Neuropeptídeos no Intestino Inflamado
O Sistema Nervoso Entérico e a DII
Sistema Nervoso Entérico (SNE):
- Rede de ~500 milhões de neurônios entéricos no plexo mioentérico (Auerbach) e submucoso (Meissner)
- Responsável por: motilidade, secreção, fluxo sanguíneo local
- Neuropeptídeos liberados em condições de inflamação modulam imunidade local
Na DII:
- Fibras nervosas entéricas hiperplásicas na mucosa inflamada (Crohn > RCUI)
- Liberação aumentada de substância P e VIP → hipermotilidade + hipersecreção
- Alteração da neuroplasticidade entérica (remodelação das fibras nervosas)
VIP no Intestino Inflamado
Papel Anti-Inflamatório do VIP
VIP em DII:
- Produzido por neurônios entéricos e células imunes intestinais
- VPAC1/VPAC2 em linfócitos, macrófagos, células dendríticas da lâmina própria
- Em modelos de DII (colite por TNBS/DSS): VIP exógeno reduz inflamação de mucosa
- Mecanismo: inibe TNF-α + IL-1β + IL-12 (via NF-κB); estimula IL-10 + Treg
Paradoxo em DII:
- VIP é elevado em pacientes com DII (tecido inflamado tem mais VIP nos neurônios)
- Interpretação: resposta compensatória anti-inflamatória ou marker de ativação nervosa?
- Resposta real: VIP elevado mas não suficiente para frear inflamação → terapia exógena pode amplificar efeito
Dados pré-clínicos:
- Colite por DSS em camundongos + VIP exógeno: redução de TNF-α, IL-6, IL-17, infiltrado neutrofílico
- Camundongos VPAC1 knockout: colite mais grave
VIP e Microbioma em DII
VIP e disbiose:
- VIP modula motilidade → tempo de trânsito → composição do microbioma
- Em DII: menos VIP entérico → menos propulsão → estase → proliferação de Proteobacteria
- Akkermansia: VIP pode modular seu crescimento por vias ainda não elucidadas
Substância P na DII
O Papel Pró-Inflamatório
Substância P (SP):
- 11 aminoácidos; taquicinina; secretada por neurônios sensoriais C-fibras + células imunes (mastócitos, eosinófilos)
- Receptor NK1R (Neuroquinina 1): Gq → IP3/Ca²⁺ → NF-κB → TNF-α + IL-1β + IL-6
SP em DII:
- SP elevada na mucosa de Crohn e RCUI (correlação com atividade endoscópica)
- SP → NK1R em mastócitos: degranulação → histamina + TNF-α → hipermotilidade
- SP → NK1R em células endoteliais: vasodilatação + extravasamento de leucócitos
- SP → NK1R em macrófagos: ativação M1
SP e dor intestinal:
- Alodinia visceral em DII: fibras C hipersensibilizadas → mais SP → mais dor
- Resposta ao estresse → CRH → mastócitos → SP liberada → dor + inflamação (eixo cérebro-intestino-SP)
Antagonistas NK1R em DII:
- Aprepitant (FDA para náusea): NK1R antagonista — estudos piloto em DII (colite ativa) mostraram redução de marcadores inflamatórios
- Netupitant: outro NK1R antagonista; off-label em DII exploratório
- Nenhum aprovado especificamente para DII ainda
Urocortina: A Família CRH Intestinal
Urocortina (UCN1, UCN2, UCN3):
- Família de CRH: ligam a CRH-R1 e CRH-R2 com diferentes afinidades
- UCN1: liga CRH-R1 e CRH-R2 com afinidade similar
- UCN2/UCN3: seletivas para CRH-R2
- No intestino: UCN1 em neurônios entéricos + células imunes da lâmina própria
UCN1 em DII:
- Anti-inflamatória: CRH-R2 via AMPc → menos TNF-α em modelos de colite
- Contradição: CRH-R1 via SP → pró-inflamatório
- UCN1 vs. CRH em intestino: UCN1 parece mais protetora (via CRH-R2 > CRH-R1 no cólon)
Estresse e DII:
- Eixo cérebro-intestino ativado em DII: CRH hipotalâmico → ativa mastócitos intestinais (via CRH-R1) → SP + histamina
- Explicação para piora da DII com estresse psicológico
Terapias Biológicas Aprovadas em DII
Vedolizumabe (Entyvio — integrina α4β7)
Vedolizumabe:
- Anticorpo monoclonal IgG1 anti-integrina α4β7 (bloqueio seletivo de tráfico de linfócitos intestinais)
- Integrina α4β7 em linfócitos: liga MAdCAM-1 nas vênulas endoteliais intestinais → permite homing intestinal
