HER2 (ERBB2): biologia, amplificação e por que é um alvo ideal
HER2 (Human Epidermal growth factor Receptor 2, também chamado ERBB2 ou ErbB2) é um receptor tirosina quinase da família ErbB. Diferente de HER1 (EGFR), HER3 e HER4, HER2 não tem ligante endógeno conhecido — sua ativação ocorre exclusivamente por heterodimerização com outros membros da família ErbB (especialmente HER3 e EGFR).
Estrutura e sinalização: HER2 tem 4 domínios extracelulares (I-IV). O domínio II é o sítio de dimerização — o alvo do pertuzumabe. O domínio IV (subdomain IV, "juxtamembrane") é o sítio de ligação do trastuzumabe. Quando HER2 se dimeriza com HER3 (o parceiro mais potente — HER3 tem 6 sítios de docking para p85/PI3K), a sinalização via PI3K/AKT é maximizada.
Amplificação de HER2 em câncer: Em ~15-20% dos cânceres de mama, o gene HER2 no cromossomo 17q12 é amplificado — aumentando o número de cópias de 2 para 10-100 por célula. Isso resulta em superexpressão da proteína HER2 (IHC 3+ ou FISH amplificado) e sinalização constitutivamente elevada. HER2+ (amplificado) define um subtipo biologicamente distinto:
- Antes de trastuzumabe: sobrevida média de 2-3 anos em doença metastática
- Com bloqueio anti-HER2 moderno: sobrevida mediana >5 anos em metastático
HER2-low (novo conceito): IHC 1+ ou IHC 2+/FISH não-amplificado — não era considerado HER2+ na classificação clássica. O DESTINY-Breast04 (2022) demonstrou que T-DXd (o ADC anti-HER2) é ativo em HER2-low, expandindo o alvo para ~50% dos cânceres de mama HR+ que eram previamente classificados como HER2-negativos.
Trastuzumabe: mecanismos múltiplos e os ensaios HERA e ToGA
Trastuzumabe (Herceptin®) é um anticorpo monoclonal humanizado IgG1 que se liga ao domínio IV da porção extracelular de HER2, com dois mecanismos principais de ação antitumoral:
1. ADCC (citotoxicidade celular dependente de anticorpo): A porção Fc do trastuzumabe liga-se ao FcγRIIIa em células NK, recrutando-as para lisar as células HER2+. Estudos correlacionando polimorfismos de FcγRIIIa com resposta ao trastuzumabe confirmam a importância desse mecanismo.
2. Bloqueio de sinalização HER2: Trastuzumabe interfere na sinalização ao: (a) impedir clivagem do domínio extracelular de HER2 (shed) — a forma truncada p95-HER2 é constitutivamente ativa e trastuzumabe-resistente; (b) internalizar HER2 da superfície; (c) interferir indiretamente na dimerização.
HERA (Smith et al., Lancet 2007) — adjuvância: 5.102 mulheres com mama HER2+ operado, pós-quimioterapia adjuvante. Trastuzumabe por 1 ano vs. observação. RFS em 8 anos: 76% vs. 68% (HR 0,76; P<0,0001). SG: HR 0,76 (P=0,0005). 1 ano de trastuzumabe tornou-se padrão mundial adjuvante.
ToGA (Bang et al., Lancet 2010) — adenocarcinoma gástrico HER2+: 594 pacientes com câncer gástrico/GEJ HER2+ (IHC 3+ ou FISH+). Quimioterapia + trastuzumabe vs. quimioterapia isolada. SG: 13,8 vs. 11,1 meses (HR 0,74; P=0,0046). Em subgrupo IHC 3+/FISH+: SG 16,0 vs. 11,8 meses. Primeira aprovação de trastuzumabe em câncer gástrico.
Trastuzumabe subcutâneo: Formulação SC com hialuronidase (Herceptin SC) aprovada EMA 2013 — administração em 2-5 minutos vs. 30-90 min IV. Equivalência farmacocinética e de eficácia demonstrada.
Pertuzumabe: bloqueio do sítio de dimerização e o ensaio CLEOPATRA
Pertuzumabe (Perjeta®) liga-se ao domínio II (domínio de dimerização) de HER2 — um epítopo distinto do trastuzumabe (domínio IV). Isso permite que pertuzumabe e trastuzumabe sejam administrados simultaneamente sem competição, bloqueando HER2 em dois sítios simultaneamente.
Mecanismo de pertuzumabe: Ao ocupar o domínio II, pertuzumabe estereicamente impede a heterodimerização de HER2 com HER3 (ou HER1) — bloqueando o dímero mais potente de sinalização. HER2 não pode mais recrutar HER3 para sinalizar via PI3K. Pertuzumabe também recruta células NK via ADCC, com sinergia com trastuzumabe no mesmo receptor.
Duplo bloqueio HER2 — racionale: Trastuzumabe (domínio IV) + pertuzumabe (domínio II) bloqueiam HER2 em dois pontos:
- Trastuzumabe: inibe shed, ativa ADCC, interfere na ligação de HSP90 (que estabiliza HER2)
- Pertuzumabe: bloqueia heterodimerização, especialmente HER2-HER3 (a mais potente)
O duplo bloqueio é mais completo que qualquer agente isolado.
