Angioplastia Coronária — Do Balão ao DES
PTCA (Percutaneous Transluminal Coronary Angioplasty; Grüntzig 1977; cateter + balão insuflado na estenose coronária → comprime placa → restaura lúmen; taxa de sucesso inicial alta mas reestenose frequente):
PCI (Percutaneous Coronary Intervention; termo moderno; inclui stent + balão + outros dispositivos; padrão de cuidado para STEMI e NSTEMI/angina instável):
- STEMI: PCI primária < 90 min do ECG = meta (tempo porta-balão); superior à fibrinólise quando disponível
- NSTEMI/UA: PCI precoce < 24-72h; estratificação de risco (TIMI, GRACE scores)
Stents (dispositivos metálicos expansíveis; mantêm lúmen aberto após balão; polímero-revestidos com fármaco [DES]):
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Reestenose — O Problema da Proliferação Neointimal
Reestenose (redução ≥50% do diâmetro luminal em local de intervenção prévia; avaliada por QCA — Quantitative Coronary Angiography ou IVUS — IntraVascular UltraSound):
Fases da Reestenose
Fase 1 — Trombose precoce (horas-dias): lesão de endotélio + media → exposição de colágeno + fator tecidual → ativação plaquetária + coagulação → trombo → obstrução aguda
Fase 2 — Inflamação (dias-semanas): neutrófilos + macrófagos infiltram parede vascular → citocinas (IL-1β, TNF-α, PDGF, TGF-β) → ativam células musculares lisas (CML)
Fase 3 — Proliferação neointimal (semanas-meses): CML da media migram para íntima → proliferam → depositam matriz extracelular (colágeno, fibronectina, vitronectina) → neointima espessa → reestenose
Mediadores peptídicos da proliferação neointimal:
- PDGF (Platelet-Derived Growth Factor; PDGF-BB = mitogênico para CML; liberado por plaquetas + macrófagos; liga PDGFR-β → PI3K/Akt + MAPK/ERK → proliferação + migração): alvo do imatinibe (tyrosine kinase inhibitor)
- FGF2 (basic FGF; heparin-binding; liberado por CML e endotélio lesado): potente mitógeno
- TGF-β (pró-fibrótico; CML → miofibroblasto; síntese de colágeno → fibrose neointimal)
- Angiotensina II (via local RAAS vascular; AT1R em CML → ERK + JNK → proliferação; IECA/BRA reduzem reestenose modestamente em trials)
Fase 4 — Remodelamento (meses-anos): contração negativa do vaso → redução do diâmetro externo → reestenose tardia (mecanismo diferente da proliferação)
Drug-Eluting Stents — Sirolimo e Paclitaxel
Stents Metálicos Convencionais (BMS)
BMS (Bare Metal Stents; aço inoxidável 316L ou liga CrCo [cobalt-chromium]; menor trombogenicidade que BM pré-stent; reestenose ~20-30% em 6-12 meses por neointima):
- Antiagregação: AAS indefinida + clopidogrel 1 mês → 6 meses (mínimo)
Sirolimo-Eluting Stents (SES)
Sirolimo (rapamicina; macrolide; inibidor de mTORC1; liga FKBP12 → complexo liga mTORC1 → bloqueia fase G1→S do ciclo celular → ↓proliferação de CML + T linfócitos):
- Cypher® stent (Cordis/J&J; sirolimo + polímero PBMA/PEVA; primeiro DES FDA aprovado 2003):
- RAVEL trial: sirolimo vs BMS → reestenose 0% vs 26% (6 meses); TLR (target lesion revascularization) quase zero - SIRIUS trial (N=1.058): sirolimo → 8,9% vs 36,3% reestenose; -65% TLR
Everolimo (análogo de sirolimo; t½ mais curto; mesmo mecanismo; XIENCE stent [Abbott] e PROMUS stent [Boston Scientific]):
- SPIRIT trials: everolimo DES → superior ao sirolimo DES em redução de MACE + menos trombose tardia de stent
Paclitaxel-Eluting Stents (PES)
Paclitaxel (taxano; estabiliza microtúbulos → impede despolimerização → células presas na mitose → morte; antiproliferativo):
- TAXUS stent (Boston Scientific; paclitaxel + polímero SIBS):
- TAXUS-IV (N=1.314): paclitaxel → 7,9% vs 26,6% reestenose; DES superior ao BMS - Trombose de stent tardia mais frequente que sirolimo em alguns estudos → polímero permanente sendo culpado
DES de Nova Geração
Polímero biodegradável (dissolve após liberar droga → menos inflamação crônica → menor trombose tardia):
- Biolimus A9 (análogo de sirolimo; BioFreedom™; polímero biodegradável; ou abluminal coating [só no lado vascular, não luminal]):
- LEADERS trial: biolimus DES similar ou superior ao SES; polímero biodegradável → menos trombose
Polímero-livre (droga diretamente na superfície do stent; BioFreedom™ [Biosensors]):
- LEADERS FREE: diabéticos de alto risco hemorrágico → DES polímero-livre + 1 mês de dupla antiagregação (vs BMS + 1 mês): DES reduziu reestenose SEM aumentar sangramento
Scaffolds Biorreabsorvíveis (BRS)
