Use o cupom PRIMEIRA10 e ganhe 10% OFF na primeira compra
← Blog·peptideos06 de julho de 2026· 12 min de leitura

Tratamento do Alzheimer — donepezila, rivastigmina, memantina e lecanemabe: colinesterase, NMDA e anti-amiloide-beta

Doença de Alzheimer resulta de acúmulo de placas de amiloide-β e emaranhados de tau → perda de neurônios colinérgicos. Inibidores de acetilcolinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina) aumentam ACh na sinapse. Memantina bloqueia receptores NMDA tônicos patológicos. Lecanemabe e donanemabe são anticorpos monoclonais anti-amiloide-β aprovados pela FDA em 2023-2024 para Alzheimer precoce.

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
Compartilhar:

Fisiopatologia do Alzheimer e hipótese colinérgica e amiloide

Doença de Alzheimer (DA) — a demência mais comum (60-70% de todas as demências):

Patologia molecular — duas hipóteses não-excludentes:

Hipótese da cascata amiloide:

  • Proteína precursora de amiloide (APP) → clivada pela β-secretase (BACE1) e γ-secretase (complexo com presenilina 1/PSEN1) → fragmentos β-amiloide (Aβ40 e Aβ42)
  • Aβ42 é mais amiloidogênica (4 aminoácidos extras hidrofóbicos → maior tendência de agregar) → agrega em oligômeros solúveis → protofilamentos → fibrilas → placas amiloide senis extracelulares
  • Os oligômeros de Aβ são os mais tóxicos (interferem com sinalização sináptica, ativam microglia, induzem neuroinflamação, desestabilizam microtúbulos)
  • Mutações em APP, PSEN1, PSEN2 → Alzheimer familiar de início precoce (< 65 anos, < 5% dos casos)
  • APOE-ε4 (alelo de risco mais importante para DA esporádica): reduz clearance de Aβ pelo cérebro → maior deposição amiloide → risco 3-4x (1 alelo) ou 12x (homozigoto ε4/ε4)

Hipótese dos emaranhados tau:

  • Tau é uma proteína associada a microtúbulos (MAP) que estabiliza os microtúbulos nos axônios; em DA, tau é hiperfosforilada por kinases (GSK3β, CDK5) → detach dos microtúbulos → tau hiperfosforilada agrega em filamentos helicoidais pareados (PHF) = emaranhados neurofibrilares (NFT) intracelulares
  • NFT se correlacionam melhor com a perda sináptica e o grau clínico de demência (estadiamento de Braak: I-VI) que as placas de Aβ

Hipótese colinérgica (base dos tratamentos atuais sintomáticos):

  • O núcleo basal de Meynert (nucleus basalis of Meynert — NBM) é a principal fonte de acetilcolina (ACh) para o córtex e hipocampo
  • Em DA, os neurônios colinérgicos do NBM degeneram progressivamente → déficit de ACh no córtex e hipocampo → comprometimento de memória e cognição
  • Hipótese colinérgica: repor ACh (aumentando sua disponibilidade sináptica inibindo sua degradação) melhora sintomas cognitivos → base dos inibidores de acetilcolinesterase (IAChE)

Estágios clínicos:

  • Preclinical AD: biomarcadores positivos (Aβ no LCR ou PET-amiloide), sem sintomas
  • MCI (Mild Cognitive Impairment) due to AD: déficit mensurável em 1+ domínio cognitivo sem perda funcional independente
  • Demência leve: déficit cognitivo com alguma perda de independência (IAVDs preservados, AAVD comprometidos)
  • Demência moderada: perda significativa de independência (necessita ajuda para banho, vestir)
  • Demência grave: totalmente dependente, perda da linguagem

Inibidores de AChE, memantina, lecanemabe e donanemabe

INIBIDORES DE ACETILCOLINESTERASE (IAChE) — Sintomáticos (não modificam progressão):

Mecanismo geral: a acetilcolinesterase (AChE) degrada rapidamente a ACh na fenda sináptica → inibir a AChE → maior disponibilidade de ACh → estimulação dos receptores muscarínicos (M1 — cognição, memória) e nicotínicos no córtex e hipocampo

