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← Blog·Oncologia de Precisão05 de julho de 2026

Pembrolizumabe em MSI-H/dMMR Tumores: KEYNOTE-158, KEYNOTE-177 CCRm, KEYNOTE-158 Endométrio e a Era da Terapia Agnóstica ao Tumor

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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MSI-H e dMMR — biologia, causa e por que prediz resposta à imunoterapia

Sistema de reparo de pareamento (MMR — Mismatch Repair): DNA replica com erros ocasionais — principalmente em regiões de microssatélites (sequências repetitivas de 1-6 bp como (CA)n). O sistema MMR detecta e corrige esses erros: proteínas MLH1/PMS2 (heterodímero) e MSH2/MSH6 (heterodímero) identificam misturas de bases e dirigem correção.

dMMR (deficiência do MMR): Quando as proteínas MLH1, PMS2, MSH2 ou MSH6 estão ausentes/inativas (dMMR), erros de replicação em microssatélites não são corrigidos → acúmulo de inserções/deleções em microssatélites → MSI-H (microsatellite instability high) no sequenciamento.

Causas de dMMR/MSI-H: Germline (Síndrome de Lynch): mutação hereditária em MLH1, MSH2, MSH6, PMS2, EPCAM (deleção de promotor de MSH2). Causa hereditária mais comum de CCR (~3% dos CCR) e endométrio. Hereditary Non-Polyposis Colorectal Cancer (HNPCC). Somático (esporádico): hipermetilação epigenética do promotor de MLH1 → silenciamento. Associado a BRAF V600E em CCR. Representa ~15% de todos os CCR (maioria são esporádicos na 6ª-7ª décadas, cólon direito, BRAF V600E co-mutado).

MSI-H → alta carga neoantigênica → resposta à IO: Alta taxa de mutação somatica em MSI-H → centenas/milhares de frameshift mutations → neoproteínas/neoantigênios → apresentação via MHC → reconhecimento por linfócitos T. MSI-H tumores têm 10-100× mais neoantigênios que MSS → ambiente altamente inflamatório (CD8+ infiltrado) + expressão de PD-1/PD-L1 alta (resposta imune suprimida mas presente). Anti-PD-1 libera esses T CD8+ → lise tumoral. MSI-H = preditor de resposta a anti-PD-1 em qualquer tumor. Taxas de resposta: 30-80% dependendo do tumor.

Como testar MMR/MSI: PCR de microssatélites: padrão de referência para MSI (compara tamanhos de fragmentos de 5 marcadores específicos em tumor vs. normal). IHC de proteínas MMR (MLH1, PMS2, MSH2, MSH6): perda de expressão = dMMR. NGS (sequenciamento de nova geração): detecta simultaneamente MSI + TMB + mutações.

KEYNOTE-158 e a aprovação tumor-agnóstica de pembrolizumabe em MSI-H

KEYNOTE-158 — pembrolizumabe em múltiplos tumores avançados pré-tratados (fase II): Estudo basket de 10 coortes tumorais com pembrolizumabe 200 mg q3sem. Cada coorte era um tipo tumoral distinto; pacientes tinham MSI-H por PCR.

Resultados por tumor (ORR principais, pacientes MSI-H pré-tratados):

  • CCR: ORR 36%, DCR 59%. SLP 4,1 meses. SG 23,5 meses.
  • Endométrio: ORR 57%, DCR 65%. SLP 13,1 meses.
  • Câncer gástrico/esofágico: ORR 45%, DCR 55%.
  • Colangiocarcinoma: ORR 41%.
  • Ânus: ORR 24%.
  • Bexiga: ORR 33%.
  • Câncer de ovário: ORR 33%.
  • Pâncreas MSI-H (~1% dos pancreáticos): ORR 18% — modesto mas impressionante dado que pâncreas MSS tem <5% de resposta a IO.
  • Câncer de mama MSI-H: ORR 19%.
  • Glioblastoma MSI-H: ORR 0% (microambiente imunossupressor do SNC prevalece).

