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← Blog·Emergência20 de junho de 2026

Peptídeos em Medicina de Emergência: Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP/ACLS), Vasopressores, Epinefrina e Manejo do Choque

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Equipe Peptídeos Bio
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# Peptídeos em Medicina de Emergência: RCP, Vasopressores e Choque

A medicina de emergência opera em janelas terapêuticas extremamente curtas onde a farmacologia precisa deve ser aplicada em segundos a minutos. Os peptídeos e proteínas vasoativas (epinefrina/adrenalina, vasopressina, ocitocina, glucagon, insulina IV), os agentes fibrinolíticos (alteplase — tPA recombinante) e antitrombóticos (enoxaparina, fondaparinux, bivalirudina) formam a espinha dorsal do tratamento de emergência de condições com risco de vida imediato.

Parada Cardiorrespiratória (PCR) e ACLS

Fisiopatologia da PCR

A PCR (parada cardiorrespiratória) interrompe a circulação → sem perfusão cerebral → lesão neuronal irreversível começa em 4-6 minutos. Ritmos de PCR:

  • Fibrilação ventricular (FV) e Taquicardia ventricular sem pulso (TVsp): Ritmos "chocáveis" — desfibrilação elétrica é o único tratamento eficaz (farmacologia adjuvante)
  • Atividade elétrica sem pulso (AESP): Atividade elétrica presente mas sem débito cardíaco eficaz → causas reversíveis (5Hs: hipóxia, hipovolemia, hipo/hipercalemia, hipotermia, hidrogênio acidose; 5Ts: pneumotórax hipertensivo, tamponamento, toxinas, tromboembolismo pulmonar, trombose coronariana)
  • Assistolia: Sem atividade elétrica → pior prognóstico

Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP) de Alta Qualidade

AHA/ILCOR 2020 Guidelines:

  • Frequência de compressões: 100-120/min; profundidade: 5-6 cm (adulto)
  • Relação compressões:ventilações: 30:2 sem via aérea avançada; contínuas (>120/min) com via aérea avançada
  • Minimizar interrupções: < 10 seg para checagem de ritmo/desfibrilação; sem interrupção para acesso venoso
  • Feedback em tempo real: Dispositivos de RCP com feedback de qualidade (força, frequência) melhoram survival to discharge

Desfibrilação precoce: Cada minuto sem desfibrilação em FV → reduz sobrevida 7-10%; AED (DEA) disponível publicamente → chance de sobrevida em PCR pré-hospitalar de 5% sem DEA para 30-50% com DEA precoce

Epinefrina (Adrenalina) na PCR

Mecanismo: Agonista não-seletivo α1/α2/β1/β2 adrenérgico. Na PCR:

  • α1: Vasoconstrição arteriolar periférica → ↑ RVS → ↑ pressão de perfusão coronariana (coronary perfusion pressure, CPP) e cerebral → melhora eficácia das compressões
  • β1: Cronotropismo/inotropismo (efeito secundário na PCR; potencialmente aumenta demanda de O2 em miocárdio já isquêmico)

ACLS 2020:

  • Ritmos não-chocáveis (AESP/assistolia): Epinefrina 1 mg IV a cada 3-5 minutos — iniciar o mais cedo possível
  • Ritmos chocáveis (FV/TVsp): Epinefrina após a 3ª desfibrilação (não priorizar sobre desfibrilação) — 1 mg IV/IO q3-5 min
  • Via alternativa: IO (intraósseo) quando acesso IV difícil

PARAMEDIC-2 trial (Perkins GD et al., NEJM 2018 — N=8014 PCR pré-hospitalar):

  • Epinefrina vs. placebo → retorno de circulação espontânea (ROSC): 36% vs. 11% (P<0,001) — epinefrina favorável para ROSC
  • Sobrevida a 30 dias: 3,2% vs. 2,4% (OR 1,39, P=0,02) — estatisticamente favorável
  • Alta com desfecho neurológico favorável (CPC 1-2): 2,2% vs. 1,9% — *sem diferença significativa* (P=0,16)
  • Conclusão ambígua: Epinefrina melhora ROSC mas os sobreviventes que retornam têm mais frequentemente anóxia cerebral severa → debate em curso sobre timing ideal de epinefrina

