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← Blog·Oncologia de Precisão20 de junho de 2026

Tisagenlecleucel e Axicabtagene Ciloleucel: CAR-T Células CD19 na LAL Pediátrica e no DLBCL R/R (JULIET, ZUMA-1)

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fundamentos do CAR-T: de coleta à infusão

O que é terapia CAR-T: CAR-T usa as próprias células T do paciente, geneticamente modificadas ex vivo para expressar um receptor quimérico (CAR — Chimeric Antigen Receptor) na superfície. O CAR reconhece um antígeno tumoral (CD19 nos casos aprovados) de forma independente do MHC — sem necessidade de apresentação de antígeno.

Estrutura do CAR:

  1. Domínio extracelular (scFv): fragmento de anticorpo anti-CD19 que reconhece o antígeno
  2. Hinge e transmembrana: conectores estruturais
  3. Domínio intracelular (co-sinalização): CD3-zeta (sinalização primária) + CD28 ou 4-1BB (co-estimulação). CD28 → ativação mais rápida (axicabtagene); 4-1BB → persistência mais longa (tisagenlecleucel)

Processo de fabricação (4-6 semanas):

  1. Leucaférese: coleta de células mononucleares do paciente (5-6h de aférese)
  2. Ativação das células T com anticorpos anti-CD3/CD28
  3. Transdução viral: vetor lentiviral (tisagenlecleucel) ou retroviral (axicabtagene) introduz o gene CAR
  4. Expansão ex vivo: células CAR-T se multiplicam em biorreatores (1-2 bilhões de células)
  5. Controle de qualidade: viabilidade, potência, ausência de replicação viral
  6. Criopreservação e envio ao centro de tratamento

Linfodeplecção: 3-5 dias antes da infusão CAR-T, o paciente recebe quimio de linfodeplecção (fludarabina+ciclofosfamida). Isso cria "espaço" imunoló gico, reduz linfócitos competidores e eleva IL-15 e IL-7 (citocinas homeostáticas que amplificam a expansão das CAR-T após infusão).

ELIANA e JULIET: tisagenlecleucel em LAL-B e DLBCL

Tisagenlecleucel — estrutura: Células T autólogas expressando CAR anti-CD19 via vetor lentiviral. Domínio co-estimulatório: 4-1BB → favorece persistência de longa duração das células CAR-T no organismo. Uma única infusão.

ELIANA (Maude et al., NEJM 2018) — LAL-B pediátrica/adolescente (<25 anos): 75 pacientes com LAL-B R/R (≥2 recaídas, refratária a imunoterapia, ou pós-transplante). Tisagenlecleucel infusão única.

Resultados: RC/RCi: 81% em 3 meses. MRD-negativa: 100% dos RC. EFS (event-free survival) em 12 meses: 50%. SG em 12 meses: 76%. Em 5 anos: ~40% dos pacientes livres de doença (sem precisar de transplante posterior em muitos).

Aprovação FDA: agosto 2017 — PRIMEIRO CAR-T aprovado no mundo. Para LAL-B R/R em pacientes <25 anos.

JULIET (Schuster et al., NEJM 2019) — DLBCL adulto R/R: 93 pacientes com DLBCL de grandes células R/R após ≥2 linhas (incluindo autotransplante ou não-elegível).

Resultados: ORR: 52%. RC: 40%. DOR em 12 meses: 65% dos RC. SG em 12 meses: 49%. Curva de sobrevida se estabiliza (~37% em 2 anos) → platô sugerindo cura potencial em subgrupo.

Aprovação FDA: maio 2018 — para DLBCL adulto R/R após ≥2 linhas. Expandida depois para DLBCL em segunda linha (pós-transplante).

ZUMA-1: axicabtagene em DLBCL e resultados a longo prazo

Axicabtagene ciloleucel — estrutura: Células T autólogas com CAR anti-CD19 via vetor gamma-retroviral. Domínio co-estimulatório: CD28 → ativação mais potente e imediata (mas possivelmente menor persistência a longo prazo vs. 4-1BB de tisagenlecleucel). Uma única infusão.

