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← Blog·peptideos23 de junho de 2026· 12 min de leitura

Pregabalina, gabapentina, capsaicina e lidocaína IV — farmacologia da dor neuropática crônica

Pregabalina e gabapentina ligam subunidade α2δ de canais de Ca²+ voltagem-dependentes, reduzindo liberação de neurotransmissores de dor. Capsaicina ativa e depois dessensibiliza receptores TRPV1. Lidocaína IV bloqueia canais de Na+ centralmente. Mecanismos, doses, indicações e comparações para neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, fibromialgia e dor central.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Dor neuropática — fisiopatologia, classificação e abordagem farmacológica geral

Dor neuropática: dor causada por lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial (central ou periférico), com características específicas que a diferenciam da dor nociceptiva:

  • Características clínicas: queimação, choque elétrico, agulhadas, formigamento (parestesias), dormência com dor; alodinia (dor com estímulo normalmente não-doloroso, como leve toque) e hiperalgesia (dor exagerada a estímulo levemente doloroso)
  • Etiologias comuns: neuropatia diabética periférica, neuralgia pós-herpética (zona zóster), neuropatia por quimioterapia (neuropatia induzida por cisplatina, paclitaxel, oxaliplatina, bortezomibe), lesão medular, neuralgia do trigêmeo, dor do membro fantasma, fibromialgia (dor centralizada)

Fisiopatologia da dor neuropática (bases para o tratamento):

  1. Sensibilização periférica: dano a axônios → expressão anormal de canais de Na+ (Nav1.7, Nav1.8 — subtipos periféricos) e de canais de Ca²+ voltagem-dependentes (VGCC com subunidade α2δ) nos nociceptores → disparos espontâneos + limiar de ativação reduzido = alodinia
  2. Sensibilização central (wind-up): ativação repetida de neurônios da medula espinal → facilitação progressiva → ↑liberação de glutamato → ativação de receptores NMDA → ↑cálcio pós-sináptico → facilitação de longo prazo; base da fibromialgia e dor central
  3. Redução de controle inibitório descendente: axônios noradrenérgicos e serotonérgicos da rafe e do locus coeruleus inibem a transmissão de dor no corno dorsal → danos a esses sistemas → menos inibição → mais dor

Escada analgésica da OMS para dor neuropática (diferente da dor nociceptiva):

  • Os opioides clássicos têm eficácia LIMITADA na dor neuropática (ao contrário de dor nociceptiva onde são muito eficazes) — mecanismos são diferentes
  • 1ª linha para dor neuropática: gabapentinoides (pregabalina, gabapentina) + ISRSN (duloxetina, venlafaxina) + ATCs (amitriptilina, nortriptilina)
  • 2ª linha: lidopoches tópicos (lidocaína), capsaicina de alta concentração (8%)
  • 3ª linha: tramadol, opioides fortes (com ressalvas), buprenorfina
  • Não-farmacológicos: TENS (estimulação elétrica), acupuntura, psicoterapia (TCC para dor)

Meta-análise de referência (Finnerup 2015, Lancet Neurol): hierarquia de tratamentos para dor neuropática periférica com NNT (Number Needed to Treat para redução ≥50% da dor): ATCs NNT ~3.6, SNRIs NNT ~6.4, gabapentinoides NNT ~7.7, lidocaína tópica NNT ~4.0, opioides NNT ~4.3

Pregabalina e gabapentina — gabapentinoides: mecanismo, diferenças e usos clínicos

Mecanismo dos gabapentinoides (pregabalina e gabapentina):

  • Ambos são análogos estruturais do GABA mas NÃO agem em receptores GABA (apesar do nome)
  • Alvo real: subunidade α2δ (alpha-2-delta) dos canais de cálcio voltagem-dependentes (VGCC) do tipo N e P/Q, presentes em neurônios sensoriais periféricos e na pré-sinapse do corno dorsal
  • Bloqueio de α2δ → ↓abertura de canais de Ca²+ → ↓influxo de Ca²+ pré-sináptico → ↓liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato, substância P) → redução da transmissão de dor
  • Também reduzem a expressão aumentada de subunidades α2δ que ocorre em dor crônica (downregulation terapêutica)
  • Nota: subunidade α2δ é DIFERENTE dos canais L-type (bloqueados por bloqueadores de Ca²+ cardíacos como amlodipina, verapamil) → gabapentinoides NÃO têm efeito cardiovascular

