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← Blog·Oncologia de Precisão25 de junho de 2026

Inibidores de JAK na Mielofibrose e Policitemia Vera: Ruxolitinibe (COMFORT), Fedratinibe (JAKARTA) e Pacritinibe (PERSIST)

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Via JAK-STAT e mutações driver em neoplasias mieloproliferativas (NMPs)

A via JAK-STAT em hematopoese normal: JAK (Janus Kinase) são tirosinas quinases não-receptoras que medeiam sinalização de citocinas hematopoéticas:

  • JAK2: ativado por EPO, TPO, G-CSF, IL-3 → proliferação de eritrócitos, plaquetas e granulócitos
  • JAK1: citocinas inflamatórias (IL-6, IFN-γ)
  • JAK3: receptor γ-comum (IL-2, IL-4, IL-7) — linfopoese
  • TYK2: IFN-α/β, IL-12

Quando citocina liga ao receptor → receptor ativa JAK → JAK fosforila receptor → STAT (Signal Transducer and Activator of Transcription) se liga ao receptor fosforilado → STAT é fosforilado por JAK → STAT dimeriza → entra no núcleo → ativa genes de proliferação/sobrevivência.

Mutação JAK2 V617F (NMPs): Substituição valina→fenilalanina na posição 617 de JAK2. Domínio pseudoquinase (JH2, normalmente inibidor do domínio catalítico JH1) perde sua capacidade inibitória. Resultado: JAK2 constitutivamente ativo SEM ligação de citocina. Células hematopoéticas se proliferam de forma autônoma.

  • Policitemia vera (PV): JAK2 V617F em >95% dos casos → hiperproliferação de glóbulos vermelhos
  • Trombocitemia essencial (TE): JAK2 V617F em ~60% + CALR em ~25%
  • Mielofibrose (MF): JAK2 V617F em ~60% + CALR em ~25% + MPL em ~5-10%

Mutação CALR: Inserção/deleção no éxon 9 da calreticulina → proteína CALR mutante liga MPL (receptor de TPO) de forma ativadora → JAK2 ativado via MPL → similar ao V617F. CALR tipo 1 (~60%): deleção de 52pb; CALR tipo 2 (~40%): inserção de 5pb. CALR mutante tem melhor prognóstico que JAK2 V617F em MF.

Mutação MPL (receptor de TPO): MPL W515L/K: ativa diretamente JAK2 (MPL associado a JAK2) sem necessidade de ligação de TPO.

Mielofibrose: fisiopatologia, prognóstico e quando tratar

Mielofibrose (MF): a mais grave das NMPs: MF primária (PMF) ou secundária a PV/TE. Caracterizada por:

  • Fibrose da medula óssea (TGF-β liberado por megacariócitos anormais → fibroblastos depositam colágeno)
  • Hematopoese extramedular: esplenomegalia maciça (células precursoras migram para baço/fígado)
  • Citopenia progressiva: anemia, trombocitopenia (medula funcionalmente substituída por fibrose)
  • Sintomas constitucionais severos: fadiga profunda, suores noturnos, perda de peso, prurido aquagênico
  • Evolução para leucemia aguda (AML): 10-20% em 10 anos

Classificação de risco — DIPSS/DIPSS-plus: Fatores de risco: idade >65, leucócitos >25K, Hb <10g/dL, blastos circulantes ≥1%, sintomas constitucionais.

  • Baixo risco (0): mediana SG ~135 meses
  • Intermediário-1 (1 fator): ~95 meses
  • Intermediário-2 (2-3): ~48 meses
  • Alto risco (4-5): ~16 meses

Critérios para iniciar tratamento: Baixo risco assintomático: watchful waiting. Indicações de tratamento:

  • Esplenomegalia sintomática (dor, saciedade precoce)
  • Sintomas constitucionais severos (score MPN-SAF ≥22 ou individual ≥5)
  • Anemia transfusão-dependente
  • Leucocitose sintomática ou progressiva
  • Trombocitopenia progressiva

Transplante alogênico (ASCT): Única opção curativa. Indicado em MF intermediário-2 e alto risco, ≤70 anos, com doador. Mortalidade relacionada ao transplante (TRM): 15-30%. Recaída: 20-30%. Ruxolitinibe pré-transplante (para reduzir baço) melhora logística.

COMFORT-I e COMFORT-II: ruxolitinibe — a revolução no manejo de mielofibrose

Ruxolitinibe (Jakafi®/Jakavi®, INCB018424): Inibidor seletivo de JAK1 e JAK2. IC₅₀ JAK1: 3,3 nM; JAK2: 2,8 nM. Inibe tanto JAK2 V617F como JAK2 WT (wild-type). Dose: 20 mg 2×/dia (plaquetas >200K); 15 mg 2×/dia (100-200K); 5 mg 2×/dia (50-100K).

COMFORT-I (Verstovsek et al., NEJM 2012) — EUA: 309 pacientes PMF/post-PV MF/post-TE MF, int-2/alto risco, com sintomas. Ruxolitinibe vs. placebo. Primary endpoint: redução de esplenomegalia ≥35% (por MRI) em 24 semanas.

