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Semaglutida e Rim: Proteção Nefrológica e o Estudo FLOW 2024

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Equipe PeptídeosBio
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Material educativo. Itens de uso médico exigem indicação, prescrição e acompanhamento profissional.

Introdução: por que o rim importa no diabetes?

A doença renal crônica (DRC) afeta aproximadamente 40% dos pacientes com diabetes tipo 2 ao longo da vida, sendo a principal causa de doença renal em estágio terminal (ESKD, do inglês *end-stage kidney disease*) no mundo ocidental. A progressão da DRC diabética ocorre por mecanismos interligados: hiperfiltração glomerular, estresse oxidativo, inflamação crônica de baixo grau e fibrose tubulointersticial progressiva — todos amplificados pelo ambiente hiperglicêmico e pela resistência à insulina.

Historicamente, a proteção renal no diabetes dependia de três pilares: controle glicêmico (HbA1c alvo <7%), bloqueio do eixo renina-angiotensina-aldosterona com IECA ou BRA, e controle rigoroso da pressão arterial. Em 2019, os inibidores de SGLT2 (iSGLT2) inauguraram uma nova era com o estudo CREDENCE (canagliflozina) e, posteriormente, DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY — demonstrando que era possível proteger o rim de forma significativa independentemente do controle glicêmico. Em 2024, o estudo FLOW fez o mesmo pelos agonistas GLP-1, com semaglutida.

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## O Estudo FLOW: design e população

O FLOW (*Semaglutide and Kidney Outcomes in People with Type 2 Diabetes and Chronic Kidney Disease*) foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, publicado por **Perkovic et al. em 2024 no *New England Journal of Medicine***.

| Característica | Detalhe | |---|---| | Publicação | Perkovic et al., NEJM, 2024 | | N randomizado | 3.533 participantes | | Fármaco | Semaglutida sc 1,0 mg/semana | | Comparador | Placebo | | Duração mediana | 3,4 anos (seguimento até 5 anos) | | TFGe na entrada | 50–75 mL/min/1,73m² | | Relação albumina/creatinina | ≥300 mg/g (macroalbuminúria) | | IECA/BRA em uso concomitante | >99% dos participantes | | DM2 | 100% | | Uso concomitante de iSGLT2 | ~13% |

A população era de alto risco renal: todos tinham DRC G3a-G3b com macroalbuminúria (UACR ≥300 mg/g) e estavam em uso estável de IECA ou BRA — base do tratamento padrão. A baixa taxa de uso concomitante de iSGLT2 (~13%) permite avaliar o benefício da semaglutida de forma relativamente independente dessa classe.

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## Resultados do FLOW: desfecho primário e secundários

O desfecho primário composto incluiu: queda sustentada da TFGe ≥50%, início de diálise ou transplante renal (ESKD), morte por causa renal ou morte cardiovascular.

### Resultado principal

No estudo FLOW, participantes tratados com semaglutida apresentaram redução de 24% no desfecho primário composto em relação ao placebo (HR 0,76; IC95% 0,66–0,88; p<0,001). Isso representa o primeiro GLP-1 agonista com benefício renal primário demonstrado em ensaio clínico randomizado dedicado a esse desfecho — um marco para a nefrologia e a endocrinologia.

### Desfechos secundários detalhados

| Desfecho | Eventos semaglutida | Eventos placebo | HR (IC95%) | |---|---|---|---| | Desfecho renal composto primário | 331 | 410 | 0,76 (0,66–0,88) | | Queda sustentada TFGe ≥50% | 143 | 198 | 0,71 (0,57–0,89) | | ESKD (diálise ou transplante) | 88 | 107 | 0,80 (0,60–1,07) | | Morte cardiovascular | 97 | 124 | 0,78 (0,60–1,02) | | MACE (3 componentes) | 285 | 345 | 0,82 (0,70–0,96) | | Declínio de TFGe (mL/min/ano) | −2,19 | −3,36 | — | | Redução UACR (%) | −24% | −2% | — |

A redução do declínio da TFGe — de 3,36 para 2,19 mL/min/ano com semaglutida — é clinicamente significativa: em um paciente com TFGe de 60 mL/min, essa diferença retarda a chegada a TFGe <30 (estágio G4, com indicação potencial de terapia renal substitutiva) em aproximadamente 4 a 5 anos.

A redução de 24% na UACR com semaglutida vs. apenas 2% com placebo reforça o efeito anti-proteinúrico independente, que reflete melhora da barreira de filtração glomerular e redução da inflamação mesangial.

Referência: Perkovic V, et al. Semaglutide and kidney outcomes in people with type 2 diabetes and chronic kidney disease. *N Engl J Med*. 2024;391:109-121. DOI: 10.1056/NEJMoa2403760

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## Mecanismos renais da semaglutida: três vias principais

O benefício renal dos GLP-1 agonistas envolve ao menos três mecanismos distintos, atuando em diferentes compartimentos do néfron e do tecido renal:

### Mecanismo 1: Efeito natriurético via GLP-1R tubular proximal

O receptor GLP-1 (GLP-1R) é expresso no túbulo proximal renal, onde regula o transportador NHE3 (trocador Na+/H+). A ativação do GLP-1R inibe o NHE3, reduzindo a reabsorção de sódio no túbulo proximal — mecanismo análogo (mas de menor magnitude) ao dos iSGLT2, que inibem o SGLT2 no mesmo segmento tubular.

