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← Blog·peptideos08 de julho de 2026· 12 min de leitura

Vancomicina, glicopeptídeos e polimixinas — MRSA, VRE e Gram-negativos multirresistentes: mecanismo, monitoramento e colistina de último recurso

Vancomicina (glicopeptídeo) inibe a síntese do peptidoglicano ligando-se ao D-Ala-D-Ala do precursor → bactericida contra MRSA e Enterococcus. Teicoplanina e dalbavancina são alternativas de longa duração. Polimixinas (colistina/polimixina B) são lipopeptídeos que desestabilizam a membrana externa de Gram-negativos MDR (Acinetobacter, KPC, NDM) como antibióticos de último recurso. Monitoramento de nível (AUC/MIC) da vancomicina é obrigatório.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Vancomicina — mecanismo, TDM e resistência (VRE/VISA/VRSA)

VANCOMICINA — Vancocin® (Pfizer; EUA); genérico amplamente disponível:

Mecanismo de ação (distinto dos β-lactâmicos — razão de ser ativo contra MRSA):

  • β-lactâmicos inibem a PBP (transpeptidase) que REALIZA a ligação cruzada
  • Vancomicina age ANTES dessa etapa: liga-se diretamente ao dipeptídeo D-Ala-D-Ala das cadeias pentapeptídeas laterais do precursor de peptidoglicano (unidades UDP-MurNAc-pentapeptídeo) na face EXTRACELULAR da membrana → estérico — bloqueia o acesso da PBP ao substrato → sem ligações cruzadas → parede frágil → lise
  • Como é ativa contra MRSA: MRSA tem PBP2a (mecA) que é resistente aos β-lactâmicos, mas a PBP2a ainda PRECISA do D-Ala-D-Ala para funcionar → vancomicina bloqueia o D-Ala-D-Ala → MRSA não consegue usar a PBP2a alternativa → morte celular
  • Molécula GRANDE (MW 1449 Da) → NÃO penetra a membrana externa dos Gram-negativos (OBS: gram-negativos TÊM a membrana externa impedindo a entrada da vancomicina) → espectro exclusivamente Gram-POSITIVO

Indicações clínicas:

  • MRSA (S. aureus resistente à meticilina): pneumonia, bacteremia, endocardite, infecções de pele e partes moles — de ESCOLHA IV para MRSA invasivo
  • Enterococcus — cobertura de enterococos sensíveis (E. faecalis, E. faecium sensível); VRE (van-resistente) = RESISTENTE → usar linezolida, daptomicina, tigeciclina
  • S. pneumoniae resistente à penicilina (PRSP) em meningite: ceftriaxona + vancomicina + dexametasona (combinação padrão em meningite bacteriana grave quando PRSP é possível)
  • Oral: Clostridioides difficile (C. diff) grave/recidivante — vancomicina oral 125 mg 4x/dia por 10 dias (NÃO é absorvida oralmente → age localmente no cólon → eficaz para C. diff intestinal; NÃO usar IV para C. diff)
  • SAMR sensível à oxacilina (MRSA): oxacilina/nafcilina IV são PREFERIDAS ao invés de vancomicina em MSSA (menor mortalidade em endocardite MSSA com β-lactâmico que com vancomicina)

Monitoramento terapêutico (TDM — Therapeutic Drug Monitoring):

