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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 8 min de leitura

O Que É VIP (Peptídeo Intestinal Vasoativo)? Anti-Inflamatório Natural

VIP (Vasoactive Intestinal Peptide) é um neuropeptídeo endógeno com potentes ações anti-inflamatórias, imunomoduladoras e vasodilatadoras. Estudado para doenças autoimunes, fibromialgia e síndrome pós-COVID.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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O Que É VIP

VIP (Vasoactive Intestinal Peptide, Peptídeo Intestinal Vasoativo) é um neuropeptídeo de 28 aminoácidos (3,3 kDa), membro da família de peptídeos secretina/glucagon, descoberto por Sami I. Said e Victor Mutt em 1970 a partir de intestino porcino. Inicialmente caracterizado por sua ação vasodilatadora, pesquisas subsequentes revelaram que VIP é um dos neuropeptídeos com maior amplitude de ações biológicas conhecidas.

VIP é expresso amplamente no sistema nervoso central e periférico — neurônios do SNC, sistema nervoso entérico (plexo mioentérico), fibras nervosas autonômicas que inervam pulmões, vasos, intestino e órgãos linfoides — e também em células imunes (linfócitos T, macrófagos).

Estrutura: peptídeo linear de 28 aa com sequência His-Ser-Asp-Ala-Val-Phe-Thr-Asp-Asn-Tyr-Thr-Arg-Leu-Arg-Lys-Gln-Met-Ala-Val-Lys-Lys-Tyr-Leu-Asn-Ser-Ile-Leu-Asn-NH2. A sequência N-terminal (His1) e vários resíduos internos são críticos para ligação aos receptores VPAC1 e VPAC2.

VIP age via dois receptores de classe B (GPCRs): VPAC1 (expresso em pulmão, fígado, cérebro, células imunes) e VPAC2 (pancreático, cardíaco, muscular liso), ambos acoplados a Gs → cAMP → PKA. Um terceiro receptor, PAC1, é seletivo para PACAP (peptídeo relacionado) mas também liga VIP com menor afinidade.

Ações Anti-Inflamatórias e Imunomoduladoras

VIP é um dos mais potentes anti-inflamatórios endógenos conhecidos — atuando tanto em imunidade inata quanto adaptativa:

Em macrófagos e monócitos

  • Suprime produção de TNF-α, IL-6, IL-12, IL-1β (citocinas pró-inflamatórias) via cAMP → PKA → inibição de NF-κB
  • Estimula produção de IL-10 (citocina anti-inflamatória)
  • Reduz expressão de moléculas de adesão (ICAM-1, VCAM-1) → menos recrutamento leucocitário

Em células dendríticas VIP induz fenótipo tolerogênico: DCs tratadas com VIP produzem menos IL-12 e mais IL-10, favorecendo diferenciação de células T regulatórias (Tregs) em vez de Th1/Th17 pró-inflamatórias.

Em linfócitos T

  • Inibe diferenciação Th1 e Th17
  • Promove diferenciação Treg (via IL-10 e TGF-β)
  • Reduz produção de IFN-γ e IL-17
  • Relevante para doenças autoimunes onde Th1/Th17 predominam

Proteção de barreira mucosa No intestino, VIP (liberado pelos neurônios do plexo mioentérico) regula permeabilidade intestinal, secreção de muco e motilidade — funções relevantes para colite inflamatória e síndrome do intestino irritável.

Neuroimune Fibras nervosas VIP-érgicas inervam órgãos linfoides (baço, linfonodos) — interface entre sistema nervoso e imune. Permite que o sistema nervoso autônomo module respostas imunes locais via VIP.

Aplicações Clínicas em Pesquisa

Artrite Reumatoide O grupo do Dr. Mario Delgado (Espanha) demonstrou que VIP exógeno (intranasal ou sistêmico) reduz artrite em modelos murinos de artrite induzida por colágeno — diminuindo infiltrado sinovial, citocinas pró-inflamatórias e dano articular. Ensaio clínico de fase 1/2 (n=20 pacientes com AR refratária): VIP IV por 4 semanas reduziu DAS28 (escore de atividade de doença) e citocinas pró-inflamatórias sinoviais.