Epinefrina em anafilaxia: IM 0,3-0,5 mg (adulto, EpiPen® 0,3 mg) na região anterolateral da coxa → α1-mediated vasoconstrição para hipotensão/angioedema; β2 broncodilatação; não há dose máxima em anafilaxia grave

Amiodarona e Lidocaína em FV/TVsp Refratária

Amiodarona (Cordarone®): Antiarrítmico classe III (bloqueia canais K+ → prolonga potencial de ação/QTc) + classe I (bloqueia Na+), II (β-bloqueio não-competitivo), IV (bloqueia Ca2+). Em PCR FV/TVsp pós-3ª desfibrilação:

  • 300 mg IV bolus (em 20-30 mL D5W); dose seguinte 150 mg se FV persistente
  • ALPS trial (Kudenchuk PJ et al., NEJM 2016 — N=3026 FV/TVsp pré-hospitalar): Amiodarona vs. lidocaína vs. placebo → *sem diferença em sobrevida com boa função neurológica* (24,4% vs. 23,7% vs. 21,0%) — evidência para preferência entre antiarrítmicos em PCR é fraca

Lidocaína: Classe Ib (bloqueia Na+ em células em fase de despolarização rápida — preferência por células isquêmicas/arrítmicas). Alternativa à amiodarona: 1-1,5 mg/kg bolus IV → 0,5-0,75 mg/kg q5-10 min (máx 3 mg/kg). Metabolismo hepático (CYP3A4, CYP1A2) — reduzir dose em hepatopatia.

Bicarbonato de sódio: Não recomendado rotineiramente em PCR; considerar em acidose metabolica grave documentada (pH < 7,1), hipercalemia, overdose de ATC (antidepressivos tricíclicos), intoxicação por cocaína.

Vasopressores no Choque

Choque Séptico: Norepinefrina como Primeira Linha

Choque séptico: Hipotensão persistente (PAM < 65 mmHg) + necessidade de vasopressor + lactato > 2 mmol/L após ressuscitação volêmica adequada. Mortalidade ~30-50% mesmo com tratamento moderno.

Norepinefrina (noradrenalina): Agonista predominantemente α1/α2 (vasoconstricção) + β1 fraco (inotropismo). PAM-alvo 65-70 mmHg (SEPSISPAM trial — alvo maior PAM 80-85 mmHg não melhora sobrevida em choque séptico, exceto em hipertensão crônica prévia).

  • CATS trial (De Backer D et al., NEJM 2010 — N=1679 choque circulatório): Norepinefrina vs. dopamina → mortalidade 28 dias: 48,5% vs. 52,5% — sem diferença em sobrevida total; arritmias: 24,1% dopamina vs. 12,4% norepinefrina (P<0,001) → norepinefrina preferida (SURVIVE também confirma)

Vasopressina: Peptídeo endógeno (ADH — hormônio antidiurético) produzido no hipotálamo, liberado pela neuro-hipófise. Age em receptores V1 (vasoconstricção arteriolar via Gq→IP3→Ca2+) e V2 (retenção de água nos dutos coletores renais via Gs→PKA→aquaporina-2). No choque séptico, vasopressina endógena depleta rapidamente → administração exógena complementa norepinefrina.

  • VASST trial (Russell JA et al., NEJM 2008 — N=778 choque séptico em norepinefrina): Vasopressina 0,03 U/min vs. norepinefrina titulada → mortalidade 28 dias: 35,4% vs. 39,3% (P=0,26) — sem diferença; subgrupo com choque menos grave (NE < 15 µg/min): vasopressina → 26,5% vs. 35,7% (P=0,05 — exploratório)
  • Uso atual: Vasopressina 0,03-0,04 U/min associada à norepinefrina para poupar dose de NE (reduz risco de arritmia) — VASST + VANISH (add-on)

Angiotensina II (Giapreza®): Peptídeo vasoativo endógeno (via RAAS) → vasoconstricção V1R-similar via AT1R → aprovado FDA 2017 para choque vasoplégico refratário. ATHOS-3 (Khanna A et al., NEJM 2017 — N=321): angiotensina II vs. placebo → PAM ≥75 mmHg a 3h: 70% vs. 23% (P<0,001); mortalidade não-endpoint primário, sem diferença a 28 dias. Uso em choque refratário poupando norepinefrina + vasopressina.