Gabapentina (Neurontin® — Pfizer; genérico amplamente):

  • Farmacocinética NÃO-LINEAR: absorção intestinal via transportador L-amino-ácido saturável → absorção depende da dose (50-60% de biodisponibilidade com 300 mg cai para ~30-35% com 1600 mg) → doses altas não dobram o efeito
  • Sem metabolismo hepático; excreção renal inalterada → ajuste rigoroso em IR
  • Doses: iniciar 100-300 mg 3x/dia → aumentar a cada 1-3 dias → alvo 900-3600 mg/dia em 3 tomadas (3x ao dia obrigatório pela meia-vida curta ~5-7h)
  • Indicações aprovadas: neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, epilepsia (adjuvante para crises parciais); off-label: fibromialgia, ansiedade, abstinência de álcool, dor pós-operatória
  • Efeitos adversos: sonolência e tontura (dose-dependentes, especialmente no início — aumentar gradualmente), ataxia, ganho de peso, edema periférico, distúrbio cognitivo em idosos

Pregabalina (Lyrica® — Pfizer; genérico aprovado):

  • Farmacologicamente superior à gabapentina em vários aspectos:

- Absorção linear e mais alta (~90% biodisponibilidade oral, independente da dose) — farmacocinética mais previsível - Meia-vida ~6h mas pode ser usada em 2 doses/dia (diferente da gabapentina que precisa ser 3x/dia) - Início de efeito analgésico mais rápido (1ª semana vs 2-4 semanas da gabapentina em muitos estudos)

  • Doses: iniciar 75 mg 2x/dia → aumentar conforme tolerância → 150-300 mg 2x/dia (300-600 mg total/dia) para maioria; máximo: 600 mg/dia (doses acima de 600 mg/dia não aumentam eficácia)
  • Indicações aprovadas: neuropatia diabética periférica, neuralgia pós-herpética, fibromialgia, neuropatia da lesão medular; epilepsia (adjuvante)
  • Efeitos adversos: similares à gabapentina (sonolência, tontura, ganho de peso, edema); potencial de abuso (pregabalina tem potencial de euforia em doses altas → classificada como Classe V nos EUA, e regulada mais rigorosamente em vários países europeus)
  • ATENÇÃO: Pregabalina + opioides + benzodiazepínicos = risco aumentado de depressão respiratória e morte; combinação requer cautela

Quando preferir pregabalina vs gabapentina:

  • Pregabalina: inicio de ação mais rápido necessário; melhor adesão (2x/dia vs 3x/dia); neuropatia pós-herpética aguda; fibromialgia
  • Gabapentina: custo muito mais baixo (genérico muito barato); epilepsia pediátrica (mais dados); dor pós-operatória aguda
  • Efficacy: comparáveis quando ajustadas para doses equieficazes

Capsaicina (TRPV1) e lidocaína IV para dor neuropática refratária

Capsaicina tópica (Capsico® — Johnson & Johnson; Zostrix® HP 0.075% — genérico; Qutenza® 8% — adesivo de alta dose):

Mecanismo elegante via TRPV1:

  • Capsaicina (composto ativo da pimenta) → ativa receptor TRPV1 (Transient Receptor Potential Vanilloid 1) — o receptor do calor e da acidez; canal catiônico não-seletivo em nociceptores C e Aδ
  • Aplicação contínua ou de alta dose → dessensibilização de TRPV1: no início, TRPV1 é ativado → influxo de cálcio → depleção de substância P dos terminais nervosos; com exposição contínua → TRPV1 inativa irreversivelmente (por processo chamado defunctionalization) → nociceptores ficam insensíveis temporariamente → analgesia (sem destruição permanente do nervo)
  • O nervo pode regenerar normalmente após semanas-meses, mas a analgesia pode persistir enquanto a regeneração não é completa

