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← Blog·peptideos20 de junho de 2026

Esketamina, Ketamina e NMDA no TRD; Psilocibina e 5-HT2A; MDMA para PTSD; Buprenorfina em Depressão — Farmacologia do SNC

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Esketamina e Ketamina: Antagonismo NMDA em TRD

Farmacologia do Receptor NMDA

Receptor NMDA (N-metil-D-aspartato):

  • Receptor ionotrópico de glutamato; canal de Ca²⁺ + Na⁺/K⁺
  • Estrutura: heterotetrâmero; 2 subunidades GluN1 (obrigatórias) + 2 GluN2 (A, B, C, D) ou GluN3
  • Características especiais:

- Bloqueio por Mg²⁺ voltagem-dependente (inativa em potencial de repouso) - Co-agonismo obrigatório: glutamato (ligante principal) + glicina/D-serina (co-agonista obrigatório) - Alta permeabilidade a Ca²⁺ → ativa CaMKII, PKC, PKA → LTP (Long-Term Potentiation)

  • Papel na depressão: hiperatividade do sistema glutamatérgico / hipoatividade de NMDA→AMPA ratio
  • Bloqueio de NMDA → desinibição do tráfego de AMPA → mais AMPA na membrana → ativação de TrkB → BDNF

Ketamina:

  • Anestésico dissociativo; antagonista não-competitivo de NMDA (bloqueia canal aberto — "open channel blocker")
  • Liga-se dentro do canal quando aberto → bloqueia fluxo de Ca²⁺
  • Mistura racêmica de R-ketamina (arketamina) + S-ketamina (esketamina)
  • Metabolismo: N-desmetilação → norketamina → hidroxinorketamina (HNK)

- HNK (2R,6R-HNK): não bloqueia NMDA diretamente; mas ativa via AMPA → contribui para efeito antidepressivo

Mecanismo Antidepressivo: Sinapse Rapidamente Sinaptogênica

Via de ativação pós-NMDA-bloqueio:

  1. Bloqueio de NMDA → menos ativação de eEF2K kinase → menos inibição de síntese de BDNF
  2. AMPA desreprimido → maior tráfego de AMPARs → maior excitabilidade sináptica
  3. BDNF → liga TrkB → ativa PI3K-Akt-mTORC1 → síntese de proteínas sinápticas
  4. mTORC1 → síntese de PSD-95, GluA1, sinapsina → sinaptogênese rápida
  5. Espinhas dendríticas: aumentam em número e tamanho em horas (vs. antidepressivos clássicos: semanas)
  • Resultado: reverão rápida de depressão (horas vs. semanas dos SSRIs)

TRANSFORM-2 Trial (2019 — NEJM): Esketamina em TRD

Esketamina (Spravato):

  • S-enantiômero da ketamina: maior potência no NMDA (Ki ~0,3 μM vs. 0,7 μM para R-ketamina)
  • Administração: intranasal (spray) → rápida absorção mucosa → biodisponibilidade ~48%
  • Metabolismo hepático: CYP2B6 + CYP3A4 → norket; meia-vida 7–12h

TRANSFORM-2:

  • 223 pacientes; TRD (falha ≥2 antidepressivos); esketamina IN + novo antidepressivo oral vs. placebo IN + novo antidepressivo
  • MADRS em 4 semanas: −19,8 (esketamina) vs. −15,8 (placebo) — diferença −4,0 (p=0,02)
  • Remissão (MADRS ≤12) em 4 semanas: 52% vs. 31%
  • FDA aprovado março 2019 (TRD adultos em ambiente monitorado)
  • SUSTAIN-2 (manutenção): recidiva com descontinuação → justifica uso contínuo bisemanal→semanal

Efeitos adversos de esketamina:

  • Dissociação: 61% (transitória, resolve em 1–2h) — deve ser monitorada 2h pós-dose
  • Náusea: 29%; tontura: 22%; cefaleia: 25%
  • Potencial de abuso/dependência: REMS (Risk Evaluation and Mitigation Strategy) — administração supervisionada apenas em clínicas certificadas
  • Hipertensão transitória: monitorar PA

Ketamina IV em emergências psiquiátricas:

  • Ketamina IV (0,5 mg/kg em 40 min): efeito em 4–24h; mais estudos abertos; não aprovada pela FDA para esta indicação
  • Usado off-label em ideação suicida aguda (resposta rápida crítica)
  • Esketamina intranasal aprovada para depressão com risco suicida agudo (ASPIRE trial)

Psilocibina: 5-HT2A Agonismo e Neuroplasticidade

Farmacologia da Psilocibina

Psilocibina:

  • Profármaco: psilocibina → desfosforilaçao → psilocina (o composto ativo)
  • Psilocina: agonista agonista potente de 5-HT2A (Kd ~0,5 nM) + 5-HT2C + 5-HT1A
  • Ligação a 5-HT2A → Gq → PLC → IP3/DAG → Ca²⁺ intracelular + PKC ativo → efeitos alucinógenos
  • Mas também: ativação de β-arrestina → efeitos neuroplásticos diferentes da ativação de Gq

Default Mode Network (DMN) e psilocibina:

  • DMN: rede de regiões correlacionadas no repouso (mPFC, PCC, precuneus, angular gyrus)
  • Excesso de DMN: ruminação, autocentramento, pensamentos negativos rígidos — correlaciona com depressão
  • Psilocibina: DESINIBE o DMN (inesperadamente — o 5-HT2A no tálamo↑ "gating" → filtra pensamentos rígidos)
  • Entropy da atividade cerebral: aumenta com psilocibina → mente mais "aberta", "plástica"
  • Efeito neuroplástico: psilocibina → aumento de dendritos + espinhas em modelos animais (similar à ketamina)

