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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 6 min de leitura

O Que É Vasopressina (ADH)? Retenção de Água, Pressão e Vínculo Social

Vasopressina (AVP/ADH) é um nonapeptídeo hipotalâmico que regula a reabsorção renal de água (receptor V2), causa vasoconstrição (V1a) e modula comportamento social, confiança e vínculo de par em mamíferos (V1a/V1b central). Deficiência de AVP ou resistência do receptor V2 causa diabetes insípido. Terlipressina (agonista V1a) é vasopressor usado em choque séptico e síndrome hepatorrenal. Ocitocina é peptídeo irmão com receptores distintos.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Vasopressina: Estrutura, Síntese e Receptores

Vasopressina (também chamada hormônio antidiurético, ADH, ou arginina-vasopressina, AVP em mamíferos) foi isolada em 1928 e estruturada em 1953 por Du Vigneaud — que ganhou o Nobel de Química em 1955 por sintetizá-la.

Estrutura — nonapeptídeo com anel SS

  • 9 aminoácidos (nonapeptídeo): Cys-Tyr-Phe-Gln-Asn-Cys-Pro-Arg-Gly-NH₂
  • Ponte dissulfeto: Cys1–Cys6 → forma um anel hexapeptídico + 'cauda' tripeptídica
  • Arginina na posição 8 (AVP em humanos); lisina na posição 8 em suínos (LVP)

Comparação com Ocitocina

  • Ocitocina: Cys-Tyr-Ile-Gln-Asn-Cys-Pro-Leu-Gly-NH₂ — apenas 2 aminoácidos diferentes de AVP!

- Posição 3: Phe (AVP) vs. Ile (OXT) - Posição 8: Arg (AVP) vs. Leu (OXT)

  • Apesar da semelhança: agonismo preferencial diferente (AVP → V2 renal; OXT → receptor de ocitocina)
  • Cruzamento: AVP tem atividade em receptor de ocitocina; OXT tem fraca atividade em V1a

Síntese e liberação

  • Produzido nos núcleos supraóptico (SON) e paraventricular (PVN) do hipotálamo
  • Pré-pro-AVP → pró-AVP → AVP madura + neurophysin II + copeptina
  • Armazenado em grânulos neurossecretórios nos terminais nervosos na neuro-hipófise (lobo posterior da hipófise)
  • Liberação por osmorreceptores (↑osmolalidade → ↑AVP) e barorreceptores (↓pressão ou ↓volume → ↑AVP)

Receptores — V1a, V1b, V2

ReceptorGeneViaLocalizaçãoFunção
V1a (AVPR1A)AVPR1AGq → ↑IP3/Ca²⁺Vascular, fígado, SNCVasoconstricção, comportamento social
V1b (AVPR1B)AVPR1BGqHipófise anterior, adrenal, cérebro↑ACTH (stress), humor
V2 (AVPR2)AVPR2Gs → ↑AMPc → PKADucto coletor renal↑AQP2 → reabsorção de água

Ação Renal de AVP: AQP2, Diabetes Insípido e SIADH

Mecanismo de antidiurese (V2-AQP2)

  • AVP → V2 no ducto coletor renal → Gs → ↑AMPc → PKA
  • PKA → fosforilação de AQP2 (aquaporina 2) → translocação para membrana apical
  • AQP2 na membrana: ↑permeabilidade ao H₂O → reabsorção de H₂O do túbulo para o interstício
  • AQP3 e AQP4 (membrana basolateral): constitutivamente presentes → saída de H₂O do interstício para peritubular → retorno ao sangue
  • Resultado: ↑reabsorção de H₂O livre → ↓diurese → urina mais concentrada (↑osmolalidade urinária)

Estimuladores de liberação de AVP

  • ↑Osmolalidade plasmática: osmorreceptores do órgão subfornical e OVLT detectam ↑tonicidade → ↑AVP

- Limiar: ~280 mOsm/kg → qualquer aumento acima disso dispara AVP - +1% osmolalidade → ↑AVP em 1 pg/mL (muito sensível)

