Esketamina e Ketamina: Antagonismo NMDA em TRD
Farmacologia do Receptor NMDA
Receptor NMDA (N-metil-D-aspartato):
- Receptor ionotrópico de glutamato; canal de Ca²⁺ + Na⁺/K⁺
- Estrutura: heterotetrâmero; 2 subunidades GluN1 (obrigatórias) + 2 GluN2 (A, B, C, D) ou GluN3
- Características especiais:
- Bloqueio por Mg²⁺ voltagem-dependente (inativa em potencial de repouso) - Co-agonismo obrigatório: glutamato (ligante principal) + glicina/D-serina (co-agonista obrigatório) - Alta permeabilidade a Ca²⁺ → ativa CaMKII, PKC, PKA → LTP (Long-Term Potentiation)
- Papel na depressão: hiperatividade do sistema glutamatérgico / hipoatividade de NMDA→AMPA ratio
- Bloqueio de NMDA → desinibição do tráfego de AMPA → mais AMPA na membrana → ativação de TrkB → BDNF
Ketamina:
- Anestésico dissociativo; antagonista não-competitivo de NMDA (bloqueia canal aberto — "open channel blocker")
- Liga-se dentro do canal quando aberto → bloqueia fluxo de Ca²⁺
- Mistura racêmica de R-ketamina (arketamina) + S-ketamina (esketamina)
- Metabolismo: N-desmetilação → norketamina → hidroxinorketamina (HNK)
- HNK (2R,6R-HNK): não bloqueia NMDA diretamente; mas ativa via AMPA → contribui para efeito antidepressivo
Mecanismo Antidepressivo: Sinapse Rapidamente Sinaptogênica
Via de ativação pós-NMDA-bloqueio:
- Bloqueio de NMDA → menos ativação de eEF2K kinase → menos inibição de síntese de BDNF
- AMPA desreprimido → maior tráfego de AMPARs → maior excitabilidade sináptica
- BDNF → liga TrkB → ativa PI3K-Akt-mTORC1 → síntese de proteínas sinápticas
- mTORC1 → síntese de PSD-95, GluA1, sinapsina → sinaptogênese rápida
- Espinhas dendríticas: aumentam em número e tamanho em horas (vs. antidepressivos clássicos: semanas)
- Resultado: reverão rápida de depressão (horas vs. semanas dos SSRIs)
TRANSFORM-2 Trial (2019 — NEJM): Esketamina em TRD
Esketamina (Spravato):
- S-enantiômero da ketamina: maior potência no NMDA (Ki ~0,3 μM vs. 0,7 μM para R-ketamina)
- Administração: intranasal (spray) → rápida absorção mucosa → biodisponibilidade ~48%
- Metabolismo hepático: CYP2B6 + CYP3A4 → norket; meia-vida 7–12h
TRANSFORM-2:
- 223 pacientes; TRD (falha ≥2 antidepressivos); esketamina IN + novo antidepressivo oral vs. placebo IN + novo antidepressivo
- MADRS em 4 semanas: −19,8 (esketamina) vs. −15,8 (placebo) — diferença −4,0 (p=0,02)
- Remissão (MADRS ≤12) em 4 semanas: 52% vs. 31%
- FDA aprovado março 2019 (TRD adultos em ambiente monitorado)
- SUSTAIN-2 (manutenção): recidiva com descontinuação → justifica uso contínuo bisemanal→semanal
Efeitos adversos de esketamina:
- Dissociação: 61% (transitória, resolve em 1–2h) — deve ser monitorada 2h pós-dose
- Náusea: 29%; tontura: 22%; cefaleia: 25%
- Potencial de abuso/dependência: REMS (Risk Evaluation and Mitigation Strategy) — administração supervisionada apenas em clínicas certificadas
- Hipertensão transitória: monitorar PA
Ketamina IV em emergências psiquiátricas:
- Ketamina IV (0,5 mg/kg em 40 min): efeito em 4–24h; mais estudos abertos; não aprovada pela FDA para esta indicação
- Usado off-label em ideação suicida aguda (resposta rápida crítica)
- Esketamina intranasal aprovada para depressão com risco suicida agudo (ASPIRE trial)
Psilocibina: 5-HT2A Agonismo e Neuroplasticidade
Farmacologia da Psilocibina
Psilocibina:
- Profármaco: psilocibina → desfosforilaçao → psilocina (o composto ativo)
- Psilocina: agonista agonista potente de 5-HT2A (Kd ~0,5 nM) + 5-HT2C + 5-HT1A
- Ligação a 5-HT2A → Gq → PLC → IP3/DAG → Ca²⁺ intracelular + PKC ativo → efeitos alucinógenos
- Mas também: ativação de β-arrestina → efeitos neuroplásticos diferentes da ativação de Gq
Default Mode Network (DMN) e psilocibina:
- DMN: rede de regiões correlacionadas no repouso (mPFC, PCC, precuneus, angular gyrus)
- Excesso de DMN: ruminação, autocentramento, pensamentos negativos rígidos — correlaciona com depressão
