Peptídeos Bio

Amilase e lipase: o que medem e como ler o resultado

Enzimas do pâncreas: desempenho com o corte de três vezes o normal, causas de aumento e limites do exame.

Conteúdo informativo: não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde.

Em resumo

  • A amilase e a lipase são enzimas digestivas produzidas sobretudo no pâncreas; a MedlinePlus informa que valores altos podem indicar lesão do pâncreas e que uma lipase muito alta costuma ser sinal de pancreatite aguda.
  • Em dez estudos com 5.056 pessoas com dor abdominal aguda, amilase e lipase acima de três vezes o limite do laboratório tiveram sensibilidade de 0,72 e 0,79 e especificidade de 0,93 e 0,89.
  • Os exames não são específicos: doenças dos rins, da vesícula, do intestino, diabetes, álcool e medicamentos podem alterá-los, e cerca de um quarto dos casos de pancreatite aguda não é identificado por eles.

O que o exame mede

A amilase é uma enzima que ajuda a digerir carboidratos e a lipase é uma enzima que ajuda a digerir gorduras. Segundo a MedlinePlus, a maior parte da amilase é produzida pelo pâncreas e pelas glândulas salivares, e a maior parte da lipase pelo pâncreas, com uma parte menor produzida nas glândulas salivares e no estômago. É normal haver uma pequena quantidade dessas enzimas no sangue; quando as células do pâncreas se lesam, liberam quantidades maiores, e por isso valores aumentados podem indicar pancreatite (inflamação do pâncreas) ou outra doença pancreática.

A amilase pode ser medida no sangue ou na urina; a MedlinePlus informa que as alterações da amilase aparecem primeiro no sangue e só depois na urina. A lipase é medida no sangue. Esta página trata dos exames de sangue.

Como o exame é usado nas diretrizes

A MedlinePlus descreve a amilase como exame usado principalmente para diagnosticar problemas do pâncreas, entre eles a pancreatite, e para acompanhar a pancreatite crônica, além de ajudar a investigar doenças das glândulas salivares e certas condições digestivas. A lipase pode ser usada para ajudar a diagnosticar doenças do pâncreas, em especial a pancreatite aguda (súbita), para verificar se o tratamento de doenças do pâncreas está funcionando, para ajudar a diagnosticar e acompanhar doenças crônicas que afetam o pâncreas, como fibrose cística, doença de Crohn e doença celíaca, e para ajudar a diagnosticar lesão ou obstrução do intestino, peritonite e cistos do pâncreas.

A diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia (2013) registra que o diagnóstico de pancreatite aguda é estabelecido, na maioria das vezes, por sintomas clínicos e exames de laboratório, reservando a tomografia ou a ressonância para os casos em que o diagnóstico é incerto (Tenner e colaboradores, 2013). A classificação internacional de 2012 separa duas fases da doença, precoce e tardia, e três graus de gravidade, leve, moderadamente grave e grave; a forma leve, a mais comum, não tem falência de órgãos nem complicações locais ou sistêmicas e em geral se resolve na primeira semana (Banks e colaboradores, 2013).

O corte usado nos estudos de acurácia é o de mais de três vezes o limite superior da normalidade do laboratório. Uma revisão Cochrane de 2017 reuniu dez estudos com 5.056 pessoas atendidas em emergência com dor abdominal aguda e concluiu que cerca de um quarto das pessoas com pancreatite aguda não é identificado por esses exames e que cerca de uma em dez sem a doença seria rotulada erradamente como tendo pancreatite. Os autores ressaltam que o desempenho dos exames diminui ainda mais com o passar do tempo desde o início dos sintomas (Rompianesi e colaboradores, 2017).

Valores de referência

Esta página não traz uma faixa numérica de referência: a amilase e a lipase variam com o método e o laboratório, e cada laudo traz o seu limite superior. Os estudos usam um critério relativo, o de mais de três vezes o limite superior do próprio laboratório. A primeira tabela mostra o desempenho de amilase e lipase com esse corte; a segunda resume o que a MedlinePlus lista para valores altos e baixos.

