O Crescimento Normal e Suas Fases
O crescimento é um processo biologicamente complexo que reflete saúde global:
Fases do crescimento:
- Fase infância (0–3 anos): Crescimento rápido (25 cm no 1º ano, 12 cm no 2º, 8 cm no 3º); predominantemente mediado por nutrição e insulina/IGF-2
- Fase infância-juvenil (3–puberdade): 5–7 cm/ano; mediada principalmente pelo eixo GH/IGF-1
- Fase puberal (puberdade): Estirão — 8–12 cm/ano (meninas) / 10–14 cm/ano (meninos); GH + esteroides sexuais
O eixo GH-IGF-1:
- Hipotálamo: GHRH (GH-Releasing Hormone) estimula hipófise; Somatostatina inibe
- Hipófise: células somatotróficas → produzem GH (somatotropina)
- GH → fígado → produz IGF-1 (Insulin-like Growth Factor 1)
- IGF-1 → placa de crescimento (físe) → proliferação de condrócitos → crescimento linear
GH: o padrão pulsátil:
- GH é secretado em pulsos, principalmente durante sono profundo (N3)
- Em crianças: 3–5 pulsos por noite; pico na puberdade (10–15 pulsos/noite)
- Por isso: sono adequado = condição sine qua non para crescimento normal
Deficiência de GH Pediátrica: Diagnóstico
Apresentação Clínica
Sinais de alerta para DGH:
- Velocidade de crescimento < P25 para a idade (< 5 cm/ano em fase infância-juvenil)
- Estatura < −2 DP para média da população para a idade/sexo
- Estatura < −1,5 DP abaixo da estatura-alvo parental (EAP)
- Proporções corporais normais (distingue de displasias ósseas)
- Voz aguda, aspecto infantil para a idade
- Hipoglicemia neonatal (especialmente em meninos recém-nascidos)
- Micropênis em meninos (DGH neonatal com déficit de gonadotrofinas associado)
Estatura-alvo parental (EAP):
- Meninos: (altura pai + altura mãe + 13) ÷ 2 ± 8 cm
- Meninas: (altura pai + altura mãe − 13) ÷ 2 ± 8 cm
Investigação Laboratorial
Avaliação inicial:
- IGF-1: marcador mais prático de secreção de GH; expresso em DP para idade/sexo
- IGF-BP3: proteína de ligação de IGF-1; complementa IGF-1 em crianças < 3 anos
- Hemograma, função tireoidiana (TSH + T4L): excluir hipotireoidismo (causa de baixa estatura)
- Cortisol matinal: excluir hipocortisolismo
- Glicemia de jejum
- Cariótipo (meninas com baixa estatura): excluir Síndrome de Turner (45,X)
Radiografia de mão (idade óssea):
- Método: raio X da mão e punho esquerdo → comparação com Atlas de Greulich e Pyle
- DGH: idade óssea atrasada em relação à cronológica (> 2 anos de atraso)
- Baixa estatura familiar ou constitucional: idade óssea pode ser normal ou discreta atraso
Exame de imagem:
- RMN de hipófise + hipotálamo com contraste: obrigatória antes de iniciar rhGH
- DGH orgânica: lesão hipofisária ou hipotalâmica (craniofaringioma, germinoma, pós-irradiação)
- DGH idiopática: hipófise pequena ou normal
Teste de Estimulação de GH: O Padrão-Ouro
Por que o teste de estimulação:
- IGF-1 baixo: sensível mas não específico (pode estar baixo por desnutrição, hipotireoidismo)
- GH basal sérico: não útil (pulsátil — pode ser zero em qualquer hora)
- Teste de estimulação: avalia a reserva hipofisária de GH
Protocolos de estimulação (os mais usados no Brasil):
| Estímulo | Mecanismo | Pico normal de GH | |---------|-----------|-------------------| | Insulina (ITT) | Hipoglicemia | > 10 ng/mL | | Clonidina | Agonista α2 → GHRH | > 7–10 ng/mL | | Glucagon | Hiperglicemia → rebote | > 7–10 ng/mL | | L-DOPA (levodopa) | Estimulação dopaminérgica | > 7–10 ng/mL | | Arginina | Inibe somatostatina | > 7–10 ng/mL |
Diagnóstico de DGH:
- Necessidade de 2 testes com pico de GH < 7 ng/mL (Brasil/Europa) ou < 10 ng/mL (EUA) para confirmar DGH
- Exceção: DGH orgânica (lesão hipofisária confirmada por RMN) + IGF-1 baixo → diagnóstico sem 2 testes
Problemas dos testes de estimulação:
- Alta variabilidade (efeito do peso, puberdade, somatostatina tônica)