  • Vancomicina tem janela terapêutica estreita: nível baixo → falha terapêutica; nível alto → nefrotoxicidade, ototoxicidade
  • Método moderno preferido (ASHP/IDSA guideline 2020): AUC₀₋₂₄/MIC entre 400-600 mg·h/L (para MRSA com MIC ≤ 1 μg/mL); calculado por Bayesian pharmacokinetic software (apenas 2 concentrações: pico 1-2h pós-dose + vale) → substituiu o monitoramento somente de vale
  • Método antigo de vale apenas (ainda usado onde Bayesian não disponível): vale 15-20 μg/mL para infecções graves (endocardite, meningite, pneumonia grave); 10-15 μg/mL para infecções menos graves
  • Nefrotoxicidade: definida como aumento de Cr > 0.5 mg/dL em 48h, ou 50% acima do basal; ocorre em 5-15% dos pacientes com monoterapia; risco multiplicado com aminoglicosídeos (EVITAR combinação), piperacilina-tazobactam (debate — alguns dados sugerem sinergismo nefrotóxico), anfotericina B
  • Ototoxicidade: surdez e zumbido → com nível sérico muito alto ou uso muito prolongado; monitorar
  • Síndrome do homem vermelho (Red Man Syndrome): eritema, prurido e flushing no pescoço/face/tórax durante infusão IV rápida → mediada por liberação de histamina por mastócitos; NÃO é alergia IgE-mediada; prevenção: infundir em pelo menos 60 min (para 500-1000 mg), 90-120 min para doses maiores; tratamento: difenidramina e diminuir velocidade de infusão

Resistência à vancomicina — VRE (Vancomycin-Resistant Enterococcus):

  • Genes VAN (vanA/vanB/vanC/vanD/vanE/vanG/vanL/vanM/vanN) codificam ligases que substituem o dipeptídeo D-Ala-D-Ala por D-Ala-D-Lac (vanA/vanB — alta resistência) ou D-Ala-D-Ser (vanC — baixa resistência); a vancomicina tem 1000x menor afinidade por D-Ala-D-Lac → ineficaz
  • VRE (especialmente E. faecium VanA) é problema crescente hospitalar; tratamento: linezolida (1ª linha), daptomicina, tigeciclina; quinupristina-dalfopristina (E. faecium apenas — NÃO E. faecalis)
  • VISA (vancomicin-intermediate S. aureus — MIC 4-8 μg/mL): parede celular espessada → sequestra moléculas de vancomicina antes de chegarem ao alvo; vancomicina doses altas podem funcionar; alternativas: daptomicina, linezolida, ceftarolina
  • VRSA (vancomycin-resistant S. aureus — MIC ≥ 16 μg/mL): adquiriu gene vanA de VRE; extremamente raro mas tratável com linezolida ou daptomicina

DALBAVANCINA (Dalvance® — Allergan) e ORITAVANCINA (Orbactiv®):

  • Glicopeptídeos de 2ª geração com meia-vida muito longa (dalbavancina: 346h → 2 doses semanais ou dose única!) → ideal para tratamento ambulatorial de infecções de pele e partes moles por MRSA (evita hospitalização prolongada)
  • Dalbavancina: 1500 mg IV dose única OU 1000 mg D1 + 500 mg D8 → igual a 14 dias de vancomicina em infecções de pele; aprovada FDA 2014

POLIMIXINAS — Colistina (Polimixina E) e Polimixina B — antibióticos de ÚLTIMO RECURSO:

Estrutura e mecanismo: lipopeptídeos cíclicos com 5 aminoácidos lipofílicos na cadeia → comportam-se como detergentes catiônicos que:

  1. Se ligam ao LPS (lipopolissacarídeo) da membrana externa de Gram-negativos via interação eletrostática (deslocam os cátions divalentes Mg²⁺/Ca²⁺ que estabilizam o LPS)
  2. Se inserem na membrana → desestabilização → formação de poros → perda do conteúdo celular → morte
  • Ativas contra Gram-negativos MDR (multidrug-resistant): Acinetobacter baumannii MDR, Pseudomonas aeruginosa MDR, Enterobacterales produtoras de carbapenemase (KPC, NDM, OXA-48) → únicas opções disponíveis para alguns organismos
  • SEM atividade contra Gram-positivos, fungos, anaeróbios, Proteus, Neisseria (têm porina especial que bloqueia as polimixinas), Serratia (naturalmente resistente)

Colistina (polimixina E) — Coly-Mycin M® (Pfizer), genérico:

