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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 6 min de leitura

O Que É Relaxina? Gravidez, Coração e Anti-Fibrose

Relaxina (H2 Relaxina/RLN2) é um hormônio peptídico heterodimérico de 6 kDa — membro da família insulina — secretado pelo corpo lúteo na gravidez. Age no receptor RXFP1 (LGR7) mediando relaxamento dos ligamentos pélvicos e colo uterino, facilitando o parto. Em homens, é produzida na próstata. Tem potentes efeitos anti-fibróticos e vasodilatadores (via ↑NO, ↑MMP). A serelaxina (RLN2 recombinante) foi testada em insuficiência cardíaca aguda descompensada com resultados promissores em alívio de dispneia, mas ensaio fase III (RELAX-AHF-2) foi negativo para mortalidade.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Relaxina: Família, Gene e Produção

Descoberta e nomenclatura

  • Hisaw (1926): injeção de extrato de corpo lúteo em cobaias → relaxamento da sínfise púbica → nomeou 'relaxin'
  • Estrutura determinada: Schwabe & Bradshaw (1969) — estrutura de cadeia A-B similar à insulina

Família de relaxinas humanas (7 membros)

  • Genes: família Insulin superfamily (compartilham estrutura A-B cadeia + pontes dissulfeto):

- RLN1: Relaxina-1 (espécie-específica; primatas) - RLN2: Relaxina-2 (H2 Relaxina) — a 'relaxina clássica' em humanos; produzida em corpo lúteo, decídua, próstata, mama, coração - RLN3: Relaxina-3 — neurohormônio no SNC (hipotálamo, raphé); liga RXFP3 + RXFP4; regula stress, sono, apetite - INSL3 (insulin-like 3): testículos → descida do testículo; corpo lúteo - INSL4: placenta; função incerta - INSL5: cólon; receptor RXFP4; efeitos metabólicos - INSL6: testículo; função incerta

Estrutura da Relaxina-2 (H2 RLN)

  • Pré-pro-relaxina → clivagem → pró-relaxina → PC1/3 + PC2 → clivagem do peptídeo C → heterodímero maduro:

- Cadeia A: 24aa (em humanos) - Cadeia B: 29aa - Pontes dissulfeto: 3 total (AB1, AB2 interchain; AA intrachain) - Similar à insulina em estrutura 3D

  • MW: ~6 kDa
  • Meia-vida IV: ~10-15 min; infusão contínua necessária para efeito terapêutico sustentado

Receptores de Relaxina — família LGR (leucine-rich repeat GPCRs)

  • RXFP1 (LGR7): principal receptor de Relaxina-2 e Relaxina-1

- GPCR Classe A com domínio extracelular rico em leucina (LRR) - Sinalização: Gαs → ↑cAMP → PKA; mas também Gαi e Gαo; ↑NO via PI3K/Akt/eNOS - Distribuição: útero, colo do útero, sínfise púbica, rim, coração, vasos, pulmão, fígado, próstata, cérebro

  • RXFP2 (LGR8): receptor de INSL3 (testicular descent)
  • RXFP3: receptor de Relaxina-3 (no SNC)
  • RXFP4: receptor de Relaxina-3 e INSL5 (SNC, GI)

Fontes de Relaxina-2 em humanos

  • Gravidez: corpo lúteo (C.L.) do ovário — principal fonte; decídua e trofoblasto placentário

- Pico: 1º trimestre (semanas 8-12), ↓gradualmente no 2º e 3º trimestres - Detectável no plasma: apenas durante gestação (indetectável fora da gestação em mulheres)

  • Homens: células epiteliais da próstata — Relaxina-2 no sêmen (alta concentração)

- Função no sêmen: modula função espermática (liquefação do sêmen, motilidade?)

  • Coração, vasos: mínima produção local
  • Mama: glândulas mamárias (lactação?)