COMP360 (psilocibina) para TRD:

  • COMP001 (fase 2B, Carhart-Harris et al. 2022 — NEJM): 233 pacientes TRD; psilocibina 1 mg, 10 mg, 25 mg (sessão única + psicoterapia)
  • MADRS em 3 semanas: resposta em 29,1% (25 mg) vs. 9,7% (1 mg) — dose-dependente
  • Remissão: 20,3% (25 mg) vs. 5,4% (1 mg) em 3 semanas; mas efeito diminui em 12 semanas
  • Efeitos adversos: cefaleia (65% no grupo 25mg), náusea, tontura — e dissociação aguda monitorada

Psilocibina em uso clínico (perspectiva):

  • Austrália: aprovação regulatória para TRD (2023)
  • FDA Breakthrough Therapy Designation para psilocibina em TRD e MDD
  • Requer modelo de "terapia assistida por psilocibina": preparação + sessão + integração psicológica

MDMA em PTSD: Terapia Assistida

MDMA (3,4-metileno-dioximetanfetamina):

  • Libera serotonina (SERT), dopamina (DAT) e noradrenalina (NET) das vesículas sinápticas
  • Inibe recaptação de monoaminas por ação reversa em transportadores (SLC6A4, SLC6A3, SLC6A2)
  • Efeito principal em PTSD: reduz atividade da amígdala (menos medo) + aumenta oxitocina → promove confiança e abertura → permite reprocessamento de trauma

MAPP1 Trial (2023 — Nature Medicine)

MAPP1:

  • 90 pacientes; PTSD grave (CAPS-5 ≥35); MDMA-assistida (3 sessões + psicoterapia) vs. psicoterapia + placebo
  • Resposta CAPS-5: 71% (MDMA) vs. 48% (placebo) — melhora clínica significativa
  • Remissão: 67% (MDMA) vs. 32% (placebo)
  • *Publication note: estes dados precisam ser interpretados à luz do resultado posterior: FDA rejeitou MDMA em 2024 por questões metodológicas (unblinding, conflito de interesse, análise); revisão em curso*
  • Adverse events: náusea (72%), tontura (43%), anorexia (56%); sem eventos cardiovasculares graves

Buprenorfina em Depressão

Buprenorfina:

  • Agonista parcial de MOR (receptor μ-opioide); antagonista de KOR (receptor κ)
  • KOR: ativação de KOR → disforia, anedonia — associado à depressão por estresse
  • Buprenorfina bloqueia KOR → anti-KOR efeito → melhora humor (independentemente do MOR)
  • Naltrexona/buprenorfina (aZYN-002): em desenvolvimento para TRD; fase 2 com resultados positivos
  • ALKS-5461 (buprenorfina + samidorfano — antagonista MOR): ensaio FORWARD-3 em MDD: melhora MADRS vs. placebo (não aprovado pela FDA ainda — resultado controverso)

Referências

  1. Popova V, et al. "Efficacy and Safety of Flexibly Dosed Esketamine Nasal Spray (TRANSFORM-2) in Treatment-Resistant Depression." *J Clin Psychiatry*. 2019;80(3):18m12564. DOI: 10.4088/JCP.18m12564
  1. Carhart-Harris R, et al. "Trial of Psilocybin versus Escitalopram for Depression (COMP001)." *N Engl J Med*. 2021;384(15):1402-11. DOI: 10.1056/NEJMoa2032994
  1. Goodwin GM, et al. "Single-Dose Psilocybin for a Treatment-Resistant Episode of Major Depression." *N Engl J Med*. 2022;387(18):1637-48. DOI: 10.1056/NEJMoa2206443
  1. Mitchell JM, et al. "MDMA-assisted therapy for severe PTSD: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 study." *Nat Med*. 2023;29(10):2473-80. DOI: 10.1038/s41591-023-02565-4
  1. Zanos P, Gould TD. "Mechanisms of ketamine action as an antidepressant." *Mol Psychiatry*. 2018;23(4):801-11. DOI: 10.1038/mp.2017.255
  1. Zarate CA Jr, et al. "A Randomized Trial of an N-methyl-D-aspartate Antagonist in Treatment-Resistant Major Depression." *Arch Gen Psychiatry*. 2006;63(8):856-64. DOI: 10.1001/archpsyc.63.8.856
  1. Carhart-Harris RL, Friston KJ. "REBUS and the anarchic brain: toward a unified model of the brain action of psychedelics." *Pharmacol Rev*. 2019;71(3):316-44. DOI: 10.1124/pr.118.017160

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Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Semax e Selank podem ser considerados nootrópicos peptídicos?+

Sim. Semax (análogo do ACTH) e Selank (análogo da tuftsina) são peptídeos sintéticos com efeitos neuroprotetores e ansiolíticos documentados em modelos pré-clínicos e estudos piloto. Não substituem tratamentos aprovados como esketamina; qualquer uso deve ser avaliado por profissional de saúde.

Como psicodélicos diferem dos peptídeos nootrópicos no mecanismo de ação?+

Psicodélicos (psilocibina, MDMA) atuam via receptores 5-HT2A e transportadores de monoaminas, promovendo neuroplasticidade via BDNF. Peptídeos nootrópicos como Semax modulam receptores de BDNF e ACTH, com perfil de segurança diferente e sem efeito psicoativo pronunciado.

Referências Científicas

  1. Schüle C, Sobieraj A, Rogg H [Ketamine and esketamine in treatment-resistant depression - Pharmacological effects and augmented psychotherapy]. Fortschritte der Neurologie-Psychiatrie, 2026.O artigo revisa ketamina e esketamina especificamente na depressão resistente ao tratamento, cobrindo os efeitos farmacológicos sobre NMDA que fundamentam o texto.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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