Formulações:

  • Creme/gel de baixa concentração (0.025-0.075%): uso domiciliar 3-4x/dia; queimação intensa nas primeiras semanas de uso → melhora gradualmente conforme TRPV1 é dessensibilizado; 4-8 semanas para efeito analgésico; orientar que a queimação NÃO é dano tissular real e que é esperada
  • Adesivo de alta concentração 8% (Qutenza® — Grünenthal): aplicação única de 30-60 min em clínica, sob supervisão; aplicação de anestésico local antes para tolerar; proporciona alívio por 12 semanas após uma única aplicação; especialmente para neuralgia pós-herpética (PHN) e neuropatia HIV
  • Indicações: neuralgia pós-herpética, neuropatia diabética, dor musculoesquelética regional (artralgia de pequenas articulações), dor oncológica neuropática

Lidocaína tópica (adesivo de lidocaína 5% — Lidoderm® / Versatis® — Teikoku/Grünenthal):

  • Aplica-se 1-3 adesivos sobre área dolorosa por 12h/dia (12h com / 12h sem)
  • Bloqueia canais de Na+ nos nociceptores locais → reduz disparos ectópicos periféricos
  • Absorção sistêmica mínima → poucos efeitos adversos sistêmicos; local: irritação de pele leve
  • Indicações: neuralgia pós-herpética (PHN) → 1ª linha em muitos países; dor musculoesquelética localizada; dor pós-cirúrgica em cicatriz

Lidocaína IV para dor neuropática crônica refratária:

  • Infusão IV de lidocaína em doses sub-anestésicas: 1-5 mg/kg em 30-60 min (tipicamente 1-1.5 mg/kg → 100-200 mg para um adulto de 70 kg)
  • Mecanismo: bloqueia canais de Na+ tanto na periferia quanto centralmente (lidocaína atinge SNC); reduz sensibilização central
  • Evidências moderadas para: neuropatia diabética periférica refratária, fibromialgia refratária, síndrome de dor regional complexa (SDRC/CRPS), dor neuropática central (lesão medular, pós-AVC)
  • Uso em contexto de clínica de dor especializada — não é tratamento de rotina; efeito pode persistir por semanas após a infusão
  • Mexiletina oral: análogo oral da lidocaína para uso crônico; disponível nos EUA (off-label para dor); menos disponível no Brasil

Tramadol (Tramal® — Grunenital; genérico):

  • Mecanismo duplo: (1) agonista fraco de receptores opioides μ; (2) inibidor de recaptação de NE e 5-HT (efeito ISRSN fraco)
  • Eficácia em dor neuropática: moderada; pode ser útil quando gabapentinoides e ATCs falham
  • Doses: 50-100 mg a cada 4-6h (liberação imediata) ou 100-300 mg/dia (liberação prolongada)
  • Conversão em O-desmetiltramadol (M1) via CYP2D6 → M1 tem atividade opioide principal; metabolizadores lentos (CYP2D6 PM) têm menos efeito analgésico; metabolizadores ultrarrápidos têm mais toxicidade opioide
  • Efeitos adversos: náusea, tonturas, constipação; convulsões (risco em epilepsia, ao combinar com ISRS — síndrome serotonérgica, ao combinar com ATC); potencial de abuso (opioides); síndrome de serotonina quando combinado com antidepressivos serotonérgicos
  • CONTRAINDICADO com IMAO (fenelzina, tranilcipromina) — risco de síndrome serotonérgica grave
  • Evitar em epilepsia (reduz limiar convulsivo)

Dor neuropática, recuperação e abordagens complementares

A dor neuropática crônica raramente responde a uma única intervenção farmacológica. Abordagens multimodais combinam gabapentinoides com antidepressivos (duloxetina, amitriptilina), fisioterapia neuromoduladora (TENS), neuromodulação invasiva (estimulação medular) e suporte psicológico (TCC para dor). A inflamação neural persistente em torno de raízes nervosas lesadas — um mecanismo compartilhado com tendinites, osteoartroses e lesões ligamentares — criou interesse em compostos com ação regenerativa neural e anti-inflamatória local.

