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← Blog·Oncologia de Precisão22 de junho de 2026

Tremelimumabe + Durvalumabe no Hepatocarcinoma: O Regime STRIDE e o HIMALAYA

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Hepatocarcinoma: biologia, microambiente imunossupressor e desafios do tratamento

Epidemiologia e etiologia: CHC é o câncer primário de fígado mais comum (>90% dos cânceres de fígado primários), 5ª maior causa de morte por câncer no mundo. Etiologias: cirrose por VHB (35-55% mundial), VHC (25-35%), NASH/NAFLD (crescente, especialmente Ocidente), álcool. No Brasil: VHB e VHC dominam; NASH emergente.

Particularidades do microambiente tumoral hepático: O fígado tem um ambiente naturalmente "tolerogênico" — adaptado para não reagir a antígenos alimentares e bacterianos do intestino. Isso é vantajoso para homeostase mas problemático para imunidade anti-tumoral:

  • Células de Kupffer (macrófagos residentes): secretam IL-10 e TGF-β → suprimem células T
  • Células estreladas hepáticas ativadas: via TGF-β → fibrose + imunossupressão
  • MDSCs (myeloid-derived suppressor cells): abundantes no CHC com cirrose
  • PDL-1 e PD-L2 elevados em hepatócitos e células tumorais
  • Tregs intra-tumorais abundantes

Essa imunossupressão é por que IO isolada tem ORR menor em CHC (~15-20%) vs. melanoma (~40%).

TMB em CHC: CHC VHB-associado: mutações típicas de integração viral → TMB moderada. CHC VHC: alta atividade de APOBEC → mutações em TF. CHC NASH: via diferente (acúmulo de mutações lipotóxicas). TMB média do CHC: ~4-8 mut/Mb — mais baixo que CEC cutâneo mas similar a gástrico.

Microambiente + combinação de IOs: A combinação anti-CTLA-4 + anti-PD-L1/PD-1 deve superar o microambiente tolerogênico melhor do que mono: CTLA-4 ativa mais T nos linfonodos hepáticos (que são tolerogênicos) + anti-PD-L1/PD-1 bloqueia exaustão no tumor.

O regime STRIDE e o racional da dose única de tremelimumabe

Tremelimumabe — anti-CTLA-4 de AstraZeneca: Tremelimumabe é um anticorpo anti-CTLA-4 humano IgG2 (vs. ipilimumabe que é IgG1). IgG2 tem menor capacidade de ADCC — relevante porque em CHC cirrótico o risco de exacerbação inflamatória hepática com ADCC pode ser perigoso.

A hipótese do STRIDE: Ipilimumabe em doses repetidas em CHC (CheckMate 040 — nivo+ipi): hepatotoxicidade em ~18-22% grau 3-4. CHC com cirrose tem reserva funcional hepática limitada — toxicidade hepática pode ser fatal.

Hipótese de AstraZeneca (CITADEL, depois HIMALAYA):

  • Uma dose alta única de tremelimumabe (T300 = 300 mg) no início → máximo "priming" imune (ativa T nos gânglios drenantes do tumor) → cria um "burst" imunológico
  • Depois: durvalumabe 1500 mg q4sem em manutenção → mantém T ativo no tumor bloqueando PD-L1
  • Benefício: toxicidade cumulativa de CTLA-4 evitada (sem doses repetidas de tremelimumabe) → hepatotoxicidade reduzida

CITADEL (fase I/II): Exploração de doses de tremelimumabe (75 mg, 150 mg, 300 mg) em combinação com durvalumabe. T300 (STAD300) identificado como dose ideal: máximo priming com toxicidade aceitável.

Comparação STAD300 vs. ipilimumabe doses múltiplas: Hepatotoxicidade grau 3-4 no HIMALAYA: STRIDE 5%. CheckMate 040 (nivo+ipi × 4): 18-22%. Grande diferença de segurança em CHC cirrótico.

HIMALAYA: resultados e aprovação para CHC de primeira linha

HIMALAYA (Abou-Alfa et al., Nature Medicine 2022) — fase III: 1.171 pacientes com CHC avançado não-tratado (sorafenibe-naïve). 3 braços: STRIDE (T300+D, 1 dose de tremelimumabe 300 mg + durvalumabe 1500 mg q4sem), Durvalumabe mono (1500 mg q4sem), Sorafenibe (400 mg BID).

Resultados primários (STRIDE vs. sorafenibe): SG: 16,4 vs. 13,8 meses (HR 0,78; P=0,0035). Não-inferioridade de durvalumabe vs. sorafenibe confirmada (HR 0,86).

Taxa de SG em 3 anos: STRIDE: 30,7%. Sorafenibe: 19,8%. Diferença de 11% — importante em oncologia de CHC. Durvalumabe mono: 24,7% (intermediário).

