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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 5 min de leitura

O Que É Motilina? Contrações Gástricas, Complexo Motor Migratório e Eritromicina

Motilina é um peptídeo de 22aa produzido pelas células Mo do duodeno e jejuno que regula o complexo motor migratório (CMM), as contrações de limpeza do trato GI no período interdigestivo. Age no receptor de motilina (MLNR/GPR38) em células musculares lisas e neurônios entéricos. A eritromicina é o protótipo dos agonistas de receptor de motilina (motilinomimético) e é usada clinicamente como procinético em gastroparesia e retardo de esvaziamento gástrico. Novos análogos de motilina sem atividade antibiótica estão em desenvolvimento.

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Motilina: Descoberta, Estrutura e Receptor

Descoberta

  • Motilina foi purificada em 1972 por Brown et al. a partir de mucosa de intestino delgado porcina
  • Nome: de 'motility' (motilidade) — estimula contrações do trato GI
  • Identificada inicialmente como fator que induzia contrações gástricas no estado de jejum

Gene e estrutura

  • Gene: MLN, cromossomo 6p21.1 em humanos
  • Pré-pro-motilina → clivagem → motilina de 22aa (2.7 kDa)
  • Estrutura: hélice α da Met¹ à Thr²²; Phe¹ e Tyr²-Leu³ essenciais para ligação ao receptor
  • Família: motilina e grelina compartilham o receptor MLNR (antiga denominação grelina/motilina receptor family)

- Embora estruturalmente distintas, motilina e grelina agem no mesmo receptor (MLNR = MR/GHS-R1?) - Na verdade: receptor de motilina = MLNR (GPR38); receptor de grelina = GHSR (GHS-R) — relacionados mas distintos! - Motilina NÃO age no receptor de grelina (GHSR); grelina NÃO age no receptor de motilina (MLNR) com alta afinidade — foram confundidos inicialmente

Receptor MLNR (GPR38)

  • Gene: MLNR (motilin receptor), cromossomo 13q11-q21
  • GPCR Classe A; acoplado a Gαq → ↑IP3/DAG → ↑Ca²⁺ intracelular → contração muscular
  • Também: Gαs em algumas células? (↑cAMP componente menor)
  • Distribuição de MLNR:

- Músculo liso gástrico (antro) e duodenal — mediação do CMM - Neurônios do plexo mioentérico (Auerbach) e plexo submucoso (Meissner) - Fígado, intestino grosso, vesícula biliar - SNC: distribuição limitada

Produção de motilina

  • Células Mo: células enteroendócrinas do duodeno e jejuno proximal
  • Liberação cíclica no jejum: motilina liberada em ciclos de ~90-120 min no período interdigestivo
  • Relação com CMM: pico de motilina precede e dispara a Fase III do CMM (~15 min antes)
  • Estado alimentado: alimentação SUPRIME motilina (não libera motilina em estado pós-prandial)
  • Estimuladores de motilina: infusão de gordura (paradoxalmente estimula motilina em algumas condições), gastrina, pH alcalino duodenal
  • Inibidores: somatostatina, secretina, GIP, nutrientes na luz intestinal (no estado pós-prandial)

Complexo Motor Migratório e Motilina

O Complexo Motor Migratório (CMM)

  • CMM: padrão de atividade mioelétrica coordenada do trato GI no estado de jejum
  • Ciclo de ~90-120 min; propaga-se do estômago ao íleo terminal
  • Quatro fases:

- Fase I: repouso elétrico (>40 min) - Fase II: atividade potenciais de ação irregular (20-40 min) - Fase III: burst de contrações rítmicas de alta amplitude (5-10 min) — 'onda de limpeza' - Fase IV: transição para Fase I

  • Função do CMM: 'faxina intestinal' — move resíduos não digeridos, bactérias e debris para o cólon

Motilina e Fase III do CMM

  • Motilina plasma: pico a cada 90-120 min, coincide exatamente com Fase III do CMM no antro
  • Experimento clássico: infusão de motilina IV → induz Fase III prematura
  • Anticorpo anti-motilina → bloqueia Fase III (prova do papel causal)
  • Mecanismo:

1. Motilina → MLNR no antro e duodeno → Gαq → ↑Ca²⁺ → contração do músculo liso 2. Neurônios entéricos: motilina → liberação de ACh e substância P → amplificação da contração 3. Onda migratória propagada por reflexos entéricos distalmente

Grelina e CMM — segundo agente

  • Grelina (peptídeo gástrico da fome): age no GHSR e também pode modular motilidade gástrica
  • Grelina × motilina no CMM: ambas envolvidas, mas motilina é o principal gatilho da Fase III
  • Grelina é mais importante para iniciar o esvaziamento gástrico no contexto alimentado
  • Na prática: os dois sistemas têm sobreposição funcional

