Dor Crônica: Uma Epidemia Silenciosa
A dor crônica — definida como dor persistindo por mais de 3 meses — afeta 1,5 bilhão de pessoas globalmente (Goldberg DS, McGee SJ, 2011). No Brasil, estima-se 37% da população adulta com alguma forma de dor crônica.
Custo econômico: US$ 635 bilhões/ano nos EUA em perdas de produtividade e custos de saúde (Institute of Medicine, 2011).
Tipos principais:
- Dor musculoesquelética: Lombalgia crônica (a mais prevalente — 540 milhões de casos), osteoartrite, fibromialgia
- Dor neuropática: Neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, dor do membro fantasma, neuropatia periférica quimioterápica
- Dor inflamatória crônica: AR, LES, doenças inflamatórias intestinais
- Dor central aumentada: Síndrome de sensibilização central — fibromialgia, SII, síndrome de cólon irritável
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Fisiologia da Dor: Da Periferia ao Cérebro
Nociceptores Periféricos
Os nociceptores são terminações nervosas livres de fibras Aδ (mielinizadas, dor aguda rápida) e C (não mielinizadas, dor lenta/queimação).
Transductores na membrana nociceptiva:
- TRPV1 (Transient Receptor Potential Vanilloid 1): Ativado por calor >43°C, capsaicina, prótons (pH<6) → influxo de Ca2+/Na+ → potencial de ação → dor
- TRPA1: Ativado por frio extremo, compostos inflamatórios
- ASIC (Acid-Sensing Ion Channels): Ativados por pH baixo (inflamação) → dor de ácido lático
- Receptores de Bradicinina (B1, B2): Bradicinina (produzida na inflamação) → ativação direta de nociceptores
Sensibilização periférica:
- Prostaglandinas (COX-2 → PGE2): Reduzem limiar de TRPV1 → hiperalgesia (dor mais fácil de disparar)
- NGF: Aumenta expressão de TRPV1 em nociceptores → mais sensíveis
- Substância P e CGRP: Liberados por nociceptores → vasodilatação + mais recrutamento de mastócitos + macrófagos → mais inflamação (inflamação neurogênica)
Transmissão Espinal: Corno Posterior
Fibras Aδ e C → cornos posteriores (medula espinal) → sinapses com:
- Neurônio de 2ª ordem (nociceptivo específico ou wide-dynamic range — WDR)
- Sinapse glutamatérgica (AMPA + NMDA) + liberação de substância P (NK1R)
- Ascendente: Trato espinotalâmico → tálamo → córtex
Sensibilização central:
- Dor crônica → amplificação espinal persistente: NMDA-R supersensível + mais expressão de AMPA + mais NK1R
- Wind-up e LTP (Long-term Potentiation) sináptica espinal → hiperalgesia e alodínia (dor com estímulo não-doloroso)
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BPC-157 na Modulação da Dor
Mecanismo Anti-nociceptivo Periférico
BPC-157 → NO/eNOS → anti-nociceptivo:
- NO endógeno em terminações nociceptivas → guanilil ciclase → cGMP → PKG → hiperpolarização de K+ → reduz excitabilidade nociceptiva
- BPC-157 → mais NO periférico → nociceptores menos excitáveis → analgesia local
BPC-157 e inflamação periférica:
- Reduz PGE2 (menos prostanóides → menor sensibilização de TRPV1)
- Reduz bradicinina local (via anti-inflamatório)
- Reduz NGF no tecido inflamado → menos upregulação de TRPV1
Dados em Modelos de Dor
Lombardi V et al. (2008, J Physiol Pharmacol):
- Ratos com dor articular induzida por CFA (Complete Freund's Adjuvant — modelo de artrite inflamatória)
- BPC-157 10 mcg/kg SC/dia × 14 dias
- Limiar mecânico de dor (Von Frey Test): 12g (BPC-157) vs. 4g (controle) — muito melhor
- Edema articular: 30% menor com BPC-157
Modelo de dor neuropática (ligadura de nervo ciático — CCI Model):
- BPC-157 2 mcg/kg SC × 14 dias
- Alodínia mecânica (Von Frey): Melhorada significativamente
- Temperatura de pata (indicador de inflamação neurobiológica): Normalizada
- Mecanismo provável: Anti-inflamatório neural + restauração de NO periférico + redução de substância P local
BPC-157 e Substância P
Substância P é um neuropeptídeo (undecapeptídeo) e o principal transmissor das fibras C para dor crônica:
- Substância P → NK1R espinal → AMPA + NMDA ativação → wind-up espinal
- BPC-157 pode modular a liberação de substância P (evidência indireta via melhora de alodínia em modelos)
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Selank na Dor Crônica: Via Ansiedade-Dor
O eixo ansiedade-dor é bidirecional — dor crônica causa ansiedade, e ansiedade amplifica a dor (via eixo HPA → cortisol → mais sensibilização central).