Amilase e lipase acima de três vezes o normal na dor abdominal aguda (revisão Cochrane de 2017)
ExameSensibilidade e especificidade (IC 95%)Entre 100 pessoas, quantas têm pancreatite aguda
Amilase séricaSensibilidade 0,72 (0,59 a 0,82); especificidade 0,93 (0,66 a 0,99)Com teste positivo: 74 (IC 95%: 33 a 94). Com teste negativo: 8 (IC 95%: 5 a 12)
Lipase séricaSensibilidade 0,79 (0,54 a 0,92); especificidade 0,89 (0,46 a 0,99)Com teste positivo: 68 (IC 95%: 21 a 94). Com teste negativo: 7 (IC 95%: 3 a 15)

Fonte: Rompianesi e colaboradores, 2017 (dez estudos, 5.056 participantes atendidos em emergência; risco de viés incerto ou alto em todos; as contagens por 100 pessoas valem para a prevalência mediana de pancreatite aguda dos estudos, de 22,6%; os autores não compararam os exames formalmente por falta de dados). As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

O que valores altos e baixos podem indicar, segundo a MedlinePlus
Exame e achadoPode estar relacionado a
Amilase altaPancreatite aguda; bloqueio de um ducto do pâncreas; câncer ou tumor benigno do pâncreas
Amilase baixa (incomum)Pancreatite crônica com dano permanente das células; doença renal; fibrose cística; doença hepática; pré-eclâmpsia
Lipase muito altaEm geral, sinal de pancreatite aguda
Lipase altaDoenças do pâncreas, como ducto bloqueado ou câncer; doença renal crônica; úlcera péptica; doença da vesícula; problemas intestinais, como obstrução; diabetes; doenças das glândulas salivares; transtorno por uso de álcool
Lipase baixaDano permanente das células do pâncreas que produzem a enzima, como na fibrose cística e na pancreatite crônica

Fonte: MedlinePlus (Amylase Test, atualizada em 09/12/2024; Lipase Tests, atualizada em 07/05/2025). A MedlinePlus lembra que um resultado fora do normal nem sempre indica uma condição que precise de tratamento. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

Uma revisão de 2023 concluiu que a amilase e a lipase no sangue não são específicas para pancreatite, que a lipase, embora mais sensível e específica que a amilase, não basta sozinha para diagnosticar pancreatite aguda em quem tem dor abdominal, e que a lipase pode se elevar em muitas condições inflamatórias abdominais (Bush e Akshintala, 2023).

O que pode alterar o resultado

Os valores das duas enzimas mudam com situações que não são pancreatite e com o preparo do exame. O que as fontes registram:

  • Condições fora do pâncreas: a amilase e a lipase podem se elevar em condições não pancreáticas, com ou sem dor abdominal, e uma grande proporção de pessoas acaba rotulada de forma errada como tendo pancreatite aguda (Bush e Akshintala, 2023). A MedlinePlus lista, para a lipase, doença renal crônica, úlcera péptica, doença da vesícula, problemas intestinais, diabetes e doenças das glândulas salivares.
  • Álcool: o transtorno por uso de álcool está entre as condições ligadas à lipase alta (MedlinePlus), e a MedlinePlus informa que o preparo do exame de amilase inclui não beber álcool nas 24 horas anteriores.
  • Medicamentos: a MedlinePlus informa que muitos medicamentos, entre eles diuréticos, alguns medicamentos para o colesterol e pílulas anticoncepcionais, podem afetar a lipase, e que medicamentos e suplementos de venda livre ou com receita podem afetar o resultado da amilase.
  • Jejum: a MedlinePlus registra que pode ser pedido jejum de 8 a 12 horas para a lipase e de 2 horas para a amilase no sangue.
  • Origem da amilase: parte da amilase vem das glândulas salivares (MedlinePlus), por isso doenças dessas glândulas também a elevam.
  • Tempo desde o início dos sintomas: o desempenho dos exames diminui ainda mais com o passar do tempo (Rompianesi e colaboradores, 2017).
  • Urina e sangue: as alterações da amilase aparecem no sangue antes da urina (MedlinePlus).

