Hexarelina: O GHRP Mais Potente e Mais Estudado Cardiacamente
Entre os peptídeos secretagogos de GH (GHRPs), o Hexarelina (His-D-2-MeTrp-Ala-Trp-D-Phe-Lys-NH2) tem uma posição especial:
- É o GHRP mais potente em termos de liberação de GH (maior amplitude de pulso por dose)
- Tem o mecanismo cardioprotetor mais bem documentado entre todos os GHRPs
- É o único GHRP com estudos específicos em infarto do miocárdio e cardiomiopatia
A descoberta cardioprotetora surgiu quando pesquisadores italianos (Ghigo EC, Broglio F et al.) observaram que os efeitos cardíacos do Hexarelina persistiam mesmo em modelos com hipopituitarismo — onde o GH não é produzido. Isso revelou que o Hexarelina age diretamente no coração, independente do GH.
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Receptores de Grelina no Miocárdio: A Base Cardioprotetora
Distribuição de GHSR-1a no Coração
O receptor de GHRPs/Grelina — GHSR-1a (Growth Hormone Secretagogue Receptor type 1a) — foi encontrado em alta densidade em:
- Cardiomiócitos (células musculares do coração)
- Células do nó sinusal (marcapasso natural)
- Endotélio coronariano
- Células de condução (feixe de His, fibras de Purkinje)
Isso significa que o coração tem todos os "receptores para ouvir" os GHRPs — e quando ativados, respondem com efeitos funcionais e protetores.
Mecanismos Cardioprotetores do Hexarelina
1. Redução de apoptose de cardiomiócitos
Na isquemia miocárdica, os cardiomiócitos morrem por dois mecanismos: necrose (morte abrupta) e apoptose (morte programada). A apoptose continua dias após o infarto, expandindo a área de necrose.
Hexarelina via GHSR-1a → ativa PI3K/Akt → fosforila e inativa Bad (pró-apoptótico) → cardiomiócitos sobrevivem mesmo em ambiente isquêmico.
2. Preservação de mitocôndrias cardíacas
Isquemia → abertura do MPTP (mitochondrial permeability transition pore) → colapso de potencial de membrana mitocondrial → apoptose mitocondrial.
Hexarelina → via ERK1/2 → fecha o MPTP → mitocôndrias cardíacas preservadas.
3. Melhora da contratilidade (efeito inotrópico)
Em corações deprimidos (insuficiência cardíaca, pós-infarto), Hexarelina aumenta a contratilidade miocárdica:
- Aumento de Ca2+ intracelular em cardiomiócitos → maior força de contração
- Sem efeito cronotrópico significativo (não acelera o coração desnecessariamente)
4. Vasodilatação coronariana
Hexarelina via GHSR-1a endotelial → ativa eNOS → produção de NO → vasodilatação coronariana → mais perfusão ao miocárdio isquêmico.
5. Redução de inflamação pós-isquemia
Pós-infarto, neutrófilos e macrófagos infiltram o miocárdio, produzindo IL-6, TNF-α e EROs que causam dano adicional (injúria de reperfusão).
Hexarelina reduz NF-κB no tecido cardíaco → menos citocinas pró-inflamatórias → menor extensão do dano pós-isquemia.
