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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 13 min de leitura

Insulina: NPH, glargina, lispro, aspart, degludeca — tipos, análogos modernos e tecnologia de bomba de insulina

A insulina é o hormônio central do metabolismo de glicose. Análogos modernos (glargina, detemir, degludeca para basal; lispro, aspart, glulisina para prandial) superam a NPH/regular humana. Tecnologia de bomba e CGM transformaram DM1. Revisão completa da farmacologia.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiologia da insulina e o receptor de insulina

Insulina — peptídeo de 51 aminoácidos (cadeia A: 21 aa + cadeia B: 30 aa ligadas por 2 pontes dissulfeto):

Biossíntese e secreção:

  1. Pré-pró-insulina (110 aa) → remoção do peptídeo sinal → pró-insulina (86 aa) no RER
  2. Dobragem → 3 pontes dissulfeto formam-se → transporte ao aparelho de Golgi
  3. Granulos secretórios: endopeptidases PC1/PC3 + PC2 → clivam pró-insulina em insulina + peptídeo C (conector, 31 aa)
  4. Peptídeo C (C-peptide): secretado em proporção equimolar com insulina (1:1) → não tem função hormonal direta mas é marcador de secreção endógena (dura mais no plasma → melhor indicador de reserva de β-cell; insulina exógena não tem peptídeo C → C-peptide baixo = pouca/nenhuma produção endógena)
  5. Estímulo de secreção: glicose (principal — via GLUT2 → glicólise → ATP ↑ → fecha canal K-ATP → despolarização → abre canal Ca²⁺ → exocitose), aminoácidos, GLP-1, GIP, acetilcolina, β-adrenérgicos
  6. Inibição de secreção: hipoglicemia, somatostatina, adrenalina (α2-adrenérgico), gânglios simpáticos

Receptor de insulina (IR / INSR):

  • Receptor tirosina-quinase tetramêrico (α₂β₂): 2 subunidades α extracelulares + 2 β transmembrana
  • Insulina liga ao domínio α extracelular → mudança conformacional → ativa domínio quinase β intracelular → autofosforilação de tirosinas (Y1158, Y1162, Y1163)
  • IR ativado → fosforila substratos IRS-1/2 (Insulin Receptor Substrate) → PI3K → PIP3 → PDK1 → AKT → efeitos metabólicos

Efeitos da insulina nos tecidos:

  • Fígado: ↑ glicogênese (GS ativada), ↑ lipogênese (SREBP1c → FAS), ↓ gliconeogênese (↓ PEPCK, G6Pase), ↓ glicogenólise
  • Músculo: ↑ captação de glicose via translocação de GLUT4, ↑ glicogênese, ↑ síntese proteica (via mTOR)
  • Tecido adiposo: ↑ captação de glicose (GLUT4), ↑ lipogênese, ↓ lipólise (inativa HSL via AKT → PDE3B → ↓ cAMP → HSL inativa)

Tipos de insulina: humana × análogos — de NPH à degludeca

Insulinas humanas recombinantes (clonadas em E. coli ou levedura):

Regular (curta ação):

  • Hexâmeros em solução → deve dissociar em monômeros para absorção → início em 30-60 min, pico 2-4h, duração 5-8h
  • Uso: IV (única insulina IV-administrável; emergências de DKA, HHS, cirurgias), SC 30-45 min antes da refeição
  • Desvantagem: início lento demais para prandial prático; pico tardio e platô prolongado → risco de hipoglicemia tardia (2-4h após refeição)

NPH (Neutral Protamine Hagedane — intermediária):

  • Complexo insulina-protamina + Zn → precipitado → dissolução lenta após SC → início 2-4h, pico 6-10h, duração 14-18h
  • Absorção muito variável (~20-40% CV intra-individual) → glicemia errática
  • Histórica importância: único "basal" disponível por décadas
  • Ainda usada por custo — muito mais barata que análogos longos

Análogos de insulina — engenharia de sequência para farmacocinética melhorada:

Análogos de ação ultrarrápida (bolus/prandial):