  • Pró-fármaco: colistimetato de sódio (CMS) administrado IV → hidrolisado no plasma a colistina ativa (lentamente — concentração sérica pica horas após dose)
  • Dosagem: loading dose 9 MUI IV → 4,5 MUI a cada 12h; ajuste obrigatório em IR (colistina é eliminada por via renal)
  • Nefrotoxicidade muito alta (30-60% dos pacientes): monitorar creatinina diariamente; evitar combinar com aminoglicosídeos ou anfotericina
  • Neurotoxicidade: parestesias periorais, ataxia, diplopia (bloqueio neuromuscular em superdose)
  • Colistina inalatória (para pneumonia por Pseudomonas MDR em fibrose cística): 1-2 MUI 2-3x/dia por nebulização

Polimixina B — Aerosporin® (Pfizer), Poly B® (farmácias magistrais):

  • MAIS ESTÁVEL sistemicamente que colistina (não é pró-fármaco — concentração plasmática estável desde a 1ª dose); farmacocinética mais previsível
  • Dose: 1.5-2.5 mg/kg/dia (15.000-25.000 UI/kg/dia) dividido em 2 infusões
  • Sem necessidade de ajuste em IR (diferente da colistina — a polimixina B NÃO é excretada por via renal → ausência de acúmulo em IR — paradoxalmente tem menos nefrotoxicidade que colistina em IR)
  • Usada em algumas partes do Brasil como alternativa à colistina para Acinetobacter baumannii e KPC

LINEZOLIDA (Zyvox® — Pfizer; genérico): oxazolidinona; inibe a síntese proteica na subunidade 50S (sítio de ligação P — impede a formação do complexo de iniciação 30S-50S); BACTERIOSTÁTICO; cobertura de MRSA, VRE, Streptococcus resistentes, Nocardia; oral com biodisponibilidade 100% (equivalente a IV → permite step-down); 600 mg 2x/dia; serotonérgica (inibe MAO-A → contraindicada com ISRS/IRSN → síndrome serotonérgica); mielossupressão (trombocitopenia em uso > 2 semanas → monitorar hemograma semanal); neuropatia periférica e óptica (uso muito prolongado > 4 semanas)

DAPTOMICINA (Cubicin® — MSD/Merck): lipopeptídeo cíclico (diferente das polimixinas — cobertura apenas Gram-positivos); liga-se ao Ca²⁺ → insere-se na membrana de Gram-positivos → despolarização → morte; bactericida; MRSA, VRE, MSSA; miopatia (elevar CK semanalmente; suspender estatinas durante tratamento); NÃO usar em pneumonia (surfactante pulmonar inativa a daptomicina)

Perguntas frequentes sobre vancomicina e polimixinas

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que é importante monitorar o nível sérico de vancomicina?+

Vancomicina tem janela terapêutica estreita — a concentração precisa estar alta o suficiente para matar as bactérias (especialmente MRSA) mas não tão alta que cause toxicidade renal ou auditiva. O conceito moderno de monitoramento de vancomicina mudou do simples monitoramento de vale (concentração antes da próxima dose) para a relação AUC/MIC (Área Sob a Curva dividida pela Concentração Inibitória Mínima da bactéria), recomendada desde o guideline conjunto ASHP/IDSA de 2020. O alvo AUC/MIC de 400-600 mg·h/L foi derivado de estudos que mostraram: abaixo de 400 → maior taxa de falha terapêutica em MRSA; acima de 600 → nefrotoxicidade aumenta sem benefício extra. Calcular a AUC requer coletar 2 concentrações (pico 1-2h após início da infusão + vale antes da próxima dose) e usar software de farmacocinética bayesiana. Na prática de muitos hospitais brasileiros onde o software bayesiano não está disponível, ainda se usa o monitoramento de vale: para MRSA grave (pneumonia, bacteremia, endocardite): vale alvo 15-20 μg/mL; para infecções menos graves: 10-15 μg/mL. Quando monitorar: colher o primeiro vale antes da 4ª dose (em regime de dose a cada 6h) ou antes da 3ª dose (a cada 8h) — tempo para atingir estado estacionário. Se o vale estiver fora do alvo, ajustar a dose ou o intervalo e repetir o nível após 2-3 doses do novo regime. Em pacientes com função renal variável (UTI, sepse, hipovolemia, uso de contrastes), monitorar creatinina e vale a cada 48-72h. A combinação de vancomicina com piperacilina-tazobactam deve ser evitada sempre que possível pois estudos observacionais mostram aumento de 4-5x na incidência de injúria renal aguda comparado a cada fármaco isolado.