Donepezila (Aricept® — Eisai/Pfizer; genérico):

  • IAChE reversível e seletivo para AChE (vs butirilcolinesterase BChE)
  • 5 mg/dia por 4-6 semanas → 10 mg/dia (meia-vida 70h → 1 dose ao dia, ao deitar — ao deitar por causar sonhos vívidos se tomada de manhã)
  • Indicada em todos os estágios (leve, moderado e grave — único IAChE aprovado para grave juntamente com memantina)
  • Efeitos adversos colinérgicos periféricos: náuseas, vômitos, diarreia, anorexia, bradicardia/síncope (especialmente em bloqueio AV preexistente → cautela; pausa vagal com síncope → pode necessitar marcapasso), cãibras musculares, pesadelos vívidos (se tomado à noite ou pela manhã)
  • Interações: betabloqueadores + donepezila → bradicardia sinérgica; anticolinérgicos → antagonismo (evitar difenidramina, oxibutinina, hioscina — bloqueiam o efeito benéfico do IAChE)

Rivastigmina (Exelon® — Novartis; genérico):

  • Inibe AChE E BChE (pseudo-irreversível — carbamilação do sítio ativo com duração de 8-10h)
  • Cápsula oral 1,5-6 mg 2x/dia (com alimento); patch transdérmico 4,6/9,5/13,3 mg/24h → adesivo trocado a cada 24h; patch TEM MENOS efeitos GI que oral (liberação mais lenta e uniforme)
  • Única aprovada para demência do Parkinson (DLB também) — evidências específicas, especialmente útil no Parkinson-demência onde a BChE é mais importante
  • Efeitos adversos: similares à donepezila; dermatite de contato com o patch (1-3%)

Galantamina (Reminyl® — Janssen; genérico):

  • Inibe AChE reversivelmente + modulação alostérica positiva dos receptores nicotínicos (α7-nAChR — potencializa a ação da ACh nos receptores nicotínicos → efeito adicional de aprendizado e neuroprotecção)
  • 8-24 mg/dia VO; também em formulação XL (1x/dia)
  • Similar a donepezila em eficácia

MEMANTINA (Namenda® — Forest/Allergan; Merz; genérico; no Brasil: Ebix® — Torrent; genérico):

Mecanismo (diferente dos IAChE — complementar):

  • Receptores NMDA (N-metil-D-aspartato): receptores de glutamato ionotrópicos permeáveis a Ca²⁺; em condições fisiológicas normais, o magnésio bloqueia o canal NMDA em potencial de repouso (bloqueio voltagem-dependente por Mg²⁺); apenas quando há despolarização pós-sináptica suficiente o Mg²⁺ sai e o canal NMDA abre → influxo de Ca²⁺ → potenciação de longo prazo (LTP) → memória
  • Em DA: os oligômeros de Aβ e a degeneração levam a tônus excitatório crônico glutamatérgico anormal → ativação tônica de receptores NMDA em baixo nível → influxo crônico pequeno mas contínuo de Ca²⁺ → excitotoxicidade lenta → morte neuronal; além disso, os neurônios ficam em estado de "ruído de fundo" com Ca²⁺ elevado → não podem detectar sinais glutamatérgicos fisiológicos legítimos (LTP) → comprometimento de memória
  • Memantina = antagonista não-competitivo dos receptores NMDA com afinidade moderada e cinética rápida de saída ("open channel blocker" cinética rápida): bloqueia a ativação tônica patológica (depolarização crônica baixa → bloqueia) mas libera rapidamente o canal quando há despolarização fisiológica forte (LTP legítimo) → seletivamente suprime o ruído excitotóxico sem comprometer a sinalização sináptica normal
  • Indicação: Alzheimer moderado a grave (MMSE 3-14); combinação memantina + IAChE (donepezila + memantina) tem eficácia superior a cada um isolado no Alzheimer moderado-grave (evidence: DOMINO trial, Lancet 2012)
  • Dosagem: 5 mg/dia → aumento semanal de 5 mg → 20 mg/dia (10 mg 2x/dia ou 28 mg/dia na formulação XR)
  • Efeitos adversos: bem tolerada; tontura, cefaleia, constipação, confusão leve; amantadina (antiparkinsoniano) também bloqueia NMDA — somar com memantina → delirium potencial

