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Insulina de jejum e HOMA-IR: o que significam e valores de referência

Glicose e insulina em jejum viram um índice: pontos de corte de um estudo brasileiro e por que o método do laboratório importa.

Conteúdo informativo: não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde.

Em resumo

  • O HOMA-IR estima a resistência à insulina a partir da glicemia e da insulina medidas em jejum, na mesma coleta.
  • Não há ponto de corte único: no estudo brasileiro BRAMS, HOMA1-IR acima de 2,7 identificou resistência à insulina e acima de 2,3, síndrome metabólica.
  • A insulina medida por métodos diferentes não é diretamente comparável: a variação entre os métodos avaliados por um grupo da ADA foi de 12% a 66%.

O que o exame mede

A insulina de jejum é a concentração de insulina no sangue depois do jejum, em µU/mL (equivalente a mU/L). O HOMA-IR (homeostasis model assessment of insulin resistance) combina essa insulina com a glicemia de jejum para estimar a resistência à insulina. Foi descrito por Matthews e colaboradores em 1985.

A forma aproximada mais usada é HOMA-IR = glicemia de jejum (mg/dL) × insulina de jejum (µU/mL) ÷ 405, equivalente a glicemia (mmol/L) × insulina ÷ 22,5. Exemplo: 92 mg/dL × 8,5 µU/mL ÷ 405 = 1,93.

No artigo original, a estimativa de resistência à insulina pelo modelo correlacionou-se com a obtida pelo clamp euglicêmico (rs = 0,88) e com a insulina de jejum (rs = 0,81). Os autores registraram também a baixa precisão das estimativas, com coeficiente de variação de 31% para a resistência à insulina, o que limita o uso do modelo.

Como o exame é usado nas diretrizes

Wallace e colaboradores (2004) revisaram o uso do HOMA e descrevem como uso adequado os estudos de coorte e epidemiológicos, e como inadequado, por exemplo, medir a função da célula beta isoladamente. Lembram que os dados de entrada precisam ser robustos e interpretados com cuidado. A vantagem do modelo é exigir uma única amostra com glicose e insulina.

Valores de referência

Não existe ponto de corte universal. A tabela traz os valores do Estudo Brasileiro de Síndrome Metabólica (BRAMS), que avaliou 1.203 adultos não diabéticos de 18 a 78 anos. A insulina de jejum em si também não tem faixa única, porque depende do método do laboratório.

Pontos de corte do HOMA-IR no estudo BRAMS (adultos não diabéticos)
ÍndicePara identificarPonto de corte
HOMA1-IRResistência à insulina (percentil 90 do grupo saudável, n = 297)acima de 2,7
HOMA1-IRSíndrome metabólica (sensibilidade 76,8%, especificidade 66,7%)acima de 2,3
HOMA2-IRResistência à insulinaacima de 1,8
HOMA2-IRSíndrome metabólica (sensibilidade 79,2%, especificidade 61,2%)acima de 1,4

Fonte: Geloneze e colaboradores, 2009. HOMA1-IR é a fórmula aproximada acima; HOMA2-IR vem do modelo computacional. São pontos de corte de um estudo, não de uma diretriz. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

No grupo saudável do mesmo estudo, os índices HOMA associaram-se à obesidade central, aos triglicerídeos e ao colesterol total. Os autores descrevem a aplicação clínica e epidemiológica dos pontos de corte em populações miscigenadas e ocidentalizadas, como a estudada.

A MedlinePlus descreve três leituras gerais: insulina alta com glicemia normal ou pouco acima do normal pode indicar que o corpo produz insulina extra porque as células não respondem normalmente a ela (resistência à insulina); insulina alta ou normal com glicemia baixa pode indicar hipoglicemia por excesso de insulina; e insulina baixa com glicemia alta pode indicar que o pâncreas não produz insulina suficiente. A página lembra que as faixas variam entre laboratórios e que, como a insulina varia com a glicemia, o resultado costuma não bastar sozinho.

O que pode alterar o resultado

A insulina é um dos exames com mais diferença entre laboratórios. O que a literatura registra:

  • Método de medida: um grupo de trabalho da American Diabetes Association avaliou 12 métodos comerciais de 9 fabricantes e encontrou coeficientes de variação entre métodos de 12% a 66% (mediana de 24%). Um padrão de referência comum não melhorou a harmonização (Marcovina e colaboradores, 2007). A mesma amostra pode render valores diferentes conforme o kit.
  • Hemólise: em um método estudado, a hemólise reduziu a insulina medida em proporção ao grau de hemólise e ao tempo até a análise, com efeito menor quando a amostra ficou a 4 °C. Os autores concluem que a hemólise deve ser verificada em todo pedido de insulina (Garinet e colaboradores, 2014).
  • Jejum: o modelo foi construído com glicose e insulina de jejum (Matthews e colaboradores, 1985).
  • Precisão do próprio índice: no artigo original o coeficiente de variação foi de 31% para a estimativa de resistência à insulina, o que limita a leitura de um valor isolado.
  • População de origem do ponto de corte: adultos não diabéticos de uma amostra brasileira multiétnica, com idade entre 18 e 78 anos.

