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Relaxina: Peptídeo Gravídico, Fibrose Tecidual, Insuficiência Cardíaca Aguda (Serelaxina) e Estudos RELAX-AHF

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Relaxina: Família da Insulina

Estrutura e Família

Família da insulina:

  • Relaxina é membro da superfamília da insulina: estrutura A-B com pontes dissulfeto
  • Gene: RLN1 (relaxina 1) e RLN2 (relaxina 2) em humanos
  • Relaxina 2 (H2-relaxina): principal forma circulante em humanos; 53 aminoácidos total (cadeia A: 24aa + cadeia B: 29aa)
  • Processamento: pré-pró-relaxina → pró-relaxina (cadeia C) → relaxina madura (clivagem de pró-C)
  • Análoga à pró-insulina: pró-C clivado (equivalente ao peptídeo C)

Família de relaxinas:

  • H1, H2, H3 (humano); 3 genes RLN1-3
  • INSL (Insulin-like) 1-6: relacionados; papéis em fertilidade, comportamento
  • H3: neuropeptídeo → núcleo incerto e área hipotalâmica lateral → controle de alimentação

Receptores RXFP1-4

RXFP1 (Relaxin Family Peptide Receptor 1):

  • Principal receptor de relaxina H2
  • GPCR acoplado a Gs (AMPc) → PKA + outros; também via Gi e GαI3 em algumas células
  • Localização: coração, rins, pulmão, artérias, fígado, útero, bexiga

RXFP2: relaxina H1; INSL3 em testículos (descida dos testículos na gestação masculina) RXFP3: H3 no cérebro → alimentação e estresse RXFP4: INSL5 no cólon

Funções Fisiológicas da Relaxina

Papel na Gravidez

Corpo lúteo gestacional:

  • Produção máxima: 1º trimestre (pico ~1 ng/mL sérico em semana 10–14)
  • Queda progressiva até o termo (mas ainda detectável no 3º trimestre)
  • Placenta: produz relaxina durante todo o 3º trimestre

Efeitos obstétricos:

  1. Relaxamento de ligamentos pélvicos: relocaliza a sínfise pública e articulações sacroilíacas → mais mobilidade pélvica para o parto
  2. Amadurecimento do colo uterino: degradação de colágeno cervical (via MMP — metaloproteinases) + hidrófobia de glicosaminoglicanos → mais maleável
  3. Inibição de contrações uterinas prematuras: relaxina modula sistema endocanabinoide no miométrio

Adaptações cardiovasculares na gravidez (mediadas em parte pela relaxina):

  • Vasodilatação renal: aumento de TFG (filtragem glomerular) de 50%
  • Relaxina → RXFP1 em células endoteliais → NO (óxido nítrico) + prostaglandinas → relaxamento vascular
  • Débito cardíaco: +40–45% durante gravidez; relaxina contribui reduzindo resistência vascular

Efeitos Anti-Fibróticos

Fibrose: o papel da TGF-β:

  • TGF-β é o principal indutor de fibrose: ativa miofibroblastos → produção de colágeno I/III
  • Relaxina: antagoniza TGF-β de múltiplas formas:

- Inibe Smad2/3 (via TGF-β sinalizacional) - Estimula MMP-1, MMP-2, MMP-9 (degradam colágeno) - Inibe TIMP-1 e TIMP-2 (inibidores de MMPs) - Estimula relaxina-procolágenase (collagenase) diretamente

Modelos de fibrose tratados com relaxina:

  • Fibrose pulmonar (IPF): modelos de bleomicina em ratos → relaxina reduz colágeno pulmonar
  • Fibrose hepática: modelo CCl4 → relaxina preserva arquitetura hepática
  • Fibrose renal: modelo 5/6 nefrectomia → relaxina reduz fibrose intersticial
  • Fibrose cardíaca: pós-infarto → relaxina reduz remodelamento

Relaxina e Insuficiência Cardíaca

Por Que Relaxina em ICAD?

Insuficiência cardíaca aguda descompensada (ICAD):

  • Principal causa de hospitalização em adultos > 65 anos nos países desenvolvidos
  • Mortalidade intra-hospitalar: ~5%; mortalidade em 90 dias pós-alta: 15–25%
  • Tratamento convencional: diuréticos IV (furosemida) + vasodilatadores (nitratos/nesiritida)
  • Problema: nesiritida (BNP) sem benefício em mortalidade; diuréticos → insuficiência renal

Hipótese com relaxina:

  • Relaxina → vasodilatação sistêmica + renal (aumento de TFG) → menos congestão + preservação renal
  • Mais vasodilatação com menos insuficiência renal (diferente dos nitratos)

RELAX-AHF (2013 — Lancet)

Trial RELAX-AHF:

  • 1161 pacientes com ICAD; serelaxina 30 μg/kg/dia IV × 48h vs. placebo
  • Desfecho primário: dispneia moderada/grave em 5 dias (VAS)