- Psilocibina: DESINIBE o DMN (inesperadamente — o 5-HT2A no tálamo↑ "gating" → filtra pensamentos rígidos)
- Entropy da atividade cerebral: aumenta com psilocibina → mente mais "aberta", "plástica"
- Efeito neuroplástico: psilocibina → aumento de dendritos + espinhas em modelos animais (similar à ketamina)
COMP360 (psilocibina) para TRD:
- COMP001 (fase 2B, Carhart-Harris et al. 2022 — NEJM): 233 pacientes TRD; psilocibina 1 mg, 10 mg, 25 mg (sessão única + psicoterapia)
- MADRS em 3 semanas: resposta em 29,1% (25 mg) vs. 9,7% (1 mg) — dose-dependente
- Remissão: 20,3% (25 mg) vs. 5,4% (1 mg) em 3 semanas; mas efeito diminui em 12 semanas
- Efeitos adversos: cefaleia (65% no grupo 25mg), náusea, tontura — e dissociação aguda monitorada
Psilocibina em uso clínico (perspectiva):
- Austrália: aprovação regulatória para TRD (2023)
- FDA Breakthrough Therapy Designation para psilocibina em TRD e MDD
- Requer modelo de "terapia assistida por psilocibina": preparação + sessão + integração psicológica
MDMA em PTSD: Terapia Assistida
MDMA (3,4-metileno-dioximetanfetamina):
- Libera serotonina (SERT), dopamina (DAT) e noradrenalina (NET) das vesículas sinápticas
- Inibe recaptação de monoaminas por ação reversa em transportadores (SLC6A4, SLC6A3, SLC6A2)
- Efeito principal em PTSD: reduz atividade da amígdala (menos medo) + aumenta oxitocina → promove confiança e abertura → permite reprocessamento de trauma
MAPP1 Trial (2023 — Nature Medicine)
MAPP1:
- 90 pacientes; PTSD grave (CAPS-5 ≥35); MDMA-assistida (3 sessões + psicoterapia) vs. psicoterapia + placebo
- Resposta CAPS-5: 71% (MDMA) vs. 48% (placebo) — melhora clínica significativa
- Remissão: 67% (MDMA) vs. 32% (placebo)
- *Publication note: estes dados precisam ser interpretados à luz do resultado posterior: FDA rejeitou MDMA em 2024 por questões metodológicas (unblinding, conflito de interesse, análise); revisão em curso*
- Adverse events: náusea (72%), tontura (43%), anorexia (56%); sem eventos cardiovasculares graves
Buprenorfina em Depressão
Buprenorfina:
- Agonista parcial de MOR (receptor μ-opioide); antagonista de KOR (receptor κ)
- KOR: ativação de KOR → disforia, anedonia — associado à depressão por estresse
- Buprenorfina bloqueia KOR → anti-KOR efeito → melhora humor (independentemente do MOR)
- Naltrexona/buprenorfina (aZYN-002): em desenvolvimento para TRD; fase 2 com resultados positivos
- ALKS-5461 (buprenorfina + samidorfano — antagonista MOR): ensaio FORWARD-3 em MDD: melhora MADRS vs. placebo (não aprovado pela FDA ainda — resultado controverso)
Referências
- Popova V, et al. "Efficacy and Safety of Flexibly Dosed Esketamine Nasal Spray (TRANSFORM-2) in Treatment-Resistant Depression." *J Clin Psychiatry*. 2019;80(3):18m12564. DOI: 10.4088/JCP.18m12564
- Carhart-Harris R, et al. "Trial of Psilocybin versus Escitalopram for Depression (COMP001)." *N Engl J Med*. 2021;384(15):1402-11. DOI: 10.1056/NEJMoa2032994
- Goodwin GM, et al. "Single-Dose Psilocybin for a Treatment-Resistant Episode of Major Depression." *N Engl J Med*. 2022;387(18):1637-48. DOI: 10.1056/NEJMoa2206443
- Mitchell JM, et al. "MDMA-assisted therapy for severe PTSD: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 study." *Nat Med*. 2023;29(10):2473-80. DOI: 10.1038/s41591-023-02565-4
- Zanos P, Gould TD. "Mechanisms of ketamine action as an antidepressant." *Mol Psychiatry*. 2018;23(4):801-11. DOI: 10.1038/mp.2017.255
- Zarate CA Jr, et al. "A Randomized Trial of an N-methyl-D-aspartate Antagonist in Treatment-Resistant Major Depression." *Arch Gen Psychiatry*. 2006;63(8):856-64. DOI: 10.1001/archpsyc.63.8.856
- Carhart-Harris RL, Friston KJ. "REBUS and the anarchic brain: toward a unified model of the brain action of psychedelics." *Pharmacol Rev*. 2019;71(3):316-44. DOI: 10.1124/pr.118.017160
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