Hipertensão Pulmonar Arterial VIP é um vasodilatador pulmonar potente. Estudo alemão (Smedile et al.): VIP inalado (40 pmol/inalação) em hipertensão pulmonar idiopática reduziu resistência vascular pulmonar e melhorou teste de caminhada de 6 minutos. VIP inalado foi aprovado na Alemanha sob uso compaixão por alguns anos.

Síndrome pós-COVID (Long COVID) Estudo observacional (Sherwood Brown & John Weatherhead, University of Houston): pacientes com Long COVID apresentam níveis séricos de VIP muito abaixo do normal. Administração de VIP subcutâneo (Aviptadil® — RLF-100) em pequena série de casos resultou em rápida melhora de sintomas (fadiga, névoa cerebral, dispneia). Programa clínico em andamento — dados ainda preliminares.

Fibromialgia e Síndrome da Fadiga Crônica Níveis reduzidos de VIP foram documentados em fibromialgia. Hipótese: deficit de VIP → hiperinflamação neuroimune → alodinia e fadiga. Ensaios com VIP para fibromialgia estão em fase inicial.

Aviptadil e Desenvolvimento Clínico

Aviptadil (RLF-100) é o nome farmacêutico da formulação de VIP humano sintético desenvolvida pela Relief Therapeutics:

ARDS/Lesão Pulmonar Aguda Ensaio de fase 2/3 em ARDS associada ao COVID-19: Aviptadil IV vs. placebo em pacientes com COVID-19 grave em ventilação mecânica. Resultado: melhora de sobrevivência livre de ventilação em análise de subgrupo, mas o desfecho primário não atingiu significância em análise intention-to-treat completa.

Aviptadil inalado Estudo de fase 2 com Aviptadil inalado para COVID-19 grave: melhora de saturação de O2 e redução de dias de UTI em análise exploratória.

Long COVID Programa clínico em andamento (NeuroRx): Aviptadil para Long COVID — fase 2 em recrutamento após dados observacionais promissores.

Síndrome de Behçet e vasculites Ensaios pequenos de VIP IV em síndrome de Behçet (vasculite sistêmica): melhora de úlceras orogenitais e artrite. Dados muito preliminares.

Status regulatório atual

  • EUA: sem aprovação FDA; compassionate use em COVID-19 durante pandemia
  • Alemanha: VIP inalado teve status especial temporário
  • Brasil: não aprovado; composto de pesquisa

Segurança e Considerações

Perfil de segurança em ensaios clínicos Nos estudos de fase 2 com Aviptadil IV e inalado:

  • Hipotensão transitória (ação vasodilatadora): dose-dependente, manejável com infusão lenta
  • Flush facial: frequente, transitório
  • Náuseas: em alguns pacientes
  • Broncodilatação: efeito colateral potencialmente benéfico em doenças pulmonares
  • Sem efeitos adversos graves organ-específicos além da hipotensão

Meia-vida endógena VIP tem meia-vida plasmática muito curta (~2 minutos IV) pela degradação por endopeptidases neutras e DPP-IV. Para uso terapêutico, infusão contínua ou formulações inalatórias são necessárias.

Desafios de desenvolvimento A meia-vida curta é o principal obstáculo farmacológico. Análogos mais estáveis (como [K15, R16]VIP e VIP-heptanoila) estão sendo desenvolvidos para prolongar ação. PEGilação de VIP também está em pesquisa pré-clínica.

Via subcutânea off-label Algumas clínicas de medicina integrativa usam VIP subcutâneo em protocolos para Long COVID e inflamação crônica. Dados de segurança para essa via e esses usos são muito limitados.

