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← Blog·Saúde21 de junho de 2026

Secretina e VIP: Os Peptídeos Intestinais que Coordenam a Digestão Pancreática e Neurotransmissão

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Equipe PeptídeosBio
Equipe Peptídeos Bio
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Secretina: O Primeiro Hormônio Descoberto

Em 1902, Bayliss e Starling realizaram o experimento que fundou a endocrinologia: injetaram extrato do mucosa intestinal de cão desnervado intravenosamente → o pâncreas secretou suco pancreático. Nomearam a substância ativa secretina e o conceito de "hormônio" (substância química carregada pelo sangue para coordenar órgãos distantes).

A secretina foi, portanto, o primeiro hormônio descoberto — e Starling cunhou o próprio termo "hormônio" (do grego *hormaein* = excitar) para descrever esses mensageiros químicos internos.

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Estrutura da Secretina e da Família

A secretina humana tem 27 aminoácidos com estrutura α-helicoidal e é o membro fundador da família secretina de peptídeos:

Família Secretina (compartilham precursor ancestral e estrutura helicoidal):

  • Secretina (27 aa)
  • GLP-1 (30 aa) + GLP-2 (33 aa) — ambos do mesmo gene (Glucagon — via PC1/3 no intestino)
  • Glucagon (29 aa)
  • GIP (Glucose-dependent Insulinotropic Peptide — 42 aa)
  • VIP (Vasoactive Intestinal Peptide — 28 aa)
  • PACAP (Pituitary Adenylate Cyclase-Activating Polypeptide — 38 aa)
  • PHI/PHM (Peptide Histidine Isoleucine/Methionine)

Todos agem via GPCRs classe B que sinalizam principalmente por Gαs → AMPc.

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Secretina: Fisiologia e Usos Clínicos

Regulação da Secreção

Células S (duodeno proximal) produzem secretina em resposta a:

  • Ácido gástrico no duodeno (pH < 4,5): Principal estímulo → secretina → pâncreas → bicarbonato → neutralização do ácido
  • Ácidos graxos de cadeia longa no duodeno: Estímulo adicional
  • Bile no duodeno: Leve estímulo

Inibição:

  • pH duodenal > 4,5: Menos secretina (feedback negativo pelo próprio HCO₃⁻ que já chegou)
  • Somatostatina: Inibe secretina

Ação no Pâncreas (Células Ductais)

Secretina → receptor SCTR (Secretin Receptor) nas células ductais e centroacinares pancreáticas:

  • Gαs → AMPc → PKA → CFTR ativado (cystic fibrosis transmembrane regulator — canal Cl⁻)
  • CFTR → Cl⁻ lúmen → AE2 (anion exchanger) → HCO₃⁻ para o lúmen em troca de Cl⁻
  • Resultado: Suco pancreático alcalino rico em HCO₃⁻ (pH 7,5–8,5) → 2–3 litros por dia

Fibrose Cística e Secreção Pancreática:

  • CFTR mutado (FC) → menos Cl⁻ → menos HCO₃⁻ → suco pancreático espesso e ácido → bloqueia ductos → destruição acinar → insuficiência pancreática exócrina em 85% dos pacientes com FC grave

Ação na Vesícula Biliar (com CCK)

Secretina + CCK = sinergia para digestão de gordura:

  • Secretina → ampliação da resposta de CCK na vesícula biliar (potencializa contração)
  • Secretina também estimula fígado a secretar bile mais aquosa (menos concentrada, mais volume)

Uso Clínico: Teste de Secretina

O teste de secretina é o gold standard para diagnóstico de Síndrome de Zollinger-Ellison (gastrinoma):

  • Secretina IV → normalmente SUPRIME gastrina (feedback negativo)
  • No ZES (gastrinoma): Secretina IV → paradoxalmente AUMENTA gastrina >200 pg/mL acima do basal
  • Sensibilidade: 85–90%, especificidade >95% para ZES

Também usado como teste funcional pancreático exócrino (mede produção de HCO₃⁻) em insuficiência pancreática exócrina.