Choque Cardiogênico: Dobutamina, Dopamina e Milrinona

Choque cardiogênico (débito cardíaco baixo + congestão — IAM, miocardite, IC descompensada grave): PAM < 65 mmHg + índice cardíaco < 2,2 L/min/m² + pressão de enchimento elevada (PCWP > 18 mmHg).

Dobutamina: Agonista sintético β1 > β2 → inotropismo e cronotropismo positivos → ↑ débito cardíaco; vasodilatação β2 leve → reduz pós-carga. Dose: 2-20 µg/kg/min IV. Associar norepinefrina se vasodilatação excessiva. Taquicardia/arritmias como limitação.

Milrinona: Inibidor de PDE3 (fosfodiesterase-3) → ↑ AMPc em cardiomiócitos → Ca2+ intracelular → inotropismo; ↑ AMPc em músculo liso vascular → vasodilatação pulmonar e sistêmica → inodilador ideal em IC + hipertensão pulmonar. Metabolismo renal → cuidado em insuficiência renal.

Levosimendana (Simdax®): Sensibilizador de troponina ao cálcio (liga-se a TnC → melhora acoplamento excitação-contração sem ↑ Ca2+ → menos arritmogênico); também inibidor PDE3. REVIVE-II/SURVIVE trials: não reduziu mortalidade vs. dobutamina, mas melhora sintomática. Disponível em Brasil; aprovação limitada em EUA.

IABP (Balão de Contrapulsação Intra-Aórtico): Insuflação em diástole → ↑ perfusão coronariana; desinsuflação em sístole → ↓ pós-carga. IABP-SHOCK II (Thiele H et al., NEJM 2012 — N=600 IAM + choque cardiogênico): IABP vs. controle → mortalidade 30 dias: 39,7% vs. 41,3% (P=0,69) — IABP não reduz mortalidade no choque cardiogênico por IAM; uso caiu drasticamente.

Impella® (axial flow pump) e ECMO: ECMO VA (extracorporeal membrane oxygenation venoarterial) em choque cardiogênico refratário → sobrevida 40-50% em centros especializados; ECMO-CS trial em andamento.

Fibrinólise em Emergência: tPA em AVC e STEMI

Alteplase (Actilyse®, tPA recombinante)

Mecanismo: tPA (tissue-type plasminogen activator) → ativa plasminogênio ligado ao fibrin → plasmina → dissolve fibrina → trombolítico seletivo para fibrina (menos sistêmico que estreptoquinase).

AVC isquêmico agudo (janela 4,5 horas):

  • NINDS trial (NEJM 1995): tPA 0,9 mg/kg IV (10% bolus, 90% em 60 min, máx 90 mg) < 3h → mRankin 0-1 a 3 meses: 39% vs. 26% placebo (OR 1,7, P<0,001) — aprovação FDA
  • ECASS III (Hacke W et al., NEJM 2008): Janela expandida 3-4,5h → mRankin 0-1: 52,4% vs. 45,2% (OR 1,34, P=0,04) → extensão para 4,5h
  • Contraindicações absolutas: NIHSS > 25 (risco hemorragia), pressão > 185/110, anticoagulação ativa com INR > 1,7, hemorragia cerebral prévia
  • Hemorragia intracraniana sintomática: ~6% com tPA (vs. 1% placebo) — risco principal

STEMI (janela < 12h sem ICP disponível):

  • Tenecteplase (TNKase®): Variante de tPA com maior meia-vida → dose única em bolus IV (30-50 mg ajustado ao peso); ASSENT-2 (NEJM 1999): equivalente à alteplase em mortalidade, menos sangramento não cerebral
  • STREAM trial (Armstrong PW et al., NEJM 2013 — STEMI com ICP > 1h): Tenecteplase farmacoinvasiva (trombolítico + ICP de resgate dentro de 6-24h) vs. ICP primária → mortalidade 30 dias semelhante; hemorragia intracraniana dobrou (ajustada dose em ≥75 anos → OK)

Hemostasia em Trauma: Damage Control

Ácido Tranexâmico (TXA)

Mecanismo: Análogo sintético da lisina → ocupa sítio de ligação à lisina do plasminogênio → impede ativação plasminogênio→plasmina → reduz fibrinólise traumática.

