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← Blog·Oncologia de Precisão04 de julho de 2026

Sotorasibe e Adagrasibe Inibidores de KRAS G12C: CodeBreaK 100/200, KRYSTAL-1 e Resistência em CPNPC e CCRm

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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KRAS: 40 anos de 'undruggable' — biologia e por que é tão difícil inibir

KRAS (Kirsten RAS) — uma das oncoproteínas mais importantes do câncer humano: RAS é uma família de GTPases (KRAS, NRAS, HRAS). KRAS é mutado em ~25% de todos os cânceres humanos: pâncreas (90%), pulmão adenocarcinoma (35%), colorretal (45%), endométrio (30%).

Ciclo GTPase de RAS — como funciona normalmente: RAS está em estado INATIVO ligado a GDP (difosfato de guanosina). Quando um sinal chega ao receptor (EGFR, FGFR, etc.): SOS1 (fator de troca de nucleotídeos, GEF) catalisa a troca de GDP→GTP. RAS-GTP = ATIVO → sinaliza para RAF, PI3K, RALGDS → proliferação. Hidrolisa GTP espontaneamente (lento) ou acelerado por GAP (GTPase-activating proteins: NF1, RASA1). Retorna ao estado inativo RAS-GDP.

Por que KRAS mutado é oncogênico: Mutações em G12 (glicina 12) ou G13 inibem a hidrólise de GTP (mesmo por GAP) → RAS-GTP permanentemente ativo → sinalização constitutiva → proliferação, sobrevida, metástase. G12C: glicina 12 substituída por cisteína.

Por que era considerado 'undruggable' por 40 anos:

  1. Sem pocket acessível: proteína pequena (~21 kDa), globular, sem bolso hidrofóbico profundo para small molecules se encaixarem
  2. Afinidade por GTP extremamente alta (Kd picomolar) → qualquer inibidor competitivo de nucleotídeos seria superado pela concentração celular de GTP (mM)
  3. Ausência de alossiterismo óbvio: estrutura "lisa" sem ranhuras

A virada — bolso switch II (S-IIP) e G12C: 2013: Shokat et al. (UCSF) descobriram que KRAS G12C especificamente expõe um bolso no estado GDP (inativo) adjacente ao switch II loop — chamado S-IIP (Switch II Pocket). Composto covalente liga à cisteína 12 de forma irreversível, travando KRAS G12C no estado INATIVO (GDP-bound) → bloqueio permanente. Chave: funciona APENAS com a mutação G12C (cisteína como nucleófilo). G12D, G12V, etc. não têm cisteína → não funcionam com essa classe.

Sotorasibe (AMG 510/Lumakras) — CodeBreaK 100 e 200

Sotorasibe (AMG 510, Lumakras®, Amgen): Primeiro inibidor covalente de KRAS G12C aprovado. Inibe KRAS G12C no estado GDP (inativo) — bloqueia switch II pocket. Dose: 960 mg/dia oral.

CodeBreaK 100 (fase II) — CPNPC KRAS G12C pré-tratado: 126 pacientes CPNPC KRAS G12C+ após ≥1 linha (incluindo platinum + anti-PD-1/PD-L1). Sotorasibe 960 mg/dia. ORR: 36%. Doença controlada (DCR): 81%. Duração mediana de resposta: 10,0 meses. SLP: 6,8 meses. SG: 12,5 meses. Aprovação FDA: maio 2021 para CPNPC KRAS G12C+ pós-1ª linha de terapia.

CodeBreaK 200 (fase III) — sotorasibe vs. docetaxel em CPNPC KRAS G12C pós-platinum+IO: 345 pacientes CPNPC KRAS G12C+ pós-platinum e anti-PD-1/PD-L1. Sotorasibe 960 mg vs. docetaxel 75 mg/m² q3sem. SLP: 5,6 vs. 4,5 meses (HR 0,66; P=0,002). ORR: 28,1% vs. 13,2%. SG: 10,6 vs. 11,3 meses (HR 0,94 — NS).

Sotorasibe superior em SLP e ORR, mas SEM vantagem em SG — possivelmente por crossover após docetaxel ou seleção de população.

Aprovação FDA regular: janeiro 2023 baseado em CodeBreaK 200 (confirmação da acelerada de 2021).

