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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 6 min de leitura

O Que É Urotensin II? Vasoconstrição, Coração e Fibrose

Urotensin II (UII) é um peptídeo cíclico de 11aa (humano) — o vasoconstritor mais potente identificado, com potência 10× superior à endotelina-1 em certos leitos vasculares. Age no receptor UT (GPR14) ubiquamente expresso em vasos, coração, rim, cérebro e tecidos endócrinos. Originalmente isolado da urofíse de peixes teleósteos como hormônio regulatório do tônus vascular, UII em humanos é produzido no coração, rins e SNC. Está elevado em insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, doença renal crônica e aterosclerose. Antagonistas de UT receptor estão em investigação clínica.

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Urotensin II: Estrutura, Evolução e Receptor UT

Descoberta — da urofíse dos peixes ao cardiovascular humano

  • Urotensin I (UI): primeiro identificado — análogo do CRH em peixes
  • Urotensin II (UII): isolado por Pearson et al. (1980) da urofíse de Catostomus commersonii (suckerfish)

- Urofíse: órgão neuroendócrino na cauda de peixes teleósteos — análogo funcional da neurohipófise mamífera - Função em peixes: osmoregulação (Na⁺/Cl⁻ no brânquias) + contração do músculo liso GI + vasoconstrição

  • Equivalente em humanos: clonado em 1996 (Maguire et al.); identificado como o vasoconstritor mais potente em artérias primate isoladas

Estrutura de UII — anel cíclico central

  • UII humano: 11aa (ETPDCFWKYCV — numeração do peptídeo maduro)

- Anel cíclico: Cys5-Cys10 ponte dissulfeto → estrutura cíclica fechada de 6 resíduos: CFWKYC - C-terminal: -Val amidado (Val11-NH₂) — essencial - Sequência mínima ativa: anel cíclico CFWKYC (6aa) — necessário para ligar UT receptor - Trp7 e Lys8: essenciais para atividade; Phe6 contribui

  • UII varia por espécie:

- Humano: 11aa; porco: 11aa; rato: 14aa; peixe: 12-13aa - Maior variação interespécie que a maioria dos neuropeptídeos

Gene UTS2 e produção em humanos

  • Gene: UTS2, cromossomo 1p36.23
  • Pré-pro-UII → processamento: peptídeo sinal + pró-UII (83aa) → PC1/3 → UII maduro (11aa)
  • Produção em humanos:

- Coração (ventrículo e átrio): células miocárdicas - Rins: células tubulares e glomerulares - SNC: corno ventral da medula espinal (principal localização neuronal em humanos!) - Vasos: células endoteliais e musculares lisas - Fígado, pulmão

UII-related peptide (URP) — peptídeo relacionado

  • Gene UTS2B: codifica URP (8aa) — C-terminal idêntico ao UII; menor
  • Distribuição: SNC, coração; age no mesmo receptor UT
  • Potência similar ao UII em UT receptor

Receptor UT (urotensin receptor, UTII-R)

  • Nome anterior: GPR14 ou SENR (sensory epithelium neuropeptide-like receptor)
  • GPCR Classe A; Gαq → ↑PLC → ↑IP3 → ↑Ca²⁺ + DAG → PKC

- Também: Gα12/13 → RhoA/ROCK → contração + proliferação - PI3K/Akt e MAPK/ERK: proliferação e fibrose

  • Distribuição de UT receptor:

- Vasos (VSMC e endotélio): altamente expresso → vasoconstrição/vasodilatação (depende do leito) - Coração (ventrículo, átrio): efeitos inotrópicos e cronotrópicos (positivos ou negativos conforme espécie) - Rim: mesângio glomerular, células tubulares - SNC: hipocampo, tronco encefálico, cerebelo - Fígado, pulmão, adrenal, tireóide

UII como Vasoconstritor e na Insuficiência Cardíaca

UII — o vasoconstritor mais potente?