Colistina ainda é segura de usar? Quais são as alternativas?+

Colistina é de fato tóxica — nefrotoxicidade ocorre em 30-60% dos pacientes — mas em infecções por organismos pan-resistentes (como Acinetobacter baumannii MDR, KPC ou NDM produtores), muitas vezes é a única opção disponível, e o risco de não tratar (mortalidade de 50-80% em bacteremia por Gram-negativo MDR sem tratamento eficaz) supera os efeitos adversos do fármaco. Como minimizar a toxicidade da colistina: manter hidratação adequada; evitar combinar com outros nefrotóxicos (aminoglicosídeos, anfotericina, AINEs, contrastes radiológicos); monitorar creatinina diariamente; usar na menor dose eficaz; as combinações sinérgicas com carbapenêmicos (meropenem em infusão prolongada) ou com rifampicina podem permitir reduzir a dose de colistina; nunca usar colistina em monoterapia se possível (resistência pode surgir rapidamente). Alternativas à colistina que têm surgido: Ceftazidima-avibactam (Avycaz®): cobre KPC (carbapenemase serina-dependente) mas NÃO cobre NDM (metalo-β-lactamase); já disponível no Brasil via importação; Ceftolozano-tazobactam (Zerbaxa®): excelente para Pseudomonas MDR mas não para Acinetobacter ou carbapenemase-produtores; Imipenem-cilastatina-relebactam (Recarbrio®) e Meropenem-vaborbactam (Vabomere®): cobrem KPC; Aztreonam-avibactam (Azevtra®, em aprovação): cobertura de NDM (o avibactam inibe as ESBL/KPC que degradariam o aztreonam, que não é degradado por NDM); Cefiderocol (Fetroja®): sideróforo-cefalosporina que entra na bactéria via receptores de ferro → cobertura pan-resistente incluindo Acinetobacter MDR, NDM e OXA; aprovado FDA 2019. Essas novas opções devem ser reservadas para infecções documentadas por organismos resistentes às terapias convencionais e usadas em guia de antimicrobianos hospitalar.

Referências Científicas

  1. Rybak MJ, Le J, Lodise TP, et al. (ASHP/IDSA/SIDP vancomycin monitoring guideline 2020) Therapeutic monitoring of vancomycin for serious methicillin-resistant Staphylococcus aureus infections: A revised consensus guideline and review by the American Society of Health-System Pharmacists, the Infectious Diseases Society of America, the Pediatric Infectious Diseases Society, and the Society of Infectious Diseases Pharmacists. Am J Health Syst Pharm, 2020.
  2. Falagas ME, Kasiakou SK. (Colistin: the revival of polymyxins for management of multidrug-resistant Gram-negative bacterial infections — review) Colistin: the revival of polymyxins for the management of multidrug-resistant gram-negative bacterial infections. Clin Infect Dis, 2005.
  3. Bassetti M, Peghin M, Vena A, et al. (Treatment of infections due to MDR Gram-negative bacteria — review 2019) Treatment of Infections Due to MDR Gram-Negative Bacteria. Front Med (Lausanne), 2019.
  4. Murray BE, Arias CA, Bhatt DL. (Staphylococci, streptococci and enterococci — Harrison principles) Enterococcal infections — current treatment and resistance mechanisms. Clin Infect Dis, 2014.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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