CLEOPATRA (Baselga et al., NEJM 2012) — mama HER2+ metastático primeira linha: 808 pacientes com mama HER2+ metastático. Pertuzumabe + trastuzumabe + docetaxel vs. placebo + trastuzumabe + docetaxel. SLP: 18,7 vs. 12,4 meses (HR 0,62; P<0,001). SG: 56,5 vs. 40,8 meses (HR 0,68; P<0,001) — benefício de ~16 meses de SG.
CLEOPATRA tornou pertuzumabe + trastuzumabe + taxano o padrão de primeira linha em mama HER2+ metastático.
NEOSPHERE — neoadjuvância: Pertuzumabe + trastuzumabe + docetaxel em neoadjuvância: pCR (resposta patológica completa) de 45,8% vs. 29,0% com trastuzumabe + docetaxel. A associação pertuzumabe+trastuzumabe em neoadjuvância seguida de manutenção adjuvante tornou-se o padrão.
T-DXd (trastuzumabe deruxtecano): ADC com efeito bystander e HER2-low
Trastuzumabe deruxtecano (DS-8201, T-DXd, Enhertu®) é um anticorpo-droga conjugado (ADC) de terceira geração que combina trastuzumabe com um payload de inibidor de topoisomerase I (DXd, análogo da exatecana):
Estrutura do ADC:
- Anticorpo: trastuzumabe (anti-HER2)
- Linker: clivável por catepsina B no lisossomo (tetrapeptídeo GGFG), altamente estável em circulação
- Payload: DXd (análogo potente de exatecana/camptotecina, inibidor de topoisomerase I), DAR (drug-to-antibody ratio) médio de 8 — muito maior que T-DM1 (DAR=3,5)
Mecanismo: T-DXd se liga a HER2, é internalizado via endocitose, trafega para lisossomo, o linker é clivado por catepsina B, DXd é liberado intracelularmente → inibe topoisomerase I → quebras de DNA de fita simples → apoptose.
Efeito bystander único: DXd é altamente permeável à membrana celular. Após liberação intracelular, DXd difunde para células vizinhas HER2-negativas no microambiente tumoral — matando-as. Isso explica por que T-DXd é ativo em tumores heterogêneos (com baixa expressão de HER2) onde T-DM1 fracassa.
DESTINY-Breast03 (Cortés et al., NEJM 2022) — HER2+ pós-trastuzumabe: 524 pacientes com mama HER2+ metastático pós-trastuzumabe e taxano. T-DXd vs. T-DM1. SLP: não alcançada vs. 6,8 meses (HR 0,28; P<0,001). ORR: 79,7% vs. 34,2%. SG: 94,1% vs. 85,9% em 12 meses. T-DXd tornou-se o padrão de segunda linha em HER2+.
DESTINY-Breast04 (Modi et al., NEJM 2022) — HER2-low: 557 pacientes com mama HER2-low (IHC 1+ ou 2+/FISH-) HR+ ou HR-. T-DXd vs. quimioterapia à escolha do médico. SLP em HR+: 10,1 vs. 5,4 meses (HR 0,51; P<0,001). SG em HR+: 23,9 vs. 17,5 meses. ORR: 52,3% vs. 16,3%. Transformou HER2-low de "HER2-negativo" em uma categoria acionável — redefinindo o diagnóstico de HER2 em todo o mundo.
Resistência ao bloqueio anti-HER2 e toxicidades
Mecanismos de resistência ao trastuzumabe:
- Perda de PTEN/ativação de PIK3CA: A via PI3K/AKT sinaliza independentemente de HER2 — contorna o bloqueio de HER2 upstream. Ocorre em ~25-40% dos casos HER2+ resistentes.
- p95-HER2 (HER2 truncado): Clivagem proteolítica do domínio extracelular de HER2 gera p95 que não tem o epítopo do trastuzumabe (domínio IV) mas mantém atividade quinase.
- Sinalização de receptores alternativos: MET, IGFR, VEGFR contribuem com sinais de sobrevivência independentes de HER2.
- Superexpressão de HER3: HER3 superexpresso forma mais dímeros com HER2 residual — amplificando sinal mesmo com trastuzumabe.
Resistência a T-DXd: Mecanismos específicos incluem redução da expressão de HER2, alterações na topoisomerase I (alvo do DXd), aumento da eficiência de bombeamento de DXd (ABC transporters) e mutações de HER2 que reduzem a ligação do anticorpo.
Toxicidades de trastuzumabe: Cardiotoxicidade (disfunção ventricular esquerda, redução de FEVE) em ~3-5% — monitorar FEVE antes e durante. Não ativa o complemento (ao contrário do rituximabe), menor risco de reações infusionais. Raras: síndrome de Stevens-Johnson, nefrotoxicidade.
Toxicidades de T-DXd — pneumonite intersticial: Pneumonite intersticial (ILD) é a toxicidade mais temida do T-DXd: ~15% de incidência, grau 5 (fatal) em ~1-2%. Monitorar TC de tórax periodicamente, sintomas respiratórios novos exigem investigação imediata. Suspender em grau ≥2 e tratar com corticosteroides. O mecanismo pode ser imune (DXd afeta células T regulatórias) ou citotóxico direto.
Náusea e fadiga: Muito comuns com T-DXd — náusea em >70% (antiemético profilático obrigatório). Fadiga em >50%.