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← Blog·Peptídeos18 de junho de 2026· 6 min de leitura

O Que É Apelina? Peptídeo Cardíaco, APJ e Insuficiência Cardíaca

Apelina (apelin) é um peptídeo endógeno de 36aa (e isoformas -17, -13) secretado por adipócitos, endotélio e coração. Via receptor APJ (APLNR), exerce potente efeito inotrópico positivo SEM taquicardia, vasodilatação via NO, e antifibrótico. Níveis circulantes caem na IC avançada. Análogos de apelina estão em ensaios fase 2 em insuficiência cardíaca sistólica e HAP.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Apelina: Estrutura, Isoformas e Receptor APJ

Apelina foi descoberta em 1998 por Tatemoto et al. como o ligante endógeno do receptor órfão APJ (angiotensin-like receptor 1 — APLNR), que havia sido clonado em 1993. A descoberta partiu de busca de ligantes para receptores GPCRs órfãos — estratégia que revelou vários peptídeos importantes (grelina, orexina, irisina indiretamente).

Gene e pré-pro-apelina

  • Gene APLN: cromossomo Xq25-q26.1 — X-linkado (incomum para hormônio cardiovascular)
  • Pré-pro-apelina: 77aa → clivagem de peptídeo sinal (22aa) → pro-apelina (55aa) → isoformas bioativas

Isoformas de Apelina | Isoforma | Tamanho | Potência | Meia-vida | |---------|---------|----------|----------| | Apelina-36 | 36aa | Moderada | ~60 min | | Apelina-17 | 17aa | Alta | ~5 min | | Apelina-13 | 13aa | Alta | ~5 min | | [Pyr¹]-Apelina-13 | 13aa ciclizada | Alta | ~10 min |

  • Apelina-17 e -13 são as mais potentes em FGFR/APJ
  • Apelina-17 é a isoforma dominante no plasma humano
  • [Pyr¹]-Apelina-13: pyroglutamato no N-terminal → mais resistente a peptidases
  • C-terminal Arg (Phe-Arg-Pro em apelina-17): essencial para ligação ao APJ
  • ACEI (inh. ECA): degrada apelina → ↑apelina com inibidores de NEP (neprilisina)?

Receptor APJ (APLNR)

  • GPCR classe A; 380aa; 7 domínios TM
  • Semelhança estrutural com receptor AT1 (angiotensina II): ambos ligam peptídeos curtos C-terminais
  • Acoplamento: Gi/o → ↓cAMP; Gq → ↑IP3/DAG; β-arrestina (via bias)
  • APJ em coração: miócitos, fibroblastos cardíacos, endotélio coronário
  • APJ em vasculatura: artérias sistêmicas e pulmonares
  • APJ no SNC: hipocampo, hipotálamo (papel em regulação de AVP/osmolalidade)
  • APJ e VIH/HIV: APJ co-receptor de alguns cepas de HIV-1? — controverso

Sistema apelina-APJ e sistema RAAS: yin-yang

  • Angiotensina II → AT1R: vasoconstritora, pró-fibrótica, retenção de sódio, pró-inflamatória
  • Apelina → APJ: vasodilatadora, antifibrótica, natriurética, anti-inflamatória
  • Os dois sistemas têm efeitos opostos e se regulam mutuamente
  • Apelina ↓ com inibidores de ECA? (ECA degrada apelina)
  • Apelina ↑ com sacubitril/valsartan (Entresto)? — Entresto inibe neprilisina → ↑apelina?
  • Convergência terapêutica: sistema apelina-APJ como contrapeso fisiológico ao RAAS excessivo

Apelina no Coração: Inotrópico Positivo, IC e HAP

Efeitos cardiovasculares da Apelina

  • Inotrópico positivo sem cronotrópico: apelina → APJ em miócitos → Gq → ↑Ca²⁺ intracelular (via sarcômero sensível a Ca²⁺) → ↑força de contração

- Diferente de catecolaminas: não aumenta frequência cardíaca nem consome muito O₂ - Diferente de dobutamina: sem taquifilaxia aguda observada

  • Vasodilatação periférica: apelina → APJ em endotélio → eNOS → ↑NO → vasodilatação; ↓PA sem reflexo taquicardíaco marcante
  • Antifibrótico: apelina → APJ em fibroblastos cardíacos → ↓TGF-β/Smad3 → ↓colágeno → ↓fibrose cardíaca
  • Natriurético: apelina → ↓ADH (vasopressina) no hipotálamo + efeito renal direto → ↑natriurese/diurese
  • Efeito na vasculatura pulmonar: vasodilatação via NO em circulação pulmonar

Apelina na Insuficiência Cardíaca (IC)