  • Lispro (Humalog® — Eli Lilly): B26-B30 invertidos (Pro28Lys29 → Lys28Pro29) → menos autoassociação em hexâmeros → monômeros rapidamente → SC: início 5-15 min, pico 30-90 min, duração 3-5h → administrar imediatamente antes das refeições
  • Aspart (Novorapid® / Novolog® — Novo Nordisk): B28 Pro→Asp → carga negativa → repulsão eletrostática → monômeros rápidos → perfil similar a lispro
  • Glulisina (Apidra® — Sanofi): B3 Asn→Lys, B29 Lys→Glu → absorção mais rápida
  • Ultra-rápidos (faster-acting formulations): Fiasp® (aspart + niacinamide + L-arginine) → absorção 2x mais rápida que aspart regular; Lyumjev® (lispro-aabc + citrate + treprostinil) → similar vantagem

Análogos de ação longa/basal:

  • Glargina (Lantus® → Basaglar® → Toujeo® — Sanofi):

- B30 Thr→Pro, +2 Arg no C-terminal da cadeia B → shift de pI para 6.7 → precipita ao pH 7.4 do tecido SC → microcristais → dissolução lenta - Lantus 100U/mL: início 1-4h, sem pico pronunciado, duração ~24h (mas variável: 18-26h) - Toujeo 300 U/mL: mais concentrado → depósito SC menor → dissolução ainda mais lenta → duração >36h; menos variabilidade - Glargina biossimilares: Basaglar (Lilly), Semglee (Viatris), Rezvoglar (Lilly) — pós-patente, custo menor

  • Detemir (Levemir® — Novo Nordisk):

- B30 Thr deletado, B29 Lys acilado com ácido mirístico (C14) → liga albumina no SC e plasma → reservatório → liberação lenta - Duração ~12-24h (menos que glargina em muitos pacientes → 2x/dia frequentemente necessário)

  • Degludeca (Tresiba® — Novo Nordisk) — mais recente e longa:

- Monodexamethylglutamic acid + hexadecandioyl acyl → multihexâmeros no SC → liberação lenta → duração >40h (dose única/dia com flexibilidade de horário) - BEGIN trials: menor hipoglicemia noturna vs glargina; SWITCH 1 e 2: degludeca → menos hipoglicemia severa - Insulina mais recente: icodec (semanal — Awiqli® — Novo Nordisk, aprovada 2023/2024): 1x/semana; ONWARDS trials → A1C similar a degludeca com melhor qualidade de vida e aderência

Bomba de insulina, CGM e sistemas de loop fechado em DM1

CGM (Continuous Glucose Monitoring) — monitoramento contínuo de glicose:

Sensores subcutâneos medem glicose intersticial (lag de ~10-15 min vs sangue capilar) a cada 1-5 minutos → gráfico de tendência de glicose em tempo real com alarmes

Dispositivos aprovados:

  • Dexcom G7 (Dexcom): 10 dias; calibração opcional; tempo de resposta mais rápido; compartilha com smartphone
  • FreeStyle Libre 3 (Abbott): 14 dias; leitura por NFC (scan) → Libre 3 tem alarmes sem scan; mais barato
  • Medtronic Guardian 4: para uso com bombas Medtronic (sistema integrado)
  • Eversense (Senseonics): sensor implantável sob a pele por 90-180 dias (único implantável)

Métricas de CGM:

  • TIR (Time In Range): % do tempo entre 70-180 mg/dL → meta ≥70% em DM1/DM2; correlaciona com A1C e redução de complicações
  • GMI (Glucose Management Indicator): estimativa de A1C a partir dos dados de CGM (substituto)
  • CV (Coefficient of Variation): variabilidade glicêmica — ideal <36%

Bomba de insulina (CSII — Continuous Subcutaneous Insulin Infusion):

  • Infusão basal programável (taxas variáveis a cada hora) + bolus pré-refeição via controle remoto
  • Usa apenas análogo rápido (lispro, aspart) — sem glargina/NPH
  • Vantagem vs MDI (multiple daily injections): menor variabilidade, possibilidade de taxas basais diferentes por hora (ex: reduzir às 2h da manhã quando hipoglicemia frequente), precisão de bolus fracionados
  • Bombas patchless: OmniPod (tubeless, descartável a cada 3 dias) vs bombas com tubo (Medtronic, Tandem)

Sistemas Híbridos de Loop Fechado (AID — Automated Insulin Delivery / "Artificial Pancreas"):