Distúrbios do CMM e motilina

  • Gastroparesia diabética: ↓motilina em DM1 → CMM prejudicado → ↓esvaziamento gástrico
  • Pseudo-obstrução intestinal crônica (POIC): CMM ausente → alça intestinal dilata sem obstrução mecânica
  • Síndrome do intestino irritável (SII): CMM anormal → diarreia ou constipação?
  • Doença de Crohn: motilina reduzida em exacerbação?
  • SIBO (supercrescimento bacteriano intestinal): CMM prejudicado → não limpa bactérias → SIBO

Eritromicina como Motilinomimético: Clínica e Limitações

Eritromicina: procinético por agonismo de MLNR

  • Descoberta serendipitosa (1980s): pacientes recebendo eritromicina IV reportaram cólicas abdominais intensas e aceleração do esvaziamento gástrico
  • Mecanismo: eritromicina se liga ao receptor de motilina (MLNR) como agonista (não como antibiótico)

- Sítio de ligação diferente da motilina nativa — mas ativa o receptor - Dose pró-cinética: 1-3 mg/kg IV ou oral (muito menor que dose antibiótica de 15-25 mg/kg)

Indicações clínicas da eritromicina como procinético

  1. Gastroparesia: retardo de esvaziamento gástrico (DM, pós-vagotomia, idiopática)

- Eritromicina IV 3 mg/kg × 3/dia → ↑esvaziamento gástrico significativo - Eficaz a curto prazo; taquifilaxia (dessensibilização do MLNR) limita uso crônico (semanas-meses)

  1. Intolerância alimentar em UTI: nutrição enteral com gastroparesia por doença crítica

- Eritromicina IV 200 mg 8/8h → melhora tolerância à dieta enteral

  1. Preparo para endoscopia de emergência (sangramento GI): eritromicina IV 250 mg 30-60 min antes

- Propela conteúdo gástrico para duodeno → campo visual limpo - Pode substituir ou complementar lavagem nasogástrica

  1. Icterícia neonatal: eritromicina oral em prematuros → ↑motilidade GI → ↓icterícia por aumento de trânsito

Limitações e efeitos adversos

  • Taquifilaxia rápida: downregulation de MLNR com uso contínuo → ↓eficácia em 2-4 semanas
  • Efeitos GI: náuseas, vômitos, cólicas, diarreia (dose-dependentes)
  • Interações: inibidor de CYP3A4 → ↑nível de muitos fármacos (estatinas, warfarina, benzodiazepínicos)
  • Risco cardíaco: prolongamento de QT (dose-dependente) → torsades de pointes em pacientes predispostos
  • Resistência antibiótica: mesmo em dose pró-cinética, pode selecionar resistência a macrolídeos
  • Solução: usar eritromicina IV para gastroparesia aguda grave; limitar uso oral crônico

Novos Agonistas de Motilina e Perspectivas

Por que desenvolver análogos de motilina puros?

  • Eritromicina: atividade antibiótica cria problemas de resistência, interações e toxicidade
  • Ideal: agonista de MLNR puro, sem atividade antibiótica, sem prolongamento de QT, sem taquifilaxia rápida

Análogos em desenvolvimento

  • RQ-00000010 (Raqualia Pharma): agonista seletivo de MLNR oral, sem ação antibiótica

- Fase I/II para gastroparesia; sem dados publicados de eficácia clínica ainda

  • Camicinal (GSK962040): pequena molécula agonista de MLNR

- Fase II em gastroparesia diabética: ↑esvaziamento gástrico em cintilografia - Sem atividade antibiótica; boa tolerabilidade gastrintestinal - Desenvolvimento pausado por GSK

  • Alemcinal (ABT-229, Abbott): agonista de motilina

- Fase III em esvaziamento gástrico retardado — resultado negativo vs. placebo a longo prazo (taquifilaxia) - Mostrou limitações do problema de taquifilaxia

Desafio da taquifilaxia

  • Todos os agonistas de MLNR (incluindo eritromicina e análogos): MLNR sofre dessensibilização e downregulation
  • Estratégias para contornar:

1. Uso intermitente (dias alternados, ou por surtos) 2. Dose baixa contínua vs. alta intermitente 3. Agonistas parciais vs. totais (agonistas parciais podem ter menor taquifilaxia) 4. Combinação com outros pró-cinéticos (metoclopramida, domperidona)

Motilina em outras condições

  • SIBO: motilina como terapêutico para restaurar CMM → ↓supercrescimento bacteriano

- Estudos em pacientes com esclerodermia e SIBO: eritromicina × placebo → redução de SIBO

  • Constipação crônica: motilina → aceleração do CMM → ↑trânsito intestinal global?
  • Pós-operatório: ileus pós-operatório → eritromicina para restaurar CMM?
  • Síndrome de dumping: no pós-gastrectomia, CMM hiperativo → ↑motilina pode agravar?