IMUNOTERAPIAS ANTI-AMILOIDE (Modificadores de doença — FDA aprovados 2023-2024):

Lecanemabe (Leqembi® — Eisai/Biogen; aprovado FDA acelerado 2023, aprovação regular julho 2023):

  • Anticorpo monoclonal IgG1 anti-amiloide-β: liga-se especificamente aos protofibrilas de Aβ (formas intermediárias agregadas que são mais tóxicas) → clearance mediado por microglia → reduz placas de Aβ no PET
  • Trial CLARITY AD (N Engl J Med 2022, n=1795): pacientes com DA precoce (MCI/demência leve com PET-amiloide positivo); 18 meses de tratamento → redução de 27% na progressão clínica (CDR-SB) vs placebo; significativa redução de Aβ no PET e biomarcadores de tau no LCR
  • ARIA (Amyloid-Related Imaging Abnormalities): principal efeito adverso; ocorre em 35-40% dos pacientes no grupo lecanemabe (maioria assintomática): ARIA-E (edema) = microedema e sulcos alargados no MRI; ARIA-H (hemorragia) = microhemorragias e siderose superficial; sintomáticos em 3-5% (cefaleia, confusão, náusea, visão turva) → raros graves; risco maior em portadores de APOE-ε4 (especialmente homozigotos ε4/ε4 têm ARIA em > 60%)
  • Administração: 10 mg/kg IV a cada 2 semanas
  • MRI de monitoramento: antes da dose 5, 7, 14 (primeiros 6 meses) → se ARIA sintomática: suspender até resolução

Donanemabe (Kisunla® — Eli Lilly; aprovado FDA julho 2024):

  • Anticorpo IgG1 anti-amiloide-β ligando-se especificamente ao Aβ piroglutamato (forma modificada pós-translacionalmenteque é um componente central das placas maduras)
  • Trial TRAILBLAZER-ALZ 2 (JAMA 2023): redução de 35% na progressão no grupo com tau intermediário (mais responsivo)
  • Similar perfil de ARIA ao lecanemabe
  • Vantagem potencial: quando a placa de Aβ é eliminada (PET negativo), a dose pode ser interrompida (resposta adaptativa por depleção de alvo)

Aducanumabe (Aduhelm® — Biogen; aprovado FDA controversamente 2021 via via acelerada; retirado voluntariamente do mercado em jan 2024 por Biogen): aprovação gerou controvérsia pois 10 dos 11 membros do comitê consultivo da FDA votaram contra a aprovação; retirado do mercado comercial

Contexto clínico das imunoterapias anti-amiloide:

  • São indicadas APENAS para DA precoce (MCI ou demência leve com confirmação biológica de Aβ por PET-amiloide ou LCR)
  • Custo muito alto (> USD 26.000/ano — lecanemabe no lançamento EUA) → debate intenso de custo-efetividade
  • Não disponíveis no Brasil via ANVISA/SUS no momento desta publicação (2026)
  • Triagem de candidatos: confirmação de Aβ positivo (PET ou LCR), MRI sem contraindicações (anticoagulante: contraindicação relativa pelo risco de ARIA-H hemorrágica), APOE-ε4 genotipagem para estratificação de risco

Perguntas frequentes sobre tratamento do Alzheimer

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Donepezila cura o Alzheimer ou apenas trata os sintomas?+

