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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 13 min de leitura

Antifúngicos: anfotericina B, azóis, equinocandinas e o ergosterol — candidemia, aspergilose e meningite criptocócica

Fungos diferem de bactérias (ergosterol vs colesterol; parede de glucana; sem peptidoglicano). Anfotericina B forma poros no ergosterol; azóis (fluconazol, voriconazol) inibem CYP51/lanosterol 14α-demetilase; equinocandinas (caspofungina, micafungina) inibem β-1,3-glucana sintase.

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Alvos terapêuticos nos fungos: ergosterol, glucana e mais

Por que fungos são difíceis de tratar — são eucariotos, como as células humanas:

Diferenças fundamentais Fungo vs. Humano (alvos para antifúngicos):

  1. Ergosterol (membrana fúngica) vs. Colesterol (humano):

- Ergosterol = esterol da membrana plasmática fúngica — essencial para integridade, fluidez e função de proteínas de membrana - Biosíntese: Acetil-CoA → Esqualeno → Lanosterol → (CYP51/ERG11 remove metil em C-14) → → → Ergosterol - Alvo de anfotericina B (liga ergosterol diretamente) e azóis (inibem CYP51)

  1. Parede celular fúngica — ausente em humanos:

- β-(1,3)-D-glucana: polissacarídeo estrutural principal → sintetizado por glucana sintase (Fks1/2) → alvo das equinocandinas - Quitina: polímero de GlcNAc → crucial para divisão celular - Manoproteínas: externas

  1. Enzimas fúngicas distintas das humanas:

- DHFR fúngica (diferente da humana) → alvo parcial de flucitosina - CYP51 fúngica vs. CYP humanas → azóis mais seletivos por CYP51 fúngica

Principais espécies patogênicas e contexto clínico:

  • Candida spp. (C. albicans, C. glabrata/Nakaseomyces, C. auris) — candidemia, candidiase invasiva, mucocutânea
  • Aspergillus fumigatus — aspergilose invasiva (AI) em neutropênicos, transplantados
  • Cryptococcus neoformans/gattii — meningite criptocócica em HIV/imunossuprimidos
  • Histoplasma capsulatum, Coccidioides, Blastomyces — micoses endêmicas (região-específico)
  • Pneumocystis jiroveci — PCP em HIV (<200 CD4) ou imunossuprimidos (não trata com antifúngicos comuns — SMX-TMP)
  • Candida auris: patógeno emergente multirresistente → resistente a fluconazol e muitas equinocandinas em algumas cepas; surtos hospitalares

Anfotericina B: o polien de amplo espectro

Anfotericina B (AmB) — polieno macrolídeo produzido por Streptomyces nodosus; antifúngico de maior espectro disponível:

Mecanismo de ação:

  1. AmB difunde pela membrana fúngica → liga-se ao ergosterol (interação de van der Waals com alta afinidade)
  2. Moléculas de AmB formam canais transmembrana (poros hidrofílicos) → permeabilidade ao K⁺, Na⁺, H⁺ → colapso do gradiente eletroquímico → morte celular fúngica
  3. Também se liga ao colesterol humano (menor afinidade) → toxicidade em células renais tubulares e eritrócitos

Espectro: amplo — Candida spp. (maioria), Aspergillus spp., Cryptococcus, Histoplasma, Coccidioides, Mucorales, Blastomyces; resistência natural em Candida lusitaniae (VIAC-I) e rara em outros

Formulações (reduzem toxicidade renal):

  • Anfotericina B Deoxicolato (AmB-D): forma original — 0.5-1.5 mg/kg/dia IV; mais barata mas nefrotóxica
  • Anfotericina B Lipossomal (L-AmB, Ambisome®): AmB encapsulada em lipossomas → libera preferencialmente em sítio de infecção (macrófagos, locais de inflamação); 3-6 mg/kg/dia IV; muito menos nefrotóxica; padrão para aspergilose e meningite criptocócica grave, Mucormicose, febre neutropênica
  • Anfotericina B Complexo Lipídico (ABLC, Abelcet®): 5 mg/kg/dia — intermediária
  • Anfotericina B Dispersão Coloidal (ABCD, Amphocil®): menor uso

Toxicidades da AmB-D:

  • Nefrotoxicidade: mais limitante — diminui TFG por vasoconstrição de arteriola aferente + toxicidade tubular direta → monitora creatinina + K⁺ + Mg²⁺ diariamente; pré-hidratação com SF 500-1000 mL antes de cada dose minimiza; suspender se creatinina dobrar
  • Reação infusional ("shake-and-bake"): febre, calafrios, tremores, náuseas 30-90 min após início da infusão → pré-medicação com paracetamol + difenidramina + hidrocortisona; L-AmB tem menos infusion-related
  • Hipocalemia, hipomagnesemia (perda renal tubular) → reposição parenteral
  • Anemia (reduz EPO renal)

Mucormicose (Rhizopus, Mucor, Lichtheimia):