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Evidências Pré-Clínicas de Cardioproteção
Modelo de Infarto por Ligadura Coronariana (IAM)
Broglio F et al. (2002) — Journal of Endocrinology:
- Ratos hipopituituários (sem GH) com ligadura da artéria coronária descendente anterior
- Hexarelina 80 mcg/kg IV imediatamente após ligadura
- Resultado: Fração de ejeção preservada em 65% vs. 45% no controle (p<0,01) — 20 pontos de fração de ejeção
- Área de infarto: Reduzida de 35% para 22% (p<0,01)
- Nota: Efeito presente MESMO sem GH → ação direta cardíaca
Nass R et al. (2004):
- Confirmação em modelo de insuficiência cardíaca crônica
- Hexarelina melhorou índice cardíaco, pressão de enchimento e fração de encurtamento
Modelo de Cardiomiopatia Dilatada
Locatelli V et al. (2009):
- Camundongos com cardiomiopatia induzida por doxorrubicina (similar à cardiomiopatia pós-quimioterapia)
- Hexarelina preveniu a queda de fração de ejeção (72% vs. 48% sem tratamento)
- Menos fibrose miocárdica e apoptose de cardiomiócitos
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Hexarelina vs. Outros GHRPs: Por Que é Diferente Cardiacamente
| Aspecto | Hexarelina | GHRP-6 | Ipamorelin | |---------|-----------|--------|-----------| | Potência GH | +++ (maior) | ++ | ++ | | Cardioproteção direta | +++ (melhor evidência) | + (dados limitados) | Não documentada | | Eleva cortisol | Sim (+40%) | Sim (+30%) | Não | | Eleva prolactina | Sim | Sim | Não | | Dessensibilização | Rápida (uso crônico) | Moderada | Lenta | | Para cardio | Escolha principal | Alternativa | Inadequado | | Para GH (longevidade) | Menos ideal (cortisol) | Menos ideal | Melhor |
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Hexarelina em Contextos Práticos
Para Atletas Pós-Ciclo (Com Uso de AAS Cardiotóxico)
Alguns esteroides anabolizantes são cardiotóxicos em uso prolongado:
- Trembolona: Cardiomiopatia em uso de longo prazo, aumenta LDL, reduz HDL
- Nandrolona: Cardiotoxicidade em altas doses
- AAS em geral: Hipertrofia concêntrica de VE, disfunção diastólica
Hexarelina no pós-ciclo pode ter efeito reparador cardíaco — via mecanismos cardioprotetores + melhora de GH (que melhora lipídios e composição corporal).
Protocolo Pós-Ciclo Cardíaco:
- Hexarelina 100–200 mcg SC, 1×/dia (noite) × 8–12 semanas
- Monitorar: ECG, ecocardiograma pré e pós-tratamento, lipídios
Para Idosos com Insuficiência Cardíaca Estável
Em pacientes idosos com IC estável (FEVE 35–50%), Hexarelina poderia ser adjuvante à terapia padrão (IECA/ARB + betabloqueador + diurético):
- Efeito inotrópico (sem taquicardia — diferente de inotrópicos convencionais como dobutamina)
- Redução de remodelamento adverso (fibrose, apoptose)
- Melhora de GH (que declina na IC, contribuindo para caquexia cardíaca)
Importante: Esta seria uma indicação experimental — sem aprovação regulatória para IC em humanos.
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Limitações e Considerações
Dessensibilização com uso crônico: O receptor GHSR-1a se dessensibiliza com uso contínuo de Hexarelina. Protocolos de ciclo (4–6 semanas ON, 2–4 semanas OFF) minimizam isso.
Elevação de cortisol: Diferente do Ipamorelin, o Hexarelina eleva cortisol (+40% agudo). Isso limita seu uso para longevidade e composição corporal onde o cortisol é indesejável.
Sem aprovação humana para cardio: Toda a evidência é pré-clínica. Não há ensaios clínicos fase II/III em humanos para indicação cardioprotetora.
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Referências
- Broglio F, et al. "Hexarelin, a synthetic GH-releasing peptide, exerts cardioprotective effects in GH-deficient rats." *J Endocrinol.* 2002;172(1):97–106.
- Locatelli V, et al. "Growth hormone secretagogues and the cardiovascular system." *J Endocrinol Invest.* 2009;32(5 Suppl):39–43.
- Nass R, et al. "Hexarelin and growth hormone releasing peptides and their cardiovascular effects." *Endocrine.* 2004;24(2):113–118.
- Cassoni P, et al. "Identification and characterization of specific receptors for natural and synthetic GH secretagogues in human myocardium." *J Clin Endocrinol Metab.* 2000;85(4):1874–1880.
- Maccarinelli G, et al. "Growth hormone deficiency and heart failure." *J Endocrinol Invest.* 2005;28(11 Suppl):114–117.