Efeitos Fisiológicos na Gravidez e no Colo Uterino

Papel fisiológico da Relaxina na gravidez

  1. Relaxamento da sínfise púbica e ligamentos pélvicos:

- Relaxina → RXFP1 nos ligamentos pélvicos + sínfise → ↑colagenase (MMP-1, MMP-3) → ↓crosslinks de colágeno → relaxamento, ↑mobilidade → ampliação do canal do parto - Cobaias: sem Relaxina → sínfise rígida → morte materna no parto por obstrução - Humanos: papel confirmado em mobilidade da sínfise na gravidez

  1. Amadurecimento do colo uterino (cervical ripening):

- Colo do útero: normalmente rígido (colágeno I, III densamente cross-linked) - Relaxina → RXFP1 nas células estromais do colo → ↑IL-8, ↑MMP-1/3 → ↓colágeno + ↑ácido hialurônico → amolecimento ('ripening') pré-parto - Trabalho de parto: progressivo amolecimento do colo sob ação de Relaxina + prostaglandinas + ocitocina

  1. Crescimento uterino e angiogênese:

- Relaxina → RXFP1 no miométrio e endométrio → ↑VEGF → ↑angiogênese decidual - Utero: quiescência muscular (↑cAMP → inibe contração miometrial) até o início do trabalho

  1. Adaptação hemodinâmica à gravidez:

- ↑Débito cardíaco na gravidez: componente mediado por Relaxina - Relaxina → RXFP1 nos vasos renais e sistêmicos → ↑NO/gelatinases → vasodilatação → ↓RVS → ↑DC - Rim: Relaxina → ↑hiperfiltração glomerular (vasodilatação aferente renal) - ↑TFG na gravidez: parcialmente mediada por Relaxina (além de progesterona/estrógeno)

Relaxina-3 e SNC

  • Relaxina-3 (RLN3): produzida no nucleus incertus (tegmento pontino) → neurônios com projeções amplas
  • RXFP3 no hipotálamo, amígdala, hipocampo
  • Funções RLN3/RXFP3 em investigação: apetite (orexigênico?), resposta ao stress, memória espacial, sono, ritmo circadiano
  • Relação com CRH: RLN3 e CRH interagem no tegmento e amígdala → modulação do stress

Deficiência ou disfunção de Relaxina

  • Pré-eclampsia: ↓Relaxina sérica no 1º trimestre?

- Hipótese: ↓Relaxina → ↓vasodilatação placentária → ↑resistência vascular uterina → ↓perfusão → pré-eclampsia

  • Parto prematuro: Relaxina precocemente elevada → amolecimento colo prematuro?

- Relaxina sérica não é bom preditor de trabalho prematuro (baixa especificidade)

  • Fibromialgia e articulações hipermóveis: ↑mobilidade de ligamentos por Relaxina excessiva em síndrome de hipermobilidade?

Relaxina como Anti-Fibrótico e Serelaxina em IC Aguda

Propriedades anti-fibróticas da Relaxina

  • Fibrose: deposição excessiva de matriz extracelular (colágeno I, III, IV) → dano estrutural
  • Relaxina → RXFP1 em fibroblastos:

- ↑cAMP → ↓TGF-β1 sinalização → ↓Smad2/3 (via ↓ALK5 → ↑ALK5 degradation?) - ↑MMP-1, MMP-2, MMP-9, MMP-13: ↑degradação do colágeno existente - ↓TIMP-1 e TIMP-2: ↑atividade de MMPs líquidas - ↑Relaxina → ↓síntese de colágeno I/III pelos miofibroblastos - ↓α-SMA (marcador de miofibroblasto): ↓diferenciação de fibroblastos → miofibroblastos

  • Resultado: resolução da fibrose existente + prevenção de nova fibrose

Modelos pré-clínicos de anti-fibrose

  • Fibrose hepática (CCL4, BDL models): Relaxina → ↓fibrose, ↑MMP
  • Fibrose cardíaca: Relaxina → ↓FA-induzida fibrose atrial; ↓fibrose ventricular pós-IAM
  • Fibrose renal: Relaxina → ↓TGF-β/Smad → ↓fibrose tubulointersticial
  • Fibrose pulmonar (IPF): Relaxina → ↓deposição colágeno em modelo murino de bleomicina
  • Fibrose dérmica (esclerodermia): Relaxina → ↓espessamento cutâneo em modelos

Serelaxina (RLN2 recombinante) em Insuficiência Cardíaca Aguda Descompensada (ICAD)