Quando procurar um médico

A insulina e o HOMA-IR são interpretados pelo médico, que os lê junto com a glicemia, outros exames e o histórico. Segundo as fontes citadas, a avaliação médica é o caminho nestas situações:

  • Sintomas de hipoglicemia leve a moderada descritos pela MedlinePlus: suor, tremor, batimentos irregulares, confusão, tontura, dor de cabeça e fome. A hipoglicemia grave pode causar desmaio e convulsões, e a MedlinePlus a descreve como condição séria que precisa de atendimento médico imediato.
  • Risco de resistência à insulina: a MedlinePlus cita pré-diabetes, diabetes tipo 2, síndrome dos ovários policísticos, doença do coração e acantose nigricante (pele escura, espessa e aveludada no pescoço ou nas axilas) como situações em que o exame pode ser pedido.
  • Resultado isolado: a MedlinePlus informa que a insulina varia com a glicemia e que um resultado de insulina costuma não bastar sozinho; o médico considera o histórico e os outros exames. O HOMA é descrito como adequado para estudos de coorte e epidemiológicos e exige dados de entrada robustos, interpretados com cuidado (Wallace e colaboradores, 2004).
  • Valores de insulina muito diferentes entre laboratórios: os métodos variam muito entre si (Marcovina e colaboradores, 2007), e quem compara resultados de laboratórios diferentes é o médico.

Perguntas frequentes

O que é o HOMA-IR?

É um índice que estima a resistência à insulina a partir da glicemia e da insulina de jejum, descrito em 1985 e calculável com uma única amostra de sangue. Sozinho, não é um diagnóstico; quem interpreta o resultado é o médico.

Qual é o valor normal do HOMA-IR?

Não há valor único. No estudo brasileiro BRAMS, HOMA1-IR acima de 2,7 identificou resistência à insulina e acima de 2,3 identificou síndrome metabólica em adultos não diabéticos. O laudo pode trazer outro ponto de corte, conforme o laboratório e o método.

Por que a insulina de laboratórios diferentes não é comparável?

Porque os métodos comerciais diferem entre si: em um estudo da ADA com 12 métodos, a variação entre métodos foi de 12% a 66%, com mediana de 24%. Hemólise e demora no processamento também podem reduzir o valor medido.

Referências

  1. Matthews DR, Hosker JP, Rudenski AS, et al. Homeostasis model assessment: insulin resistance and beta-cell function from fasting plasma glucose and insulin concentrations in man. Diabetologia. 1985;28(7):412-419. doi:10.1007/BF00280883 PubMed 3899825
  2. Geloneze B, Vasques AC, Stabe CF, et al. HOMA1-IR and HOMA2-IR indexes in identifying insulin resistance and metabolic syndrome: Brazilian Metabolic Syndrome Study (BRAMS). Arq Bras Endocrinol Metabol. 2009;53(2):281-287. doi:10.1590/s0004-27302009000200020 PubMed 19466221
  3. Wallace TM, Levy JC, Matthews DR. Use and abuse of HOMA modeling. Diabetes Care. 2004;27(6):1487-1495. doi:10.2337/diacare.27.6.1487 PubMed 15161807
  4. Marcovina S, Bowsher RR, Miller WG, et al. Standardization of insulin immunoassays: report of the American Diabetes Association Workgroup. Clin Chem. 2007;53(4):711-716. doi:10.1373/clinchem.2006.082214 PubMed 17272483
  5. Garinet S, Fellahi S, Marlin G, et al. Differential interferences of hemoglobin and hemolysis on insulin assay with the Abbott Architect-Ci8200 immunoassay. Clin Biochem. 2014;47(6):445-447. doi:10.1016/j.clinbiochem.2014.01.026 PubMed 24486652

Fontes oficiais consultadas

  • MedlinePlus (NIH/NLM). Insulin in Blood Test (atualizada em 30/09/2026). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).

Outros exames

Conteúdo informativo, elaborado a partir das diretrizes e dos artigos científicos citados. Não é laudo, diagnóstico nem orientação de conduta. As faixas de referência variam por laboratório, método, idade e sexo: use sempre a faixa impressa no seu laudo. Quem interpreta o resultado é o médico que conhece o seu histórico. Não use este texto para iniciar, suspender ou ajustar tratamentos.

Texto elaborado pela equipe editorial a partir das fontes citadas, que foram conferidas em 26/10/2026; revisão clínica por profissional: pendente. Próxima revisão editorial prevista: 24/04/2027. Encontrou um erro? Use o link "Contato e correções" abaixo.