Eixo HPG feminino aplicado à reprodução assistida
Reprodução Assistida (RA) — técnicas de fertilidade:
- Indução de ovulação (IO): estimulação de crescimento folicular em mulheres com disfunção ovulatória (SOP, anovulação hipotalâmica)
- IIU (Inseminação Intrauterina): colocação de espermatozoides lavados diretamente no útero; com estimulação ovariana controlada (EOC)
- FIV (Fertilização In Vitro): estimulação folicular múltipla → punção ovariana → fertilização em laboratório → transferência de embrião
- ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide): variante da FIV; espermatozoide único injetado diretamente no óvulo
Fármacos essenciais no ciclo de RA:
- Clomifeno/Letrozol: para IO em SOP (via oral; clomifeno = SERM; letrozol = IA inibidor de aromatase, superior em SOP)
- Gonadotrofinas exógenas (FSH, LH, HCG): para EOC em FIV
- Análogos de GnRH agonistas ou antagonistas: para supressão do eixo HPG (evitar pico de LH prematuro = "luteinização precoce" do folículo antes da punção)
- Progesterona/HCG: suporte de fase lútea após transferência de embrião
Por que suprimir o HPG durante a FIV? Em um ciclo natural, o pico de LH ocorre espontaneamente (resposta ao pico de E2 do folículo maduro) e desencadeia a ovulação. Na FIV, se o LH subir antes que todos os folículos atinjam maturidade ideal E antes da punção programada → luteinização prematura → perda dos oócitos. A supressão do HPG com análogos de GnRH previne esse pico → controle preciso do timing da punção
FSH recombinante, LH recombinante, HCG e gonadotrofinas na reprodução assistida
FSH Recombinante (rFSH):
- Folitropina alfa (Gonal-F® — Merck Serono): rFSH produzido por células CHO (Chinese Hamster Ovary) via DNA recombinante; dose em UI (Unidades Internacionais); SC diário
- Folitropina beta (Puregon® / Follistim® — Organon/MSD): rFSH; similar ao Gonal-F em eficácia; ligeira diferença de glicosilação; disponível em caneta pré-preenchida para autoapliação SC
- Corifolitropina alfa (Elonva® — Organon): FSH de ação prolongada (FSH-CTP — CTP = sequência C-terminal da subunidade β do HCG unida ao FSH → prolonga meia-vida); UMA INJEÇÃO SC substitui os primeiros 7 dias de FSH diário na FIV → conveniência; dose: 100 μg (<60 kg) ou 150 μg (>60 kg)
- Dose de FSH para EOC em FIV: 100-450 UI/dia SC (dependendo da reserva ovariana — AMH e contagem de folículos antrais guiam a dose inicial); menor reserva = dose maior; risco de SHO (Síndrome de Hiperestimulação Ovariana) com doses excessivas ou em pacientes de alta resposta (AMH alto, SOP)
LH Recombinante (rLH — Luveris® — Merck Serono): complementa FSH para maturação folicular; especialmente em mulheres com baixos níveis de LH endógeno (hipogonadotrofismo); combinado com rFSH na proporção FSH:LH ~1:1 ou 2:1
HCG (Gonadotrofina Coriônica Humana):
- Produzida pela placenta durante gestação; estruturalmente similar ao LH (mesma subunidade α + β diferente de LH mas liga o mesmo receptor LHCGR)
- HCG urinária (Pregnyl® — Organon / Profasi®): 5.000-10.000 UI IM; extraída de urina de mulheres grávidas
- HCG recombinante (Ovitrelle® — Merck Serono): 250 μg SC (equivalente a ~6.500 UI de HCG urinária)
- Uso no ciclo de FIV: "trigger" ovulatório (desencadeia a maturação final do oócito e a ovulação 34-36h após a injeção — punção é programada para ~35h depois)