  • CGM → Algoritmo de controle → Bomba → ajusta insulina automaticamente
  • Tandem Control-IQ (Dexcom G6 + Tandem t:slim X2): algoritmo MPC (Model Predictive Control) → aumenta basal se glicemia tendendo alto, suspende se tendendo baixo; aprovado 2020
  • Omnipod 5 (Dexcom G6 + OmniPod 5): loop fechado sem tubo
  • Medtronic MiniMed 780G: auto-basal + auto-bolus de correção a cada 5 min
  • Resultados dos sistemas de loop fechado (CLOSED LOOP trials, ONSET trials):

- TIR >70% atingido pela maioria dos usuários (vs ~50-60% em MDI convencional) - Redução de hipoglicemia noturna e diurna - A1C média: ~7.0% com loop fechado vs ~7.5% com MDI + CGM - Qualidade de vida: dormir sem medo de hipoglicemia, menos carga cognitiva

Open-source AID (Sistemas DIY):

  • Loop (iOS + RileyLink), AndroidAPS, OpenAPS — comunidade de pacientes desenvolvendo algoritmos próprios antes das aprovações regulatórias; amplamente adotados; base empírica para os sistemas comerciais

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Regimes de insulinoterapia em DM1 e DM2: MDI e indicações

DM1 — insulinoterapia intensiva é padrão universal:

MDI (Multiple Daily Injections) — regime basal-bolus:

  • Basal: glargina/detemir/degludeca 1x/dia (ou NPH 2x como alternativa menos cara) → cobre demanda basal de insulina (jejum + manutenção)
  • Bolus prandial: análogo rápido (lispro/aspart/glulisina) imediatamente antes (ou até 20 min após) cada refeição → cobre pico de glicose alimentar
  • Bolus de correção: dose extra de análogo rápido calculada para corrigir hiperglicemia (fator de sensibilidade à insulina = quanto 1U de insulina reduz a glicemia mg/dL)
  • Dose típica total em DM1 adulto: 0.5-0.8 U/kg/dia; ~50% basal, ~50% bolus

DM2 — escalonamento progressivo:

  1. Metformina (primeira linha)
  2. Adicionar SGLT2 i ou GLP-1 agonista (se DCV/IC/DRC ou para peso)
  3. Adicionar DPP-4 i ou sulfonilureia ou pioglitazona
  4. Insulinoterapia: quando A1C não controlada com múltiplos orais/GLP-1

- Insulina basal (glargina 10U ao deitar → titular 2U a cada 3 dias até glicemia jejum 80-130 mg/dL) — mais simples de iniciar - Progressão se A1C ainda alta: basal-plus (adicionar 1 bolus na maior refeição); basal-bolus completo se necessário - Premix: 70/30 (NPH 70% + regular 30%) ou análogo premix (lispro 25/75, aspart 30/70) — 2x/dia, menos flexível

Hipoglicemia — principal limitação da insulinoterapia:

  • Causas: dose excessiva, refeição atrasada/menor, exercício não antecipado, álcool (inibe neoglicogênese), temperatura (absorção SC mais rápida em calor)
  • Sintomas: tremor, sudorese, taquicardia, fome (glicemia 50-70 mg/dL) → confusão, incoordenação (<50 mg/dL) → inconsciência, convulsões (<40 mg/dL)
  • Tratamento: regra 15-15 (15g carboidratos + medir em 15 min se acordado); glucagon intranasal (Baqsimi®) ou IM/SC para inconsciência
  • Glucagon (Baqsimi® — Eli Lilly, GlucaGen® — Novo Nordisk): resposta de emergência; glucagon intramuscular 1 mg ou intranasal (4 mg pó nasal) → estimula glicogenólise hepática → ↑ glicemia em 10-15 min

Perguntas frequentes sobre insulina

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Insulina glargina (Lantus) pode ser misturada com outras insulinas na mesma seringa?+

Não — insulina glargina (e detemir) NÃO devem ser misturadas na mesma seringa com nenhuma outra insulina. A razão: glargina está em pH ácido (~4) → neutralização ao misturar com regular/NPH (pH ~7) → precipitação e cristalização imprevisível na seringa → absorção errática, perda de efeito do análogo. Isso é importante na transição de regimes: pacientes vindos de NPH (que pode ser misturada com regular na mesma seringa) precisam aprender que com glargina são duas injeções separadas. Análogos rápidos entre si (lispro + aspart) também não devem ser misturados (perda do perfil de ação ultrarrápida). Insulinas premix (70/30, 75/25) já vêm premisturadas do fabricante e não devem ser misturadas com mais nada.

