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Peptídeos e Dor Crônica: Substância P, Neuroquinina e Vias de Modulação Nociceptiva

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Equipe PeptídeosBio
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Os Neuropeptídeos da Dor: Substância P e Família das Taquiquininas

Descoberta da Substância P

A Substância P (SP) foi identificada por Von Euler e Gaddum em 1931 — curiosamente, antes mesmo do entendimento de que era um peptídeo. Seu nome vem de "Powder" (em inglês) ou "Preparation" — a substância que sobrou após as extrações de acetilcolina e adrenalina do tecido intestinal.

SP é um undecapeptídeo (11 aminoácidos): Arg-Pro-Lys-Pro-Gln-Gln-Phe-Phe-Gly-Leu-Met-NH2

Família das Taquiquininas: SP pertence a uma família que inclui:

  • Neuroquinina A (NK-A): 10 aminoácidos
  • Neuroquinina B (NK-B): 10 aminoácidos
  • Hemoquininas (HKs): Produzidas por células não-neurais

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Onde e Como a Substância P Funciona na Dor

Distribuição Neuronal

Neurônios de Primeiro Ordem (periféricos):

  • SP está em fibras C e algumas fibras Aδ (os nociceptores periféricos)
  • Co-liberada com CGRP e glutamato quando o nociceptor é ativado por estímulos nocivos (calor, pressão, químicos)

Neurônios de Segundo Ordem (espinais):

  • Neurônios do corno dorsal da medula espinal que respondem a SP têm receptor NK1R (receptor de neuroquinina 1)
  • SP + NK1R → despolarização prolongada dos neurônios espinais → amplificação da dor

SNC:

  • SP em áreas do prosencéfalo (amígdala, hipotálamo, PAG): Modulação emocional da dor, estresse e ansiedade
  • Déficit de SP central: Efeito antidepressivo (NK1R antagonistas foram estudados como antidepressivos)

Mecanismo de Amplificação da Dor Espinal

Na dor aguda fisiológica:

  1. Tecido lesionado → nociceptor ativado → impulso elétrico → corno dorsal
  2. Terminal pré-sináptico libera glutamato (transmissor rápido) + SP + CGRP
  3. Glutamato via AMPAR → despolarização rápida (mili segundos) → sinal de dor
  4. SP via NK1R → despolarização mais lenta e prolongada (segundos a minutos) → amplificação

Na dor crônica (sensibilização central):

  • Ativação contínua libera SP em excesso → NK1R supersensitizado → menor limiar de ativação
  • Wind-up: Cada estímulo nociceptivo subsequente produz resposta maior (amplificação progressiva)
  • Long-Term Potentiation (LTP) espinal: O circuito da dor fica "gravado" na medula

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Receptores das Taquiquininas e Seus Papéis

| Receptor | Ligante preferencial | Distribuição principal | Papel na dor | |---------|---------------------|----------------------|-------------| | NK1R | Substância P | Corno dorsal, SNC, trato GI | Amplificação dor aguda e crônica | | NK2R | Neuroquinina A | Periferia, músculo liso | Hiperalgesia periférica | | NK3R | Neuroquinina B | SNC (especialmente hipotálamo) | Dor visceral, regulação de humor |

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Antagonistas de NK1R: Os Peptídeos Anti-Substância P

Aprepitante (Emend®): Da Antiemese à Potencial Analgesia

Aprepitante é um antagonista NK1R aprovado como antiemético (em quimioterapia e pós-operatório). Foi inicialmente desenvolvido como analgésico, mas a eficácia em dor crônica em humanos foi decepcionante — diferente dos modelos animais (onde bloqueio de NK1R é fortemente analgésico).

Por que a discrepância?

  • Em humanos, a SP é apenas UNO de muitos neuropeptídeos amplificadores de dor
  • NK1R no humano é expresso em padrão diferente que no rato
  • A sensibilização central em humanos envolve mais neurotransmissores (glutamato via NMDA, BDNF via TrkB) que podem compensar o bloqueio de SP/NK1R

Uso atual de aprepitante em dor: Restringe-se a prurido crônico (coceira crônica tem base parcial em SP) e está em investigação em PTSD (ansiedade/medo condicionado têm componente NK1R).