Nesse contexto, o BPC-157 tem sido investigado por seu perfil de modulação de fatores de crescimento (VEGF, EGF) e neuroproteção em modelos experimentais. Para uma perspectiva mais ampla sobre compostos investigacionais em recuperação músculo-esquelética, explore o artigo sobre peptídeos para recuperação articular. O Hub de Recuperação reúne conteúdo sobre protocolos e compostos investigados para regeneração e controle de dor.

Perguntas frequentes sobre tratamento da dor neuropática

Comparativo farmacológico: gabapentinoides, antidepressivos e analgésicos tópicos

A escolha entre as classes farmacológicas disponíveis para dor neuropática envolve considerar mecanismo de ação, eficácia relativa, perfil de efeitos adversos e comorbidades do paciente. A tabela a seguir sintetiza os principais agentes de primeira e segunda linha:

| Fármaco/Classe | Mecanismo principal | NNT (dor ≥50%)* | Efeitos adversos relevantes | |---|---|---|---| | Pregabalina | Bloqueia canais Ca²⁺ via α2δ | 7–8 | Sedação, ganho de peso, edema | | Gabapentina | Bloqueia canais Ca²⁺ via α2δ | 6–7 | Sedação, tontura, ataxia | | Duloxetina (IRSN) | Inibição de recaptação de 5-HT/NE | 6–7 | Náusea, boca seca, hipertensão leve | | Amitriptilina (ATC) | IRSN + anticolinérgico + bloqueio Na⁺ | 4–5 | Sedação, cardiotoxicidade, constipação | | Capsaicina 8% (adesivo) | Dessensibilização TRPV1 | ~10 | Queimação local intensa no período inicial | | Lidocaína IV | Bloqueio de canais Na⁺ centrais e periféricos | Variável | Exige monitoramento cardíaco contínuo |

*NNT = Número Necessário a Tratar para redução ≥50% da dor. Valores baseados em revisões Cochrane (Moore, Derry et al.).

Nenhuma classe é universalmente superior: a duloxetina tende a ser preferida quando há comorbidade com depressão; os gabapentinoides têm maior base de evidências em neuropatia diabética e neuralgia pós-herpética; a amitriptilina permanece relevante pelo baixo custo, apesar do perfil adverso; os tópicos (capsaicina, lidocaína 5%) são preferidos quando se busca mínima exposição sistêmica em pacientes com dor localizada.

NNT real e expectativa de resposta: o que os dados de eficácia indicam

Uma expectativa calibrada é essencial na abordagem da dor neuropática. Revisões sistemáticas — incluindo a série Cochrane sobre neuropathic pain — revelam que os tratamentos farmacológicos disponíveis são moderadamente eficazes, não altamente eficazes.

Os NNT (Número Necessário a Tratar para redução ≥50% na intensidade da dor) giram em torno de 4 a 8 para os principais fármacos. Isso significa que, para cada 4–8 pacientes tratados, apenas 1 obtém a resposta definida como clinicamente significativa nos estudos. Os demais experimentam benefício parcial ou ausente.

Além da eficácia limitada, há a questão da durabilidade: a maioria dos ensaios pivôtais tem duração de 8–12 semanas, com pouca evidência de manutenção de efeito a longo prazo sem desenvolvimento de tolerância — especialmente com gabapentinoides em uso contínuo.

O NNH (Número Necessário para Causar Dano, definido como abandono por efeitos adversos) é igualmente informativo: para pregabalina, o NNH está em torno de 13; para amitriptilina, em torno de 15. Esses valores indicam que uma fração relevante dos pacientes não tolera a dose terapêutica plena.

