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← Blog·Oncologia20 de junho de 2026

Peptídeos em Oncologia Urológica: Câncer de Próstata, Bexiga e Rim — Sipuleucel, Pembrolizumabe, Enfortumabe

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Equipe Peptídeos Bio
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# Peptídeos em Oncologia Urológica: Câncer de Próstata, Bexiga e Rim

A oncologia urológica abrange cânceres com alta prevalência (próstata: 2º mais comum em homens globalmente; bexiga: 4º em homens) e dinâmica terapêutica em rápida transformação — de bloqueio androgênico hormonal convencional para terapias genicas/radioligantes e ADCs (antibody-drug conjugates). Os peptídeos participam como ligantes de receptores tumorais (PSMA, urothelial surface antigens), biomarcadores (PSA, PSMA circulante, NMP22) e componentes das terapias radioguiadas (PSMA-617).

Câncer de Próstata Avançado

Biologia Molecular e Progressão para CRPC

O câncer de próstata é dependente do receptor androgênico (AR) em virtualmente todos os estadios. O tratamento de primeira linha do câncer de próstata metastático é a deprivação androgênica (ADT — orquiectomia ou análogos de GnRH: leuprolida, goserelina, buserelina + antagonistas GnRH: degarelix, relugolix). Com ADT, os níveis de testosterona caem para < 50 ng/dL (castração); no entanto, o tumor frequentemente escapa formando a resistência à castração (CRPC, castration-resistant prostate cancer) — via:

  • Amplificação de AR: Mais AR → sinalização mesmo com androgênios mínimos
  • Mutações de AR (L702H, W742C, T878A): Agonismo inverso — ligantes antiandrogênicos (enzalutamida, bicalutamida) ativam AR mutado
  • AR splice variant V7 (AR-V7): Truncamento alternativo sem domínio de ligação ao ligante → sinalização constitutiva independente de androgênio → resistência a enzalutamida e abiraterona
  • Bypass de AR: Ativação de vias alternativas (AKT/mTOR, MAPK, Wnt) → crescimento AR-independente (neuroendócrino transformation, NEPC)

Enzalutamida, Abiraterona e ARPIs de Nova Geração

Abiraterona acetato (Zytiga®): Inibidor da CYP17A1 (17α-hidroxilase/17,20-liase) que converte pregnenolona em DHEA e androstenediona (síntese de androgênios adrenais e intratumorais) → bloqueia todas as fontes de androgênio (adrenal + intratumoral). Associada a prednisona para compensar supressão de cortisol (CYP17 bloqueia síntese de cortisol também → ACTH reflexo sobe → retenção de sódio sem prednisona). Aprovado FDA 2011 (mCRPC pós-docetaxel), 2012 (pré-quimio) e 2018 (mHSPC com docetaxel, LATITUDE).

Enzalutamida (Xtandi®): ARPI (androgen receptor pathway inhibitor) de segunda geração — compete com androgênios na ligação ao LBD (ligand-binding domain), impede translocação nuclear, coativador-recruitment e ligação ao DNA-ARE. OS superior a placebo em mCRPC pré e pós-quimio (AFFIRM e PREVAIL trials). ARCHES trial (mHSPC): enzalutamida + ADT vs. ADT → OS HR 0,66. Efeitos adversos: convulsões (< 1%, reduzido na nova geração), astenia, hipertensão, cognição.

Apalutamida (Erleada®, ARAGON/SPARTAN/TITAN), darolutamida (Nubeqa®, ARAMIS/ARASENS): Geração 3 de ARPIs; menor penetração da BBB (menos convulsões — darolutamida mínima); aprovados em CSPC não-metastático de alto risco (M0-CRPC com PSA-DT < 10 meses) e mHSPC.