A donepezila e todos os inibidores de acetilcolinesterase (rivastigmina, galantamina) são tratamentos sintomáticos — melhoram a disponibilidade de acetilcolina nas sinapses colinérgicas, o que melhora temporariamente a cognição, comportamento e atividades diárias, mas NÃO alteram a progressão biológica da doença. A neurodegeneração continua avançando mesmo com o tratamento. Os IAChE produzem melhoras modestas mas clinicamente relevantes: em estudos clínicos de 6-12 meses, 40-50% dos pacientes com Alzheimer em uso de donepezila apresentam estabilização ou melhora nos testes cognitivos (MMSE, ADAS-Cog), contra 15-20% no placebo. No longo prazo (2-3 anos), os pacientes em uso de IAChE tendem a ter uma curva de declínio um pouco mais lenta, embora o declínio seja inevitável. O benefício é mais perceptível nas atividades diárias, no comportamento (redução de agitação, alucinações) e na carga sobre cuidadores. A memantina também é sintomática — para Alzheimer moderado a grave. Os novos anticorpos monoclonais (lecanemabe, donanemabe) são os primeiros agentes que demonstraram modificar a progressão da doença (redução de 27-35% na deterioração funcional em 18 meses em trials de fase 3), mas ainda não curam — apenas desaceleram a progressão em estágios iniciais. Em resumo: o tratamento atual do Alzheimer é paliativo/sintomático para a maioria dos pacientes, com as novas imunoterapias oferecendo a primeira perspectiva de modificação de doença, embora ainda limitadas em magnitude de efeito, em acesso e em indicação (apenas para DA precoce com amiloide confirmado).

Qual a diferença entre donepezila, rivastigmina e galantamina — qual é melhor?+

Os três inibidores de AChE têm eficácia similar em meta-análises de rede (sem um claramente superior) para o desfecho global de Alzheimer leve a moderado. A escolha é guiada por características específicas: Donepezila (Aricept®): a mais usada; conveniente (1 dose/dia); aprovada para todos os estágios incluindo grave (10-23 mg/dia); efeitos GI intermediários; boa tolerabilidade geral; sem necessidade de monitorar em IR ou IH leve. Rivastigmina (Exelon®): única aprovada especificamente para DEMÊNCIA DO PARKINSON (DP) — esta é sua grande vantagem diferencial; patch transdérmico é a opção preferida em pacientes com intolerância GI; inibe tanto AChE quanto BChE (enzima que também degrada ACh, presente em maior quantidade em cérebros com DA mais avançado); patch é útil quando há dificuldade de deglutição. Galantamina (Reminyl®): modulação alostérica dos receptores nicotínicos (efeito teórico adicional); metabolizada por CYP2D6 e CYP3A4 (mais interações farmacológicas); requer aumento gradual (titulação); menor uso que donepezila. Na prática brasileira: donepezila genérico é muito mais acessível e é a primeira escolha na maioria dos serviços; rivastigmina patch para pacientes com doença de Parkinson + demência ou com intolerância GI aos comprimidos. A escolha raramente é clínica — é mais sobre disponibilidade, custo, formulação e indicação específica (Parkinson-demência = rivastigmina).

Referências Científicas

  1. van Dyck CH, Swanson CJ, Aisen P, et al. (CLARITY AD — lecanemabe phase 3 RCT) Lecanemab in Early Alzheimer Disease. N Engl J Med, 2023.
  2. Sims JR, Zimmer JA, Evans CD, et al. (TRAILBLAZER-ALZ 2 — donanemabe phase 3 RCT) Donanemab in Early Symptomatic Alzheimer Disease: The TRAILBLAZER-ALZ 2 Randomized Clinical Trial. JAMA, 2023.
  3. Howard R, McShane R, Lindesay J, et al. (DOMINO trial — donepezil + memantine combination for moderate-severe AD) Donepezil and Memantine for Moderate-to-Severe Alzheimer Disease. N Engl J Med, 2012.
  4. Birks JS, Harvey RJ. (Cochrane review — donepezil for dementia due to Alzheimer disease 2018) Donepezil for dementia due to Alzheimer disease. Cochrane Database Syst Rev, 2018.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

#donepezila#rivastigmina#galantamina#memantina#Alzheimer#acetilcolinesterase#NMDA#lecanemabe#amiloide#demência

Avalie este conteúdo

Seja o primeiro a avaliar

Comentários

Faça login para deixar um comentário.

Ainda não há comentários. Seja o primeiro.

Pronto para começar?

Explore nosso catálogo de peptídeos com qualidade farmacêutica e COA.

Ver Catálogo →
Tratamento do Alzheimer — donepezila, rivastigmina, memantina e lecanemabe: colinesterase, NMDA e anti-amiloide-beta | Peptídeos Bio