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Ácido úrico: valores de referência no Brasil e o que altera o resultado

Faixas do ELSA-Brasil para homens e mulheres, limites de hiperuricemia em discussão e fatores que mudam o resultado.

Conteúdo informativo: não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde.

Em resumo

  • O ácido úrico é o resíduo da quebra das purinas, filtrado pelos rins; quando se acumula no sangue pode formar cristais nas articulações (gota), mas nem todo mundo com ácido úrico alto tem esses problemas, segundo a MedlinePlus.
  • No ELSA-Brasil (15.100 adultos de 35 a 74 anos), o intervalo de referência foi de 4,0 a 9,2 mg/dL em homens e de 2,8 a 6,9 mg/dL em mulheres; a hiperuricemia (7 mg/dL ou mais) atingiu 31,9% dos homens e 4,8% das mulheres.
  • Não há consenso sobre o limite: o estudo brasileiro usou 7 mg/dL e uma proposta de revisão usa 6 mg/dL. Sexo, IMC, função dos rins, álcool, alimentos ricos em purinas e medicamentos alteram o valor.

O que o exame mede

O ácido úrico é um resíduo normal que o organismo produz ao quebrar as purinas, substâncias que vêm das células que morrem e que também existem em certos alimentos e bebidas. Em geral ele se dissolve no sangue e é filtrado pelos rins, saindo na urina. A MedlinePlus explica que, se o corpo produz ácido úrico demais ou os rins não eliminam o suficiente, ele se acumula no sangue e pode formar cristais pontiagudos dentro e ao redor das articulações, condição chamada gota, e que o ácido úrico alto também pode causar cálculos nos rins ou insuficiência renal, mas nem todo mundo com valores altos tem esses problemas.

O exame pode ser feito no sangue ou na urina de 24 horas. No sangue, mede o urato sérico; a urina é usada para avaliar cálculos renais. Esta página trata do exame de sangue, o mais pedido.

Como o exame é usado nas diretrizes

Segundo a MedlinePlus, o exame de sangue é usado para ajudar a diagnosticar a gota, geralmente junto com a análise do líquido sinovial (que lubrifica as articulações), e para acompanhar o ácido úrico em pessoas que recebem quimioterapia ou certos outros tratamentos contra o câncer, porque a morte rápida de células libera grandes quantidades de purinas no sangue. O exame de urina serve para saber se o ácido úrico alto está causando cálculos renais e para acompanhar o risco de cálculos em quem tem gota. A MedlinePlus também cita o exame para pessoas com síndrome metabólica, condição que aumenta o risco de ácido úrico alto, e para quem usa certos medicamentos, como os diuréticos.

Uma revisão de 2014 define a gota como uma artrite causada pelo depósito de cristais de urato monossódico dentro e ao redor das articulações, depois de hiperuricemia prolongada. Estudos de ultrassom mostraram depósitos desses cristais em grande parte dos pacientes hiperuricêmicos sem sintomas, a hiperuricemia parece ser o principal fator de risco para a gota, e estudos recentes apoiam a visão de que ela é fator de risco independente para doenças renais e cardiovasculares (Bardin e Richette, 2014). Outra revisão lembra que estudos epidemiológicos associam a hiperuricemia a comorbidades cardiovasculares, metabólicas e renais, mas que estudos de randomização mendeliana não provaram que a relação seja causal (Chalès, 2019).

Valores de referência

A faixa do ácido úrico depende muito do sexo e do método. A tabela traz os intervalos do ELSA-Brasil, um estudo com servidores públicos de seis instituições em diferentes regiões do país, que mediu o ácido úrico pelo método da uricase e seguiu padrões internacionais de qualidade. A amostra de referência excluiu quem tinha taxa de filtração glomerular abaixo de 60 mL/min, consumo excessivo de álcool ou uso de diuréticos, estrogênio, ácido acetilsalicílico ou medicamentos para reduzir o ácido úrico, e os limites são os percentis 2,5 e 97,5.