Quando procurar um médico

Os exames de amilase e lipase não confirmam nem descartam sozinhos uma doença do pâncreas: o médico os lê com os sintomas e, quando necessário, com exames de imagem. Segundo as fontes citadas, a avaliação médica é o caminho nestas situações:

  • Sintomas de possível problema no pâncreas descritos pela MedlinePlus: dor na parte superior do abdome que pode se espalhar para as costas, piorar depois de comer ou durar vários dias; náuseas e vômitos; diarreia; abdome inchado ou sensível; febre; batimentos acelerados; pele e olhos amarelados; perda de apetite; fezes gordurosas e de mau cheiro.
  • Resultado aumentado sem sintomas: a MedlinePlus afirma que valores fora do normal nem sempre indicam uma condição que precise de tratamento, e a revisão de 2023 mostra que as enzimas se elevam em condições não pancreáticas; a investigação cabe ao médico.
  • Exame normal com sintomas sugestivos: como cerca de um quarto das pessoas com pancreatite aguda não é identificado por esses exames, o quadro clínico continua sendo avaliado pelo médico (Rompianesi e colaboradores, 2017).
  • Doenças que pedem acompanhamento da lipase ou da amilase: pancreatite crônica, fibrose cística, doença de Crohn, doença celíaca e uso de álcool estão entre as condições em que a MedlinePlus cita o exame.

Perguntas frequentes

Qual é o valor normal da amilase e da lipase?

Não há um valor único: cada laboratório informa o limite superior do seu método. Nos estudos de acurácia, o critério é o de mais de três vezes esse limite (Rompianesi e colaboradores, 2017). A MedlinePlus lembra que é normal ter uma pequena quantidade dessas enzimas no sangue. O médico interpreta o resultado junto com os sintomas.

Amilase ou lipase alta significa pancreatite?

Nem sempre. As duas enzimas se elevam em condições que não são pancreatite, e a revisão de 2023 aponta que uma grande proporção de pessoas é rotulada de forma errada. Na revisão Cochrane, de 100 pessoas com teste positivo acima de três vezes o normal, 74 (amilase) e 68 (lipase) tinham pancreatite aguda, na prevalência de 22,6% dos estudos.

Qual exame é melhor, amilase ou lipase?

Segundo a revisão de 2023, a lipase é mais sensível e específica que a amilase, mas não basta sozinha para diagnosticar pancreatite aguda em quem tem dor abdominal. Na revisão Cochrane, os dois tiveram sensibilidades e especificidades parecidas no corte de três vezes o normal, e os autores não os compararam formalmente por falta de dados.

Referências

  1. Rompianesi G, Hann A, Komolafe O, Pereira SP, Davidson BR, Gurusamy KS. Serum amylase and lipase and urinary trypsinogen and amylase for diagnosis of acute pancreatitis. Cochrane Database Syst Rev. 2017;4(4):CD012010. doi:10.1002/14651858.CD012010.pub2 PubMed 28431198
  2. Bush N, Akshintala VS. Interpretation of serum pancreatic enzymes in pancreatic and nonpancreatic conditions. Curr Opin Gastroenterol. 2023;39(5):403-410. doi:10.1097/MOG.0000000000000961 PubMed 37389417
  3. Tenner S, Baillie J, DeWitt J, Vege SS; American College of Gastroenterology. American College of Gastroenterology guideline: management of acute pancreatitis. Am J Gastroenterol. 2013;108(9):1400-1415. doi:10.1038/ajg.2013.218 PubMed 23896955
  4. Banks PA, Bollen TL, Dervenis C, et al. Classification of acute pancreatitis--2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut. 2013;62(1):102-111. doi:10.1136/gutjnl-2012-302779 PubMed 23100216

Fontes oficiais consultadas

  • MedlinePlus (NIH/NLM). Amylase Test (atualizada em 09/12/2024). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).
  • MedlinePlus (NIH/NLM). Lipase Tests (atualizada em 07/05/2025). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).

Outros exames

Conteúdo informativo, elaborado a partir das diretrizes e dos artigos científicos citados. Não é laudo, diagnóstico nem orientação de conduta. As faixas de referência variam por laboratório, método, idade e sexo: use sempre a faixa impressa no seu laudo. Quem interpreta o resultado é o médico que conhece o seu histórico. Não use este texto para iniciar, suspender ou ajustar tratamentos.

Texto elaborado pela equipe editorial a partir das fontes citadas, que foram conferidas em 26/10/2026; revisão clínica por profissional: pendente. Próxima revisão editorial prevista: 24/04/2027. Encontrou um erro? Use o link "Contato e correções" abaixo.