Essa natriurese tem dois efeitos protetores: 1. Reduz a sobrecarga de volume, diminuindo a pressão intraglomerular e a hiperfiltração 2. Diminui o feedback tubuloglomerular: a mácula densa "percebe" menor carga de sódio no túbulo distal → dilata a arteríola aferente → reduz a pressão de filtração glomerular

### Mecanismo 2: Anti-inflamatório mesangial, podocitário e tubular

Células mesangiais, podócitos e células tubulares expressam GLP-1R. A ativação desses receptores ativa a via PKA/CREB, que antagoniza NF-κB — o principal fator de transcrição pró-inflamatório renal. Em modelos experimentais de nefropatia diabética, GLP-1 agonistas reduzem expressão de MCP-1, IL-6, TNF-α e fibronectina mesangial.

Clinicamente, esse efeito se traduz na redução de albumina/creatinina observada no FLOW (-24% com semaglutida vs. -2% com placebo) — a albuminúria é marcador direto de inflamação e dano à barreira de filtração glomerular (fenestrações endoteliais + membrana basal + processos pedicelares dos podócitos).

### Mecanismo 3: Melhora da resistência à insulina e redução da hiperfiltração

A resistência à insulina perpetua hiperfiltração glomerular por múltiplos mecanismos: aumenta produção de angiotensina II intrarenal, reduz biodisponibilidade de óxido nítrico endotelial glomerular e estimula secreção de fatores de crescimento (TGF-β, VEGF) que promovem hipertrofia glomerular e fibrose mesangial. Ao melhorar sensibilidade à insulina sistêmica e reduzir HbA1c, semaglutida atenua esses mecanismos de forma sinérgica.

| Mecanismo | Localização | Via molecular | Efeito protetor renal | |---|---|---|---| | Inibição NHE3 | Túbulo proximal S1-S3 | GLP-1R → PKA → NHE3↓ | Natriurese, redução hiperfiltração | | Anti-NF-κB | Mesângio, podócito, tubular | GLP-1R → PKA → CREB → NF-κB↓ | Redução inflamação, albuminúria | | Melhora resist. insulina | Sistêmico + renal | GLP-1R central e periférico | Reduz TGF-β, VEGF, angiotensina II | | Redução PA | Vascular renal | GLP-1R endotelial + natriurese | Reduz pressão intraglomerular | | Redução lipotoxicidade | Tubular | Redução AGL circulantes | Proteção mitocondrial tubular |

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## Comparação com os iSGLT2: complementaridade, não substituição

Os iSGLT2 já possuem evidência sólida de benefício renal primário em DRC, inclusive independentemente de DM2 (DAPA-CKD com dapagliflozina, EMPA-KIDNEY com empagliflozina). Como se posiciona a semaglutida nesse contexto?

| Estudo | Fármaco | N | HR primário (renal) | Declínio TFGe reduzido | |---|---|---|---|---| | CREDENCE (2019) | Canagliflozina | 4.401 | 0,66 (0,53–0,81) | −1,3 vs −2,6 mL/min/ano | | DAPA-CKD (2020) | Dapagliflozina | 4.304 | 0,61 (0,51–0,72) | −2,3 vs −3,3 mL/min/ano | | EMPA-KIDNEY (2023) | Empagliflozina | 6.609 | 0,72 (0,64–0,82) | −0,8 vs −2,2 mL/min/ano | | FLOW (2024) | Semaglutida | 3.533 | 0,76 (0,66–0,88) | −2,2 vs −3,4 mL/min/ano |

O HR do FLOW (0,76) é numericamente superior (menos proteção) ao dos melhores iSGLT2 (DAPA-CKD: 0,61), porém os mecanismos são claramente complementares:

- iSGLT2: inibe SGLT2 → bloqueia reabsorção de glicose e Na+ no segmento S1 do túbulo proximal; ativa AMPK → efeitos metabólicos adicionais - Semaglutida: inibe NHE3 → bloqueia reabsorção de Na+ no segmento S2-S3 do túbulo proximal + efeitos anti-inflamatórios sistêmicos + melhora de resistência à insulina

A combinação desses mecanismos em segmentos diferentes do mesmo túbulo proximal sugere sinergismo fisiológico real.

### Sinergia semaglutida + iSGLT2: o que os dados mostram?

Sub-análises do FLOW mostraram que o benefício da semaglutida foi consistente em usuários e não-usuários de iSGLT2 (~13% do total eram usuários). Isso sugere que semaglutida oferece proteção adicional mesmo em pacientes já usando iSGLT2 — efeitos aditivos, não redundantes.