Dose 960 mg vs. 240 mg: Análise post-hoc sugeriu que 240 mg/dia pode ter eficácia similar com menos toxicidade. Estudos de dose-optimization em andamento. NCCN sugere que 240 mg pode ser usado em algumas populações.

Toxicidade de sotorasibe: Hepatotoxicidade: ALT/AST grau 3-4 em ~8-10%. Monitorar enzimas hepáticas q2-3 semanas nos primeiros 3 meses. Diarreia: 30% qualquer grau. Náusea: 23%. Fadiga: 28%. Sem rash acneiforme (diferente de anti-EGFR).

Adagrasibe (MRTX849/Krazati) — KRYSTAL-1 e penetração no SNC

Adagrasibe (MRTX849, Krazati®, Mirati/BMS): Segundo inibidor covalente KRAS G12C aprovado. Diferenças vs. sotorasibe: maior t½ (24h vs. 6h), inibe KRAS G12C em transição GDP/GTP (não só estado inativo), melhor penetração no SNC (Kp,uu SNC ~0,3 — relevante em CPNPC com metástases cerebrais), mais potente em modelos pré-clínicos. Dose: 600 mg 2×/dia oral.

KRYSTAL-1 (fase II) — CPNPC KRAS G12C pré-tratado: 116 pacientes CPNPC KRAS G12C+ pós-platinum e anti-PD-1/PD-L1. ORR: 42,9%. DCR: 79,5%. Duração mediana de resposta: 8,5 meses. SLP: 6,5 meses. SG: 12,6 meses. Aprovação FDA: dezembro 2022 para CPNPC KRAS G12C+ pós-1 linha de terapia.

Dados de SNC (metástases cerebrais tratadas): ORR intracraniana 33,3% — melhor que qualquer TKI anterior em CCR KRAS. Potencialmente útil em CPNPC com metástases cerebrais G12C+.

CCRm KRAS G12C com adagrasibe: KRYSTAL-1 em CCRm KRAS G12C pós-tratado: ORR 19,2% — modesto (pior que em CPNPC). Por quê? EGFR feedback: células do CCR com KRAS G12C inibido rapidamente upregulam sinais de EGFR, contornando o bloqueio. Solução: combinar com cetuximabe.

KRYSTAL-10 — adagrasibe + cetuximabe em CCRm KRAS G12C: 43 pacientes CCRm KRAS G12C pós-tratado. Adagrasibe 600 mg 2×/dia + cetuximabe 500 mg/m² q2sem. ORR: 46% (vs. 19% de adagrasibe sozinho!). DCR: 100%. SLP: 6,9 meses. Aprovação FDA (acelerada): junho 2024 para CCRm KRAS G12C+ pós-2 linhas (incluindo fluoropirimidina, oxaliplatina, irinotecano).

Confirmação que combinação KRAS G12C + anti-EGFR supera monoterapia em CCRm — EGFR feedback é o principal mecanismo de resistência em CCR.

Resistência primária e adquirida aos inibidores de KRAS G12C

Resistência primária (não-resposta inicial): ~35-40% dos pacientes com KRAS G12C+ CPNPC não respondem (SD melhor resposta sem ORR). Mecanismos:

  • Co-mutações de TP53 (sem relevância), KEAP1/STK11 (impacta resposta — STK11 mutado = pior resposta a KRAS G12C inibidores E a IO em CPNPC)
  • Receptor de feedback: EGFR, MET, FGFR, RET, AXL — upregulados após KRAS G12C bloqueio
  • AURORA A/B alteradas
  • Expressão de PD-L1 baixa + STK11 = "cold tumor" — nem IO nem KRAS G12C inibidor funciona bem

STK11/KEAP1 e resposta a KRAS G12C inibidores: STK11 mutado em 30% do CPNPC KRAS G12C+ — ativa LKB1 pathway, altamente imunossupressor, correlaciona com menos resposta. KEAP1 mutado em 20% — correlaciona com pior resposta a sotorasibe (ORR ~10% em KEAP1 mutado vs. 40%+ em WT).