Redução de baço ≥35%: 41,9% vs. 0,7% (P<0,001). Melhora sintomática (MPN-SAF): 45,9% vs. 5,3%. SG: HR 0,58 (P=0,009) em análise de cruzamento (crossover).

COMFORT-II (Harrison et al., NEJM 2012) — Europa: 219 pacientes. Ruxolitinibe vs. melhor terapia disponível (BAT). Redução de baço ≥35% em 48 semanas: 28,5% vs. 0% (P<0,001). SG superior com ruxolitinibe no follow-up longo.

Aprovação FDA: novembro 2011 para MF (PMF, post-PV MF, post-TE MF).

Impacto clínico de ruxolitinibe em MF: Esplenomegalia: reduz em todos os pacientes (média -30%) mas raramente elimina completamente. Sintomas: 50-60% dos pacientes têm melhora significativa de fadiga, suores, prurido. Fibrose: NÃO melhora fibrose medular de forma consistente — é controle de sintomas, não modificação de doença. SG: dados de registro mostram benefício, mas estudos randomizados têm limitações de crossover.

Toxicidade hematológica: Anemia: 96% dos pacientes em ruxolitinibe (35% grau 3-4). Transfusões em ~45%. Trombocitopenia: 70% qualquer grau (12% grau 3-4). Causa: JAK2 é necessário para eritropoese e trombopoese normais → inibição causa citopenia. Neutropenia: menos frequente (menos dependência de JAK2 na granulopoese).

JAKARTA e JAKARTA2: fedratinibe pós-ruxolitinibe refratário/intolerante

Fedratinibe (Inrebic®, SAR302503/TG101348): Inibidor de JAK2, FLT3 e RET. Dose: 400 mg/dia oral. Distingue-se do ruxolitinibe por menor atividade em JAK1 → menos imunossupressão, potencialmente.

JAKARTA (Harrison et al., Lancet Oncol 2017) — 1ª linha MF: 289 pacientes PMF/post-PV MF/post-TE MF, int-2/alto risco, virgens de inibidor JAK. Fedratinibe 400mg ou 500mg ou placebo por 6 ciclos.

Redução de baço ≥35% em 24 semanas: 36% (400mg) e 40% (500mg) vs. 1% placebo. Melhora sintomática (TSS ≥50%): 36% vs. 7%. Aprovação FDA: agosto 2019 para MF int-2 ou alto risco (1ª e 2ª linha).

JAKARTA2 — pós-ruxolitinibe refratário/intolerante: 97 pacientes com MF previamente tratados com ruxolitinibe (refratários ou intolerantes). Fedratinibe 400 mg. Redução de baço ≥35%: 55% dos avaliáveis (38% por ITT). Melhora sintomática TSS≥50%: 26%.

Encefalopatia de Wernicke (EW) — alerta de segurança crítico: Casos de EW (deficiência de tiamina/B1 levando a encefalopatia, oftalmoplegia, ataxia) foram reportados em estudos iniciais de fedratinibe → FDA colocou HOLD clínico em 2013 (suspenso por 5 anos). Reiniciado com REMS: dosagem de tiamina antes e durante; suplementação profilática. Fedratinibe deve-se combinar com tiamina oral 100 mg 3×/dia durante o tratamento.

Uso de fedratinibe: Principal indicação atual: MF intolerante a ruxolitinibe (anemia/trombocitopenia grave) ou progressão após ruxolitinibe. Alternativa de 2ª linha padrão após ruxolitinibe.

Pacritinibe (PERSIST-2) e ruxolitinibe na policitemia vera (RESPONSE)

Pacritinibe (Vonjo®, SB1518) — para MF com plaquetas <50K: Inibidor de JAK2, FLT3, IRAK1 e CSF1R. Dose: 200 mg 2×/dia oral. Crucialmente: baixíssima atividade em JAK1 e JAK3 → menos mielossupressão → adequado para pacientes com plaquetopenia grave.

PERSIST-2 (Mesa et al., JAMA Oncol 2017) — MF com plaquetas ≤100K: 311 pacientes MF com plaquetas ≤100K. Pacritinibe 200mg 2×/dia ou 400mg/dia vs. melhor terapia disponível (incluindo ruxolitinibe).

Redução de baço ≥35% em 24 semanas: 22% (200mg) vs. 3% (BAT). Melhora sintomática TSS≥50%: 25% vs. 14%.

Aprovação FDA: fevereiro 2022 para MF com plaquetas <50K (nicho único — única opção para pacientes plaquetopênicos onde ruxolitinibe seria contraindicado ou perigoso).

Ruxolitinibe em Policitemia Vera (RESPONSE): Pacientes com PV refratária ou intolerante a hidroxiureia.