  • ↓Volume efetivo circulante: barorreceptores carotídeos/aórticos detectam ↓PA → ↑AVP (via nervo vago/glossofaríngeo → NTS → hipotálamo)

- Estimulação por volume: menos sensível que osmolalidade, mas anula osmolalidade quando ativada (↓10-15% volume → AVP máximo mesmo com ↓osmolalidade)

  • Náusea, dor, hipoglicemia, nicotina, morfina: estimuladores não-osmóticos
  • Álcool: suprime AVP → diurese (daí a poliúria alcoólica)

Diabetes Insípido (DI)

  • Central (neurohipofisário): ↓síntese/liberação de AVP

- Causas: craniofaringioma, cirurgia hipotalâmica/hipofisária, TBI, sarcoidose, metástase - Tratamento: desmopressina (DDAVP) — análogo sintético V2-seletivo, sem V1a (não vasopressor); intranasal, oral ou IV

  • Nefrogênico: AVP normal ou ↑↑ mas rins não respondem

- Congênito: mutações em AVPR2 (X-linked) ou AQP2 (AR) - Adquirido: lítio (bloqueia AMPc via GSK3β em ducto coletor), hipercalcemia, hipocalemia, amiloide - Tratamento: hidratação + tiazídicos + amilorida (bloqueia ENaC → ↓Na⁺ intratubular → paradoxalmente ↓diurese) ± indometacina

  • Diagnóstico diferencial: teste de privação de água + AVP ou copeptina sérica

SIADH (Secreção Inapropriada de ADH)

  • AVP em excesso apesar de baixa osmolalidade → ↑↑reabsorção de H₂O → hipo-osmolalidade → hiponatremia
  • Causas: carcinoma de pequenas células (secretam AVP ectópico), pneumonia, AVC, SSRIs, ciclofosfamida
  • Critérios diagnósticos: hiponatremia + ↓osmolalidade plasmática + osmolalidade urinária inapropriadamente alta + ausência de hipovolemia/edema/hipotireoidismo
  • Tratamento: restrição hídrica + vaptans (V2 antagonistas — tolvaptan, conivaptan) para SIADH grave

Vaptans — V2 antagonistas

  • Tolvaptan (Samsca/Jynarque): oral, V2-seletivo; aprovado para hiponatremia hipervolêmica (ICC, cirrose) e ADPKD (doença renal policística autossômica dominante)

- ADPKD: AVP → V2 em células císticas → ↑AMPc → ↑proliferação → tolvaptan bloqueia → retarda crescimento do cisto (TEMPO trial, NEJM 2012)

  • Conivaptan (Vaprisol): V1a + V2 duplo; IV para SIADH hospitalar

Vasopressina em Choque Séptico e Hepatorrenal

AVP no choque vasoplégico (vasodilatador)

  • Choque séptico: vasodilatação por ↑NO + ↑bradicinina + ↑prostaglandinas → ↓↓PA
  • AVP endógeno: ↑inicialmente (resposta de estresse), mas cai em choque séptico prolongado → 'deficiência relativa de vasopressina'
  • Reposição de AVP: reposição das doses fisiológicas baixas (0.01-0.04 U/min IV) → efeito V1a (vasoconstricção) → ↑PA

VASST Trial (NEJM 2008)

  • N=778 pacientes com choque séptico; AVP 0.01-0.04 U/min vs. norepinefrina
  • Desfecho: mortalidade em 28 dias — SEM diferença significativa (35.4% AVP vs. 39.3% NE; p=0.26)
  • Subgrupo: pacientes com choque menos grave (NE 5-14 mcg/min) → ↓mortalidade com AVP (p=0.03)
  • Conclusão: AVP como 'agente poupador de catecolaminas' — reduz dose de norepinefrina

Terlipressina — agonista V1a sintético

  • Terlipressina: pró-fármaco que é convertido em lisina-vasopressina (V1a >> V2)
  • Usos aprovados:

1. Síndrome hepatorrenal tipo 1 (SHR-1): cirrose avançada → ↓fluxo renal - Terlipressina + albumina → ↑PA esplâncnica → ↑perfusão renal - CONFIRM trial (Hepatology 2021): terlipressina ↑↑reversão de SHR-1 vs. placebo (32% vs. 17%) - FDA aprovação 2022 (Terlivaz — Mallinckrodt) para adultos com SHR-1 2. Hemorragia varicosa esofagiana: V1a esplâncnico → vasoconstricção → ↓pressão portal → ↓sangramento 3. Choque séptico: alternativa IV a AVP — dose: 0.85-1.7 mg q4-6h

  • Efeitos adversos: isquemia periférica, isquemia miocárdica, diarreia (ação V1a intestinal)

Copeptina como biomarcador

  • Copeptina: fragmento C-terminal da pré-pro-AVP, co-liberado com AVP em proporção 1:1
  • Mais estável que AVP no plasma (AVP degradada rapidamente por aminopeptidases)
  • Usos clínicos:

- DI: copeptina ≥21.4 pmol/L após estímulo osmótico confirma DI central vs. polidipsia primária - IAM: copeptina ↑precocemente (30min) — combinação troponina + copeptina = rule-out precoce de SCA - Hiponatremia: copeptina alta em SIADH; baixa em hiponatremia diluicional de excesso de líquido oral

Vasopressina e Comportamento Social

O 'hormônio da fidelidade' nos roedores

  • Vole de pradaria (Microtus ochrogaster): monogâmico — forma pares estáveis após cópula

- Vole de montanha (Microtus montanus): promíscuo — NÃO forma pares - Diferença: distribuição de V1a no cérebro! Vole de pradaria tem ↑↑V1a no nucleus accumbens + ventral pallidum - Injeção de AVP no VTA ou NA do vole de pradaria → ↑preferência por parceiro (comportamento de par) - KO de V1a: voles de pradaria perdem fidelidade

Polimorfismos de AVPR1A em humanos

  • Gene AVPR1A: polimorfismo de microssatélite no promotor (RS3) — varia o número de repetições

- Walum 2008 (PNAS): homens com alelo RS3 334 do AVPR1A reportam: - ↓vinculação ao parceiro, ↓qualidade de relacionamento - ↑risco de crise de relacionamento nos últimos 12 meses - Parceiras dos portadores: ↓satisfação conjugal - N=552 pares gêmeos suecos — estudo em pares reais - Efeito modesto, mas replicado em algumas amostras

  • AVPR1A e autismo: polimorfismos de AVPR1A associados a alterações sociais (fraca, mas replicada)

AVP e comportamento agressivo em machos

  • V1a no hipotálamo anterior: AVP → ↑agressividade territorial em machos
  • V1b (AVPR1B) na amígdala e hipocampo: regula respostas agonísticas ao estresse
  • Antagonistas V1a centrais: ↓agressividade em modelos animais (hamster sírio, voles)
  • Relação AVP-testosterona: testosterona ↑síntese de AVP e V1a → maiores níveis de AVP em machos

AVP intranasal em estudos humanos

  • AVP intranasal (sem OXT): ↑confiança em homens? — resultados mistos
  • Thompson 2004: AVP intranasal em homens → ↑faces afiliativas mas interpretação ambígua
  • Efeitos de gênero: em mulheres, AVP intranasal pode aumentar respostas defensivas (ao invés de afiliação)
  • Contraste com ocitocina: OXT intranasal tem mais evidências robustas de efeitos pró-sociais

Perspectivas

  • AVP e depressão: V1b → ↑ACTH → ↑cortisol; V1b antagonistas como antidepressivos em estudo
  • SSR149415 (V1b antagonista): ensaios fase 2 em depressão ansiososa — eficácia modesta
  • AVP e memória: V1a e V2 no hipocampo modulam consolidação de memória
  • OXT vs. AVP: relação complexa — competição e complementaridade nos circuitos sociais