Ácido úrico sérico em adultos brasileiros de 35 a 74 anos (ELSA-Brasil)
GrupoIntervalo de referência (percentis 2,5 a 97,5)Mediana (intervalo interquartil)Hiperuricemia (7 mg/dL ou mais)
Homens4,0 a 9,2 mg/dL6,1 mg/dL (5,3 a 7,0)31,9% (IC 95%: 30,8 a 33,0%)
Mulheres2,8 a 6,9 mg/dL4,5 mg/dL (3,9 a 5,3)4,8% (IC 95%: 4,3 a 5,3%)

Fonte: Dório e colaboradores, 2022 (15.100 participantes na amostra total e 10.340 na amostra de referência, 55,3% mulheres, mediana de idade de 50 anos; o estudo expressa a concentração por 100 mL, o mesmo que dL). A prevalência de hiperuricemia vale para a amostra total. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

Limites de hiperuricemia citados na literatura
FonteLimiteObservação
ELSA-Brasil (Dório e colaboradores, 2022)7 mg/dL ou maisDefinição usada pelo estudo para estimar a prevalência na amostra total
Revisão de Bardin e Richette, 2014Acima de 6 mg/dLProposta de definição, porque o risco de gota ao longo da vida parece começar nesse nível; os autores reconhecem que o nível em que o ácido úrico se torna anormal ainda é disputado
Revisão de Chalès, 2019Sem limite únicoNão existe consenso sobre o corte do urato sérico nem sobre a relevância dos achados de ultrassom na hiperuricemia assintomática

Fonte: Dório e colaboradores (2022), Bardin e Richette (2014) e Chalès (2019). Os limites são definições de estudos e propostas, não diagnóstico. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

Valores baixos de ácido úrico são incomuns e em geral não causam problemas de saúde; as condições relacionadas a eles costumam ser diagnosticadas por outros exames (MedlinePlus).

O que pode alterar o resultado

O ácido úrico depende do que o corpo produz, do que os rins eliminam e do que a pessoa consome. O que as fontes registram:

  • Sexo: no ELSA-Brasil, a mediana foi de 6,1 mg/dL em homens e de 4,5 mg/dL em mulheres, e o sexo foi o principal determinante dos níveis (Dório e colaboradores, 2022).
  • Índice de massa corporal e idade: valores maiores de ácido úrico foram encontrados em pessoas com IMC maior; a idade teve influência modesta, apenas nas mulheres (Dório e colaboradores, 2022).
  • Rins: a MedlinePlus informa que o ácido úrico alto pode ocorrer se os rins não removem o ácido úrico do sangue de forma adequada, e a taxa de filtração glomerular abaixo de 60 mL/min foi um dos critérios de exclusão da amostra de referência brasileira.
  • Alimentos e bebidas: a MedlinePlus lista, entre os que podem elevar o ácido úrico quando consumidos em excesso, carnes vermelhas e vísceras (fígado e rim), alguns frutos do mar (como mariscos, anchovas, sardinhas, truta e atum), bebidas alcoólicas de todos os tipos e xarope de milho com alta frutose presente em refrigerantes e doces.
  • Álcool, câncer e gestação: transtorno por uso de álcool, leucemia, mieloma múltiplo, câncer disseminado, efeitos de certos tratamentos do câncer e pré-eclâmpsia estão entre as condições ligadas a ácido úrico alto (MedlinePlus).
  • Medicamentos e vitaminas: a MedlinePlus informa que muitos medicamentos, incluindo o ácido acetilsalicílico, podem afetar o ácido úrico no sangue e na urina, assim como o uso de niacina (vitamina B3), e que os diuréticos estão entre os medicamentos que levam à solicitação do exame; o ELSA-Brasil excluiu da amostra de referência usuários de diuréticos, ácido acetilsalicílico, estrogênio e medicamentos para reduzir o ácido úrico.
  • Queda do peso corporal: em 154 pacientes com obesidade grave, o ácido úrico caiu em média 10% (de 5,52 para 4,98 mg/dL) seis meses depois da cirurgia bariátrica e 18% nos que tinham hiperuricemia; a queda se associou à redução dos triglicerídeos e do IMC, e não à atividade da enzima xantina oxidase nem à resistência à insulina (Richette e colaboradores, 2016). Em uma metanálise de 20 estudos com 5.233 pacientes, houve aumento do ácido úrico no primeiro mês depois da cirurgia e redução a partir do terceiro mês, de 0,73 mg/dL em média, chegando a 1,91 mg/dL no terceiro ano, com relação linear entre a mudança do IMC e a do ácido úrico (Yeo e colaboradores, 2019).