Para aprofundar, explore o Hub Imunidade e Imunomodulação. Leia também: Peptídeos e Imunidade e Inflamação Crônica de Baixo Grau.

VIP e Doenças Autoimunes: Da Artrite Reumatoide à EAE

O perfil imunomodulador do VIP — supressão de Th1/Th17 e indução de células T regulatórias (Tregs) — o torna candidato natural para doenças autoimunes mediadas por essas células. Em artrite reumatoide experimental (CIA em camundongos), VIP intranasal ou intraarticular reduz infiltrado sinovial, TNF-α e IL-17, retardando a progressão articular. Em esclerose múltipla experimental (EAE), VIP suprime a resposta Th17 no SNC e reduz infiltrado de células T, conferindo neuroproteção.

Para doença inflamatória intestinal, VIP produzido pelos neurônios do plexo mioentérico age como anti-inflamatório local na mucosa — déficits de VIP entérico foram associados a formas mais graves de doença de Crohn. Para contexto imunológico ampliado: O Que É VIP Peptídeo Intestinal Vasoativo.

Receptores VPAC1 e VPAC2: Distribuição e Seletividade

VIP age via dois receptores principais — VPAC1 (expresso em pulmão, fígado, cérebro e células imunes) e VPAC2 (predominante em pâncreas, coração e músculo liso). Ambos são GPCRs da classe B acoplados a Gs → adenilil ciclase → cAMP → PKA. A distribuição diferencial determina o perfil de efeitos: VPAC1 em células imunes media os efeitos anti-inflamatórios; VPAC2 no pâncreas potencializa a secreção de insulina glicose-dependente.

Análogos sintéticos seletivos para VPAC1 foram desenvolvidos para maximizar o efeito imunomodulador sem o componente vasodilatador sistêmico excessivo do VPAC2. O terceiro receptor, PAC1, responde principalmente ao PACAP; VIP liga com baixa afinidade, mas esse receptor no SNC tem relevância para dor crônica e neuroproteção.

VIP na Barreira Intestinal e Microbiota: O Eixo Neuroimune Entérico

No intestino, VIP é liberado continuamente pelos neurônios do plexo submucoso e mioentérico para regular a permeabilidade da barreira intestinal, a secreção de muco e a composição da microbiota local. Via VPAC1 em células caliciformes, VIP estimula a secreção de MUC2 — a mucina principal que forma a camada protetora sobre o epitélio intestinal. Em modelos de colite, déficits de sinalização VIP comprometem a barreira mucosa, aumentam a translocação bacteriana e amplificam a inflamação luminal.

Estudos em metagenômica mostram que menores níveis de VIP entérico se associam a microbiota com mais bactérias pró-inflamatórias. O eixo VIP-barreira-microbiota é componente do eixo intestino-cérebro relevante para SII e SIBO. Para o contexto digestivo: Sistema Digestivo, Microbiota e Peptídeos.

Perspectivas Terapêuticas do VIP: Obstáculos e Avanços

O principal obstáculo ao desenvolvimento do VIP como fármaco é sua meia-vida plasmática de ~2 minutos — degradado por neprilisina (NEP) e DPP-IV. Estratégias para superar esse limite incluem: análogos com substituições nos sítios de clivagem de NEP; pegilação de VIP para criar reservatório de liberação lenta; encapsulação em nanopartículas lipídicas; e formulações inalatórias (VIP inalado teve status especial na Alemanha para hipertensão pulmonar arterial).

A meia-vida ultrarrápida também traz um lado positivo: excelente perfil de segurança, com efeito que cessa rapidamente ao interromper a infusão. O desenvolvimento de agonistas seletivos de VPAC1 (sem VPAC2) é a estratégia mais promissora para dissociar benefícios imunomoduladores dos cardiovasculares em indicações específicas.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

VIP pode tratar Long COVID?+

Dados observacionais preliminares são promissores — pacientes com Long COVID têm VIP sérico reduzido e alguns responderam à reposição. Ensaios clínicos controlados (fase 2) estão em andamento. Não é um tratamento estabelecido.