Sipuleucel-T (Provenge®): Primeira Vacina Antitumoral Aprovada

O sipuleucel-T é uma vacina terapêutica autóloga de células dendríticas — aprovada FDA 2010 para mCRPC assintomático/minimamente sintomático. Processo: leucaférese → células mononucleares periféricas (incluindo células dendríticas precursoras) são incubadas com PA2024 (proteína de fusão: fosfatase ácida prostática PAP + GM-CSF) × 36-44h → células dendríticas apresentam o antígeno PAP → infusão IV × 3 doses em 4 semanas. PA2024 ativa células T CD4+ e CD8+ contra PAP (expressão alta na próstata; limitada em outros tecidos).

Ensaio IMPACT (Kantoff et al., NEJM 2010, N=512 mCRPC): sipuleucel-T vs. placebo → OS 25,8 vs. 21,7 meses (HR 0,78, melhora de 4,1 meses, P=0,02); sem diferença em PFS (vacinas terapêuticas têm padrão de resposta retardado, clássico). PSA sem mudança → subgrupos com resposta imune documentada tiveram melhor OS.

Lutetio-PSMA-617 (¹⁷⁷Lu-PSMA-617, Pluvicto®)

O PSMA (prostate-specific membrane antigen, FOLH1) é uma metalopeptidase transmembrana (glutamate carboxypeptidase II) superexpressa em CaP — especialmente em CRPC e especialmente em metástases (expressão 100-1000× superior ao epitélio prostático normal). PSMA tem sítio de ligação para seus ligantes peptídicos (EuK-complexes, urea-based PSMA ligands): o ligante PSMA-617 liga-se ao sítio catalítico de PSMA → complexado com ¹⁷⁷Lu (emite β⁻ e γ) → internalizado → irradiação citotóxica intracelular (~10 mm de alcance dos β⁻ → mata célula + vizinhas).

Ensaio VISION (Sartor et al., NEJM 2021, N=831 mCRPC PSMA-positivo em PET ⁶⁸Ga-PSMA-11, pré-tratado com ARPI + docetaxel): ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 + cuidados padronizados vs. cuidados padronizados → OS 15,3 vs. 11,3 meses (HR 0,62, P<0,001); rPFS 8,7 vs. 3,4 meses (HR 0,40). Aprovado FDA março 2022.

Ensaio PSMAfore (fase 3, ARPI-naive pós-ARPI 1L): ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 vs. troca de ARPI → rPFS 9,0 vs. 2,5 meses (HR 0,41); em revisão para aprovação ampliada de indicação pré-docetaxel.

Seleção por PET PSMA: ¹⁶⁸Ga-PSMA-11 e ⁶⁸Ga-PSMA-11 (Illuccix®/Locametz®) aprovados FDA 2021/2022 — estadiamento de CaP e seleção de pacientes PSMA+ para ¹⁷⁷Lu-PSMA-617. Critério de exclusão: lesões PSMA-negativas ("escape antigen").

Inibidores de PARP no CaP BRCA/HRD

Mutações em BRCA1/2 germinativas: ~10-12% dos mCRPC; somáticas: ~6%. Outras alterações de HRD: ATM, CDK12, PALB2, FANCA.

Olaparibe (LYNPARZA®): PROFOUND trial (Clarke et al., NEJM 2020, N=387 mCRPC com alterações de HRR, pré-tratados com ARPI): olaparibe vs. enzalutamida ou abiraterona (à escolha do médico) em pacientes com BRCA1/2 ou ATM mutado → rPFS 7,4 vs. 3,6 meses (HR 0,34), OS 19,1 vs. 14,7 meses (HR 0,69). Aprovado FDA 2020.

Rucaparibe (TRITON2/TRITON3): Aprovado BRCA-mutado mCRPC (retirando do mercado voluntariamente em 2022 por dificuldades comerciais).

Niraparibe (BRCA1/2 só) e talazoparibe + enzalutamida (TALAPRO-2 trial: combinação em 1L mCRPC vs. enzalutamida → melhora de rPFS em BRCA1/2).