Resistência adquirida (após resposta inicial): Análises de ctDNA e biópsia líquida ao progredir em KRAS G12C inibidores:

  • Mutações secundárias em KRAS G12C (Y96D, H95D/Q/R) que impedem ligação covalente ou dissociam conformação GDP-bound
  • Mutações em RAS paralelas: KRAS G12V/D (conversão da mutação), NRAS mutações
  • Amplificação de KRAS G12C (mais proteína → mais substrato que o inibidor não consegue cobrir)
  • Mutações em RAF (BRAF fusions), MEK (MEK1 mutado), PI3K
  • Amplificação ou ativação de MET, EGFR
  • Transição epitelial-mesenquimal (EMT): perda de EGFR→ menos feedback mas também menor dependência de KRAS

Estratégias para superar resistência: Combinações em estudo: KRAS G12C inh + SHP2 inh (não-covalente, bloqueia feedback via RAS): RMC-4630 + sotorasibe, TNO155 + adagrasibe — estudos de fase I/II mostrando ORR 45-55% em CPNPC. KRAS G12C + MEK inh: combinação tem potencial mas toxicidade. KRAS G12C + SOS1 inh (BI-1701963 — bloqueia GEF que recarrega KRAS com GTP): dados emergindo. Pan-RAS inibidores (RMC-6236, BI-2865) — inibem KRAS G12C e G12D — em fase I/II.

KRAS G12D e G12V: próximos inibidores de RAS em desenvolvimento

Por que G12C é diferente de G12D e G12V: G12C tem cisteína → permite inibição covalente seletiva (como sotorasibe/adagrasibe). G12D (aspartato): mais difícil — sem cisteína. G12V (valina): idem. Juntos, G12D+G12V representam ~65% das mutações KRAS em pâncreas, ~55% em CCR, ~35% em CPNPC.

MRTX1133 — inibidor não-covalente de KRAS G12D: Liga ao switch II pocket no estado GDP (como sotorasibe), mas não covalente — ocupa o bolso via substituição específica que acomoda aspartato de G12D. Dados pré-clínicos: excelente atividade em modelos de pâncreas KRAS G12D. Fase I/II: RMC-9805 (Revolution Medicines), GDC-6036 (Genentech) — em estudo. Sem aprovação ainda.

RMC-6236 — pan-KRAS/NRAS/HRAS não-mutado inibidor (RAS(ON) inhibitor): Nova classe: inibe forma ativa GTP-bound de múltiplos RAS mutantes (G12C, G12D, G12V e outros) via ciclina (tri-complexo KRAS:RAS(ON):nucleotídeo cíclico). Dados de fase I/II: CPNPC KRAS G12D ORR ~30%, pâncreas KRAS G12D ORR ~20%. Potencialmente revolucionário se confirmado em fase III.

Pâncreas KRAS G12D — o grande desafio não resolvido: 90% dos adenocarcinomas pancreáticos têm KRAS mutado (maioria G12D). Sobrevida <12 meses em estágio IV. Nenhuma terapia-alvo aprovada ainda. MRTX1133 e RMC-9805 estão em estudos clínicos ativos. Vacinas neoantígeno contra KRAS G12D (BNT111/131, mRNA-5671) em fase I/II com dados preliminares de resposta imune.

Perspectiva de 2025: KRAS G12C estabelecido (sotorasibe + adagrasibe aprovados). KRAS G12D em investigação ativa em pâncreas, CCR, CPNPC. Pan-RAS (HRAS, NRAS, KRAS) inibidores em fase I-II. O problema mais difícil da oncologia dos últimos 40 anos está sendo finalmente endereçado com sucesso crescente.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é KRAS G12C e por que é importante no câncer de pulmão?+

KRAS G12C é a mutação mais comum de KRAS no câncer de pulmão (adenocarcinoma), ocorrendo em ~13% dos casos — o que o torna um dos alvos terapêuticos mais frequentes em oncologia torácica. KRAS é uma proteína que funciona como um 'interruptor' de sinalização celular: normalmente liga e desliga conforme necessário. A mutação G12C (substituição de glicina por cisteína na posição 12) trava esse interruptor permanentemente na posição 'ligado', forçando a célula a proliferar continuamente. Por décadas, KRAS foi considerado 'undruggable' (impossível de bloquear com medicamentos). A descoberta de um bolso escondido na proteína KRAS G12C mutante permitiu o desenvolvimento de sotorasibe e adagrasibe — que se ligam covalentemente à cisteína 12 e bloqueiam a proteína, tornando-se os primeiros inibidores de KRAS aprovados na história.