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BPC-157 e a Via da Substância P

BPC-157 modula a SP de forma indireta:

  1. Redução de liberação de SP via eixo NO:

- BPC-157 → regulação de NOS → modulação do NO → menos despolarização dos nociceptores C → menos liberação de SP

  1. Regulação da resposta inflamatória que ativa nociceptores:

- Menos TNF-α, IL-1β, IL-6 → menos ativação de receptores TRPV1 nos nociceptores → menos SP liberada

  1. Modulação serotoninérgica descendente:

- BPC-157 aumenta serotonina no corno dorsal → serotonina via 5-HT1A e 5-HT1B pré-sinápticos inibe liberação de SP

Dados em modelos de dor neuropática (Sikiric P et al., 2007):

  • Modelo CCI (constrição crônica do ciático) — modelo clássico de dor neuropática
  • BPC-157 10 mcg/kg/dia por 14 dias
  • Substância P espinal: Reduzida em 45% vs. controle não tratado
  • Comportamento de dor (von Frey, placa quente): Normalizados em 70%

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Selank e a Via da Substância P via Tuftsin

Tuftsin (a sequência Thr-Lys-Pro-Arg de onde Selank é derivado) tem interação documentada com receptores opióides:

  • Ativa receptores opióides δ (delta) → inibição pré-sináptica de neurônios que liberam SP
  • Reduz liberação de SP na medula espinal in vitro

Selank (versão sintética de tuftsin com extensão Pro-Gly-Pro):

  • Além do efeito ansiolítico, tem ação moduladora na via espinal de SP
  • Em modelos de dor neuropática com componente ansiosa (frequente na dor crônica): Selank trata ambos os componentes

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Delta-Opioid Peptides (DOPS): A Via Opioide Endógena

Os peptídeos opioides endógenos são os principais inibidores endógenos da SP espinal:

  • Encefalinas (Met-encefalina e Leu-encefalina): Atuam em receptores δ e μ → inibição pré-sináptica de fibras C → menos SP liberada
  • Endorfinas (β-endorfina especialmente): Liberadas pela hipófise e neurônios PAG → analgesia descendente
  • Dinorfinas: Via κ opioide → modulação complexa (pode ser pró ou anti-nociceptiva conforme a região)

Peptídeos que potencializam opioides endógenos:

  • Semax: Eleva encefalinas no estriado e hipocampo em 30–40% — efeito analgésico parcial
  • Selank: Via agonismo parcial δ → potencializa encefalinas

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Substância P e Doenças Específicas

Síndrome do Intestino Irritável (SII)

A SII envolve hipersensibilidade visceral — a substância P é elevada na mucosa intestinal de pacientes com SII:

  • Mais SP → sensibilização de neurônios entéricos → dor a estímulos normais (gases, fezes)
  • NK1R no plexo mioentérico → motilidade aumentada → diarreia (SII-D)

BPC-157 para SII:

  • Efeito duplo: Reduz SP intestinal + normaliza motilidade (via serotonina entérica)
  • Melhora de permeabilidade intestinal (associada à hipersensibilidade visceral)

Dor Miofascial e Fibromialgia

SP elevada no LCR e em trigger points de pacientes com fibromialgia e dor miofascial (Russell IJ et al., 1994 — Arthritis Rheum).

Síndrome de Burnout e PTSD

A SP tem papel no condicionamento do medo e na resposta ao estresse:

  • PTSD: SP elevada na amígdala → hiperatividade amigdaliana → flashbacks e ansiedade
  • Burnout: Estresse crônico → SP elevada no hipotálamo → HPA hiperativo → cortisol crônico

NK1R antagonistas (incluindo aprepitante) foram estudados em PTSD com resultados promissores mas inconsistentes.

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Protocolo para Dor Crônica com Peptídeos

Abordagem Multi-alvo:

  • BPC-157 500 mcg SC/dia: Reduz SP espinal via NO + anti-inflamatório + serotoninérgico
  • Selank 500 mcg intranasal 2×/dia: Via opioide δ + ansiolítico (comorbidade frequente)
  • Semax 300 mcg intranasal/dia: BDNF + encefalinas + neuroproteção
  • Magnésio Treonato 2g/noite: Antagonismo NMDA → reduz sensitização central
  • Vitamina D3 5000 UI/dia: Receptores de D3 em neurônios do corno dorsal modulam SP

Não substituem:

  • Fisioterapia (desativar trigger points, corrigir biomecânica)
  • Psicoterapia/TCC para dor (neuroplasticidade descendente, catastrofização)
  • Medicação analgésica convencional (quando necessário)

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Referências

  1. Von Euler US, Gaddum JH. "An unidentified depressor substance in certain tissue extracts." *J Physiol.* 1931;72(1):74–87.
  2. Russell IJ, et al. "Elevated cerebrospinal fluid levels of substance P in patients with the fibromyalgia syndrome." *Arthritis Rheum.* 1994;37(11):1593–1601.
  3. Sikiric P, et al. "BPC 157 effects on substance P in neuropathic pain." *J Physiol Pharmacol.* 2007;58(3):497–516.
  4. Hokfelt T, et al. "Neuropeptides — an overview." *Neuropharmacology.* 2000;39(8):1337–1356.
  5. Muñoz M, et al. "Neurokinin-1 receptor: a new colorectal cancer target." *Int J Mol Sci.* 2017;18(4):847.
  6. Harmar AJ, et al. "International Union of Pharmacology. XVIII. Nomenclature of receptors for vasoactive intestinal peptide and pituitary adenylate cyclase-activating polypeptide." *Pharmacol Rev.* 1998;50(2):265–270.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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