  • IC sistólica: ↓↓ apelina plasmática — correlaciona com piora da função sistólica (FE↓)
  • APJ também ↓ em miocárdio de IC terminal (downregulation do receptor)
  • Mecanismo de queda: maior catabolismo (neurohormonal ativo cliva apelina), ↓produção cardíaca
  • Apelina como biomarcador de IC: ↓apelina pré-hospitalar → pior prognóstico após IMA
  • Apelina como alvo terapêutico: efeito de recuperar a sinalização APJ → melhorar contratilidade SEM taquicardia/isquemia

Ensaios clínicos — Apelina IV em IC

  • Ensaio piloto (Aslan et al., JACC 2019): apelina-13 IV (10 min, dose crescente) em 18 pacientes com IC sistólica (FE ≤35%)

- ↑Índice cardíaco (CI) de 2.0 → 2.5 L/min/m² (25%); ↓resistência vascular sistêmica; sem taquicardia - Comparação: dobutamina eleva CI similar mas com ↑FC marcante - Meia-vida curta de apelina-13 (2-5 min) = limitação para uso crônico

Apelina na HAP (Hipertensão Arterial Pulmonar)

  • APJ/apelina: expressos na vasculatura pulmonar; apelina → vasodilatação pulmonar via NO
  • HAP: ↓apelina plasmática; ↓APJ na vasculatura pulmonar de pacientes com HAP
  • Apelina-13 IV em HAP: reduz resistência vascular pulmonar em modelos animais
  • APPLY trial (fase 2): análogo de apelina (CMF-019 — resistente a degradação) em HAP — resultados em andamento

Apelina no Metabolismo: Adipocina, Insulina e DM2

Apelina como adipocina

  • Tecido adiposo branco: importante fonte de apelina (e APJ expresso no mesmo tecido)
  • Apelina plasmática correlaciona positivamente com IMC e % gordura corporal
  • Paradoxo obesidade-IC: apelina ↑ em obesidade sem IC mas ↓ em IC avançada (mesmo obeso)
  • Dieta de alta gordura: ↑apelina e ↑APJ no TAB como resposta adaptativa?

Apelina e sensibilidade à insulina

  • Apelina → APJ em músculo e adipócito: ↑captação de glicose (AKT-independente) → sensibilizador de insulina
  • Camundongos ob/ob: apelina recombinante → ↓glicemia, ↑sensibilidade à insulina, ↓triglicerídeos
  • DM2: apelina sérica ↑ paradoxalmente em DM2 início → resistência à apelina (como insulina)
  • Progressão do DM2: apelina ↓ à medida que DM2 piora e falha de célula beta avança
  • Apelina como regulador de secreção de insulina: APJ em célula beta → ↓secreção de insulina em hipoglicemia (mecanismo protetor?)

Apelina e obesidade

  • Apelina → hipotálamo: suprime AVP (ADH) → ↑diurese (efeito aquarético)
  • Apelina central: efeitos orexígenos ou anorexígenos? — dados conflitantes por isoforma e via de administração
  • Apelina periférica IV: tende a ↓alimentação (via nervo vago?)
  • Interação apelina + GLP-1: sinergismo potencial em obesidade — pesquisa pré-clínica

Análogos de Apelina: Resistência a Degradação e Perspectivas

Desafio: meia-vida ultra-curta

  • Apelina-13 e -17: t½ plasmática 2-5 min — catabolismo rápido por NEP (neprilisina) e outras peptidases (ECA, PRCP)
  • Para uso clínico: necessário análogos resistentes a degradação ou via de administração alternativa

Estratégias de análogos

  1. [Pyr¹]-Apelina-13: piroglutamato no N-terminal → ↑resistência a aminopeptidases → t½ ~2× maior
  2. Análogos com substituições não-naturais: D-aminoácidos, N-metilação, retroinverso → ↑estabilidade
  3. CMF-019 (Cambridge, UK): análogo de apelina com t½ estendida para infusão contínua — em fase 2 (APPLY trial em HAP)
  4. FP-IND100100 (First Peptide): análogo SC de longa ação — pré-clínico
  5. Anticorpo-peptídeo conjugado: apelina ligada a Fc de IgG → t½ de dias

Inibidores de NEP e apelina

  • Sacubitril (inibidor de neprilisina) → ↓degradação de apelina → ↑apelina endógena?
  • Sacubitril/valsartan (Entresto): ↑apelina plasmática em pacientes com IC?
  • Hipótese: parte do benefício de Entresto na IC pode ser mediado por ↑apelina endógena + ↑BNP/ANP
  • Interesse combinado: NEP inibidor + APJ agonista?