CRASH-2 (Roberts I et al., Lancet 2010 — N=20.211 trauma com hemorragia ou risco):

  • TXA 1g IV em 10 min + 1g em 8h dentro de 3h do trauma vs. placebo → mortalidade por hemorragia: 4,9% vs. 5,7% (RR 0,85, P=0,0077) → redução absoluta 0,8%, NNT=125
  • Mortalidade total: 14,5% vs. 16,0% (RR 0,91, P=0,0035)
  • Tratamento além de 3h: TXA *aumentou* mortalidade por sangramento → janela estrita < 3h
  • Aprovado em trauma, cirurgia cardíaca, obstetrícia (WOMAN trial — hemorragia pós-parto)

Protocolo de Transfusão Massiça

PROPPR trial (Holcomb JB et al., JAMA 2015 — N=680 trauma hemorrágico grave):

  • Plasma fresco congelado:concentrado de hemácias:plaquetas 1:1:1 vs. 1:1:2 → hemostasia em 24h: 86% vs. 78% (P=0,006); mortalidade 24h: 9% vs. 15% (P=0,04) → ratio 1:1:1 reduz mortalidade precoce
  • Fibrinogênio (crioprecipitado/concentrado de fibrinogênio): Repor se < 1,5 g/L; target ≥ 2 g/L

Fator VIIa recombinante (NovoSeven®): Em hemorragia ativa refratária → ativa coagulação diretamente (via extrínseca) independente de FVIII/FIX; alto custo, risco trombótico; uso compassivo em trauma/cirurgia refratária.

Referências Científicas

  1. Perkins GD et al. (PARAMEDIC-2). A randomized trial of epinephrine in out-of-hospital cardiac arrest. *NEJM*. 2018;379(8):711-721. PMID: 30021076
  2. Kudenchuk PJ et al. (ALPS). Amiodarone, lidocaine, or placebo in out-of-hospital cardiac arrest. *NEJM*. 2016;374(18):1711-1722. PMID: 27043165
  3. De Backer D et al. (CATS). Comparison of dopamine and norepinephrine in the treatment of shock. *NEJM*. 2010;362(9):779-789. PMID: 20200382
  4. Russell JA et al. (VASST). Vasopressin versus norepinephrine infusion in patients with septic shock. *NEJM*. 2008;358(9):877-887. PMID: 18305265
  5. Thiele H et al. (IABP-SHOCK II). Intraaortic balloon support for myocardial infarction with cardiogenic shock. *NEJM*. 2012;367(14):1287-1296. PMID: 22920912
  6. Hacke W et al. (ECASS III). Thrombolysis with alteplase 3 to 4.5 hours after acute ischemic stroke. *NEJM*. 2008;359(13):1317-1329. PMID: 18815396
  7. Roberts I et al. (CRASH-2). The CRASH-2 trial: a randomised controlled trial and economic evaluation of the effects of tranexamic acid on death, vascular occlusive events and transfusion requirement in bleeding trauma patients. *Health Technol Assess*. 2013;17(10):1-79. PMID: 23477634
  8. Holcomb JB et al. (PROPPR). Transfusion of plasma, platelets, and red blood cells in a 1:1:1 vs a 1:1:2 ratio and mortality in patients with severe trauma. *JAMA*. 2015;313(5):471-482. PMID: 25647203
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Referências Científicas

  1. Santos M, Gavina C, Martins E et al. [Use of Natriuretic Peptides in the Diagnosis of Heart Failure in Primary Healthcare in Portugal: A Proposal from Clinical and Laboratory Experts]. Acta medica portuguesa, 2026.O consenso de especialistas portugueses examinou o uso dos peptídeos natriuréticos (BNP/NT-proBNP) no diagnóstico de insuficiência cardíaca, exemplificando a aplicação clínica de peptídeos em cenários de urgência.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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