RESPONSE (Vannucchi et al., NEJM 2015): 222 pacientes. Ruxolitinibe vs. melhor terapia disponível. Controle do hematócrito sem flebotomia + redução de baço ≥35%: 21% vs. 1% (P<0,001). Resolução de sintomas: 49% vs. 5%. Aprovação FDA: dezembro 2014 para PV refratária/intolerante a hidroxiureia.

Ruxolitinibe em DOENHA do Enxerto vs. Hospedeiro (GVHD): Ruxolitinibe inibe JAK1/2 → suprime citocinas pró-inflamatórias (IL-6, IFN-γ, TNF) envolvidas na fisiopatologia de GVHD. REACH2 (Zeiser et al., NEJM 2020): ruxolitinibe vs. terapia padrão em GVHD aguda grau 3-4 corticosteróide-refratária. OR em D28: 62% vs. 39% (P<0,001). Aprovação FDA: maio 2019 para GVHD aguda ≥12a corticóide-refratária. REACH3: GVHD crônica. Or: 49% vs. 26% (P<0,001). Aprovação FDA: setembro 2021.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é mielofibrose e como o ruxolitinibe ajuda?+

Mielofibrose é uma doença da medula óssea em que células cancerosas produzem fibrose progressiva (cicatrizes) na medula, empurrando a produção de células sanguíneas para o baço e fígado, que incham muito (esplenomegalia maciça). Os pacientes têm fadiga profunda, sudorese noturna, perda de peso, anemia e risco de transformar em leucemia aguda. Ruxolitinibe (Jakafi) inibe a proteína JAK2 que está hiperativa em >95% dos casos de mielofibrose (por mutações como JAK2 V617F) — isso reduz o baço em quase todos os pacientes (em 40% reduz >35%) e melhora drasticamente os sintomas constitucionais. Não cura a doença mas muda a qualidade de vida de forma significativa. A única cura é o transplante alogênico de células-tronco.

Que mutação causa mielofibrose e como ela é detectada?+

Três mutações 'driver' causam a maioria dos casos de mielofibrose: JAK2 V617F (~60%), mutações no CALR (calreticulina, ~25%) e MPL (~5-10%). Todas ativam a mesma via de sinalização (JAK-STAT) de forma constitutiva, levando à hiperproliferação celular desordenada. A detecção é por biópsia de medula (que mostra a fibrose e morfologia celular) combinada com exames moleculares no sangue: PCR para JAK2 V617F, sequenciamento para CALR e MPL. ~5-10% dos pacientes são 'triplo-negativos' (sem essas mutações) — outros genes podem estar envolvidos (ASXL1, EZH2, etc.). O diagnóstico requer integração de morfologia medular, mutações e quadro clínico.

Por que ruxolitinibe causa anemia e baixa de plaquetas?+

A proteína JAK2 é essencial para o organismo produzir glóbulos vermelhos (estimulada pela eritropoetina) e plaquetas (estimulada pela trombopoetina). Quando ruxolitinibe inibe JAK2 — mesmo que o objetivo seja inibir o JAK2 mutado nas células de mielofibrose — ele também inibe o JAK2 normal nas células-tronco saudáveis da medula. Isso reduz a produção normal de hemácias e plaquetas, causando anemia (em ~96% dos pacientes) e trombocitopenia (em ~70%). A dose de ruxolitinibe é ajustada baseada na contagem de plaquetas: doses menores em pacientes com plaquetas mais baixas. Transfusões de sangue são necessárias em até 45% dos pacientes durante o tratamento.

Fedratinibe pode ser usado depois que ruxolitinibe não funciona mais?+

Sim — fedratinibe (Inrebic) foi aprovado exatamente para esse cenário. No estudo JAKARTA2, pacientes que já tinham usado ruxolitinibe e eram refratários (doença continuou progredindo) ou intolerantes (não conseguiram manter a dose por toxicidade) responderam ao fedratinibe: 55% tiveram redução significativa do baço. Uma precaução importante: fedratinibe pode causar deficiência de vitamina B1 (tiamina), levando a uma encefalopatia grave chamada Wernicke. Por isso, TODOS os pacientes em fedratinibe devem tomar tiamina oral (100mg 3 vezes ao dia) durante todo o tratamento, e os níveis de tiamina são monitorados regularmente.

Quais são as opções de tratamento para mielofibrose com plaquetas muito baixas?+

Quando as plaquetas estão muito baixas (<50.000/μL), o ruxolitinibe padrão é perigoso — porque inibe JAK2, que mantém a produção de plaquetas, piorando ainda mais a trombocitopenia. Para esses casos, pacritinibe (Vonjo) é a única opção aprovada: ele tem muito menos efeito na inibição de JAK1 e JAK3 (que afetam as plaquetas) e pode ser usado mesmo com plaquetas menores que 50.000/μL. No estudo PERSIST-2, funcionou em pacientes que não podiam receber outros tratamentos. Além disso, fedratinibe também causa menos mielossupressão que ruxolitinibe. O transplante alogênico continua sendo a única opção curativa para mielofibrose de alto risco quando o paciente tem condição clínica.

Referências Científicas

  1. . , .
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  3. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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