ORR: STRIDE 20,1%, Durvalumabe 17,0%, Sorafenibe 5,1%.

Tolerabilidade — destaque: irAEs grau 3-4 no STRIDE: 17,5% (menor que nivo+ipi em CHC). Hepatotoxicidade grau 3-4: apenas 5,2% (vs. 18-22% de nivo+ipi). Sem novas preocupações de segurança.

Aprovação FDA: novembro 2022 para CHC avançado não-tratado em 1ª linha.

Comparação de opções em CHC 1ª linha:

  • Atezolizumabe+bevacizumabe (IMbrave150): SG HR 0,66, ORR 30% — mais eficaz em ORR mas mais toxicidade GI/hemorrágica por bevacizumabe
  • STRIDE (HIMALAYA): SG HR 0,78, ORR 20% — melhor perfil em pacientes com varizes esofágicas (bevacizumabe é contraindicado)
  • Sorafenibe: padrão antigo, SG ~14 meses, baixo ORR (2-3%)

STRIDE vs. atezo+beva: Sem comparação direta. Para CHC com hipertensão portal/varizes esofágicas: STRIDE preferido (sem anti-VEGF). Para CHC sem varizes: atezo+beva pode ter ligeiro edge em ORR/SLP.

Outros tratamentos de imunoterapia e alvos em CHC avançado

CheckMate 040 — nivolumabe e nivo+ipi em CHC: Nivolumabe mono em CHC pós-sorafenibe: ORR 20% (fase I/II). Aprovação acelerada FDA 2017 (retirada 2021 por falha em confirmar benefício em fase III vs. sorafenibe — CheckMate 459).

Nivo+ipi (4 doses ipi 1 mg/kg + nivo 3 mg/kg → nivo 240 mg q2sem): ORR 32%, CR 8%. Aprovação FDA março 2020 acelerada para pós-sorafenibe.

KEYNOTE-394 — pembrolizumabe em CHC pós-sorafenibe: Pembrolizumabe vs. BSC em CHC pós-sorafenibe. SG: 14,6 vs. 13,0 meses (HR 0,79; P=0,018). Aprovação FDA março 2022.

REFLECT — lenvatinibe vs. sorafenibe: Lenvatinibe não-inferior a sorafenibe em SG. Melhor SLP e ORR. Aprovação FDA 2018. Alternativa a sorafenibe em 1ª linha (agora deslocado por atezo+beva e STRIDE).

REACH-2 — ramucirumabe em AFP-alto: Ramucirumabe (anti-VEGFR2 IV) em CHC pós-sorafenibe com AFP≥400 ng/mL. SG: 8,5 vs. 7,3 meses (HR 0,71; P=0,02). Aprovação FDA maio 2019. Única aprovação biomarcador-guiada (AFP) em CHC.

CELESTIAL — cabozantinibe 2ª linha: SG: 10,2 vs. 8,0 meses (HR 0,76; P=0,005). Aprovação FDA janeiro 2019.

Algoritmo 2025 em CHC: 1ª linha: Atezolizumabe+bevacizumabe (se sem contraindicação de anti-VEGF) OU STRIDE (tremelimumabe dose única+durvalumabe) OU lenvatinibe/sorafenibe (sem IO) 2ª linha pós-atezo+beva: ramucirumabe (AFP>400), cabozantinibe, regorafenibe, STRIDE/durvalumabe (se não usou IO), pembrolizumabe 2ª linha pós-sorafenibe: regorafenibe, cabozantinibe, ramucirumabe, IO (se não usou)

CHC e função hepática: critérios Child-Pugh, VHB reativação e manejo de varizes

Critérios de inclusão nos ensaios (Child-Pugh A): Todos os ensaios de IO em CHC exigem Child-Pugh A (função hepática relativamente preservada). Pacientes Child-Pugh B ou C têm dados muito limitados — a imunoterapia pode precipitar insuficiência hepática em hepatócitos já comprometidos.

Child-Pugh scoring:

  • Bilirrubina, albumina, INR/TP, ascite (grau), encefalopatia (grau) → 5-15 pontos
  • A: 5-6 pontos (boa reserva), B: 7-9 (reserva moderada), C: 10-15 (reserva ruim)

Na prática: pacientes com Child-Pugh B7 às vezes incluídos em estudos de real world com cautela; B9+ geralmente não candidatos à imunoterapia sistêmica.

Reativação de VHB — risco crítico com IO: Contraintuitivo: IO pode reativar VHB. Mecanismo: IO desbloqueia linfócitos T → T atacam hepatócitos infectados com VHB → surge hepatite B → pode ser fatal.