BRS (Bioresorbable Scaffolds/Vascular Scaffolds; dispositivo temporário que absorve em 2-3 anos → vaso "liberto" → vasomotricidade restaurada; conceito: stent temporário):
ABSORB GT1 (Abbott; PLLA — poli-ácido lático; drug = everolimo):
- ABSORB III (N=2.008): BRS não-inferior ao Xience EES em 1 ano; MAS 3% vs 2,7% (NS)
- ABSORB 3-5 ANOS: BRS SUPERIOR em trombose de stent tardia?? NÃO — ao contrário: ↑trombose de stent tardia (TLT) com BRS vs DES metálico
- Retirado do mercado FDA 2017; lições aprendidas: BRS atual PLLA muito espessa (150 µm vs 81 µm CrCo) + degradação incompleta → mecânico inadequado
Nova geração BRS (thickness <100 µm; resorbable metals [Mg/Zn/Fe]; ativo em 2025-2026):
- DREAMS 3G (Biotronik; Mg; absorção 12 meses; ensaios fase 2 positivos): promissor
Peptídeos Endoteliais — Proteção Vascular
eNOS e Óxido Nítrico
eNOS (endothelial Nitric Oxide Synthase; NOS3; 1203 aa; endotélio; produz NO a partir de L-arginina + O₂ → NO):
- NO (óxido nítrico; gaseous mediator; t½ segundos; difunde para CML → guanilil ciclase solúvel → GMPc → PKG → vasodilatação; também: ↓adesão plaquetária + ↓migração de CML + ↑apoptose de CML):
- eNOS é constitutivo (ativado por Ca²⁺/calmodulina + Akt-fosforilação [Ser1177]):
- Shear stress (fluxo laminar) → ↑eNOS via PI3K/Akt → NO ↑ → vasodilatação + antiaterosclerótico - Fluxo turbulento → eNOS desacoplado → O₂⁻ em vez de NO → oxidação + inflamação
Prostaciclina (PGI2) e Tromboxano A2 (TXA2)
Prostaciclina (PGI2) (prostaglandina I2; produzida por endotélio via COX-2 + PGIS → IP receptor em plaquetas/CML → AMPc ↑ → vasodilatação + anti-agregação plaquetária):
- Epoprostenol (PGI2 recombinante; IV contínuo; FDA para HAP — Hipertensão Arterial Pulmonar; t½ 3-5 min → bomba portátil)
- Iloprost (análogo estável de PGI2; inalado para HAP; ou IV)
- Treprostinyl (análogo oral+SC+IV+inalado para HAP; mais estável)
TXA2 (produzido por plaquetas via COX-1 → TXA2 synthase → TP receptor em plaquetas → AMPc ↓ → vasoconstrição + pró-agregação; AAS inibe COX-1 irreversivelmente → ↓TXA2)
Endotelina-1 (ET-1)
Endotelina-1 (ET-1; 21 aa; endotélio; potente vasoconstritor [10× mais que angiotensina II]; liga ETA em CML → vasoconstrição; ETB em endotélio → NO liberação [paradoxo]):
- Bosentan (antagonista dual ETA + ETB; oral; FDA para HAP e úlceras digitais em esclerodermia; BREATHE-1 trial: +VO₂ + 6MWT em HAP)
- Ambrisentan (ETA-seletivo; oral para HAP)
- Macitentan (dual; maior biodisponibilidade; SERAPHIN trial: -45% eventos em HAP)
Inibidores de PCSK9 e Aterosclerose Pós-Stent
PCSK9 (Proprotein Convertase Subtilisin/Kexin type 9; serina protease; secretada pelo fígado; liga LDLR → endocitose e degradação do LDLR → menos LDLR na superfície → menos remoção de LDL → ↑LDL-C):
- LOF de PCSK9 (descobertos em populações com LDL baixo e sem DCV): validação genética
Anticorpos anti-PCSK9 (inibem PCSK9 → mais LDLR na superfície → ↓LDL 50-70%):
- Evolocumabe (Repatha®; Amgen; SC q2w ou q4w; FOURIER trial N=27.564 pós-STEMI/DCV: -15% MACE; ↓LDL de 92 para 30 mg/dL)
- Alirocumabe (Praluent®; Sanofi/Regeneron; SC q2w; ODYSSEY OUTCOMES: -15% MACE pós-SCA)
- Inclisirana (LEQVIO®; Novartis; siRNA via LNP; semestral SC; FDA 2021; inibe síntese hepática de PCSK9): ORION-10/11 → ↓LDL 50%
Referências Científicas
- Moses JW et al. SIRIUS (sirolimo DES Cypher; N=1.058; 8,9% vs 36,3% reestenose; TLR; mTOR inibição CML neointima; FDA 2003). *N Engl J Med* 2003;349(14):1315–1323.
- Stone GW et al. ABSORB (BRS PLLA everolimo; ABSORB III N=2.008; não-inferior 1 ano; trombose tardia ↑ BRS vs DES; retirada mercado 2017; lições aprendidas). *Lancet* 2016;387(10025):1277–1289.
- Sabatine MS et al. FOURIER (evolocumabe PCSK9; N=27.564; ↓LDL 30 mg/dL; -15% MACE; DCV estabelecida; FDA Repatha). *N Engl J Med* 2017;376(18):1713–1722.
- Galie N et al. (HAP hipertensão arterial pulmonar; endotelina bosentan ambrisentan macitentan; prostaciclina epoprostenol iloprost treprostinyl; sildenafila; revisão tratamentos). *Eur Heart J* 2015;36(38):2576–2639.
- Luscher TF & Barton M (eNOS NO óxido nítrico endotélio; shear stress; vasodilatação antiaterosclerótico; TXA2 PGI2; reestenose PDGF TGF-β; neointima; revisão). *Arterioscler Thromb Vasc Biol* 1997;17(7):1462–1469.
- Morice MC et al. RAVEL (sirolimo reestenose; 0% vs 26%; neointima inibição; CML proliferação; mTOR sirolimo mecanismo; revisão stents DES). *N Engl J Med* 2002;346(23):1773–1780.