF5B-RET ~70%, CCDC6-RET ~15%) → RET constitutivamente ativo.

Selpercatinibe (Retevmo®, LOXO-292, Lilly) e Pralsetinibe (Gavreto®, BLU-667, Blueprint/Roche)

LIBRETTO-001 (Drilon A et al., NEJM 2020, N=105 NSCLC RET+, TKI-naive):

  • Selpercatinibe 160 mg 2×/dia → ORR 84%, DCR 96%, mediana PFS 22 meses — extraordinária para NSCLC 1ª linha
  • Metástase cerebral: ORR intracraniana 91% (N=11) — penetração SNC excelente
  • Efeitos adversos: hipertensão, hepatotoxicidade, QTc leve; muito melhor tolerado que multikinase RET inibidores (vandetanibe, cabozantinibe)

ARROW (Gainor JF et al., NEJM 2021, N=87 NSCLC RET+ não-pretratados): Pralsetinibe 400 mg 1×/dia → ORR 72% (não-pretratados), 61% pré-tratados. FDA 2020.

RET seletivo vs. multikinase: Selpercatinibe/pralsetinibe muito mais seletivos que vandetanibe/cabozantinibe → menor toxicidade cardiovascular/cutânea, melhor perfil.

Resistência: Mutações solvent front RET (G810R/S/C) → drogas 2ª geração em desenvolvimento.

MET Exon 14 Skip em NSCLC

MET (Mesenchymal-Epithelial Transition) — receptor tirosina quinase ativado pelo HGF (hepatocyte growth factor). Mutações no exon 14 (região de splicing → skip → ausência do domínio regulatório com ubiquitinação Cbl → MET não degradado → ativação prolongada).

Frequência: 3-4% NSCLC, maior em sarcomatoid/adenosquamous carcinoma; média de idade avançada, mais frequente em tabagistas históricos.

Tepotinibe (Tepmetko®) — VISION trial (Paik PK et al., NEJM 2020, N=152 NSCLC MET ex14): ORR 46% (liquid biopsy diagnóstico), 48% (tissue biopsy); mediana PFS 8,5 meses. FDA 2021.

Capmatinibe (Tabrecta®) — GEOMETRY mono-1 (Wolf J et al., NEJM 2020, N=97 MET ex14): ORR 68% (1ª linha!), 41% (pré-tratados). FDA 2020.

Amivantamabe + lazertinibe em MET amplificação pós-resistência EGFR osimertinibe: MARIPOSA/PAPILLON trials — combinação bispecific EGFR/MET. Amivantamabe (Rybrevant®) aprovado FDA 2024 + lazertinibe para NSCLC EGFR ex19del/L858R 1ª linha (MARIPOSA, Cho BC et al., NEJM 2024, OS HR 0,75).

Imunoterapia no NSCLC: Pembrolizumabe como Base

KEYNOTE-024 (Reck M et al., NEJM 2016 — N=305 NSCLC PD-L1 ≥50%, sem EGFR/ALK): Pembrolizumabe vs. quimio → PFS 10,3 vs. 6,0 meses (HR 0,50); OS 30 vs. 14 meses → padrão 1ª linha para PD-L1 ≥50%.

KEYNOTE-189 (Gadgeel S et al., NEJM 2018 — N=616 NSCLC não-escamoso): Pembro + platina + pemetrexede vs. quimio → OS HR 0,56 (12 meses 69,2% vs. 49,4%) → padrão 1ª linha independente de PD-L1 (não-escamoso).

Atezolizumabe (IMpower150): Atezolizumabe + bevacizumabe + carboplatina + paclitaxel → NSCLC com EGFRm/ALK+ que progrediram em TKI → opção pós-TKI.

Referências Científicas

  1. Jänne PA et al. (KRYSTAL-1). Adagrasib in non-small-cell lung cancer harboring a KRAS G12C mutation. *NEJM*. 2022;387(2):120-131. PMID: 35658005
  2. Skoulidis F et al. (CodeBreaK 100). Sotorasibe for lung cancers with KRAS p.G12C mutation. *NEJM*. 2021;384(25):2371-2381. PMID: 34161704
  3. Drilon A et al. (LOXO-TRK/Larotrectinibe). Efficacy of larotrectinib in TRK fusion-positive cancers in adults and children. *NEJM*. 2018;378(8):731-739. PMID: 29466156
  4. Drilon A et al. (LIBRETTO-001). Efficacy of selpercatinib in RET fusion-positive non-small-cell lung cancer. *NEJM*. 2020;383(9):813-824. PMID: 32846060
  5. Paik PK et al. (VISION). Tepotinib in non-small-cell lung cancer with MET exon 14 skipping mutations. *NEJM*. 2020;383(10):931-943. PMID: 32877583
  6. Wolf J et al. (GEOMETRY). Capmatinib in MET exon 14-mutated or MET-amplified non-small-cell lung cancer. *NEJM*. 2020;383(10):944-957. PMID: 32877582
  7. Reck M et al. (KEYNOTE-024). Pembrolizumab versus chemotherapy for PD-L1-positive non-small-cell lung cancer. *NEJM*. 2016;375(19):1823-1833. PMID: 27718847
  8. Doebele RC et al. (STARTRK-2). Entrectinib in patients with advanced or metastatic NTRK fusion-positive solid tumours. *Lancet Oncol*. 2020;21(2):271-282. PMID: 31838007
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Referências Científicas

  1. Skoulidis F, Li BT, de Langen AJ et al. Molecular determinants of sotorasib clinical efficacy in KRAS(G12C)-mutated non-small-cell lung cancer. Nature medicine, 2025.O estudo identificou determinantes moleculares da eficácia clínica do sotorasibe em NSCLC com mutação KRAS G12C, embasando a discussão sobre resistência e seleção de pacientes para inibidores alvo.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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