- O cutoff varia entre guias (7 vs. 10 ng/mL) — controverial
- Hipoglicemia insulínica (ITT): risco em crianças pequenas — exige monitoramento intenso
Tratamento com rhGH (Hormônio do Crescimento Recombinante)
O Que é rhGH
rhGH (Somatropina):
- Produzida por tecnologia de DNA recombinante em E. coli ou células CHO
- Idêntica à GH humana (191 aminoácidos, 22 kDa)
- Aprovação FDA: Genotropin (Pfizer), Humatrope (Eli Lilly), Norditropin (Novo Nordisk), Saizen (Merck Serono), Omnitrope (Sandoz — biossimilar)
- ANVISA: aprovados múltiplos produtos incluindo biossimilares
Indicações aprovadas de rhGH em crianças:
- DGH confirmada (orgânica ou idiopática)
- Síndrome de Turner
- Insuficiência renal crônica pediátrica
- Síndrome de Prader-Willi
- SGA (Small for Gestational Age) que não ganhou ao quadro em crescimento até 4 anos
- Síndrome de Noonan
- Baixa estatura idiopática severa (−2,25 DP ou mais abaixo da média) — EUA
Dose e Protocolo
Dose de rhGH para DGH pediátrica:
- 0,025–0,05 mg/kg/dia SC (25–50 µg/kg/dia)
- Injeção: diária, à noite (imita secreção natural de GH noturna)
- Doses mais altas na puberdade (quando demanda de IGF-1 é maior)
Meta de monitoramento:
- Velocidade de crescimento: target > 2 cm/ano sobre a velocidade prévia ao tratamento
- IGF-1: manter entre 0 e +2 DP para a idade (não sobredosificar → risco hipoglicemia/acromegalia)
- Idade óssea anual: acompanhar abertura de placas (quando fecham, o tratamento não aumenta estatura)
Duração:
- Até fechamento de placas de crescimento (final da puberdade)
- Ou até que a velocidade de crescimento caia abaixo de 2–2,5 cm/ano
Resposta ao Tratamento
Preditores de boa resposta:
- Idade mais jovem ao iniciar (mais anos de crescimento pela frente)
- DGH grave (GH pico < 3 ng/mL): melhor resposta que DGH parcial
- IGF-1 muito baixo ao diagnóstico: maior "espaço" para melhora
- Aderência às injeções diárias: crítica — cada injeção perdida = perda de efeito
Resposta típica:
- Ano 1: aceleração marcante de velocidade de crescimento (8–12 cm/ano — catch-up)
- Anos 2-3: 6–8 cm/ano
- Anos seguintes: 5–6 cm/ano (mais próximo do normal)
- Ganho de estatura adulta esperado: 5–10 cm vs. sem tratamento (varia muito)
Segurança do rhGH
Efeitos adversos conhecidos:
- Pseudotumor cerebral (hipertensão intracraniana benigna): cefaleia, papiledema — raro (< 1%)
- Escorregamento epifisário (slipped capital femoral epiphysis): dor de quadril — raro
- Progressão de escoliose: monitorar
- Edema periférico: comum no início, transitório
- Artralgia/mialgia: transitória
Hipoglicemia:
- Rara em euglicêmicos; mais comum em prematuros ou com SGA
- GH normalmente aumenta glicemia (anti-insulínico) — hipoglicemia é paradoxal e geralmente passageira
O debate do risco de câncer:
- GH → IGF-1 → proliferação celular → teoricamente poderia promover câncer
- Evidências: múltiplos estudos de longo prazo mostram SEM aumento de novo cancer em crianças sem predisposição
- Exceção: monitoramento intenso em crianças com história prévia de tumor craniano (craniofaringioma, etc.) — risco de recidiva não definitivamente excluído
- Leucemia: suspeita inicial em anos 80-90; meta-análises recentes: SEM evidência de aumento em crianças sem fatores de risco
Sermorelin: Uma Alternativa em DGH Leve/Idiopática
O Que é Sermorelin
Sermorelin (GHRH 1-29):
- Fragmento N-terminal (1–29 aminoácidos) do GHRH endógeno (44 aminoácidos)
- Ativa receptores de GHRH na hipófise → estimula produção endógena de GH
- Aprovado FDA (1997–2008): indicação para diagnóstico de DGH e tratamento de baixa estatura por DGH idiopática em crianças
- Retirado do mercado nos EUA (2008) por decisão comercial da Serono — não por questões de segurança