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VIP (Vasoactive Intestinal Peptide): Neurotransmissor Intestinal

Estrutura e Distribuição

VIP é um peptídeo de 28 aminoácidos da família secretina, mas com papel dual — hormônio E neurotransmissor:

  • SNC: Córtex cerebral, hipocampo, amígdala
  • SNP: Sistema nervoso entérico (neurônios do plexo submucoso de Meissner e mioentérico de Auerbach)
  • Pulmão: Nervos vasoativos
  • Pâncreas

Receptores VPAC1 e VPAC2

VPAC1 (VIP e PACAP): Alta expressão em pulmão, intestino delgado, estômago, linfócitos VPAC2: Alta expressão em músculo liso vascular, músculo esquelético, pâncreas, cérebro

  • Ambos: Gαs → AMPc → PKA → efeitos de relaxamento e secreção

Ações do VIP no Intestino

  • Relaxamento de músculo liso: VIP via VPAC1 → AMPc → menos Ca2+ → músculo liso relaxa → reto para armazenar fezes (co-transmissor inibidor junto com NO)
  • Secreção de Cl⁻ e água: VIP → VPAC1 em células epiteliais → AMPc → CFTR → Cl⁻ secretado → osmose → mais água no lúmen → secreção ativa
  • Anti-inflamatório intestinal: VIP → VPAC1 em macrófagos → menos TNF-α, IL-6, IL-12 → pró-Th2

VIP na Motilidade Intestinal

  • Esfíncter anal interno (EAI): VIP co-liberado com NO pelos neurônios inibitórios do plexo → relaxamento do EAI para defecação
  • Doença de Hirschsprung: Falta de neurônios VIP/NO no segmento aganglionar → EAI sempre contraído → obstrução
  • Retocolite ulcerativa: VIP reduzido na mucosa inflamada → menos inibição de inflamação → mais ciclo inflamatório

VIPoma: A Síndrome de Verner-Morrison

O VIPoma (tumor neuroendócrino secretor de VIP) causa a síndrome de Verner-Morrison (1958):

  • VIP elevado sistemicamente → secreção de Cl⁻ massiva no intestino → diarreia secretória aquosa massiva (> 3 litros/dia), hipocalemia (K+ perdido nas fezes), acloridria
  • "WDHA Syndrome": Watery Diarrhea, Hypokalemia, Achlorhydria
  • Localização: 80% pâncreas, 20% retroperitônio ou outros locais neurais
  • Diagnóstico: VIP sérico > 200 pg/mL + síndrome WDHA
  • Tratamento: Octreotida (análogo de somatostatina) → reduz secreção de VIP → melhora diarreia + cirurgia

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PACAP: O VIP Superior

PACAP (Pituitary Adenylate Cyclase-Activating Polypeptide) tem 38 aa (PACAP-38) e 27 aa (PACAP-27), com homologia de 68% com VIP nos primeiros 28 aa:

Receptores:

  • PAC1R: Alta seletividade para PACAP (500–1000× mais que VIP)
  • VPAC1R e VPAC2R: Também VIP

PACAP e migrânea: PACAP (via PAC1R) é pró-migrânea — infusão de PACAP em migrânosos causa crise em 73% vs. 18% de controles. Anticorpos anti-PAC1R (em desenvolvimento) como possível tratamento.

PACAP e neuroproteção: PACAP → PAC1R no SNC → PI3K/AKT + ERK + BDNF → neuroproteção em isquemia cerebral e doenças neurodegenerativas.

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Referências

  1. Bayliss WM, Starling EH. "The mechanism of pancreatic secretion." *J Physiol.* 1902;28(5):325–353.
  2. Said SI, Mutt V. "Polypeptide with broad biological activity: isolation from small intestine." *Science.* 1970;169(3951):1217–1218.
  3. Verner JV, Morrison AB. "Islet cell tumor and a syndrome of refractory watery diarrhea and hypokalemia." *Am J Med.* 1958;25(3):374–380.
  4. Jensen RT. "Gastrin-producing tumors." *Cancer Treat Res.* 1997;89:393–406.
  5. Vaudry D, et al. "Pituitary adenylate cyclase-activating polypeptide and its receptors: 20 years after the discovery of the neuropeptide." *Pharmacol Rev.* 2009;61(3):283–357.
  6. Delgado M, Ganea D. "Vasoactive intestinal peptide: a neuropeptide with pleiotropic immune functions." *Cell Mol Life Sci.* 2013;70(4):535–545.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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