VIP é anti-inflamatório?+

Sim — é um dos anti-inflamatórios endógenos mais potentes conhecidos. Suprime TNF-α, IL-6, IL-12 e estimula IL-10 em macrófagos, além de promover células T regulatórias. Esse perfil o torna candidato para doenças autoimunes.

Como o VIP é administrado em pesquisa?+

Nos ensaios clínicos: IV (infusão contínua) e inalado (nebulização). Via subcutânea é usada off-label mas não foi formalmente estudada em ensaios. A meia-vida plasmática muito curta (~2 min) torna a dosagem oral inviável sem modificações estruturais.

VIP é o mesmo que PACAP?+

São peptídeos relacionados da mesma família (secretina/glucagon) mas distintos. PACAP (Pituitary Adenylate Cyclase-Activating Polypeptide) é mais potente no receptor PAC1, enquanto VIP tem maior afinidade por VPAC1 e VPAC2. Compartilham ~68% de similaridade de sequência no domínio ativo.

VIP tem produto disponível comercialmente?+

Aviptadil (RLF-100) é a formulação de VIP desenvolvida para ensaios clínicos em ARDS e Long COVID. No Brasil, não há produto aprovado contendo VIP — é exclusivamente composto de pesquisa clínica. Qualquer uso exige protocolo institucional aprovado.

Por que a meia-vida do VIP é tão curta?+

VIP tem meia-vida plasmática de aproximadamente 2 minutos por degradação rápida por neprilisina (NEP) e DPP-IV. Essa instabilidade é o principal desafio farmacológico — razão pela qual pesquisadores investigam análogos mais estáveis e formulações inalatórias para aplicação terapêutica contínua.

VIP e fibromialgia têm relação?+

Estudos documentaram níveis de VIP reduzidos em pacientes com fibromialgia. A hipótese é que déficit de VIP contribua para hiperinflamação neuroimune e para os fenômenos de alodinia e fadiga. Pesquisas clínicas com VIP para fibromialgia ainda estão em estágio inicial e não permitem conclusões definitivas.

VIP pode ajudar em doenças respiratórias além de ARDS?+

Sim — VIP é broncodilatador e anti-inflamatório nas vias aéreas. Estudos pré-clínicos documentam efeitos positivos em asma e hiperresponsividade brônquica. O efeito vasodilatador pulmonar tem base clínica (hipertensão pulmonar arterial). Para DPOC, dados são mais preliminares mas mecanisticamente plausíveis.

Referências Científicas

  1. Delgado M, et al. Vasoactive intestinal peptide (VIP) and pituitary adenylate cyclase-activation polypeptide (PACAP) protect mice from lethal endotoxemia through the inhibition of TNF-alpha and IL-6.. J Immunol, 1999.
  2. Gonzalez-Rey E, Chorny A, Delgado M. Regulation of immune tolerance by anti-inflammatory neuropeptides.. Nat Rev Immunol, 2007.
  3. Smedile G, et al. Inhaled vasoactive intestinal peptide in pulmonary hypertension: a randomized multicenter study.. Eur Respir J, 2008.
  4. Palma-Nicolas JP, Gutierrez M, Gonzalez-Rey E. VIP as a potential therapeutic agent for COVID-19.. Front Immunol, 2021.
  5. Delgado M, Ganea D. Vasoactive intestinal peptide: a neuropeptide with pleiotropic immune functions Veja o [perfil completo de VIP](/library/vip-peptideo-intestinal-vasoativo) na biblioteca — mecanismo de ação, protocolos e produtos disponíveis.. Amino Acids, 2013.
  6. Yang M, Yang X, Li J et al. Process in the role of vasoactive intestinal peptide in the treatment of ulcerative colitis by regulating the balance of T follicular helper cells/T follicular regulatory cells.. Chinese J Cell Mol Immunol, 2024.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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