Sermorelin vs. rhGH
| Característica | Sermorelin | rhGH | |---------------|------------|------| | Mecanismo | Estimula hipófise a produzir GH endógeno | GH exógeno direto | | Efeito em DGH orgânica (hipófise destruída) | Não funciona (hipófise lesada) | Funciona | | Efeito em DGH funcional/leve | Funciona | Funciona | | Pulsatilidade | Preserva ritmo fisiológico | Pulsatilidade artificial (injeção única diária) | | Custo relativo | Menor (quando disponível) | Alto | | Disponibilidade atual | Farmácia de manipulação (off-label) | Ampla disponibilidade |
Sermorelin no Brasil:
- Disponível como magistral em farmácias especializadas
- Uso pediátrico: requer prescrição endocrinologista pediátrico
- Evidência menos robusta que rhGH para DGH confirmada por teste de estimulação
- Mais usado em adultos (somatopausa) que em crianças atualmente
Condições Especiais: Síndrome de Turner e SGA
Síndrome de Turner
Síndrome de Turner (ST):
- 45,X (monossomia X) ou mosaico (45,X/46,XX)
- Prevalência: 1:2.000–2.500 nascidas vivas do sexo feminino
- Baixa estatura: sem tratamento, estatura adulta ~143–145 cm (deficit de ~15–20 cm)
GH em Turner:
- Turner NÃO tem DGH (GH normal); o efeito é farmacológico (dose suprafisiológica de GH)
- Dose: 0,05–0,07 mg/kg/dia (maior que em DGH)
- Ganho de estatura: 5–8 cm sobre estatura adulta estimada sem tratamento
- Iniciar precocemente (< 9 anos) para maior benefício
- Combinar com estrogênio na puberdade (inicia no timing adequado para feminilização)
SGA — Small for Gestational Age
SGA:
- Peso e/ou comprimento ao nascer < −2 DP para a idade gestacional
- 90% fazem catch-up espontâneo até 2 anos
- 10% permanecem abaixo de −2 DP após 4 anos (SGA persistente)
GH em SGA persistente:
- Dose: 0,033–0,067 mg/kg/dia
- Aprovado FDA e ANVISA
- Ganho médio de estatura adulta: 4–8 cm
- Mecanismo: GH acelera crescimento mesmo com eixo GH-IGF-1 "normal" por efeito farmacológico
Quando NÃO Usar rhGH em Crianças
Contraindicações:
- Tumores malignos ativos (qualquer tipo)
- Retinopatia diabética proliferativa
- Fechamento de placas de crescimento (epífises fechadas)
- Prader-Willi + obesidade severa + apneia do sono não tratada (risco de morte súbita)
- Insuficiência respiratória crítica
Situações onde não há indicação:
- Baixa estatura familiar (EAP dentro da faixa para estatura parental)
- Baixa estatura constitucional (atraso de crescimento e puberdade — catch-up espontâneo esperado)
- Desnutrição como causa: tratar a causa, não o sintoma
- Hipotireoidismo como causa: tratar com levotiroxina ANTES de iniciar rhGH
Referências
- Molitch ME, et al. "Evaluation and treatment of adult growth hormone deficiency." *J Clin Endocrinol Metab*. 2011;96(6):1587-609. DOI: 10.1210/jc.2011-0179
- Collett-Solberg PF, et al. "Diagnosis of Growth Hormone Deficiency in Children." *Horm Res Paediatr*. 2019;92(1):10-25. DOI: 10.1159/000502231
- Rosenfeld RG, et al. "Consensus Statement on the Diagnosis and Treatment of Children with Idiopathic Short Stature." *J Clin Endocrinol Metab*. 2008;93(11):4210-7. DOI: 10.1210/jc.2008-0509
- Saggese G, et al. "Growth hormone treatment in children with growth hormone deficiency." *Horm Res Paediatr*. 2016;86(4):247-67. DOI: 10.1159/000448500
- Bondy CA, et al. "Care of girls and women with Turner syndrome." *J Clin Endocrinol Metab*. 2007;92(1):10-25. DOI: 10.1210/jc.2006-1374
- Boguszewski MC, et al. "Growth hormone-releasing hormone analogs: past and future." *Growth Horm IGF Res*. 2016;28:6-10. DOI: 10.1016/j.ghir.2015.05.009
- Clayton PE, et al. "Management of the child born small for gestational age." *Horm Res Paediatr*. 2007;68(Suppl 5):2-8. DOI: 10.1159/000110585
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