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← Blog·Oncologia de Precisão19 de junho de 2026

Selpercatinibe e Pralsetinibe: Inibidores Seletivos de RET em CPNPC com Fusão RET e Carcinoma Medular da Tireoide

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Biologia do proto-oncogene RET: desenvolvimento normal e ativação em câncer

RET (REarranged during Transfection) é um receptor de tirosina quinase que normalmente sinaliza em resposta a neurotrofinas da família GDNF (glial cell line-derived neurotrophic factor). Expresso em neurônios entéricos, rins, adrenais e células C da tireoide, RET regula desenvolvimento neural e nefrológico.

Ativação oncogênica de RET:

1. Fusões RET (rearranjos gênicos — principalmente em CPNPC e carcinoma papilífero de tireoide): Inversões cromossômicas ou translocações que unem o domínio quinase de RET à porção 5' de um gene parceiro (>70 parceiros identificados — KIF5B é o mais comum em CPNPC, CCDC6 em tireoide). O gene parceiro fornece um promotor e um domínio de oligomerização que mantém RET-fusão continuamente dimerizada e ativa sem ligante.

2. Mutações pontuais de RET (missense):

  • M918T (éxon 16): a mutação mais oncogênica, encontrada em ~60% dos CMTs esporádicos; NEM2B hereditária
  • C634F/W/R (éxon 11): NEM2A hereditária e CMT esporádico (~30%)
  • Outras mutações em éxons 10, 11, 13, 14, 15: diversas síndromes NEM2 e CMT esporádico

Neoplasias Endócrinas Múltiplas tipo 2 (NEM2): NEM2A: CMT + feocromocitoma + hiperparatireoidismo (mutações C634 principalmente) NEM2B: CMT + feocromocitoma + neuromas mucosos + Marfanóide (mutação M918T, mais agressiva) Todos os pacientes com CMT devem ser testados para mutações germinativas de RET.

RET em carcinoma papilífero de tireoide: Fusões RET/PTC (RET-CCDC6=PTC1; RET-NCOA4=PTC3) em 10-30% dos carcinomas papilíferos, especialmente em crianças irradiadas.

Inibidores não-seletivos de RET: vandetanibe e cabozantinibe

Antes do desenvolvimento de inibidores seletivos de RET, dois multi-quinase inibidores foram aprovados para carcinoma medular da tireoide avançado: vandetanibe e cabozantinibe.

Vandetanibe: Inibidor de RET, VEGFR-2/3 e EGFR. Aprovado FDA em 2011 para CMT não-ressecável/metastático em adultos. Ensaio ZETA: SLP 30,5 vs. 19,3 meses (HR 0,46; P<0,001) vs. placebo. Doses: 300 mg/dia oral.

Limitações: 40% dos pacientes com mutações de RET mais raras (ex.: M918T) respondem bem; ~15% de pacientes RET-negativos também respondem (atividade anti-VEGFR). Toxicidades significativas: prolongamento de QTc (caixinha preta FDA — risco de Torsade de Pointes), rash cutâneo, hipertensão, diarreia.

Cabozantinibe: Inibidor de RET, MET, VEGFR-2, AXL. Aprovado FDA em 2012 para CMT progressivo. Ensaio EXAM: SLP 11,2 vs. 4,0 meses (HR 0,28; P<0,001) vs. placebo. ORR 28% vs. 0%. Doses: 140 mg/dia oral.

Toxicidades: síndrome mão-pé, diarreia, hipertensão, perda de apetito, fadiga — frequentemente dose-limitantes; ~80% dos pacientes precisam de redução de dose.

Por que eram insuficientes: Tanto vandetanibe quanto cabozantinibe têm atividade anti-RET, mas não seletiva — inibem dezenas de outras quinases, resultando em toxicidades off-target que limitam a dose e a duração do tratamento. Além disso, penetração no SNC era limitada. Daí a necessidade de inibidores seletivos de RET.

Selpercatinibe (LOXO-292): o primeiro inibidor seletivo de RET

Selpercatinibe foi desenvolvido pela Loxo Oncology com foco na seletividade para RET — o oposto da estratégia dos multi-quinase inibidores anteriores.