Precauções: SEMPRE testar anti-HBs, HBsAg, anti-HBc antes de IO. Se HBsAg+: profilaxia com entecavir ou tenofovir antes de IO (obrigatório). Se anti-HBc+ HBsAg-: considerar profilaxia ou monitoramento intensivo.

Varizes esofágicas e anti-VEGF: Bevacizumabe (em atezo+beva) aumenta risco de sangramento variceal. Antes de atezo+beva: endoscopia digestiva alta para avaliar varizes. Bandamento ou propranolol para profilaxia. Se varizes grandes: preferir STRIDE (sem anti-VEGF) ou sorafenibe (que tem menos risco que bevacizumabe em varizes).

BCLC (Barcelona Clinic Liver Cancer) staging: 0/A: curava (ressecção, ablação, transplante). B: TACE (quimio embolização transarterial). C: tratamento sistêmico. D: cuidados paliativos. IO é no estágio C (e às vezes B refratário a TACE).

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é o regime STRIDE para câncer de fígado?+

STRIDE (Single Tremelimumab Regular Interval Durvalumab) é um regime que combina uma única dose alta de tremelimumabe (300 mg, anti-CTLA-4) no início do tratamento seguida de durvalumabe (anti-PD-L1) continuado a cada 4 semanas. A ideia é usar a dose única de tremelimumabe para 'ativar' o sistema imune fortemente no início (como um 'pontapé inicial'), e então o durvalumabe mantém essa ativação ao bloquear o freio PD-L1 no tumor. O estudo HIMALAYA mostrou que esse regime prolonga a sobrevida vs. sorafenibe (16,4 vs. 13,8 meses) com menos hepatotoxicidade que esquemas com ipilimumabe repetido.

Câncer de fígado com cirrose pode receber imunoterapia?+

Depende da gravidade da cirrose. Todos os ensaios clínicos de imunoterapia em hepatocarcinoma (CHC) exigem função hepática Child-Pugh A (relativamente preservada). Pacientes com cirrose Child-Pugh B ou C têm função hepática comprometida — a imunoterapia pode sobrecarregar ainda mais o fígado, com risco de insuficiência hepática. Na prática clínica, pacientes Child-Pugh B com pontuação 7 às vezes recebem IO em contextos específicos, mas isso é fora da bula e requer discussão detalhada de riscos. Antes de iniciar qualquer IO, é obrigatório testar status de hepatite B (para profilaxia de reativação) e avaliar varizes esofágicas (se usar bevacizumabe).

Qual é a diferença entre tremelimumabe e ipilimumabe?+

Ambos são anti-CTLA-4, mas de fabricantes diferentes e com algumas diferenças técnicas: ipilimumabe (Yervoy, BMS) é IgG1 (com ADCC); tremelimumabe (de AstraZeneca) é IgG2 (menor ADCC). No hepatocarcinoma, ipilimumabe em doses repetidas causava hepatotoxicidade grau 3-4 em ~18-22% (CheckMate 040). O regime STRIDE usa tremelimumabe em dose única + durvalumabe manutenção, com hepatotoxicidade grau 3-4 de apenas 5% no HIMALAYA. Essa diferença de hepatotoxicidade é crucial em CHC onde os pacientes têm fígado comprometido por cirrose.

Posso tomar imunoterapia para câncer de fígado se tiver hepatite B?+

Sim, mas com cuidado especial. A imunoterapia pode reativar o vírus da hepatite B (VHB) ao 'destampar' o sistema imune que estava suprimindo o vírus — causando hepatite B aguda potencialmente grave. Por isso: (1) SEMPRE testar HBsAg, anti-HBc e carga viral de VHB antes de iniciar IO; (2) Se HBsAg positivo: iniciar antiviral (entecavir ou tenofovir) ANTES da IO e mantê-lo durante todo o tratamento; (3) Se anti-HBc positivo com HBsAg negativo (hepatite B prévia curada): discussão com hepatologista sobre profilaxia vs. monitoramento. Hepatite C tratada e curada não representa o mesmo risco.

Além de imunoterapia, quais são as opções para CHC avançado?+

As principais opções em CHC avançado (2025): (1ª linha) Atezolizumabe+bevacizumabe (IMbrave150) ou STRIDE/tremelimumabe+durvalumabe (HIMALAYA) ou sorafenibe/lenvatinibe; (2ª linha e posterior) Regorafenibe (pós-sorafenibe), cabozantinibe, ramucirumabe (se AFP>400), pembrolizumabe, nivolumabe+ipilimumabe. A escolha entre eles depende: função hepática (Child-Pugh), presença de varizes (evitar bevacizumabe), status HBV/HCV, performance status, AFP sérico e disponibilidade regional. Sorafenibe, que foi o padrão por mais de 10 anos (SHARP 2008), hoje é usado principalmente quando IO e anti-VEGF são contraindicados.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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