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← Blog·peptideos01 de julho de 2026· 24 min de leitura

Peptídeos e Câncer: Imunoterapia, Checkpoint PD-1/PD-L1, CAR-T e ADCs em Oncologia

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Equipe BioPeptídeos
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Imunologia do Câncer e o Microambiente Tumoral

Imunoedição (hipótese Dunn/Schreiber 2002):

  1. Eliminação: o sistema imune reconhece e destrói células tumorais (imunossurveillância)
  2. Equilíbrio: equilíbrio instável — células tumorais parcialmente destruídas mas sobreviventes acumulam mutações
  3. Escape: tumor adquire mecanismos de escape → cresce clinicamente

Mecanismos de escape tumoral:

  • Downregulation de MHC-I (menos apresentação de neoantigênios ao CD8+)
  • Expressão de PD-L1 (CD274) → inativa linfócitos T CD8+ infiltrantes
  • Secreção de IL-10, TGF-β → suprimem resposta imune
  • Recrutamento de Tregs + MDSCs (células supressoras derivadas de mieloide)

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Checkpoint Imunológico — Conceito e Alvos

O Que São Checkpoints

Checkpoints imunológicos (pontos de controle): receptores inibitórios que normalmente previnem auto-imunidade — os tumores os "sequestram" para se proteger:

| Checkpoint | Receptor (em T) | Ligante (em tumor/APC) | Efeito | |---|---|---|---| | PD-1/PD-L1 | PD-1 (PDCD1) no CD8+ | PD-L1 (tumor) ou PD-L2 | Exaustão do linfócito T | | CTLA-4 | CTLA-4 (CD152; compete com CD28) | B7-1/B7-2 (APC) | Bloqueia co-estimulação T | | LAG-3 | LAG-3 no T exausto | MHC-II, FGL1 (tumor) | Inibe CD4+ e CD8+ | | TIM-3 | TIM-3 em T exausto | Galectina-9, HMGB1 | Co-exaustão com PD-1 |

Anti-PD-1 / Anti-PD-L1

Pembrolizumabe (Keytruda®; MSD; anti-PD-1 IgG4; FDA 2014):

  • Primeiro anti-PD-1 aprovado; agora aprovado em 20+ indicações
  • KEYNOTE-001: melanoma avançado → 33% resposta objetiva (ORR); duração >2 anos em muitos
  • KEYNOTE-048: câncer de cabeça e pescoço (HNSCC; 1ª linha; PD-L1 CPS≥20): OS 14,9 meses vs 10,7 meses (quimio)
  • Pembrolizumabe pan-tumor (TMB-H ≥10 mut/Mb; FDA 2020): primeiro aprovação tumor-agnóstica por biomarcador molecular

Nivolumabe (Opdivo®; BMS; anti-PD-1 IgG4; FDA 2014):

  • CheckMate-067 (melanoma; combinado com ipilimumabe): 58% sobrevida em 5 anos vs 44% mono
  • CheckMate-227 (NSCLC 1ª linha + TMB-H): nivolumabe + ipilimumabe vs quimio → +3 meses OS

Anti-PD-L1:

  • Atezolizumabe (Tecentriq®; Roche; FDA 2016): anti-PD-L1 IgG1 (Fc silenciado → sem ADCC)
  • Durvalumabe (Imfinzi®; AZ): câncer de pulmão localmente avançado após quimioradioterapia → PACIFIC trial: -32% progressão
  • Avelumabe (Bavencio®; Pfizer/Merck KGaA): anti-PD-L1; mantém ADCC → ativa NK cells

Anti-CTLA-4

Ipilimumabe (Yervoy®; BMS; anti-CTLA-4 IgG1; FDA 2011 — primeiro checkpoint inhibitor):

  • Mecanismo: bloqueia CTLA-4 em T → mais co-estimulação via CD28/B7 → mais expansão de T → anti-tumor
  • Melanoma: OS médiano 10 meses (vs 6,4 meses controle); ~20% sobrevida de 10 anos (MDX-010 follow-up longo)
  • Combinado com nivolumabe (ComboIO): melhor que mono em melanoma, câncer de rim, pulmão

irAEs (immune-related Adverse Events; toxicidades imunomediadas dos checkpoint):

  • Colite, hepatite, pneumonite, tireoidite, hipofisites, artrite
  • Manejo: suspender checkpoint + corticoides (prednisona 1-2 mg/kg/dia) ± imunossupressores mais potentes