  • Infecção rara, fulminante e de alta mortalidade (50-90%) em neutropênicos, DM descontrolado (cetoacidose), transplantados, ferro-excesso
  • Tratamento: L-AmB 5-10 mg/kg/dia + isavuconazol/posaconazol de consolidação + desbridamento cirúrgico agressivo

Azóis: fluconazol, voriconazol, itraconazol, posaconazol, isavuconazol

Azóis — inibidores da CYP51 fúngica (Lanosterol 14α-demetilase / ERG11):

Mecanismo:

  • Azol → anel imidazol/triazol liga ao íon Fe²⁺ do sítio ativo da CYP51 fúngica → impede a remoção do grupo metil em C-14 do lanosterol → acúmulo de lanosterol e 14α-metilesteróis tóxicos → depleção de ergosterol → membrana anormal → fungiostático (não fungicida)
  • Inibem também CYP humanas (especialmente CYP3A4, 2C9) → múltiplas interações medicamentosas

Espectro e uso clínico:

Fluconazol (Diflucan®):

  • Excelente biodisponibilidade oral (~90%) e penetração em LCR (70-80% plasmático)
  • Espectro: Candida albicans (~90% sensível), Cryptococcus; atividade limitada em Aspergillus (não ativo) e Candida glabrata/Candida krusei (resistência intrínseca ou adquirida)
  • Indicações: candidemia por C. albicans (após 5-7 dias de equinocandina e estabilização, step-down), candidiase esofágica, candidíase vaginal, meningite criptocócica (fase de consolidação e manutenção após anfotericina)
  • 400 mg/dia para candidemia; 200-400 mg para outras; dose única 150 mg vaginal

Voriconazol (Vfend® — Pfizer):

  • Triazol de 2ª geração com espectro expandido para Aspergillus (ergo, VFEND → Aspergillus)
  • Padrão de tratamento para aspergilose invasiva (IDSA e ECMM guidelines): superior à AmB-D (VERIPOS trial 2002 — 53% vs 32% de resposta)
  • Espectro: Aspergillus, Candida spp. (incluindo C. glabrata parcialmente), Fusarium, Scedosporium
  • Polimorfismos de CYP2C19 → variabilidade plasmática enorme → TDM (monitoramento de droga terapêutica) recomendado: alvo 1-5 mg/L
  • Efeitos adversos: toxicidade visual (fotopsias, visão colorida alterada, 30% — transiente e dose-dependente), hepatotoxicidade, fotossensibilidade, encefalite por voriconazol (em níveis altos), fluorose/periostite em uso prolongado (≥3 meses)

Posaconazol (Noxafil®):

  • Espectro mais amplo incluindo Mucorales (Rhizopus etc.) — posaconazol + isavuconazol = azóis com atividade anti-Mucor
  • Profilaxia em neutropênicos de alto risco e transplantados de medula
  • Disponível oral (suspensão ou comprimido gastrorresistente) e IV

Isavuconazol (Cresemba®):

  • Ativo contra Aspergillus + Mucorales + Candida
  • Melhor tolerabilidade que voriconazol (menos toxicidade visual, hepatotoxicidade); IV e oral com excelente biodisponibilidade
  • Encurtamento de QTc (vs alargamento de outros azóis) — útil em pacientes com QTc já prolongado

Equinocandinas e resistência antifúngica

Equinocandinas — a classe mais moderna de antifúngicos sistêmicos:

Mecanismo — inibição de β-(1,3)-D-glucana sintase:

  • β-glucana forma a estrutura da parede celular fúngica (25-30% da parede de Candida)
  • Equinocandinas → ligam-se ao complexo FKS1/FKS2 (subunidades catalíticas da glucana sintase) → não-competitivo com o substrato (UDP-glicose) → menos β-glucana → parede enfraquecida → morte celular (fungicida para Candida)
  • Ação: fungicida para Candida; fungistatíca para Aspergillus (destrói hifas em crescimento)
  • Mecanismo exclusivo nas células fúngicas (β-glucana ausente em humanos) → excelente índice terapêutico, sem nefrotoxicidade

Três equinocandinas aprovadas:

  • Caspofungina (Cancidas® — MSD/Merck): 70 mg IV no D1, depois 50 mg/dia; dose ajustada em hepatopatia
  • Micafungina (Mycamine® — Astellas): 100 mg/dia (candidemia) ou 150 mg/dia (profilaxia em transplante); não requer ajuste de dose
  • Anidulafungina (Eraxis® — Pfizer): 200 mg IV D1, depois 100 mg/dia
  • Todas IV apenas (peptídeo grande → degradação oral); todas com meia-vida >24h → dose diária

Indicações:

  • Candidemia / Candidiase invasiva: 1ª linha de tratamento inicial (antes da identificação de espécie e sensibilidade) — IDSA 2016; após 5-7 dias e melhora clínica + espécie sensível → step-down para fluconazol
  • Candida auris: muitas cepas ainda sensíveis às equinocandinas (tratamento de escolha até confirmação de resistência)
  • Profilaxia: micafungina em pacientes pré-transplante alogênico (EORTC/MSG guidelines)