Carcinoma Urotelial (Bexiga)

Estadiamento e Tratamento Inicial

O carcinoma urotelial (CaU) de bexiga tem dois perfis: superficial (NMIBC, non-muscle invasive, Ta-T1-CIS) tratado por ressecção endoscópica + BCG intravesical (imunomodulação inespecífica via ativação de imunidade inata e Th1); e invasivo (MIBC/M1) tratado por cistectomia radical + quimio neoadjuvante ou quimio sistêmica.

Quimioterapia de 1ª linha metastático: Gemcitabina + cisplatina (GC) — padrão há 20+ anos; alternativa carboplatina + gemcitabina em não-elegíveis à cisplatina. Resposta ~50%; SG ~ 12-14 meses.

Pembrolizumabe em CaU

KEYNOTE-052 (Balar et al., Lancet Oncol 2017, N=370 metastáticos cisplatina-inelegíveis): pembrolizumabe 200 mg q3sem → ORR 29% (24% PD-L1 CPS≥10); OS 11,3 meses. FDA 2017 aprovação acelerada para CaU metastático cisplatina-inelegível.

KEYNOTE-045 (Bellmunt et al., NEJM 2017, N=542 pré-tratados): pembrolizumabe vs. quimio (paclitaxel/docetaxel/vinflunina) → OS 10,3 vs. 7,4 meses (HR 0,73, P<0,001); ORR 21% vs. 11% — superior à quimio em 2ª linha.

KEYNOTE-361 (pembrolizumabe ± gemcitabina/platina em 1L): sem diferença em OS no braço combinação vs. quimio; pembrolizumabe 1L aprovado apenas em PD-L1 CPS≥10 (cisplatina-inelegível).

Enfortumabe Vedotin (Padcev®): ADC Anti-Nectina-4

O enfortumabe vedotin (EV) é um ADC (antibody-drug conjugate) composto de anticorpo anti-nectina-4 (Nectin-4, proteína de adesão celular superexpressa em CaU em 97% dos tumores) + MMAE (monometil auristatina E, inibidor de tubulina, potente agente citotóxico) via linker clivável por catepsina B lisossômica → entrega seletiva de MMAE em células Nectin-4+ → mitotic arrest → apoptose.

EV-301 (Powles et al., NEJM 2021, N=608 pré-tratados com platina e checkpoint inhibitor): EV vs. quimio → OS 12,9 vs. 8,9 meses (HR 0,70, P<0,001). FDA 2023 aprovação.

EV + pembrolizumabe (EV-302/KEYNOTE-A39, N=886, 1ª linha): Powles et al., NEJM 2024: EV+pembro vs. gemcitabina/platina → OS não atingida vs. 16,1 meses (HR 0,47, P<0,001); PFS 12,5 vs. 6,3 meses (HR 0,45) — redução de 53% na morte. Padrão de 1ª linha a partir de 2024 em CaU metastático.

Erdafitinibe: FGFR3 Inibi

Em 15-20% dos CaU há mutações/fusões em FGFR3 (receptor de fator de crescimento de fibroblastos 3) — geralmente em tumores de baixo grau e superficiais, mas presentes em ~15% do metastático. Erdafitinibe (Balversa®) — pan-FGFR TKI oral (bloqueia FGFR1-4) — aprovado FDA 2019 para CaU metastático com alteração de FGFR3/2 susceptível (S249C, R248C, G370C, Y373C, fusões) após platina. THOR trial (ensaio fase 3, 2023): superior a pembrolizumabe em FGFR3-alterado pré-tratado.

Carcinoma de Células Renais (CCR)

Biologia: VHL e HIF

O CCR de células claras (ccRCC, 80% dos tumores renais) é caracterizado por inativação bialelar do gene VHL (von Hippel-Lindau): mutação/LOH + metilação → perda de VHL → HIF-1α/2α não degradado → ativação de genes hipóxia-induzíveis: VEGF (angiogênese), PDGF, EPO, GLUT1, CA9. VHL também controla expressão de ciclinas e degradação de proteínas de reparo de DNA — via complexa regulatória.