  • Ames et al. (1999, Nature): UII IV em primatas não-humanos → vasoconstrição extrema (colapso cardiovascular em altas doses)

- Potência: ~10× maior que endotelina-1 no mesmo leito vascular de primate (artéria coronariana isolada) - Dose efetiva muito baixa: pmol a nmol/L

  • Mas: em humanos in vivo, UII tem efeitos VARIÁVEIS (não necessariamente leva a colapso)

- Leitos vasculares diferencialmente responsivos: coronárias e artérias mesentéricas (vasoconstrição forte); outros leitos (vasodilatação via endotélio/NO) - Efeito net: dependente do balanço VSMC (constrição) vs. endotélio (vasodilatação via NO e PGI2) - Humanos saudáveis: infusão de UII → vasoconstrição modesta sistêmica ou sem efeito - IC e doença coronariana: endotélio comprometido → vasoconstrição desimpedida → ↑resistência vascular

UII elevado em insuficiência cardíaca

  • IC: ↑↑ UII plasmático vs. controles saudáveis

- Correlação com severidade da IC: UII > NYHA II → mais alto em NYHA IV - UII como biomarcador prognóstico de IC? — correlaciona com BNP e mortalidade? - Mecanismo de ↑UII em IC: hipoperfusão renal → ↑síntese de UII renal; ↑ativação simpática?

  • UII em IC → vasoconstrição → ↑pós-carga → pior função ventricular → ciclo vicioso?

- Também: UII → ↑aldosterona (via UT em adrenal) → ↑retenção Na⁺/H₂O → ↑pré-carga - UII → fibrose miocárdica (via UT → PKC → TGF-β → colágeno)

UII e hipertensão arterial

  • UII plasmático: ↑em hipertensos essenciais vs. normotensos

- Polimorfismo em UT receptor (S89N): associado a ↑pressão arterial e ↑risco cardiovascular? - Correlação UII × PA: fraca a moderada (estudos conflitantes)

  • Mecanismo: UII → Y1R? — não; via UT → ↑VSMC Ca²⁺ → ↑tônus vascular → ↑RVP → ↑PA
  • Interação com SRAA: UII potencializa os efeitos da Ang II?

UII e hipertensão pulmonar

  • Hipertensão Pulmonar Arterial (HAP): ↑↑ UII plasmático em pacientes com HAP

- UT receptor expresso na vasculatura pulmonar - UII → vasoconstrição pulmonar + proliferação de VSMC pulmonar → remodelamento vascular - Correlação UII com pressão arterial pulmonar média (mPAP): significativa

  • UII em HAP: preditiva de gravidade e mortalidade?
  • Antagonistas UT para HAP: potencial terapêutico análogo à endotelina antagonista (bosentana)

UII na doença renal crônica

  • UT receptor no mesângio glomerular: UII → ↑contração mesangial → ↑pressão intraglomerular
  • IRC avançada: ↑↑ UII plasmático (↓clearance renal)
  • Nefropatia diabética: UII ↑ + rins → ↑dano glomerular
  • UII e fibrose renal: UT → MAPK/ERK + TGF-β → ↑fibrose tubulointersticial

UII e Metabolismo, SNC e Antagonistas de UT

UII e síndrome metabólica

  • UII em obesos: ↑UII plasmático associado a obesidade visceral e síndrome metabólica

- UT receptor em adipócitos: UII → ↑síntese de cortisol local? (UT em adrenal cortical → 11β-HSD1 em adipócitos?) - UII e dislipidemia: ↑UII correlaciona com ↑TG e ↓HDL em estudos

  • DM2 e UII: ↑UII em DM2 (especialmente com complicações vasculares)

- UT receptor em células β: UII pode modular secreção de insulina? - UII como elo entre obesidade, DM2 e risco cardiovascular elevado?

UII no SNC

  • Medula espinal ventral: principal localização neuronal de UII em humanos

- Neurônios motores ventrais: UII como neuromodulador? - Medula espinal lesada: alteração da expressão de UII?

  • Tronco encefálico: UII modula tonus cardiovascular central?

- NTS (núcleo do trato solitário): UT receptor → modulação barorreflex?

  • Hipocampo: UII → UT receptor → efeitos cognitivos? — exploratório
  • SNC e UII: possível papel em doenças neurodegenerativas — expressão alterada em Parkinson e Alzheimer?

UII e pâncreas / rim

  • Ácinos pancreáticos: UT receptor → UII → ↑Ca²⁺ → ↑secreção de enzimas? — semelhança com CCK
  • Rim tubular: UII → ↑Na⁺ reabsorção? — mecanismo renal controverso

- Ou: UII → vasoconstrição arteríola aferente → ↓TFG?