Resistência Antifúngica — cenário crescente:

  • Candida auris: emergiu por volta de 2009 (Japão, Índia, EUA); frequentemente resistente a fluconazol, às vezes resistente a equinocandinas e anfotericina (pan-resistência)
  • Mutações FKS: mecanismo de resistência às equinocandinas em C. glabrata e C. auris — hot-spots HS1/HS2 do gene FKS1/2
  • Resistência a azóis em Aspergillus fumigatus: TR34/L98H em ERG11 — emerge por uso agrícola de fungicidas triazólicos (seleção ambiental); prevalente na Europa/Ásia; significa que empirical voriconazol pode falhar
  • Flucitosina (5-FC): antimetabólito — convertida por citosina desaminase fúngica → 5-fluorouracil → inibe síntese de DNA; usada em combinação com AmB para meningite criptocócica (fase de indução); resistência emerge rapidamente em monoterapia

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Perguntas frequentes sobre antifúngicos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Candidíase vaginal recorrente — o que usar além de fluconazol oral?+

Candidíase vaginal complicada/recorrente (≥4 episódios/ano) requer: fluconazol 150 mg a cada 72h por 3 doses (indução), seguido de fluconazol 150 mg semanal por 6 meses (manutenção supressiva) — reduz recorrências em 50%. Para casos resistentes (C. glabrata): ácido bórico intravaginal 600 mg/dia por 14 dias (composto magistral) — 70-80% de eficácia em C. glabrata resistente a azóis. Ibrexafungerp (Brexafemme® — Scynexis): antifúngico oral novo (triterpenóide com mecanismo similar às equinocandinas mas oral) aprovado FDA 2022 para candidíase vulvovaginal incluindo casos resistentes.

Meningite criptocócica — qual o protocolo de tratamento?+

Protocolo IDSA 2010 (amplamente usado): (1) Indução: AmB lipossomal 3-4 mg/kg/dia + flucitosina 100 mg/kg/dia por 14 dias — esta combinação foi superior à AmB sozinha em cleared fungi das culturas de LCR (ensaios africanos e recentes AMBITION-cm: single high-dose L-AmB 10 mg/kg + flucitosina pode substituir 14 dias com similar eficácia). (2) Consolidação: fluconazol 400 mg/dia por 8 semanas. (3) Manutenção: fluconazol 200 mg/dia por ≥1 ano (ou indefinidamente em HIV com CD4 persistentemente baixo). Pressão intracraniana: problema crítico — punção lombar diária (ou mais) para manter PIC <20 cmH₂O; drenagem.

Qual antifúngico usar na aspergilose invasiva em 2024?+

Voriconazol continua como 1ª linha para aspergilose invasiva por A. fumigatus sem resistência conhecida — ECMM/IDSA. Isavuconazol é alternativa com melhor tolerabilidade e menor interações. Para regiões com alta prevalência de A. fumigatus resistente a azóis (TR34/L98H), como Holanda, Alemanha, Índia: L-AmB ou voriconazol + anidulafungina como empírico, até confirmar sensibilidade. Terapia de salvamento em falha de azol: L-AmB ou equinocandina + azol. Combinação voriconazol + anidulafungina: COMBINATION trial — benefício em aspergilose angioinvasiva (septal defect improvement).

Candida auris é perigosa? Como detectar e tratar?+

Candida auris é um patógeno emergente de alto alarme — causa surtos hospitalares, tem alta taxa de mortalidade (30-60%), é frequentemente multirresistente e difícil de identificar (algumas técnicas laboratoriais tradicionais a identificam erroneamente). Diagnóstico: MALDI-TOF MS e PCR/sequenciamento identificam corretamente. Controle: isolamento de contato rigoroso, descontaminação com hipoclorito (diferente de álcool que é insuficiente). Tratamento: equinocandinas são 1ª linha (maioria das cepas ainda sensível), mas monitorar MIC — se resistência a equinocandina, opções são L-AmB. Não há antifúngico claramente eficaz em cepas pan-resistentes (manejo compassivo).

Referências Científicas

  1. Herbrecht R, Denning DW, Patterson TF, et al. Voriconazole versus amphotericin B for primary therapy of invasive aspergillosis. N Engl J Med, 2002.
  2. Pappas PG, Kauffman CA, Andes DR, et al. Clinical practice guideline for the management of candidiasis: 2016 update by IDSA. Clin Infect Dis, 2016.
  3. Chowdhary A, Sharma C, Meis JF Candida auris: a rapidly emerging cause of hospital-acquired multidrug-resistant fungal infections globally. PLoS Pathog, 2017.
  4. Loyse A, Burry J, Cohn J, et al. (AMBITION-cm) Leave no one behind: response to new evidence and guidelines for the treatment of cryptococcal meningitis in low-income and middle-income countries. Lancet Infect Dis, 2019.
  5. Perfect JR, Dismukes WE, Dromer F, et al. Clinical practice guidelines for the management of cryptococcal disease: 2010 update by IDSA. Clin Infect Dis, 2010.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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