A implicação é que a maioria das diretrizes contemporâneas — incluindo Finnerup et al. (Lancet Neurology, 2015 e 2021) — recomenda titulação gradual de dose, monitoramento regular e estratégias multimodais em vez de monoterapia com dose máxima.

Interações dos gabapentinoides: o que a literatura de segurança documenta

Os gabapentinoides (pregabalina e gabapentina) têm interações clinicamente relevantes que a farmacovigilância tem destacado com frequência crescente:

Opioides — sinergismo potencialmente grave: Análises de dados de autópsia no Reino Unido e estudos de farmacovigilância norte-americanos identificaram gabapentina e pregabalina entre as substâncias co-presentes em número significativo de mortes relacionadas a overdose de opioide. O mecanismo proposto envolve depressão respiratória aditiva: ambas as classes deprimem o drive respiratório central por vias distintas, mas com efeito somado.

Insuficiência renal — eliminação comprometida: Ambos os fármacos são eliminados predominantemente por filtração glomerular, sem metabolismo hepático relevante. Clearance reduzido de creatinina exige redução proporcional de dose para evitar acúmulo e toxicidade do SNC (sedação profunda, confusão mental, mioclonia).

Álcool e outros depressores do SNC: Estudos de interação documentam potencialização da sedação com uso concomitante de álcool. Dados de farmacoepidemiologia identificam potencial de dependência dos gabapentinoides — aspecto que motivou a reclassificação da pregabalina como substância controlada (Schedule V) nos EUA em 2005 e medidas similares no Reino Unido em 2019.

Dor central versus dor periférica: a distinção que determina a resposta farmacológica

A dor neuropática não é uma entidade uniforme — a localização da lesão (sistema nervoso central vs. periférico) influencia tanto a apresentação clínica quanto a resposta aos fármacos.

Dor neuropática periférica (DNP) — lesão nos nervos periféricos:

  • Exemplos: neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, síndrome do túnel do carpo, neuropatia quimioinduzida
  • Gabapentinoides: maior base de evidências (a maioria dos ensaios pivôtais foi conduzida nessa população)
  • Capsaicina tópica e lidocaína 5%: restritas à DNP — não há penetração relevante no SNC

Dor neuropática central (DNC) — lesão no SNC:

  • Exemplos: dor pós-AVC, esclerose múltipla, lesão medular, siringomielia
  • Resposta farmacológica frequentemente mais refratária; gabapentinoides têm evidência mais limitada nesse contexto
  • Canabinoides têm estudos específicos em dor por esclerose múltipla (nabiximols/Sativex)
  • Neuromodulação invasiva (estimulação cerebral profunda, estimulação medular) é considerada em casos refratários a farmacoterapia

A revisão sistemática de Finnerup et al. (PAIN, 2015 e atualização 2021) distingue explicitamente essas populações ao graduar as recomendações — o que explica por que um fármaco com boa evidência em neuralgia pós-herpética pode ser ineficaz em dor central pós-AVC.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que morfina e opioides fortes funcionam mal para dor neuropática?+

É uma das observações mais importantes e contraintuitivas da farmacologia da dor. Os opioides são a classe mais potente para dor aguda e dor nociceptiva (causada por dano tecidual — ossos fraturados, pós-cirúrgico, câncer com invasão tecidual), mas têm eficácia limitada e inconsistente na dor neuropática. O mecanismo explica: a dor nociceptiva normal ativa principalmente receptores opioides μ no corno dorsal espinal que respondem bem à morfina. A dor neuropática envolve mecanismos adicionais que os opioides não abordam: disparos ectópicos em canais de Na+ alterados (gabapentinoides e ATCs agem aqui); sensibilização central via receptores NMDA (a ketamina e a memantina agem aqui; opioides não); deficiência de inibição descendente noradrenérgica e serotonérgica (ATCs e ISRSNs restauram; opioides não de forma eficaz). Nos estudos clínicos de NNT: opioides têm NNT de ~4 em dor neuropática (razoável em teoria), mas o efeito é inconsistente entre pacientes, há tolerância rapidamente, e os efeitos adversos (constipação, sedação, dependência, hiperalgesia paradoxal) são problemáticos no uso crônico. Hiperalgesia induzida por opioide: paradoxalmente, uso crônico de opioides pode AUMENTAR a sensibilidade à dor por mecanismos de sensibilização central — o oposto do efeito desejado. Por isso os guidlines (EFNS, APS) recomendam opioides como 3ª linha na dor neuropática, depois de falha de gabapentinoides, ATCs e ISRSNs.