Sotorasibe funciona melhor que quimioterapia no câncer de pulmão KRAS G12C?+

Sotorasibe é superior à quimioterapia (docetaxel) em taxa de resposta (28% vs. 13%) e sobrevida livre de progressão (5,6 vs. 4,5 meses) no estudo CodeBreaK 200 — o que justifica sua aprovação. No entanto, o resultado mais importante, a sobrevida global, foi similar entre os dois tratamentos (10,6 vs. 11,3 meses), o que gerou debate sobre seu impacto real. A vantagem prática de sotorasibe é ser oral, ter melhor tolerância que quimioterapia (sem náusea/alopecia intensa) e ser específico para KRAS G12C — ou seja, funciona apenas para um subgrupo selecionado. Em comparação histórica, a sobrevida de 12 meses com inibidores KRAS G12C é melhor que o esperado com docetaxel em KRAS mutado (geralmente ~8 meses), e o estudo não foi desenhado para detectar diferença em SG necessariamente.

Adagrasibe e sotorasibe são a mesma coisa?+

Não — são dois inibidores de KRAS G12C aprovados, mas com diferenças. Ambos bloqueiam covalentemente KRAS G12C, mas: adagrasibe tem meia-vida mais longa (~24h vs. ~6h do sotorasibe), o que permite dosagem duas vezes ao dia com maior concentração sustentada; adagrasibe penetra melhor no sistema nervoso central — relevante para pacientes com metástases cerebrais de CPNPC KRAS G12C+; adagrasibe mostrou eficácia em combinação com cetuximabe em câncer colorretal KRAS G12C (aprovação em 2024), abrindo um nicho que sotorasibe ainda não tem. Em CPNPC, os dois têm eficácia similar (ORR ~36-43% em 2ª linha), e a escolha pode depender de disponibilidade, metástases cerebrais, ou perfil de toxicidade. Os efeitos colaterais gastrointestinais tendem a ser mais frequentes com adagrasibe.

Por que sotorasibe funciona muito menos no câncer colorretal do que no pulmão?+

Essa é uma das perguntas mais importantes da biologia de KRAS: sotorasibe em câncer de pulmão KRAS G12C tem ORR ~36%, mas em câncer colorretal KRAS G12C tem apenas ~10-19%. A razão é que no intestino, quando o KRAS G12C é bloqueado pelo sotorasibe, as células do cólon rapidamente ativam o receptor EGFR como via alternativa — fazendo um 'desvio' e contornando o bloqueio de KRAS. Essa reativação via EGFR reconecta toda a via de sinalização downstream. A solução é combinar o inibidor de KRAS G12C com um anticorpo anti-EGFR (cetuximabe): o estudo KRYSTAL-10 mostrou que adagrasibe + cetuximabe no cólon colorretal KRAS G12C alcança ORR de 46% — 2x melhor que o adagrasibe sozinho. Por isso, no câncer colorretal, a combinação com anti-EGFR é essencial.

KRAS G12D e G12V terão inibidores aprovados em breve?+

Estamos muito mais perto do que há alguns anos, mas ainda sem aprovação. O desafio é que G12D (aspartato) e G12V (valina) não têm cisteína como G12C — então não permitem a mesma ligação covalente irreversível que tornou possível sotorasibe e adagrasibe. Novos compostos estão em desenvolvimento: MRTX1133 e RMC-9805 são inibidores não-covalentes que ainda assim se encaixam no bolso switch II e bloqueiam KRAS G12D; RMC-6236 é um inibidor pan-RAS que atua no estado ativo (GTP-bound) e pode funcionar para G12D, G12V e até outros mutantes. Estudos de fase I/II estão em andamento com resultados preliminares promissores — especialmente para KRAS G12D no câncer de pâncreas, onde hoje não há nenhuma terapia-alvo. As aprovações nesse espaço devem acontecer nos próximos 2-4 anos se as fases II/III confirmarem os dados.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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