Belzutifan (Welireg®): Inibidor de HIF-2α (EPAS1) oral — liga ao PAS-B domain de HIF-2α → impede heterodimerização com ARNT/HIF-1β → bloqueia transativação de genes VEGF, EPO, PDGFβ. LITESPARK-005 (Choueiri et al., NEJM 2023, N=746 ccRCC refratário a VEGF e mTOR): belzutifan vs. everolimus → PFS 5,6 vs. 5,6 meses (HR 0,75, P=0,02); ORR 22% vs. 4%. Aprovado FDA 2021 para ccRCC em síndrome VHL; 2023 para ccRCC metastático refratário.

LITESPARK-010 (belzutifan 1L): em andamento.

Nivolumabe + Ipilimumabe (CheckMate 214)

Motzer et al. (NEJM 2018, N=1096 mCCR de risco intermediário/alto): nivo 3 mg/kg + ipi 1 mg/kg q3sem × 4 doses → nivolumabe manutenção → OS 47,0 vs. 26,6 meses (HR 0,69 ao 5 anos follow-up); ORR 41% vs. 26%. Padrão 1ª linha em CCR risco intermediário/alto.

Cabozantinibe: TKI multikinase (VEGFR1/2/3, MET, AXL, RET, c-Kit) — CABOSUN trial (1ª linha risco intermediário): superior a sunitinibe (PFS 8,6 vs. 5,3 meses, HR 0,48). Cabozantinibe + nivolumabe (CheckMate 9ER, Choueiri et al., NEJM 2021): PFS 16,6 vs. 8,3 meses (HR 0,51); OS melhorada. COSMIC-313: cabo + nivo + ipi vs. nivo + ipi em risco intermediário/alto → PFS melhorada mas sem impacto final em OS ainda.

PSA e Biomarcadores em Oncologia Urológica

  • PSA (discutido acima): Kalicreína 3 (KLK3); altamente específico de tecido prostático; FDA-aprovado para rastreamento (controverso) e monitoramento
  • NMP22 (nuclear matrix protein 22): Aprovado FDA como marcador de recorrência de CaU superficial por citologia e urina
  • BTA (bladder tumor antigen): Proteína relacionada a H (complement factor H-related protein); aprovado para vigilância de CaU
  • CA-IX (carbonic anhydrase IX): Marcador de hipóxia induzido por HIF → expresso em ccRCC; target de anticorpos girentuximab (ADC em desenvolvimento) e marcador de prognóstico

Referências Científicas

  1. Sartor O et al. (VISION). Lutetium-177–PSMA-617 for metastatic castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2021;385(12):1091-1103. PMID: 34161051
  2. Kantoff PW et al. (IMPACT). Sipuleucel-T immunotherapy for castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2010;363(5):411-422. PMID: 20818862
  3. Clarke NW et al. (PROfound). Olaparib for metastatic castration-resistant prostate cancer. *NEJM*. 2020;382(22):2091-2102. PMID: 32343890
  4. Powles T et al. (EV-302/KEYNOTE-A39). Enfortumab vedotin and pembrolizumab in untreated advanced urothelial cancer. *NEJM*. 2024;390(10):875-888. PMID: 38477986
  5. Powles T et al. (EV-301). Enfortumab vedotin after platinum and anti-PD-1 or anti-PD-L1 therapy. *NEJM*. 2021;384(12):1125-1135. PMID: 33577729
  6. Bellmunt J et al. (KEYNOTE-045). Pembrolizumab as second-line therapy for advanced urothelial carcinoma. *NEJM*. 2017;376(11):1015-1026. PMID: 28212060
  7. Choueiri TK et al. (LITESPARK-005). Belzutifan for renal cell carcinoma after anti-PD-1 and antiangiogenic therapies. *NEJM*. 2023;388(22):2079-2091. PMID: 37272531
  8. Motzer RJ et al. (CheckMate 214). Nivolumab plus ipilimumab versus sunitinib in advanced renal-cell carcinoma. *NEJM*. 2018;378(14):1277-1290. PMID: 29562145
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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