  • Racional: Relaxina em ICAD → vasodilatação + anti-fibrose → ↑débito cardíaco + ↓lesão de órgão-alvo
  • RELAX-AHF (Teerlink et al., 2013, Lancet): serelaxina 30 μg/kg/dia × 48h IV vs. placebo

- Desfecho primário: ↓dispneia em VAS e Likert → resultados POSITIVOS (p<0,001 e p=0,007) - Desfecho secundário pré-especificado: ↓mortalidade cardiovascular 180 dias → 37% ↓ (HR 0,63; p=0,028) - Marcadores de lesão de órgão: ↓troponina I, creatinina → menos lesão renal e cardíaca

  • RELAX-AHF-2 (2019): fase III — resultado NEGATIVO

- 6545 pacientes; desfecho primário: mortalidade CV 180 dias → sem diferença (HR 0,98; p=0,770) - Mortalidade total: também sem diferença - Dispneia: tendência favorável mas sem significância - Conclusão: serelaxina não reduz mortalidade em ICAD apesar de resultados promissores na fase II - Lição: biomarcadores e sintomas de fase II nem sempre predizem mortalidade em fase III

Outras tentativas de Relaxina terapêutica

  • Fibrose hepática em cirrosos: ensaios fase II em andamento
  • Prevenção de recorrência de FA pós-ablação: ↓fibrose atrial?
  • Esclerodermia: serelaxina em escleroderma sistêmico — ensaio fase II (resultados limitados)
  • Análogos de Relaxina mais estáveis e oral: em desenvolvimento (COVI-196 e outros)
  • RXFP1 agonistas de pequenas moléculas (não-peptídicos): para evitar problemas de instabilidade proteica

Relaxina e Perspectivas em Saúde Masculina e Outras Doenças

Relaxina no homem

  • Próstata: maior fonte de Relaxina-2 em homens; células epiteliais prostáticas
  • Sêmen: alta concentração de Relaxina-2 (muito acima do plasma)

- Função: ↑motilidade espermática? — dados conflitantes - RXFP1 em espermatozoides: modulação da capacitação?

  • Próstata e câncer de próstata:

- Relaxina super-expressa em CaP avançado → via RXFP1 → ↑invasão, ↑metástase, ↑resistência ao ADT? - Relaxina oncogênica em CaP: ↑VEGF, ↑MMP-2 → angiogênese e invasão - Antagonistas de RXFP1 como anti-tumoral? — fase pré-clínica

Relaxina e função renal

  • RXFP1 no rim: vasos e glomérulos
  • Relaxina → vasodilatação renal aferente + ↑TFG
  • Nefrotoxicidade: Relaxina exógena → ↑pressão intraglomerular → risco de glomeruloesclerose com uso crônico?
  • Lesão renal aguda: Relaxina protetora → ↑perfusão + ↓fibrose

Relaxina e sistema cardiovascular

  • Vasculatura: RXFP1 em VSMC e endotélio → ↑NO (via PI3K/Akt/eNOS) + ↑prostaglandinas → vasodilatação
  • Coração: RXFP1 em cardiomiócitos → efeitos cronotrópicos e inotrópicos sutis
  • Fibrose atrial e FA: RXFP1 nos fibroblastos atriais → Relaxina ↓fibrose atrial → ↓substrato de FA?

- Modelo porcino de FA: serelaxina ↓fibrose atrial + ↓indutibilidade de FA

  • Hipertensão pulmonar: RXFP1 nos vasos pulmonares → Relaxina vasodilatador pulmonar? — modelos promissores

INSL3 — Insulin-like 3 e descida testicular

  • INSL3: produzido pelas células de Leydig → age no RXFP2 (LGR8)
  • Fetal: descida do testículo do abdômen para o escroto (via gubernáculo)
  • Deficiência de INSL3 ou RXFP2: criptorquidia (testículo não descido) — causa comum de infertilidade masculina
  • Adultos: INSL3 produzido constitutivamente pelas células de Leydig → marcador de função das células de Leydig

- ↓INSL3 na andropausa/hipogonadismo masculino - INSL3 como alternativa ao testosterona como biomarcador de função testicular?