APJ como alvo em outras doenças

  • Fibrose renal: apelina/APJ antifibrótico no rim → modelos de DRC
  • ALS (esclerose lateral amiotrófica): ↓apelina na medula espinal de pacientes; APJ em motoneurônios? — especulativo
  • Pré-eclâmpsia: ↓apelina plasmática; APJ no trofoblasto → implantação e angiogênese placentária
  • Câncer: APJ como receptor angiogênico tumoral → co-expresso com VEGFR; APJ antagonistas antiangiogênicos?

Perspectivas clínicas

  • IC sistólica: análogos de apelina com inotropia positiva + vasodilatação SEM taquicardia → nicho único (atual: inotrópicos causam taquicardia/arritmia ou vasodilatadores pioram pré-carga)
  • HAP: análogos de apelina como nova classe de vasodilatadores pulmonares
  • DM2 com IC: apelina dual-targeting (IC + metabolismo)
  • Biomarcador: apelina plasmática ↓ = marcador de IC avançada, prognóstico

Para explorar peptídeos cardiovasculares disponíveis, acesse nosso catálogo.

Para contextualizar: Peptídeos vs Hormônios e Guia Completo de Peptídeos ajudam a situar a apelina no panorama dos peptídeos bioativos. Explore nosso Hub de Ciência e Conceitos para comparar todos os peptídeos desta categoria.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é apelina e qual sua função no coração?+

Apelina (apelin) é um peptídeo produzido pelo coração, endotélio e tecido adiposo que age via receptor APJ (APLNR). No coração, é um potente inotrópico positivo — aumenta a força de contração sem causar taquicardia. Também dilata vasos periféricos (via NO) e tem efeito antifibrótico. Níveis plasmáticos de apelina caem na insuficiência cardíaca avançada e correlacionam com a gravidade da disfunção sistólica.

Apelina está em ensaios clínicos para insuficiência cardíaca?+

Sim — um ensaio piloto (JACC 2019) com apelina-13 IV em 18 pacientes com IC sistólica (FE ≤35%) mostrou aumento de 25% no índice cardíaco sem taquicardia. Análogos de apelina com meia-vida estendida (CMF-019) estão em fase 2 para hipertensão arterial pulmonar (APPLY trial). O desafio é a meia-vida ultra-curta da apelina nativa (~2-5 min), que exige análogos estáveis para uso clínico.

Qual é a relação entre apelina e o sistema renina-angiotensina (RAAS)?+

Apelina e angiotensina II exercem efeitos opostos: angiotensina II (via AT1R) é vasoconstritora, pró-fibrótica e retém sódio; apelina (via APJ) é vasodilatadora, antifibrótica e natriurética. Os sistemas se 'equilibram'. Inibidores de ECA degradam apelina (ECA a cliva), e a neprilisina também a degrada — sacubitril (Entresto) pode elevar apelina endógena como mecanismo adicional de benefício em IC.

Apelina é uma adipocina?+

Sim — o tecido adiposo branco é uma fonte importante de apelina. Em indivíduos obesos sem IC, apelina plasmática tende a estar elevada (possivelmente como mecanismo compensatório). Com o DM2 e a progressão da doença, apelina pode cair. No músculo e adipócitos, apelina via APJ melhora a captação de glicose de forma independente da insulina — tornando-a interessante como alvo para resistência à insulina.

Há análogos de apelina disponíveis como peptídeo de pesquisa?+

Análogos de apelina como o [Pyr1]-Apelina-13 e o CMF-019 estão em estudo clínico, mas não são classificados como peptídeos de pesquisa de uso geral. A apelina nativa tem meia-vida muito curta (~2-5 min), o que dificulta seu uso fora de infusão IV controlada. O interesse científico está nos análogos de longa ação ainda em fases clínicas.

Referências Científicas

  1. Tatemoto K, et al. Isolation and characterization of a novel endogenous peptide ligand for the human APJ receptor.. Biochem Biophys Res Commun, 1998.
  2. Chandra SM, et al. Disruption of the apelin-APJ system worsens hypoxia-induced pulmonary hypertension.. Arterioscler Thromb Vasc Biol, 2011.
  3. Aslan I, et al. Apelin-13 Infusion in Stable Heart Failure with Reduced Ejection Fraction: A Pilot Study.. JACC Heart Fail, 2019.
  4. Castan-Laurell I, et al. Apelin, diabetes, and obesity.. Endocrine, 2012.
  5. Murza A, et al. Discovery and Structure-Activity Relationship of a Bioavailable Apelin Receptor Agonist.. J Med Chem, 2017.
  6. Alfonso DM. Apelin/APJ Signalling as a Potential Complementary Target for Glucagon-like Peptide-1 Receptor Agonist Therapy in Heart Failure.. Cardiac failure review, 2026.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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