O estudo COMBINE-DKD (Combination of Cardiovascular and Kidney Benefits with empagliflozin and semaglutide in Diabetic Kidney Disease) está avaliando prospectivamente se a combinação de empagliflozina + semaglutida supera a monoterapia em pacientes com nefropatia diabética, com resultados esperados para 2025-2026.

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## Implicações clínicas e posição nas diretrizes

Com base no FLOW, as principais sociedades de nefrologia e endocrinologia atualizaram suas recomendações em 2024:

| Diretriz | Recomendação pós-FLOW | |---|---| | ADA/EASD (2024) | GLP-1 agonistas com benefício cardiovascular/renal recomendados em DM2 com TFGe ≥45, independente do controle glicêmico, após metformina | | KDIGO (2024) | Semaglutida é opção de segunda linha em DRC G3a-G3b com macroalbuminúria, após iSGLT2 e IECA/BRA | | ESC/ESH (2024) | Semaglutida preferida em DM2 com doença cardiovascular aterosclerótica ou DRC com macroalbuminúria |

Para pacientes que consideram o uso de tirzepatida — o agonista dual GIP/GLP-1 — resultados do ensaio SURPASS-CVOT e estudos de extensão sugerem perfil de proteção renal comparável. O ensaio dedicado SURMOUNT-CKD está em andamento, com desfechos renais primários esperados para 2026-2027.

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## Segurança renal: pontos de atenção práticos

A semaglutida é geralmente bem tolerada em DRC moderada (G3a-G3b). Pontos de atenção clínica:

| Questão | Evidência disponível | Conduta recomendada | |---|---|---| | Uso em TFGe <30 | Não estudado no FLOW; FDA não contraindicou formalmente | Cautela; discussão individualizada com nefrologista | | Desidratação + DRC | Risco de IRA pré-renal (especialmente no início, com náuseas) | Hidratação adequada; iniciar dose baixa e titular lentamente | | Interação com contraste iodado | Risco aumentado de IRA com DRC pré-existente | Manter protocolo padrão para DRC: hidratação, suspender IECA/BRA temporariamente | | Náusea/vômitos e DRC | Comuns nas primeiras semanas; podem causar desidratação | Iniciar com 0,25 mg/semana, escalonamento lento de 4 em 4 semanas | | Monitoramento renal | TFGe e UACR podem variar inicialmente | Medir TFGe e UACR a cada 3-6 meses no primeiro ano |

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## O que os dados do FLOW significam para o manejo clínico?

O FLOW posiciona a semaglutida — e, por extensão provável, os agonistas GLP-1 como classe — como um componente do tratamento cardiorrenal do DM2, e não apenas como agente antidiabético ou de emagrecimento. Para pacientes com DM2 + DRC + macroalbuminúria, a combinação de:

1. IECA ou BRA (bloqueio do eixo RAA) 2. iSGLT2 (benefício renal comprovado, DAPA-CKD/EMPA-KIDNEY) 3. GLP-1 agonista (benefício renal comprovado, FLOW) 4. Controle glicêmico, pressão arterial e lipídios

... representa o arsenal mais completo já disponível para retardar a progressão da DRC diabética em direção ao ESKD.

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## Conclusão

O estudo FLOW de 2024 é um marco para a nefrologia: demonstrou pela primeira vez que um agonista GLP-1 reduz desfechos renais duros — não apenas marcadores substitutos — em pacientes com DM2 e DRC com macroalbuminúria. A redução de 24% no desfecho primário composto e a desaceleração do declínio de TFGe de 3,36 para 2,19 mL/min/ano têm implicações clínicas concretas para a sobrevida renal dos pacientes.

O mecanismo renal da semaglutida — natriurese tubular, anti-inflamação mesangial e melhora da resistência à insulina — é distinto e complementar ao dos iSGLT2, abrindo perspectivas para combinações terapêuticas potencialmente sinérgicas que ainda estão sendo investigadas em estudos como o COMBINE-DKD.

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## Referências

1. Perkovic V, et al. Semaglutide and kidney outcomes in people with type 2 diabetes and chronic kidney disease. *N Engl J Med*. 2024;391:109-121. DOI: 10.1056/NEJMoa2403760

2. Heerspink HJL, et al. Dapagliflozin in patients with chronic kidney disease (DAPA-CKD). *N Engl J Med*. 2020;383:1436-1446. DOI: 10.1056/NEJMoa2024816

3. The EMPA-KIDNEY Collaborative Group. Empagliflozin in patients with chronic kidney disease. *N Engl J Med*. 2023;388:117-127. DOI: 10.1056/NEJMoa2204233

4. Marso SP, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes (SUSTAIN-6). *N Engl J Med*. 2016;375:1834-1844. DOI: 10.1056/NEJMoa1607141

5. Wanner C, et al. GLP-1 receptor agonists and kidney protection: mechanisms and clinical evidence. *Nat Rev Nephrol*. 2023;19:650-663. DOI: 10.1038/s41581-023-00751-4

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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