Pregabalina causa dependência? Posso parar de usar de repente?+

Pregabalina tem potencial de dependência física e psicológica, especialmente em doses altas e após uso prolongado — embora seja muito diferente do padrão de dependência de opioides ou benzodiazepínicos. Quanto ao potencial de abuso: em estudos populacionais, pregabalina (e gabapentina) têm sido crescentemente relatadas em uso recreativo — em doses altas (>1000 mg), alguns pacientes relatam euforia e efeitos ansiolíticos intensos. Esse perfil levou ao reclassificação da pregabalina como Classe V (droga controlada) nos EUA desde 2005, e à regulação crescente em países europeus. No Brasil, pregabalina requer receita especial (controle especial amarelo). Síndrome de abstinência: ao parar pregabalina abruptamente (especialmente após uso prolongado de altas doses): insônia, ansiedade, náusea, sudorese, irritabilidade, cefaleia — uma síndrome de abstinência real mas geralmente menos grave que benzodiazepínicos ou opioides; convulsões raras foram relatadas em descontinuação abrupta. O que fazer ao descontinuar: NUNCA parar abruptamente após uso >4 semanas; reduzir a dose gradualmente em 10-25% por semana, conforme tolerado; o desmame pode levar semanas a meses em uso prolongado de altas doses. A dependência física que se desenvolve é previsível pela farmacologia (tolerância e adaptação ao sistema GABA/canais de Ca²+); não significa que o medicamento foi prescrito errado — é uma realidade farmacológica que requer manejo adequado.

Capsaicina de pimenta (alimentos) pode ajudar em dores?+

A capsaicina da dieta tem algum efeito farmacológico real — mas em concentrações muito mais baixas que as usadas nas formulações terapêuticas. Mecanismo: a capsaicina dietética (em pimentas, molhos picantes, curry) também ativa TRPV1, mas em concentrações muito baixas para causar dessensibilização duradoura. Você sente a queimação (ativação aguda de TRPV1) mas não obtém a dessensibilização prolongada que ocorre com as formulações de alta dose terapêutica. O que a pesquisa mostra: alguns estudos observacionais em populações que consomem pimentas regularmente mostram maior limiar de dor e possível efeito anti-inflamatório sistêmico (via ativação de TRPV1 intestinal e liberação de substância P que esgota progressivamente); porém os dados são inconsistentes. Benefícios mais claros da capsaicina dietética: metabolismo (ativa termogênese leve via TRPV1 adiposo + SNS), efeitos cardiovasculares potencialmente protetores em populações asiáticas com alto consumo de pimentas. Para dor neuropática real: a concentração dietética é insuficiente para efeito clínico; são necessárias as formulações tópicas (0.025-0.075% para uso domiciliar, ou 8% para aplicação única em clínica). Aplicação local de pimenta malagueta ou molho de pimenta na pele: pode aliviar temporariamente dores musculares superficiais por contrarritação (TENS natural), mas não é eficaz para dor neuropática profunda e pode causar irritação cutânea séria sem a formulação adequada.