Potência e seletividade: IC₅₀ para RET: 0,92 nM (selvagem); 0,40 nM (V804L gatekeeper mutant). Seletividade: no painel de 371 quinases, selpercatinibe tem inibição >50% em apenas 17 quinases em concentrações 10× a IC₅₀ de RET — perfil de seletividade muito superior a vandetanibe/cabozantinibe.

Cobertura de mutações de resistência: V804L e V804M são as mutações gatekeepers análogas de RET — selpercatinibe as cobre com boa potência (ao contrário dos primeiros RET-i).

LIBRETTO-001 — CPNPC com fusão RET (Drilon et al., NEJM 2020): 253 pacientes com CPNPC RET-fusionado. Em 105 pacientes com tratamento prévio com platina:

  • ORR: 64% (IC95%: 54-73%)
  • Duração mediana de resposta (DOR): 17,5 meses
  • SLP: 16,8 meses

Em 39 pacientes virgens de tratamento:

  • ORR: 85%
  • 12-meses SLP: 75%

Resposta intracraniana (12 pacientes com metástases cerebrais mensuráveis): ORR intracraniana 91%.

LIBRETTO-001 — CMT RET-mutado: 143 pacientes com CMT RET-mutado, previamente tratados com vandetanibe e/ou cabozantinibe. ORR: 69%. Em CMT RET-mutado sem tratamento prévio com RET-i (n=88): ORR 73%.

Aprovado FDA maio 2020 para CPNPC RET+ e CMT RET+ (adultos e crianças ≥12 anos).

Pralsetinibe (BLU-667): o segundo inibidor seletivo de RET

Pralsetinibe foi desenvolvido pela Blueprint Medicines como inibidor seletivo de RET, com potência e seletividade comparáveis ao selpercatinibe mas com algumas diferenças farmacológicas.

IC₅₀ e seletividade: IC₅₀ para RET selvagem: 0,37 nM. Cobre V804M/L gatekeepers. Em painel de 355 quinases, alta seletividade comparável ao selpercatinibe.

ARROW — CPNPC RET+ (Gainor et al., Lancet Oncol 2021): 87 pacientes com CPNPC RET-fusionado previamente tratados com platina. ORR: 61%. DOR: 16,0 meses. Em pacientes virgens de tratamento (n=27): ORR 70%.

Aprovado FDA setembro 2020 para CPNPC RET-fusionado avançado e CMT RET-mutado.

ARROW — CMT RET+: 70 pacientes com CMT RET+ previamente tratados com vandetanibe e/ou cabozantinibe. ORR 60%. Em CMT sem tratamento prévio com RET-i (n=9): ORR 89%.

Selpercatinibe vs. pralsetinibe — comparação prática: Ambos têm eficácia comparável nas indicações aprovadas. Diferenças:

  • Selpercatinibe: 120 mg 2×/dia com alimentos; metabolismo via CYP3A4
  • Pralsetinibe: 400 mg 1×/dia em jejum; substrato de P-gp e CYP3A4
  • Toxicidades: ambos têm hipertensão, hepatotoxicidade, pneumonite. Pralsetinibe pode ter maior incidência de neutropenia; selpercatinibe maior incidência de edema e prolongamento de QTc.
  • Sem head-to-head; escolha baseia-se em disponibilidade, tolerância e perfil do paciente.

Respostas em pediatria e adolescentes: Ambos são aprovados para uso ≥12 anos em CPNPC e CMT com alterações de RET — relevante dado que CMT hereditário pode se manifestar na infância.

Diagnóstico molecular de fusões RET e mutações RET: abordagens e nuances

Diagnóstico em CPNPC (fusões RET): Como outras fusões em CPNPC (ALK, ROS1, NTRK), as fusões RET podem ser detectadas por:

  • FISH: Detecta rearranjos cromossômicos mas não identifica o parceiro. Sensibilidade ~70-80% para fusões expressas.
  • IHC (anticorpos pan-RET): Baixa especificidade para fusões — RET selvagem também é expresso em alguns tipos tumorais. Não recomendada como método único.
  • RT-PCR: Alta sensibilidade para parceiros conhecidos (KIF5B, CCDC6), mas "cega" para parceiros novos.
  • NGS de DNA: Detecta rearranjos mas pode perder fusões em introns grandes. Painel de DNA é adequado.
  • RNA-seq: Padrão de referência — detecta qualquer fusão expressa, independente do parceiro.