Quando procurar um médico

O ácido úrico isolado não diagnostica gota nem doença renal: o médico o lê com os sintomas, outros exames e o histórico. Segundo as fontes citadas, a avaliação médica é o caminho nestas situações:

  • Sintomas de gota descritos pela MedlinePlus: dor intensa, inchaço, vermelhidão ou calor ao redor de uma articulação, em geral uma por vez, com mais frequência no dedão do pé, e limitação do movimento.
  • Sinais de cálculo renal descritos pela MedlinePlus: dor aguda na parte inferior do abdome, no flanco, na virilha ou nas costas, sangue na urina, vontade frequente de urinar, dificuldade ou incapacidade de urinar, dor ao urinar, urina turva ou com mau cheiro, náuseas e vômitos, febre e calafrios.
  • Ácido úrico alto sem sintomas: a definição de hiperuricemia assintomática não é consensual, e a literatura aponta que a relação com problemas cardiovasculares, metabólicos e renais ainda não foi provada como causal (Chalès, 2019); a decisão individual é do médico.
  • Contexto de risco: síndrome metabólica, uso de diuréticos, doença renal e tratamentos contra o câncer estão entre as situações em que a MedlinePlus cita o exame.

Perguntas frequentes

Qual é o valor normal do ácido úrico?

Depende do sexo e do método. No ELSA-Brasil, o intervalo de referência foi de 4,0 a 9,2 mg/dL em homens e de 2,8 a 6,9 mg/dL em mulheres (Dório e colaboradores, 2022). O laudo traz a faixa do seu laboratório, e o médico interpreta o resultado.

A partir de quanto o ácido úrico é considerado alto?

Não há consenso. O ELSA-Brasil definiu hiperuricemia como 7 mg/dL ou mais e encontrou 31,9% dos homens e 4,8% das mulheres acima desse limite (Dório e colaboradores, 2022); uma revisão propõe definir como acima de 6 mg/dL, porque o risco de gota ao longo da vida parece começar nesse nível, e reconhece que o nível anormal ainda é disputado (Bardin e Richette, 2014).

O ácido úrico muda quando o peso cai?

Depois da cirurgia bariátrica, estudos mostram queda do ácido úrico: em 154 pacientes, a redução média foi de 10% em seis meses, com queda maior nos que tinham hiperuricemia (Richette e colaboradores, 2016). Na metanálise de 20 estudos, houve aumento no primeiro mês e redução a partir do terceiro (Yeo e colaboradores, 2019).

Referências

  1. Dório M, Benseñor IM, Lotufo P, Santos IS, Fuller R. Reference range of serum uric acid and prevalence of hyperuricemia: a cross-sectional study from baseline data of ELSA-Brasil cohort. Adv Rheumatol. 2022;62(1):15. doi:10.1186/s42358-022-00246-3 PubMed 35527261
  2. Bardin T, Richette P. Definition of hyperuricemia and gouty conditions. Curr Opin Rheumatol. 2014;26(2):186-191. doi:10.1097/BOR.0000000000000028 PubMed 24419750
  3. Chalès G. How should we manage asymptomatic hyperuricemia? Joint Bone Spine. 2019;86(4):437-443. doi:10.1016/j.jbspin.2018.10.004 PubMed 30316974
  4. Richette P, Poitou C, Manivet P, et al. Weight Loss, Xanthine Oxidase, and Serum Urate Levels: A Prospective Longitudinal Study of Obese Patients. Arthritis Care Res (Hoboken). 2016;68(7):1036-1042. doi:10.1002/acr.22798 PubMed 26844534
  5. Yeo C, Kaushal S, Lim B, et al. Impact of bariatric surgery on serum uric acid levels and the incidence of gout-A meta-analysis. Obes Rev. 2019;20(12):1759-1770. doi:10.1111/obr.12940 PubMed 31468681

Fontes oficiais consultadas

  • MedlinePlus (NIH/NLM). Uric Acid Test (atualizada em 15/07/2026). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).

Outros exames

Conteúdo informativo, elaborado a partir das diretrizes e dos artigos científicos citados. Não é laudo, diagnóstico nem orientação de conduta. As faixas de referência variam por laboratório, método, idade e sexo: use sempre a faixa impressa no seu laudo. Quem interpreta o resultado é o médico que conhece o seu histórico. Não use este texto para iniciar, suspender ou ajustar tratamentos.

Texto elaborado pela equipe editorial a partir das fontes citadas, que foram conferidas em 26/10/2026; revisão clínica por profissional: pendente. Próxima revisão editorial prevista: 24/04/2027. Encontrou um erro? Use o link "Contato e correções" abaixo.