Qual o papel da ketamina em doses baixas para dor crônica?+

A ketamina em doses sub-anestésicas (ketamina IV, infusões de 0.1-0.5 mg/kg/h por horas a dias) tem emergido como opção para dor crônica neuropática refratária, particularmente a síndrome de dor regional complexa (SDRC/CRPS tipo I e II). Mecanismo analgésico em baixas doses: bloqueio dos receptores NMDA no corno dorsal espinal → reverso da sensibilização central; efeitos anti-inflamatórios via supressão de citocinas; e possível efeito em vias opioidérgicas e monoaminérgicas. Evidências disponíveis: em SDRC especificamente, RCTs de ketamina de infusão IV (Schwartzman 2009, Sigtermans 2009) mostraram reduções significativas de dor por semanas a meses após ciclos de infusão; para outras formas de dor neuropática refratária, os dados são mais limitados mas promissores em estudos menores. Uso clínico atual: disponível em clínicas de dor especializadas no Brasil e no exterior; realizada em ambiente supervisionado (ambulatório ou hospital-dia); efeitos analgésicos duram semanas após a infusão antes de precisar repetir. Limites: taquicardia, dissociação, pesadelos durante a infusão; potencial de abuso com uso repetido (ketamina tem histórico de uso recreativo); custo e necessidade de supervisão. No Brasil: disponível off-label para dor; necessita prescrição especial.

Gabapentina e pregabalina aumentam o risco de depressão respiratória com opioides?+

Sim — é uma interação clínica importante. Gabapentinoides potencializam a depressão respiratória causada por opioides, especialmente em idosos, obesos ou com apneia do sono. A FDA emitiu alerta em 2019 sobre essa combinação, e estudos epidemiológicos mostraram aumento significativo de overdose fatal em usuários de opioides que também usam pregabalina ou gabapentina. A combinação não está contraindicada absolutamente, mas requer redução de dose e monitoramento cuidadoso — evitar a tríade opioides + gabapentinoide + benzodiazepínico.

Qual a dose máxima de pregabalina aprovada?+

A dose máxima aprovada de pregabalina é 600 mg/dia em 2 tomadas. Estudos controlados mostram que doses acima de 600 mg/dia não aumentam a eficácia analgésica mas elevam os efeitos adversos (sonolência, tontura, ganho de peso). Na dor neuropática, 300-600 mg/dia é a faixa mais estudada. Para fibromialgia, 150-300 mg/dia frequentemente é suficiente. O ajuste em insuficiência renal é obrigatório: ClCr 30-60 mL/min → máximo 300 mg/dia; ClCr 15-30 → máximo 150 mg/dia; abaixo de 15 → máximo 75 mg/dia.

Lidocaína IV para dor crônica está disponível no Brasil?+

A infusão IV de lidocaína para dor neuropática crônica refratária está disponível no Brasil em clínicas de dor especializadas, geralmente associadas a hospitais universitários ou centros de referência em dor. É um procedimento ambulatorial que requer monitoramento cardíaco durante a infusão (risco de arritmia em infusões rápidas ou doses altas). A mexiletina oral — análogo da lidocaína para uso crônico — tem disponibilidade limitada no Brasil; pode ser obtida via farmácia de manipulação. Os dados de eficácia suportam uso em dor neuropática diabética refratária, fibromialgia e síndrome de dor regional complexa.

Referências Científicas

  1. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. (Lancet Neurol 2015 — neuropathic pain hierarchy) Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol, 2015.
  2. Derry S, Rice ASC, Cole P, et al. (Cochrane — topical capsaicin for neuropathic pain) Topical capsaicin (high concentration) for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev, 2017.
  3. Dworkin RH, O'Connor AB, Backonja M, et al. (pharmacological management neuropathic pain — IASP consensus 2007) Pharmacologic management of neuropathic pain: evidence-based recommendations. Pain, 2007.
  4. Bockbrader HN, Wesche D, Miller R, et al. (pregabalin vs gabapentin — pharmacokinetic comparison) A comparison of the pharmacokinetics and pharmacodynamics of pregabalin and gabapentin. Clin Pharmacokinet, 2010.
  5. Sigtermans MJ, van Hilten JJ, Bauer MC, et al. (ketamine in CRPS — RCT) Ketamine produces effective and long-term pain relief in patients with Complex Regional Pain Syndrome Type 1. Pain, 2009.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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