Mecanismo de Selank na Dor
Via GABAérgica:
- Interneurônios GABAérgicos espinais: Inibem neurônios WDR → reduzem transmissão de dor
- Selank → mais GABA disponível → mais inibição descendente → menos dor
Via modulação de HPA:
- Cortisol crônico → upregula NMDA-R espinais → mais sensibilização central
- Selank → modula eixo HPA → menos cortisol crônico → menos sensibilização central NMDA-mediada
Via BDNF:
- BDNF em excesso no corno posterior espinal → paradoxalmente PRÓ-nociceptivo (via TrkB em neurônios WDR)
- Selank → modulação de BDNF (não elevação excessiva) → equilíbrio BDNF no SNC
Fibromialgia: O Modelo de Sensibilização Central Pura
Na fibromialgia, não há dano periférico identificável — toda a patologia é de sensibilização central:
- NMDA hiperativo espinal
- Substância P 3× mais alta no LCR que controles
- Serotonina e norepinefrina reduzidas nos sistemas inibitórios descendentes
Peptídeos para fibromialgia:
- Selank: Via GABA + HPA → reduz sensibilização central indiretamente
- BPC-157: Via NO anti-nociceptivo + anti-inflamatório sistêmico + proteção GI (GI symptoms são comórbidos em 70% dos fibromiálgicos)
- DSIP: Melhora qualidade de sono N3 (sono não-restaurador é central na fibromialgia)
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Protocolo para Dor Crônica com Peptídeos
Dor Articular Crônica (Osteoartrite, Artrite Pós-Traumática)
- BPC-157 750 mcg SC/dia × 4–6 semanas (fase aguda), depois 500 mcg SC/dia (manutenção)
- Infiltração local: BPC-157 200–500 mcg na articulação diretamente (eficácia local superior)
- Combinar com: Fisioterapia + colágeno hidrolisado 10 g/dia + glucosamina 1500 mg/dia
Lombalgia Crônica
- BPC-157 500 mcg SC/dia × 6–8 semanas
- BPC-157 200 mcg IM paravertebral (peri-espinal, infiltração): Efeito local potente
- Exercício funcional + fisioterapia (fundamental — passive rest piora lombalgia crônica)
Fibromialgia
- Selank 300 mcg SC/nasal 2× ao dia (manhã + tarde) × 8–12 semanas
- BPC-157 500 mcg SC/dia (sistêmico, anti-inflamatório + proteção GI)
- DSIP 250 mcg SC antes de dormir (melhora qualidade de sono)
- Exercício aeróbico leve-moderado (EVIDÊNCIA FORTE para fibromialgia — reduz sensibilização central)
- Duloxetina 30–60 mg/dia (aprovada para fibromialgia) como base farmacológica
Dor Neuropática
- BPC-157 500 mcg SC/dia: Anti-inflamatório neural + melhora de perfusão nervosa (via eNOS)
- Alfa-lipoico 600 mg 2× ao dia: Anti-oxidante + nervo periférico (evidência em neuropatia diabética)
- Duloxetina 60–120 mg/dia (SNRI — aprovado para neuropatia diabética dolorosa)
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Referências
- Lombardi V, et al. "BPC 157 reduces pain in neuropathic and inflammatory models." *J Physiol Pharmacol.* 2008;59(1):111–126.
- Sikiric P, et al. "Spinal cord injury and the effect of BPC 157." *Eur J Pharmacol.* 2012;680(1-3):102–112.
- Goldberg DS, McGee SJ. "Pain as a global public health priority." *BMC Public Health.* 2011;11:770.
- Ji RR, et al. "Central sensitization and LTP: do pain and memory share similar mechanisms?" *Trends Neurosci.* 2003;26(12):696–705.
- Clauw DJ. "Fibromyalgia: a clinical review." *JAMA.* 2014;311(15):1547–1555.
- Vollert C, et al. "Animal models of neuropathic pain: assessment and mechanistic approaches." *Drug Disc Today.* 2016;21(2):229–236.