- Alternativa ao HCG para trigger: Agonista de GnRH (leuprolida 0.5 mg SC em ciclos com protocolo antagonista) → provoca pico endógeno de LH + FSH → maturação do oócito sem o longo efeito do HCG → menor risco de SHO grave (preferido em pacientes de alta resposta com risco de SHO)
- HCG em suporte de fase lútea: 1500 UI q3 dias após transferência de embrião (menos usado → risco de SHO; substituído por progesterona vaginal/IM)
Gonadotrofinas urinárias:
- HMG (Menogon® / Menopur® — Ferring): menopausas gonadotrofinas humanas urinárias; mistura FSH + LH (1:1); SC diário; mais barata que rFSH em muitos países; utilizada há décadas com boa evidência de eficácia
Síndrome de Hiperestimulação Ovariana (SHO) — complicação grave da EOC:
- Ocorre por excesso de HCG (endógeno ou exógeno) → ativa receptores VEGF nos folículos → permeabilidade vascular aumentada → fluido "vaza" para terceiro espaço (ascite, derrame pleural) → hemoconcentração → risco de TVP/TEP
- Classificação: leve (distensão abdominal, náusea, ovários ≤8 cm); moderada (+ ascite ao USG, ovários 8-12 cm); grave (+ derrame pleural, dificuldade respiratória, oligúria, hematócrito >45%, ovários >12 cm); crítica (+ TVP/TEP, SRI, IC)
- Prevenção de SHO grave:
1. Protocolo antagonista de GnRH + trigger com agonista (em vez de HCG) → LH endógeno → sem o efeito prolongado do HCG → menos SHO 2. Coasting (manter FSH parando até que E2 caia) 3. Freezing all (congelar todos os embriões e adiar transferência para ciclo natural — remove HCG da equação) 4. Albumina IV no dia da punção (evidência limitada) 5. Cabergolida 0.5 mg/dia × 8 dias (agonista dopaminérgico → reduz VEGF → reduz permeabilidade vascular — melhor evidência preventiva em alto risco)
- Tratamento de SHO grave: hospitalização; monitoramento eletrólitos e hematócrito; hidratação IV (cristaloides, albumina); anticoagulação preventiva (heparina LMWH); paracentese se ascite tensa; suporte
Progesterona no suporte de fase lútea:
- Após punção ovariana (que remove as células da granulosa e do corpo lúteo) → queda abrupta de progesterona → sem suporte → aborto precoce
- Reposição: progesterona micronizada vaginal (Utrogestan® 200-600 mg/dia vaginal OU Crinone® gel 8%) — absorção vaginal direta no endométrio via efeito de "primeiro uterino"; OU progesterona IM (Progesterona oleosa 50-100 mg IM/dia — mais dolorosa mas mais uso nos EUA); ou SC (Prolutex®)
- Manter até 12ª semana (quando a placenta assume produção de progesterona)
Análogos de GnRH agonistas (leuprolida, goserrelina) e antagonistas (cetrorelix, ganirelix) — endometriose e mioma
Análogos agonistas de GnRH para downregulation em FIV:
- Protocolo longo (down-regulation): leuprolida SC 0.5-1 mg/dia ou buserrelina nasal → estimulação contínua (não pulsátil) → downregulation de receptores de GnRH → supressão de LH e FSH (E2 cai para nível de menopausa em 10-14 dias) → DEPOIS iniciar rFSH para EOC → controle preciso da estimulação sem pico de LH espontâneo; desvantagem: ciclo mais longo (4-6 semanas), mais injeções, mais SHO
- Protocolo curto ("flare up"): leuprolida iniciado no dia 2 do ciclo → estímulo inicial de FSH endógeno (flare) + FSH exógeno → estimulação ovariana; menos usado atualmente
Antagonistas de GnRH (cetrorelix, ganirelix) — protocolo antagonista:
- Cetrorelix (Cetrotide® — Merck Serono): 0.25 mg SC/dia (iniciado dia 5-6 do ciclo de estimulação, quando folículos atingem 13-14 mm) → bloqueia competitivamente receptor de GnRH → supressão IMEDIATA de LH (sem flare inicial) → previne pico de LH prematuro