A degludeca (Tresiba) semanal existe? Confundo com semaglutida semanal.+

Não — a degludeca é diária (1x/dia), não semanal. Semaglutida (Ozempic, Wegovy) é o produto semanal — mas semaglutida é GLP-1 agonista, não insulina. A degludeca tem DURAÇÃO de ação de >40 horas (mais que a glargina ~24h), então se uma dose for esquecida e tomada no dia seguinte, há overlap de ação — isso permite flexibilidade de horário (pode variar até 8-12h). A nova insulina semanal é a **icodec (Awiqli® — Novo Nordisk)**, aprovada em 2023-2024 na Europa e Canadá; faz 1 injeção SC por semana. Nos trials ONWARDS, icodec teve eficácia comparável à degludeca diária com aderência e satisfação melhores. Ainda aguarda aprovação mais ampla.

Sistema de loop fechado ('pâncreas artificial') funciona de verdade?+

Sim — e é transformador para DM1. Sistemas como Tandem Control-IQ, Omnipod 5 e Medtronic MiniMed 780G leem a glicemia em tempo real do CGM e ajustam automaticamente a infusão de insulina da bomba a cada 5 minutos. Em ensaios clínicos e uso real: TIR (time in range 70-180 mg/dL) aumenta para >70% (vs ~55% com MDI convencional); hipoglicemia noturna severa quase eliminada; A1C melhora ~0.3-0.5 pontos percentuais. Para crianças pequenas (onde hipoglicemia noturna é especialmente perigosa) e adultos com hipoglicemia inconsciente (hipoglicemia sem sintomas), é potencialmente vida-salvadora. As limitações: custo alto e cobertura variável por plano de saúde, necessidade de uso constante de CGM, aprendizado tecnológico, e que o sistema ainda não é totalmente autônomo (o paciente ainda conta carboidratos para anunciar as refeições nos modelos semi-automatizados).

Por que NPH é inferior aos análogos de insulina basal?+

Três razões principais: (1) Pico de ação: NPH tem pico às 6-10h pós-injeção → risco de hipoglicemia nesse intervalo (especialmente noturna se injetada ao deitar). Glargina/degludeca são relativamente peakless (sem pico). (2) Variabilidade: absorção da NPH varia 20-40% entre injeções no mesmo paciente (pelo tamanho do cristal de protamina que se forma) → glicemia errática. Análogos: variabilidade <10-15%. (3) Duração: NPH dura 14-18h (não cobre 24h) → com dose única ao deitar, hipoglicemia às 2-4h, mas acorda hiperglicêmico às 8h. Com degludeca/glargina: cobertura de 24-42h estável. NPH ainda é usada principalmente por custo (muito mais barata) em sistemas de saúde com recursos limitados.

Referências Científicas

  1. Hirsch IB. Insulin analogues. N Engl J Med, 2005.
  2. Bergenstal RM, Tamborlane WV, Ahmann A, et al. (STAR 3 Study Group) Effectiveness of sensor-augmented insulin-pump therapy in type 1 diabetes. N Engl J Med, 2010.
  3. Brown SA, Kovatchev BP, Raghinaru D, et al. (iDCL trial) Six-month randomized, multicenter trial of closed-loop control in type 1 diabetes (iDCL trial). N Engl J Med, 2019.
  4. Meneghini L, Atkin SL, Gough SC, et al. (BEGIN trials — degludec IDegLira) The efficacy and safety of insulin degludec given in variable once-daily dosing intervals compared with insulin glargine and insulin degludec dosed at the same time daily. Diabetes Care, 2013.
  5. Philis-Tsimikas A, Klonoff DC, Khunti K, et al. (ONWARDS 1 — icodec) Once-weekly insulin icodec versus once-daily insulin glargine U100 in type 2 diabetes (ONWARDS 1). N Engl J Med, 2023.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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