LAG-3 — Novo Alvo

Relatlimab (BMS; anti-LAG-3; FDA 2022; primeiro anti-LAG-3 aprovado):

  • RELATIVITY-047: nivolumabe + relatlimab vs nivolumabe mono (melanoma 1ª linha)
  • PFS: 10,1 vs 4,6 meses (HR 0,75; p<0,001) → dupla co-estimulação mais eficaz

Conjugados Anticorpo-Droga (ADCs)

Princípio dos ADCs

ADC (Antibody-Drug Conjugate): anticorpo monoclonal + linker + payload citotóxico:

  • Anticorpo → liga antígeno específico na superfície tumoral → ADC internalizado → payload liberado intracelularmente → morte seletiva
  • Componentes: Ab (IgG1 ou IgG4) + linker (clivável por lisossoma pH ácido/proteases ou não-clivável) + payload (DM1 maytansinóide, MMAE auristatina, DXd topo-I)

T-DM1 — Pioneiro em Mama HER2+

Ado-trastuzumabe emtansina (T-DM1; Kadcyla®; Roche; FDA 2013):

  • Trastuzumabe (anti-HER2 IgG1) + SMCC linker + DM1 (maytansinóide; anti-microtúbulo; 100× mais potente que vincristina)
  • DAR (Drug-to-Antibody Ratio): ~3,5 DM1/Ab
  • EMILIA trial (HER2+ localmente avançado/metastático; 2ª linha): OS 30,9 vs 25,1 meses vs lapatinibe+capecitabina (HR 0,68)
  • PFS: 9,6 vs 6,4 meses

Trastuzumabe Deruxtecano (T-DXd; Enhertu®)

Trastuzumabe deruxtecano (T-DXd; DS-8201; Enhertu®; Daiichi Sankyo + AZ; FDA 2019):

  • Trastuzumabe + linker clivável (tetrapeptídeo pH sensível) + DXd (deruxtecan; topo-I inibidor; exatossano derivado; 10× mais potente que irinotecano)
  • DAR: ~8 DXd/Ab (muito maior que T-DM1!) → mais payload
  • "Bystander effect": DXd é membrane-permeant → mata células vizinhas HER2-negativas → util em HER2-low
  • DESTINY-Breast03 (HER2+; 2ª linha): PFS 28,8 meses vs 6,8 meses T-DM1 (HR 0,33) → revolucionou tratamento
  • HER2-low (IHC 1+ ou 2+/FISH-): DESTINY-Breast04 (N=557): OS 23,4 vs 16,8 meses → expansão para 70% dos cânceres de mama
  • Toxicidade principal: pneumonite intersticial (10-15%; potencialmente fatal) → monitoramento pulmonar

Outros ADCs Relevantes

Sacituzumabe govitecano (Trodelvy®; Gilead; FDA 2020):

  • Anti-TROP2 (Trop-2; altamente expresso em mama triplo-negativo, urotelial) + CL2A linker + SN-38 (metabólito ativo do irinotecano)
  • ASCENT trial (TNBC 3ª+ linha): OS 12,1 vs 6,7 meses (HR 0,48) → game-changer em TNBC

Brentuximabe vedotina (Adcetris®; Seagen; FDA 2011):

  • Anti-CD30 (Hodgkin lymphoma + ALCL) + MC-VC-PABC linker + MMAE (auristatina E; anti-microtúbulo)
  • Hodgkin clássico recidivado: ORR 75%; 34% CR — ressuscitou indicação pós-ASCT

CAR-T — Células T com Receptor Quimérico

Princípio do CAR-T

CAR (Chimeric Antigen Receptor; receptor quimérico de antígeno):

  • Estrutura: domínio extracelular de reconhecimento (scFv de anticorpo) + hinge + transmembrana + domínio co-estimulatório intracelular (CD28 e/ou 4-1BB) + domínio CD3ζ (ativação)
  • Processo: coleta de linfócitos T do paciente (leucaférese) → transduced ex vivo com vetor lentiviral/retroviral → CAR expresso → expandido → reinfundido → CAR-T reconhece antígeno alvo sem MHC

Gerações de CAR:

  • 1ª: CD3ζ apenas → fraca expansão; descontinuada
  • 2ª: CD28 + CD3ζ ou 4-1BB + CD3ζ → atualmente aprovadas
  • 3ª: CD28 + 4-1BB + CD3ζ → investigação
  • 4ª (TRUCK): CAR + transgene (ex: IL-12; IL-15; PD-1 knock-out) → supera imunossupressão tumoral