Antagonistas de UT receptor — desenvolvimento clínico

  • Palosuran (ACT-058362): primeiro antagonista não-peptídico de UT receptor oral

- Fase II em nefropatia diabética (2006): palosuran vs. placebo → ↓proteinúria + ↓pressão arterial - Resultado: modesta mas significativa ↓proteinúria no grupo de alto risco; não avançou para fase III

  • SB-706375 e SB-611812: antagonistas UT em desenvolvimento pré-clínico; efeitos em roedores com IC e hipertensão
  • Urantide: peptídeo antagonista parcial de UT (não seletivo) — ferramenta farmacológica
  • Desafio: UII tem efeitos tecido-específicos (vasoconstrição em VSMC, vasodilatação via endotélio) → bloqueio sistêmico pode ser complexo

UII como alvo em fibrose

  • UT receptor em fibroblastos cardíacos, hepáticos e renais:

- UII → UT → RhoA/ROCK + ERK1/2 → ↑TGF-β → ↑colágeno - Modelos pré-clínicos: antagonistas UT → ↓fibrose cardíaca pós-IAM + ↓fibrose renal

  • Fibrose hepática: UT receptor em células de Ito (estreladas hepáticas) → UII → ↑CTGF → ↑fibrose?

- Hepatite C e UII: ↑UII em cirróticos HCV

  • Hipertensão pulmonar + fibrose pulmonar: UII no remodelamento vascular e fibrose?

Perspectivas

  • UII biomarcador: UII + BNP para estratificação de risco em IC? — estudos precisam ser maiores
  • Antagonistas UT de 2ª geração: mais potentes e seletivos
  • UII e COVID-19: UT receptor na vasculatura pulmonar → contribuição para vasoconstrição pulmonar em SDRA?
  • UII terapêutico reverso: na doença de AVC/trauma espinal, UT agonistas para modulação do tônus motor?

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UII vs. Endotelina e Papel no Remodelamento Vascular

Comparação UII vs. Endotelina-1 (ET-1)

AspectoUIIEndotelina-1 (ET-1)
Estrutura11aa, cíclico (S-S)21aa, 2 pontes S-S
ReceptorUT (GPR14)ETA e ETB
SinalizaçãoGαq → Ca²⁺ + Gα12/13 → RhoAGαq → Ca²⁺; Gαi (ETB)
Vasoconstrição10× mais potente que ET-1 (artéria coronariana primate)Potente (nmol/L)
OrigemCoração, rim, SNCEndotélio vascular
IC↑↑↑↑↑
HAP↑↑↑ (principal alvo terapêutico em HAP)
Antagonistas aprovadosNenhumBosentana, ambrisentana, macitentana (para HAP)
FibroseAtivadoraAtivadora

Antagonistas de endotelina como referência terapêutica

  • Bosentana (Tracleer): dual ETA/ETB antagonista → HAP (aprovado FDA 2001)
  • Ambrisentana (Letairis): seletivo ETA → HAP
  • Macitentana (Opsumit): dual ETA/ETB, mais lipofílico, QD → HAP
  • Evidências: antagonistas ET-1 ↓mortalidade em HAP — referência para desenvolver antagonistas UT

UII e remodelamento vascular — aterosclerose

  • Placas ateroscleróticas: ↑expressão de UT receptor nas células espumosas e músculo liso

- UII → UT → RhoA/ROCK → migração e proliferação de VSMC → neointima - UII → UT → SR-A (scavenger receptor) → ↑captação de LDL oxidado → ↑células espumosas? - UII → ↑VCAM-1 (endotélio) → ↑adesão de monócitos → início da placa

  • Reestenose após angioplastia: ↑UII no leito tratado → ↑VSMC proliferação → reestenose?

- Stents com antagonista UT? — hipótese

  • Aneurismo aórtico: ↑UII + ↑UT receptor na parede do aneurismo?

UII e arritmias cardíacas

  • Átrios: UT receptor expresso; UII → efeitos cronotrópicos

- UII em fibras de Purkinje: modulação da condução? - FA (fibrilação atrial): ↑UII no átrio fibrilado? — ↑fibrose atrial via UT? - UT antagonistas para prevenção de FA? — hipotético

  • Síndrome do QT longo: UII modula correntes de K⁺ cardíacas via UT?

Perspectivas de uso de UII como biomarcador

  • Dosagem de UII: ELISA disponível comercialmente; valores de referência em adultos: 0.5-3 pmol/L (plasma)
  • IC: UII > 5 pmol/L → pior prognóstico?
  • HAP: UII correlaciona com mPAP e indica gravidade
  • DRC: UII plasmático elevado em IRC G4-G5
  • Sepse: UII ↑ → vasoconstrição excessiva + disfunção de microcirculação?