ZUMA-1 (Neelapu et al., NEJM 2017) — fase I/II, DLBCL R/R: 101 pacientes com DLBCL de grandes células R/R (refratário a ≥2 linhas incluindo anti-CD20 + antraciclina). Axicabtagene ciloleucel.

Resultados: ORR: 72%. RC: 51%. DOR mediana: não alcançada. SG em 18 meses: 52%. Em 5 anos (Locke et al., 2019): 41% dos pacientes em RC contínua.

Aprovação FDA: outubro 2017. Dados a 5 anos excepcional para essa população de muito alto risco.

Segunda linha em DLBCL (ZUMA-7, TRANSFORM): Axicabtagene e lisocabtagene maraleucel avaliados como SEGUNDA linha em DLBCL (antes do auto-transplante vs. em vez do auto-transplante). ZUMA-7 (Locke et al., NEJM 2022): axicabtagene vs. auto-TCTH. EFS: 8,3 vs. 2,0 meses (HR 0,40; P<0,001). SG não madura mas numericamente superior. Aprovação FDA: abril 2022 — axicabtagene para segunda linha em DLBCL R/R precoce (<12 meses) ou refratário, em vez de auto-transplante.

Lisocabtagene maraleucel (liso-cel, Breyanzi): Terceiro CAR-T anti-CD19 aprovado (2021 FDA). Fabricação mais controlada (proporção fixa de CD4:CD8 CAR-T). Menos CRS/ICANS vs. axicabtagene. TRANSFORM: resultados similares ao ZUMA-7.

CRS e ICANS: as toxicidades críticas do CAR-T

Síndrome de Liberação de Citocinas (CRS): É a toxicidade mais imediata do CAR-T — resultado da ativação massiva das células CAR-T e cascata inflamatória. Ocorre em 70-90% dos pacientes:

  • Início: 2-14 dias após infusão
  • Manifestações: febre alta (>38,5°C), hipotensão, hipoxemia, falência de órgãos
  • Grau 3-4 em ~20-35% (axicabtagene) e ~5-10% (tisagenlecleucel) — diferença relevante

Citocinas chave na CRS: IL-6 é o principal mediador → tocilizumabe (inibidor de IL-6R) é o antídoto primário de CRS.

Grading (ASTCT 2019):

  • Grau 1: febre ≥38°C, sem hipotensão ou hipoxemia
  • Grau 2: febre + hipotensão (sem vasopressor) ou hipoxemia (O2 <40%)
  • Grau 3: hipotensão (vasopressor) OU hipoxemia (O2 ≥40%)
  • Grau 4: hipotensão intratável OU hipoxemia com ventilação mecânica
  • Grau 5: óbito

Tratamento: Grau 2: tocilizumabe IV 8 mg/kg. Grau 3-4: tocilizumabe + dexametasona. Grau 4 refratário: siltuximabe, ruxolitinibe, anakinra (anti-IL-1).

ICANS (Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity Syndrome): Neurotoxicidade em 10-70%, geralmente após resolução da CRS. Manifestações: confusão, afasia, tremores, crises convulsivas, edema cerebral. Mecanismo incerto: cytokines cruzam barreira hematoencefálica, ativam microglia. Grading por ICE score (Immune Effector Cell Encephalopathy Score) + CTCAE. Tratamento: corticosteroide (dexametasona IV), em casos severos: levetiracetam (anti-convulsivante profilático em axicabtagene).

Falha do CAR-T: mecanismos de resistência e próximas gerações

Mecanismos de resistência ao CAR-T CD19: ~30-50% dos pacientes com RC inicial recaem em 6-12 meses. Mecanismos:

1. Perda de antígeno (CD19-negativo): O mecanismo mais comum — células B leucêmicas que perderam CD19 escapam à detecção pelo CAR. Frequência: ~30-40% das recaídas pós-CAR-T CD19. Alternativa: CAR-T biespecífico CD19+CD22, ou mudar para CD22-i (inotuzumabe) ou CD22-CAR.