- Vedolizumabe: bloqueia α4β7 → linfócitos NÃO entram no intestino (permanecem em circulação)
- Seletividade intestinal: não bloqueia α4β1 (que permite homing no SNC) → sem PML (leucoencefalopatia multifocal progressiva — risco do natalizumabe)
Eficácia:
- GEMINI 1 (RCUI): vedolizumabe vs. placebo → remissão clínica em 47,1% vs. 25,5% na semana 52
- GEMINI 2 (Crohn): remissão 39% vs. 22% na semana 52
- Início mais lento que anti-TNF (perfil de eficácia acumula nas primeiras 14–26 semanas)
Indicações:
- RCUI moderada a grave: resposta ou falha a anti-TNF
- Crohn moderado a grave: segunda linha após anti-TNF ou em casos com contraindicação a anti-TNF
Vantagem: segurança no SNC (sem PML) — preferível em: história de doenças neurológicas, tuberculose latente, riscos com anti-TNF
Ustekinumabe (Stelara — anti-IL-12/23)
Ustekinumabe:
- Anticorpo IgG1 anti-p40 (subunidade comum de IL-12 e IL-23)
- IL-12: induz diferenciação de Th1; IL-23: mantém Th17
- Em Crohn: excesso de Th1 (IL-12) e Th17 (IL-23) → menos IL-12/23 → menos inflamação
IM-UNIFI (Crohn):
- Ustekinumabe IV dose inicial (6 mg/kg peso) → SC 90 mg a cada 12 semanas
- Remissão semana 44: 53% (Crohn, UNIFI-2)
UNIFI (RCUI): semelhante eficácia a vedolizumabe em indutores virgens
Risankizumabe (Skyrizi — anti-IL-23p19)
Risankizumabe:
- Anticorpo IgG1 anti-IL-23p19 (subunidade específica de IL-23, não IL-12)
- Mais seletivo que ustekinumabe: bloqueia apenas IL-23 (não IL-12)
- Aprovado FDA para Crohn moderado a grave: 2022
ADVANCE/MOTIVATE (Crohn):
- Risankizumabe 600 mg IV x3 doses → 360 mg SC manutenção
- Remissão endoscópica em 40% vs. 11% placebo (indução)
Ozanimode (Zeposia — modulador S1P)
Ozanimode:
- Modulador de receptor de esfingosina-1-fosfato (S1P1/S1P5)
- Sequestra linfócitos nos linfonodos → menos linfócitos intestinais
- Oral (diferente de todos os biológicos IV/SC)
- Aprovado FDA para RCUI: 2021; Crohn: em avaliação
TRUE NORTH (RCUI): ozanimode 0,92 mg/dia → remissão 18,4% vs. 6% (semana 10); 37% vs. 18% (semana 52)
Perspectivas: Peptídeos como Terapia Futura na DII
VIP exógeno em DII:
- Administração retal (enema) de VIP: estudos piloto em RCUI ativa — sem inflamação sistêmica
- VIPhyb e análogos estáveis em pesquisa
- Challenge: meia-vida muito curta sistêmica → formulação local necessária
SP antagonistas mais seletivos:
- Antagonistas NK1R mais potentes e específicos para mucosa: nova geração em pesquisa pré-clínica
Referências
- Fiocchi C. "Inflammatory bowel disease: etiology and pathogenesis." *Gastroenterology*. 1998;115(1):182-205. DOI: 10.1016/S0016-5085(98)70381-6
- Feagan BG, et al. "Vedolizumab as induction and maintenance therapy for ulcerative colitis." *N Engl J Med*. 2013;369(8):699-710. DOI: 10.1056/NEJMoa1215734
- Delgado M, Ganea D. "Anti-inflammatory neuropeptides: a new class of endogenous immunoregulatory agents." *Brain Behav Immun*. 2008;22(8):1146-51. DOI: 10.1016/j.bbi.2008.06.008
- Gomariz RP, et al. "Immunomodulation by VIP and PACAP in gut inflammation." *Ann N Y Acad Sci*. 2006;1070:168-73. DOI: 10.1196/annals.1317.015
- Crowe SE, Collins SM. "Stress and the gastrointestinal tract III. Stress and irritable bowel syndrome: Mechanisms of gut dysfunction in irritable bowel syndrome." *Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol*. 2001;280(4):G519-24. DOI: 10.1152/ajpgi.2001.280.4.G519
- Feagan BG, et al. "Ustekinumab as induction and maintenance therapy for Crohn's disease." *N Engl J Med*. 2016;375(20):1946-60. DOI: 10.1056/NEJMoa1602773
- D'Haens GR, et al. "Risankizumab as induction therapy for Crohn's disease: results from the phase 3 ADVANCE and MOTIVATE induction trials." *Lancet*. 2022;399(10340):2015-30. DOI: 10.1016/S0140-6736(22)00467-6
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