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Motilina no Contexto dos Peptídeos Reguladores da Motilidade GI

A motilina atua em conjunto com outros peptídeos GI na orquestração da motilidade intestinal. A grelina, também produzida no estômago, ativa o receptor GHSR1a e tem efeitos pró-cinéticos independentes do MLNR, sendo responsável por parte da atividade CMM mediada por secretagogos de GH. A interação grelina-motilina é clinicamente relevante: antagonistas de GHSR1a reduzem o CMM de forma similar aos bloqueadores de motilina, sugerindo circuitos convergentes no plexo entérico.

Na prática clínica, a gastroparesia é a condição que mais se beneficiaria de agonistas de MLNR puros, mas o desafio da taquifilaxia limita o uso contínuo. Estratégias como o BPC-157 oferecem uma abordagem alternativa para restauração da integridade da parede GI e motilidade, através de mecanismos distintos. Para mais contexto, veja o que é grelina e o hormônio da fome e BPC-157 guia completo. Explore o hub de recuperação.\n\nO papel da motilina no sistema imune entérico também ganha atenção na pesquisa atual. Macrófagos submucosos expressam MLNR e a ativação por motilina ou eritromicina pode modular respostas inflamatórias locais independentemente da ação pró-cinética — mecanismo de interesse em condições como doença de Crohn e SII. Embora os dados ainda sejam pré-clínicos, a interseção entre peptídeos GI e imunidade intestinal reforça a complexidade funcional da motilina além do seu papel clássico na motilidade.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é motilina e qual é sua função?+

Motilina é um peptídeo de 22aa produzido pelas células Mo do duodeno e jejuno no período interdigestivo (jejum). Sua principal função é desencadear a Fase III do Complexo Motor Migratório (CMM) — as contrações de alta amplitude que 'varrrem' o trato GI a cada 90-120 minutos, movendo resíduos, bactérias e debris para o cólon. Age no receptor MLNR (GPR38) nas células musculares lisas e neurônios entéricos, causando contração via ↑Ca²⁺. Com a alimentação, a motilina é suprimida.

Por que a eritromicina é usada para gastroparesia?+

A eritromicina, além de ser antibiótico macrolídeo, é um agonista do receptor de motilina (MLNR) em doses menores que as antibióticas (1-3 mg/kg IV). Ao ativar MLNR no antro gástrico e duodeno, ela imita o efeito da motilina — contrai o antro gástrico e acelera o esvaziamento. É eficaz para gastroparesia aguda grave (UTI, DM, pós-operatório) e para preparar o campo endoscópico antes de endoscopia de urgência. A principal limitação é a taquifilaxia (dessensibilização do receptor em semanas).

O que é o Complexo Motor Migratório (CMM)?+

O CMM é um padrão cíclico de atividade mioelétrica do trato GI no estado de jejum, com ciclos de 90-120 minutos. A Fase III é a mais importante clinicamente — um burst de contrações rítmicas de alta amplitude que propaga do antro gástrico ao íleo terminal, 'varrendo' o lúmen. É controlado principalmente pela motilina (pico plasmático precede a Fase III). Distúrbio do CMM ocorre em gastroparesia diabética, esclerodermia, pseudo-obstrução e pós-cirurgicamente, levando a SIBO, náuseas e distensão.

Existem alternativas à eritromicina para estimular a motilidade?+

Sim — outros procinéticos atuam por mecanismos diferentes da eritromicina: metoclopramida e domperidona (antagonistas de dopamina D2), cisaprida (agonista 5-HT4, retirada por QT prolongado), prucaloprida (agonista seletivo 5-HT4, aprovado para constipação). Para gastroparesia específica, novos agonistas de MLNR sem atividade antibiótica estão em pesquisa (camicinal, RQ-00000010), mas nenhum está aprovado. Eritromicina permanece o mais utilizado clinicamente por disponibilidade e custo.

O que acontece com a motilina após cirurgia gástrica?+

Cirurgias gástricas (gastrectomia, bypass gástrico, sleeve) alteram a secreção de motilina ao reduzir ou remover a massa de células Mo do duodeno e jejuno proximal. A redução pós-operatória de motilina contribui para o íleo pós-operatório e pode persistir se a reconstrução do trânsito intestinal não preservar o duodeno. Em pós-operatório de cirurgia bariátrica, o padrão hormonal GI muda amplamente: motilina cai, GLP-1 e peptídeo YY aumentam — contribuindo para os efeitos metabólicos da cirurgia e para a melhora do esvaziamento gástrico a longo prazo.

Referências Científicas

  1. Brown JC, et al. Identification and actions of natural motilin.. Can J Physiol Pharmacol, 1972.
  2. Tack J, et al. Clinical pharmacology of motilin receptor agonists.. Eur J Pharmacol, 2014.
  3. Annese V, et al. Erythromycin accelerates gastric emptying by inducing antral contractions and improved gastroduodenal coordination.. Gastroenterology, 1992.
  4. Tack J, et al. Motilin receptor agonists as treatment for gastrointestinal motility disorders.. J Physiol Pharmacol, 2007.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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