2. Exaustão do CAR-T: Células CAR-T podem se tornar disfuncionais ("exaustas") com expressão de PD-1, LAG-3, TIM-3. Em tumores com PD-L1 alto, a exaustão é mais rápida.

3. Escape imune (baixa coestimulação): Tumores em microambiente imunossupressor com TGF-β, IL-10 alto.

Próximas gerações:

  • CAR-T bispecífico CD19+CD22 (cobertura dupla, evita perda de CD19)
  • CAR-T alogênico ("off-the-shelf"): células T de doadores saudáveis editadas com CRISPR para remover TCR e HLA → evita fabricação personalizada, mais rápido, potencialmente mais barato. CTC-021, ALLO-501A em ensaios
  • CAR-NK: células NK como base (menos CRS, menos GVHD, off-the-shelf)
  • CAR-T armados com PD-1 dominante negativo: resistem à inibição por PD-L1
  • In vivo CAR-T: lipid nanoparticles administradas IV que transfecionam células T in situ (sem aférese), pesquisa em fase inicial
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O CAR-T usa minhas próprias células ou de doador?+

Na maioria das terapias CAR-T aprovadas atualmente (tisagenlecleucel, axicabtagene, lisocabtagene), são as suas próprias células T — coletadas por leucaférese, modificadas geneticamente em um laboratório especializado e devolvidas ao seu organismo. Por usar suas próprias células, não há risco de rejeição ou GVHD (doença do enxerto). A desvantagem é que leva 4-6 semanas para fabricar, e a qualidade depende das suas células T (comprometidas em pacientes muito tratados). CAR-T alogênico (de doador) está em pesquisa para ser mais rápido.

Posso receber CAR-T mais de uma vez se a leucemia voltar?+

É tecnicamente possível em alguns casos, mas complexo. A principal barreira é que após recaída pós-CAR-T CD19, o tumor frequentemente perde CD19 (o alvo) — então uma segunda dose do mesmo CAR-T CD19 provavelmente não funcionará. As opções após falha incluem: mudar de alvo (CAR-T CD22 ou blinatumomabe+inotuzumabe), ensaio clínico com CAR-T biespecífico, ou transplante alogênico. Receber o mesmo produto CAR-T duas vezes tem baixa evidência de eficácia e potenciais riscos imunes.

A síndrome de liberação de citocinas do CAR-T é a mesma da COVID?+

A tempestade de citocinas na COVID-19 grave tem semelhanças com a CRS do CAR-T — ambas envolvem IL-6 elevada e inflamação sistêmica. A principal diferença é o contexto: na CRS do CAR-T, a inflamação é esperada e monitorada ativamente; o tratamento com tocilizumabe (inibidor de IL-6R) é administrado imediatamente se a CRS for grau 2+. O tocilizumabe foi inclusive avaliado em COVID grave pelo mesmo raciocínio. Na CRS do CAR-T, a maioria recupera completamente com manejo adequado.

CAR-T pode curar a leucemia sem transplante?+

Em crianças e adolescentes com LAL-B, há fortes evidências de que CAR-T pode ser curativo sem transplante para um subgrupo. No ELIANA, ~40% das crianças permaneciam livres de doença em 5 anos sem precisar de transplante — isso é extraordinário nessa população de altíssima necessidade. Em adultos com DLBCL, ~40% dos pacientes em RC contínua em 5 anos (ZUMA-1) também representa cura potencial. Porém, esses dados de 'cura' ainda estão maturando — 5-10 anos de seguimento serão necessários para conclusões definitivas.

Por que o tratamento CAR-T leva semanas para ser feito?+

O CAR-T é personalizado para cada paciente — não é uma pílula ou injeção pronta. Após coletar suas células T (leucaférese), elas são enviadas para um laboratório de manufatura especializado (em outro estado ou país), onde são geneticamente modificadas para expressar o receptor CAR, cultivadas por 1-2 semanas para se multiplicar em bilhões de células e passam por rigorosos testes de qualidade antes de serem congeladas e enviadas de volta. Todo o processo leva 3-6 semanas. O paciente permanece em tratamento de suporte/ponte durante esse período.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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