CAR-T Aprovadas

Tisagenlecleucel (Kymriah®; Novartis; FDA 2017; primeiro CAR-T aprovado):

  • Anti-CD19; 4-1BB co-estimulação; autólogo
  • ALL-B pediátrica recidivada/refratária: ORR 81%; 12-meses OS 79%
  • DLBCL adulto 3ª linha: ORR 52%; 40% CR

Axicabtagene ciloleucel (Yescarta®; Gilead/Kite; FDA 2017):

  • Anti-CD19; CD28 co-estimulação; DLBCL
  • ZUMA-1 (DLBCL 3ª linha): ORR 72%; 51% CR durável; 2-anos OS 51%

Ciltacabtagene autoleucel (Carvykti®; J&J/Janssen; FDA 2022):

  • Anti-BCMA (B-cell Maturation Antigen); mieloma múltiplo 4ª+ linha
  • CARTITUDE-1: ORR 98%; 78% CR; mPFS não alcançado em 2 anos

Toxicidades CAR-T:

  • CRS (Cytokine Release Syndrome): IL-6 massiva → febre, hipotensão, ARDS → tocilizumabe + corticoides
  • ICANS (Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity): confusão, edema cerebral → dexametasona + suporte
  • Aplasia de células B CD19+ → hipogamaglobulinemia → IVIG mensais

Peptídeos de Pesquisa em Oncologia

BPC-157 e Contexto Oncológico

BPC-157 (Body Protective Compound-157) e câncer:

  • Importante: BPC-157 é peptídeo de pesquisa, não aprovado
  • Estudos em ratos mostram efeitos protetores gastrointestinais (mucosa, anastomose) que INDIREMENTE auxiliam quimioterapia tolerada
  • Dados sobre BPC-157 e tumores: limitados e contraditórios — alguns estudos mostram efeito anti-angiogênico (modula VEGF) mas não há conclusão; cuidado na interpretação
  • Não indicado como anti-tumoral; contexto de suporte (proteção GI durante quimio) é o mais estudado

Peptídeos de Angiogênese Tumoral

VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor; 45 kDa; homodímero):

  • VEGF-A (principal; 9 isoformas por splicing alternativo) → VEGFR-1 (Flt-1) + VEGFR-2 (KDR/Flk-1)
  • VEGFR-2 (o mais relevante): PLCγ → PKC → MAPK + PI3K/AKT → proliferação + sobrevivência endotelial
  • Tumores sobreexpressam VEGF-A (hipóxia → HIF-1α → VEGF) → angiogênese → nutrição tumoral
  • Bloqueio terapêutico: bevacizumabe (anti-VEGF-A); ramucirumabe (anti-VEGFR-2); sorafenibe/sunitinibe (TKIs VEGFR multikinase)

Referências Científicas

  1. Ribas A & Wolchok JD (checkpoint imunológico; PD-1 PD-L1 CTLA-4 LAG-3 TIM-3; pembrolizumabe nivolumabe ipilimumabe; irAE; imunoedição; mecanismo; revisão). *Science* 2018;359(6382):1350–1355.
  2. Verma S et al. EMILIA (T-DM1 ado-trastuzumabe emtansina; HER2+ mama metastático; 2ª linha; OS 30,9 meses; DM1 maytansinóide; DAR 3,5; FDA 2013; N=978). *N Engl J Med* 2012;367(19):1783–1791.
  3. Cortés J et al. DESTINY-Breast03 (T-DXd trastuzumabe deruxtecano; HER2+ 2ª linha; PFS 28,8 vs 6,8 meses T-DM1; DXd topoisomerase; bystander; HER2-low; N=524). *N Engl J Med* 2022;386(12):1143–1154.
  4. Maude SL et al. (tisagenlecleucel CAR-T; anti-CD19 4-1BB; ALL-B pediátrica; ORR 81%; CRS ICANS; FDA 2017; primeiro CAR-T; ELIANA trial). *N Engl J Med* 2018;378(5):439–448.
  5. Barta SK et al. ZUMA-1 (axicabtagene ciloleucel; anti-CD19 CD28; DLBCL 3ª linha; ORR 72%; CR 51%; CRS; 2 anos OS 51%; FDA 2017). *J Clin Oncol* 2019;37(7):589–601.
  6. Barrios-Rodiles M et al. (VEGF angiogênese tumoral; VEGFR-2 KDR; HIF-1α hipóxia; bevacizumabe; sorafenibe sunitinibe; bloqueio terapêutico; revisão). *Nat Rev Cancer* 2004;4(6):425–436.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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