Perspectivas

  • Análogos de Relaxina de longa ação: para fibrose crônica (hepática, renal, cardíaca)
  • RXFP1 agonistas orais: facilitar acesso terapêutico
  • Relaxina e pré-eclampsia: potencial preventivo?
  • RLN3/RXFP3: alvo emergente em transtornos de ansiedade, sono, obesidade
  • INSL5 e RXFP4: peptídeo colônico que pode ↑apetite e ↑motilidade GI — alvo metabólico

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Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é relaxina e qual é seu papel na gravidez?+

A relaxina (H2 Relaxina/RLN2) é um hormônio peptídico heterodimérico de 6 kDa, estruturalmente similar à insulina, produzido pelo corpo lúteo durante a gravidez. Age no receptor RXFP1 mediando três efeitos principais no parto: (1) relaxamento da sínfise púbica e ligamentos pélvicos via aumento de colagenases (MMPs), ampliando o canal do parto; (2) amadurecimento do colo uterino, tornando-o progressivamente mais mole e distensível; (3) adaptação hemodinâmica materna — vasodilatação sistêmica e renal via ↑NO, ↑débito cardíaco e ↑TFG. No 1º trimestre há um pico de relaxina nas semanas 8-12.

A serelaxina foi aprovada para insuficiência cardíaca?+

Não — apesar de resultados promissores no estudo de fase II (RELAX-AHF, 2013), onde serelaxina melhorou dispneia e mostrou tendência a reduzir mortalidade cardiovascular em 180 dias, o ensaio pivotal de fase III (RELAX-AHF-2, 2019, n=6545) não demonstrou benefício em mortalidade cardiovascular (o desfecho primário). Isso ilustra o clássico desafio de traduzir resultados de fase II para fase III em cardiologia. A serelaxina não possui aprovação regulatória para nenhuma indicação clínica atualmente, embora continue em investigação em fibrose e outras indicações.

Relaxina tem propriedades anti-fibróticas?+

Sim — e essa é uma das propriedades mais estudadas da relaxina. Via RXFP1 em fibroblastos, a relaxina: ↑MMPs (colagenases que degradam o colágeno acumulado), ↓TIMP-1/2 (inibidores das MMPs), ↓síntese de colágeno pelos miofibroblastos, ↓TGF-β/Smad (a via central de fibrose) e ↓diferenciação de fibroblastos em miofibroblastos. Em modelos pré-clínicos, resolve fibrose hepática, cardíaca, pulmonar, renal e dérmica. Ensaios clínicos em fibrose hepática, esclerodermia e prevenção de fibrose atrial pós-ablação de FA estão em andamento.

O que é INSL3 e por que é importante na saúde masculina?+

INSL3 (Insulin-like 3) é outro membro da família da relaxina, produzido pelas células de Leydig do testículo. No feto, é essencial para a descida dos testículos do abdômen para o escroto via ligamento gubernáculo. Deficiências de INSL3 ou de seu receptor RXFP2 causam criptorquidia (testículos não descidos), uma das causas mais comuns de infertilidade masculina e fator de risco para câncer testicular. Na vida adulta, o INSL3 é produzido constitutivamente pelas células de Leydig e é considerado um biomarcador da função testicular — com redução na andropausa e hipogonadismo masculino.

Referências Científicas

  1. Hisaw FL. Experimental relaxation of the pubic ligament of the guinea pig.. Proc Soc Exp Biol Med, 1926.
  2. Conrad KP. Maternal vasodilation in pregnancy: the emerging role of relaxin.. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol, 2011.
  3. Teerlink JR, et al. Serelaxin, recombinant human relaxin-2, for treatment of acute heart failure (RELAX-AHF): a randomised, placebo-controlled trial.. Lancet, 2013.
  4. Metra M, et al. (RELAX-AHF-2 Investigators) Effects of serelaxin in patients with acute heart failure.. N Engl J Med, 2019.
  5. Samuel CS, et al. Relaxin family peptide receptors — from orphans to therapeutic targets.. Drug Discov Today, 2017.
  6. Agoulnik IU, Kaftanovskaya EM, Myhr C et al. Engineering a long acting, non-biased relaxin agonist using Protein-in-Protein technology.. Biochemical Pharmacology, 2024.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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