Prática atual: painéis de NGS abrangentes de DNA+RNA detectam fusões de RET (e simultaneamente ALK, ROS1, NTRK, MET éxon 14, KRAS/EGFR/BRAF) em uma única análise.

Diagnóstico em CMT (mutações pontuais RET): Mutações germinativas: testadas em sangue periférico por Sanger ou NGS — obrigatório em todos os diagnósticos de CMT (critério da ATA/SBE). Mutações somáticas: testadas no tumor por NGS.

Companion diagnostics aprovados: FoundationOneCDx (FDA PMA): detecta fusões de RET e mutações de RET para uso com selpercatinibe e pralsetinibe. Therascreen RET RT-PCR Kit também aprovado para CPNPC.

Teste de RET em síndromes de NEM2: Familiares de primeiro grau de pacientes com NEM2 devem ser testados para a mutação RET específica da família. Portadores de mutações M918T (NEM2B) devem ser tireoidectomizados eletivamente nos primeiros meses de vida — a tireoide é inevitavelmente afetada.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é NEM2 e por que pessoas com essa síndrome desenvolvem câncer de tireoide?+

NEM2 (Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2) é uma síndrome hereditária causada por mutações no gene RET que ficam ativas o tempo todo. O RET mutado força continuamente as células C da tireoide a se proliferarem, levando inevitavelmente ao carcinoma medular da tireoide. Na NEM2B (mutação M918T), o câncer de tireoide aparece tão cedo e de forma tão agressiva que recomenda-se tirar a tireoide preventivamente nos primeiros meses de vida.

Selpercatinibe e pralsetinibe são melhores que os tratamentos anteriores (vandetanibe/cabozantinibe)?+

Sim, em vários aspectos. Primeiro, são muito mais seletivos para RET, causando menos efeitos colaterais graves. Segundo, têm taxas de resposta maiores em pacientes com mutações RET confirmadas. Terceiro, atravessam a barreira hematoencefálica muito melhor, controlando metástases cerebrais. Quarto, a maioria dos pacientes consegue manter as doses por mais tempo. A ressalva é que todos os pacientes acabam desenvolvendo resistência ao longo do tempo.

Como saber se o meu câncer de pulmão tem fusão de RET?+

Pelo sequenciamento molecular do tumor — hoje obrigatório em todos os adenocarcinomas de pulmão avançados. Painel de NGS (sequenciamento de nova geração) abrangente detecta fusões de RET junto com todas as outras alterações acionáveis (EGFR, ALK, ROS1, KRAS, BRAF, MET, NTRK). A amostra pode ser biópsia do tumor ou ctDNA no plasma. Resultado em 2-3 semanas na maioria dos laboratórios.

Posso usar selpercatinibe se já usei vandetanibe ou cabozantinibe?+

Sim — e essa é exatamente uma das indicações aprovadas. O estudo LIBRETTO-001 incluiu pacientes com CMT que já tinham recebido esses medicamentos e mostraram ORR de 69%. Selpercatinibe e pralsetinibe funcionam mesmo em alguns casos de resistência ao vandetanibe/cabozantinibe, porque os mecanismos de resistência não são idênticos e a maior seletividade permite inibição mais eficiente de RET.

RET fusionado em pulmão é a mesma coisa que RET mutado em tireoide?+

São alterações diferentes no mesmo gene, mas com o mesmo efeito final: RET constitutivamente ativo. Fusões (onde RET se une a outro gene) são o mecanismo predominante em CPNPC (~95% das alterações RET em pulmão). Mutações pontuais são predominantes em CMT (~95%). Embora a alteração molecular seja distinta, ambas resultam em RET ativo e ambas respondem aos inibidores selpercatinibe/pralsetinibe.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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