- Ganirelix (Orgalutran® — Organon): 0.25 mg SC/dia; similarmente eficaz ao cetrorelix
- Protocolo antagonista: mais curto e simples que protocolo longo; menor dose total de gonadotrofinas; SHO grave menos frequente; menor taxa de cancelamento de ciclo; embora taxas de gravidez globalmente similares ao protocolo longo em boa respondedora, é PREFERIDO em baixas respondedoras e em alto risco de SHO; permite trigger com agonista de GnRH (impossível com protocolo longo)
Leuprolida e análogos de GnRH para endometriose:
- Endometriose: presença de tecido endometrial funcionante fora do útero → implantes no peritônio, ovários (endometrioma), septo retovaginal → inflamação, aderências, dor pélvica crônica, dispareunia, dismenorreia intensa, infertilidade
- O endométrio ectópico responde a estrógeno (como o endométrio uterino) → privação estrogênica induz atrofia dos implantes
- Leuprolida 3.75 mg IM q4 semanas (ou 11.25 mg q3 meses = formulação trimestral = Lupron Depot): estado de "pseudomenopausa médica" → E2 cai a <30 pg/mL → atrofia dos implantes de endometriose → alívio de dor em 80-90% das pacientes
- Duração: 6 meses no máximo consecutivo (sem "add-back" = reposição de estrógeno); pode repetir ou estender com add-back therapy (norgestrel ou estrogênio + progesterona em baixa dose) para reduzir efeitos da hipoestrogenemia
- Efeitos da hipoestrogenemia (de classe para todos os agonistas de GnRH a longo prazo): fogachos (85%), ressecamento vaginal, dispareunia, perda óssea (1.5-3% de DMO por 6 meses — reversível após suspensão; add-back previne sem reduzir eficácia na endometriose), disfunção cognitiva leve, alterações de humor
- Alternativas para endometriose: dienogest (Visanne® — Bayer; progestina com propriedades antiestrogênicas tecido-seletivas no endométrio → atroi implantes com menos hipoestrogenemia sistêmica; 2 mg/dia oral); COC contínuo (reduz progressão mas menos eficaz que GnRH-a em endometriose grave); cirurgia (laparoscopia com excisão de implantes = tratamento mais definitivo)
Análogos de GnRH para mioma uterino (leiomioma):
- Miomas são tumores musculares benignos do útero; hormônio-dependentes (E2 e progesterona estimulam crescimento)
- Leuprolida ou goserrelina pré-operatória (3-4 meses antes da cirurgia de miomectomia ou histerectomia):
- Reduz tamanho do mioma em 30-60% - Melhora anemia ferropriva (amenorreia temporária → recuperação de hemoglobina antes da cirurgia) - Facilita acesso cirúrgico (menor tamanho) - NÃO como tratamento definitivo (mioma recrescerá após suspensão do análogo)
- Ulipristal acetato (Esmya® — Gedeon Richter): modulador de receptor de progesterona (SPRM); aprovado para miomas; oral 5 mg/dia; eficaz para reduzir sangramento e tamanho; retirado do mercado europeu temporariamente por hepatotoxicidade grave (PRAC EMA 2020) → uso restrito com monitoramento intensivo de TFH
- Relugolix (Orgovyx® — Myovant) + estradiol/noretisterona (Myfembree®): aprovado FDA para miomas sintomáticos em pré-menopáusicas; oral, antagonista de GnRH + add-back → controle de sangramento com menos perda óssea que leuprolida pura
- Elagolix (Orilissa® — AbbVie) + add-back: antagonista oral de GnRH; aprovado nos EUA para endometriose (150 mg 1x/dia ou 200 mg 2x/dia — dose maior = supressão maior de E2 = mais eficaz para dor mas mais efeitos colaterais); sem add-back em doses altas = limitado a 6 meses; com add-back = 24 meses de uso aprovado