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Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é Urotensin II e por que é considerado o vasoconstritor mais potente?+

Urotensin II (UII) é um peptídeo cíclico de 11aa originalmente isolado da urofíse de peixes, depois identificado em humanos no coração, rins e medula espinal. Em estudos com artérias coronarianas isoladas de primatas e humanos, UII demonstrou potência vasoconstritora cerca de 10× superior à endotelina-1 (o vasoconstritor mais potente previamente conhecido), agindo via receptor UT (GPR14). Em animais vivos, esse efeito pode ser modulado pelo endotélio (que libera NO e prostaciclina em resposta ao UII), mas em estados de disfunção endotelial (insuficiência cardíaca, aterosclerose), a vasoconstrição predomina.

UII está elevado em doenças cardiovasculares?+

Sim — UII plasmático está aumentado em insuficiência cardíaca (IC), hipertensão pulmonar arterial (HAP), doença renal crônica e em obesos com síndrome metabólica. Em IC, os níveis correlacionam com a gravidade (NYHA) e com biomarcadores como BNP. Em HAP, UII é um potente vasoconstritor da vasculatura pulmonar e contribui para o remodelamento vascular. Na DRC, o acúmulo de UII por redução do clearance renal amplifica a vasoconstrição glomerular e a fibrose tubulointersticial.

Existem antagonistas do receptor UT aprovados?+

Ainda não — até 2024, nenhum antagonista de receptor UT está aprovado para uso clínico. O mais avançado foi o palosuran, que em fase II para nefropatia diabética mostrou redução modesta de proteinúria mas não avançou para fase III. O desenvolvimento de antagonistas UT enfrenta desafios porque o UII tem efeitos variáveis conforme o leito vascular e o estado do endotélio. Outros antagonistas como SB-706375 estão em fase pré-clínica. A endotelina (situação similar) levou 10-15 anos do descroberta ao antagonista aprovado (bosentana para HAP em 2001) — UII pode seguir caminho similar.

Qual a diferença entre UII e endotelina-1?+

Ambos são potentes vasoconstritores peptídicos que agem via receptores acoplados à proteína Gq, mas diferem em vários aspectos: UII (11aa, 1 ponte S-S) é mais potente que ET-1 (21aa, 2 pontes S-S) em alguns leitos vasculares. ET-1 é produzida primariamente pelo endotélio vascular, enquanto UII vem de coração, rins e SNC. ET-1 age em ETA e ETB (receptores distintos com efeitos diferentes — ETA constritor, ETB endotelial dilatador); UII age apenas no receptor UT. Antagonistas de ET-1 (bosentana, ambrisentana, macitentana) já são aprovados para HAP, enquanto antagonistas de UT ainda estão em investigação clínica.

Por que a Urotensina II é considerada o vasoconstritor peptídico mais potente já descrito?+

A Urotensina II (UII) recebe esse título com base em experimentos de órgão isolado: em preparações de artéria mamária interna humana e artéria carótida de primatas não-humanos, a UII induz vasoconstrição com potência 10 a 100 vezes maior que a endotelina-1 (ET-1), que anteriormente detinha o recorde. O mecanismo é a ativação do receptor UT (Gαq/11) no músculo liso vascular → ↑IP3 → ↑Ca²⁺ intracelular → contração intensa. Paradoxalmente, em alguns leitos vasculares (principalmente pulmonares), a UII causa vasodilatação mediada pelo endotélio (via NO) — o que torna seus efeitos sistêmicos biologicamente complexos e dificulta o desenvolvimento de antagonistas com efeito clínico previsível.

Referências Científicas

  1. Ames RS, et al. Urotensin-II, the most potent mammalian vasoconstrictor identified to date, as endogenous ligand for the orphan receptor GPR14.. Nature, 1999.
  2. Douglas SA, Ohlstein EH. Human urotensin-II, the most potent mammalian vasoconstrictor identified to date, as a therapeutic target for the management of cardiovascular disease.. Trends Cardiovasc Med, 2000.
  3. Totsune K, et al. Elevated plasma levels of urotensin II and its related peptide in patients with end-stage renal disease.. Peptides, 2004.
  4. Clozel M, et al. Pharmacological characterization of ACT-058362 (palosuran), a novel, potent human urotensin-II receptor antagonist.. J Pharmacol Exp Ther, 2006.
  5. Balat A, et al. Plasma urotensin-II levels in children with chronic kidney disease.. Peptides, 2007.
  6. Michael OS, Kanthakumar P, Soni H et al. Urotensin II system in chronic kidney disease.. Current Research in Physiology, 2024.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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