Resultados:

  • Dispneia nas primeiras 48h: significativamente melhor com serelaxina (p=0,007)
  • Mortalidade cardiovascular em 180 dias: 6,1% vs. 9,6% (placebo) → redução de 37% (p=0,028)
  • Piora de insuficiência cardíaca e renal: ambas menores com serelaxina

Limitação: mortalidade foi desfecho secundário exploratório, não primário pré-especificado

RELAX-AHF 2 (2017 — JAMA)

Designado para confirmar o benefício em mortalidade:

  • 6545 pacientes; desfecho primário: mortalidade cardiovascular + piora de IC em 180 dias

Resultado:

  • Mortalidade cardiovascular: sem diferença significativa entre serelaxina e placebo
  • Sem benefício em desfecho primário
  • Serelaxina: não aprovada pela FDA para ICAD (dados inconsistentes entre RELAX-AHF 1 e 2)

Hipóteses para discordância:

  • RELAX-AHF 1: população selecionada com PAS ≥ 125 mmHg + creatinina < 3 mg/dL
  • RELAX-AHF 2: critérios ampliados → população mais heterogênea
  • Efeito real de serelaxina pode ser pequeno em populações não selecionadas

Fibrose Pulmonar e Usos Futuros da Relaxina

IPF (Fibrose Pulmonar Idiopática)

Relaxina em fibrose pulmonar:

  • IPF: fibrose progressiva sem causa identificada; prognóstico grave (sobrevida mediana 3–5 anos)
  • Tratamentos aprovados: nintedanibe e pirfenidona (C673 deste blog)
  • Relaxina em IPF: dados apenas pré-clínicos/fase 1
  • Hipótese: relaxina anti-TGF-β + pró-MMP → pode retardar fibrose + não tem efeito imunossupressor sistêmico
  • Trial fase 2 em avaliação (dados limitados disponíveis publicamente)

Relaxina em Esclerodermia (SSc)

Esclerodermia sistêmica:

  • Fibrose cutânea e visceral severa; TGF-β elevado
  • Trial fase 2 (Khanna D et al. 2009, *Arthritis Rheum*): relaxina 25 μg/kg/dia IV × 24 semanas
  • Melhora de escore de pele (modified Rodnan Skin Score) — discreto benefício
  • Sem aprovação; dados insuficientes para uso clínico

Relaxina em Esclerose Renal

Nefropatia diabética e fibrose renal:

  • Relaxina + SGLT2i: sinergia anti-fibrótica hipotética (SGLT2i reduz TGF-β; relaxina inibe colágeno)
  • Sem dados clínicos prospectivos ainda; área ativa de pesquisa

Relaxina e Saúde Musculoesquelética

Relaxamento de tendões e ligamentos:

  • Relaxina relaxa ligamentos → em atletas femininas grávidas ou em uso de anticoncepcionais: mais frouxidão ligamentar
  • Lesão de LCA: mais frequente em mulheres? Hipótese de relaxina como fator de risco
  • Dados contraditórios; biomecânica complexa

Referências

  1. Bathgate RA, et al. "Relaxin family peptides and their receptors." *Physiol Rev*. 2013;93(1):405-80. DOI: 10.1152/physrev.00001.2012
  1. Teerlink JR, et al. "Serelaxin, recombinant human relaxin-2, for treatment of acute heart failure (RELAX-AHF): a randomised, placebo-controlled trial." *Lancet*. 2013;381(9860):29-39. DOI: 10.1016/S0140-6736(12)61855-8
  1. Metra M, et al. "Effects of serelaxin in patients with acute heart failure: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial (RELAX-AHF-2)." *Lancet*. 2019;393(10185):1967-77. DOI: 10.1016/S0140-6736(19)30765-4
  1. Samuel CS, et al. "Relaxin as a disease modifier in renal and cardiac fibrosis." *Ann N Y Acad Sci*. 2009;1160:288-95. DOI: 10.1111/j.1749-6632.2009.03882.x
  1. Khanna D, et al. "Recombinant human relaxin in the treatment of systemic sclerosis with diffuse cutaneous involvement: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial." *Arthritis Rheum*. 2009;60(4):1102-11. DOI: 10.1002/art.24380
  1. Conrad KP. "Maternal vasodilation in pregnancy: the emerging role of relaxin." *Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol*. 2011;301(2):R267-75. DOI: 10.1152/ajpregu.00156.2011
  1. Sherwood OD. "Relaxin's physiological roles and other diverse actions." *Endocr Rev*. 2004;25(2):205-34. DOI: 10.1210/er.2003-0013

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Veja Também: Explore nosso Hub de Ciência e Conceitos para aprofundar o estudo de peptídeos hormonais e suas aplicações terapêuticas. Leia também: Guia Completo de Peptídeos, Peptídeos e Saúde Cardiometabólica, Jornada Peptídeos — Longevidade Saudável.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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