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Veja também: O Que É Vasopressina Sintética, Peptídeos vs Hormônios e Guia Completo de Peptídeos para entender o contexto desta classe. Explore nosso Hub de Ciência e Conceitos para comparar todos os peptídeos desta categoria.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é vasopressina (ADH)?+

Vasopressina (AVP, também ADH) é um nonapeptídeo de 9aa produzido no hipotálamo (núcleos supraóptico e paraventricular) e liberado pela neuro-hipófise. Tem três receptores principais: V2 (renal → ↑aquaporina 2 → reabsorção de H₂O → antidiurese), V1a (vascular → vasoconstricção; SNC → comportamento social) e V1b (hipófise → ↑ACTH em estresse). É fundamental para o controle da osmolalidade plasmática e da pressão arterial.

Qual a diferença entre diabetes insípido central e nefrogênico?+

No diabetes insípido central, os neurônios hipotalâmicos não produzem ou liberam vasopressina suficiente (por cirurgia, trauma, tumor ou processo autoimune). Tratamento: desmopressina (DDAVP), análogo V2-seletivo. No DI nefrogênico, a vasopressina é normal ou elevada, mas o rim não responde — por mutações no receptor V2 ou AQP2, ou por fármacos como lítio. Tratamento: tiazídicos + amilorida ± indometacina, sem desmopressina (ineficaz no tipo nefrogênico).

O que é terlipressina e para que é usada?+

Terlipressina é um pró-fármaco que é convertido em lisina-vasopressina, com ação preferencial em V1a (vascular) sobre V2 (renal). É aprovada para síndrome hepatorrenal tipo 1 (SHR-1) — aprovação FDA 2022 — onde reverte a vasoconstrição esplâncnica e melhora a perfusão renal quando combinada com albumina (reversão em 32% vs. 17% placebo no CONFIRM trial). Também é usada para hemorragia varicosa esofagiana e como vasopressor alternativo em choque.

Vasopressina influencia o comportamento social?+

Sim — V1a central é amplamente estudado em comportamento social. Em voles de pradaria monogâmicos, AVP no nucleus accumbens e ventral pallidum promove o vínculo de par após cópula; voles sem V1a perdem a fidelidade. Em humanos, o polimorfismo RS3 do gene AVPR1A (que codifica V1a) foi associado a menor qualidade de relacionamentos conjugais em homens no estudo de gêmeos suecos (Walum 2008, PNAS, N=552). Os efeitos são modestos e dependem de contexto.

O que é desmopressina (DDAVP) e quando é usada?+

Desmopressina (DDAVP) é um análogo sintético de AVP com seletividade para receptor V2 (antidiurético) e sem ação vasopressora (V1a). É aprovada para diabetes insípido central, enurese noturna e von Willebrand tipo 1. Pode ser administrada intranasal, oral ou IV. A ausência de ação V1a permite uso sem risco cardiovascular significativo em doses terapêuticas.

Referências Científicas

  1. Du Vigneaud V, et al. The synthesis of an octapeptide amide with the hormonal activity of oxytocin.. J Am Chem Soc, 1953.
  2. Torres VE, et al. (TEMPO 3:4 Trial Investigators). Tolvaptan in Patients with Autosomal Dominant Polycystic Kidney Disease.. N Engl J Med, 2012.
  3. Russell JA, et al. (VASST Investigators). Vasopressin versus Norepinephrine Infusion in Patients with Septic Shock.. N Engl J Med, 2008.
  4. Walum H, et al. Genetic variation in the vasopressin receptor 1a gene (AVPR1A) associates with pair-bonding behavior in humans.. Proc Natl Acad Sci USA, 2008.
  5. Invernizzi RW, et al. Role of vasopressin V1b receptor in the pathophysiology of mood disorders.. CNS Neurol Disord Drug Targets, 2009.
  6. Elsamad G, Alotaibi MI, Echtay KS et al. Arginine vasopressin: A promising therapeutic target for metabolic syndrome.. The Journal of pharmacology and experimental therapeutics, 2026.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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