Aprovação FDA de maio 2017 — a primeira aprovação tumor-agnóstica em história da oncologia: FDA aprovou pembrolizumabe para "qualquer tumor sólido não ressecável ou metastático com MSI-H ou dMMR que progrediu após terapia prévia" — sem especificar localização anatômica. Marco histórico: pela primeira vez um oncológico aprovado pelo biomarcador molecular, não pela anatomia tumoral. Requer que o teste de MSI/dMMR seja validado clinicamente (PCR ou IHC).

Pembrolizumabe em endométrio MSI-H: KEYNOTE-158 endometrial coorte D: 49 pacientes endométrio avançado pré-tratado MSI-H. ORR 57,1%. Comparação impressionante: endométrio MSS com pembrolizumabe = ORR ~8%. MSI-H = diferença de 7×. Lenvatinibe + pembrolizumabe (KEYNOTE-775) também aprovado para endométrio avançado (incluindo MSS, para todos após platinum), mas com mecanismo diferente.

KEYNOTE-177 e CheckMate-142: IO como 1ª linha em CCRm MSI-H

KEYNOTE-177 (André et al., NEJM 2020) — pembrolizumabe vs. quimioterapia 1ª linha em CCRm MSI-H: 307 pacientes CCRm MSI-H/dMMR não-tratados. Pembrolizumabe 200 mg q3sem vs. quimioterapia padrão (FOLFOX ou FOLFIRI ± bevacizumabe ou cetuximabe — à escolha do investigador).

SLP: 16,5 vs. 8,2 meses (HR 0,60; P=0,0002). ORR: 43,8% vs. 33,1%. SG: 36,7 vs. 37,3 meses (HR 0,74 — NS). Crossover alto (61% dos pacientes no braço de quimio cruzaram para pembrolizumabe) pode ter obscurecido diferença em SG.

Aprovação FDA: junho 2020 para CCRm MSI-H/dMMR 1ª linha (expansão da indicação existente).

Ponto crítico: curva de SLP mostra crossing at ~4-5 meses — no início, quimio parece controlar melhor; depois, pembrolizumabe tem vantagem crescente. Implica que ~20-25% dos MSI-H CCRm não respondem bem a pembrolizumabe (MSI-H não é marcador perfeito de resposta). Seleção adicional por TMB, inflamação tumoral ainda em investigação.

CheckMate-142 (Overman et al., JAMA Oncol 2018) — nivolumabe + ipilimumabe em CCRm MSI-H 2ª linha: 119 pacientes CCRm MSI-H pré-tratados. Nivolumabe 3 mg/kg + ipilimumabe 1 mg/kg q3sem × 4 → nivolumabe 3 mg/kg q2sem. ORR: 55%. SG 12 meses: 73%. SG mediana: não atingida ao corte. DCR: 80%. Aprovação FDA: julho 2018 para CCRm MSI-H após fluoropirimidina, oxaliplatina e irinotecano.

Nivolumabe monoterapia em CCRm MSI-H (CheckMate-142 braço 1): 74 pacientes. ORR: 31,1%. Menor que dual bloqueio.

Escolha entre pembrolizumabe e nivo+ipi em CCRm MSI-H: 1ª linha: pembrolizumabe (KEYNOTE-177) é padrão preferido pela maioria das diretrizes. 2ª linha pós-quimio: nivo+ipi (CheckMate-142) aprovado e altamente eficaz. Sem comparação direta head-to-head entre os dois regimes.

TMB-H como biomarcador tumor-agnóstico: KEYNOTE-158 e limites de 10 mut/Mb

TMB (Tumor Mutational Burden) — definição e medida: Número de mutações somáticas por megabase de DNA codificante sequenciado. Calculado por NGS em painel (Foundation One, MSK-IMPACT, TEMPUS, etc.): correlaciona com número de neoantigênios. TMB-H definida como ≥10 mut/Mb pela Foundation One CDx (FDA-aprovado como companion diagnostic).

Diferença MSI-H vs. TMB-H: MSI-H é um mecanismo específico (dMMR) que cria frameshifts → neoantigênios. TMB-H pode ter outras causas (POLE/POLD1 mutação, carcinogênio UV em melanoma, tabagismo em CPNPC). MSI-H quase sempre tem TMB-H, mas TMB-H não implica MSI-H.

KEYNOTE-158 — TMB-H e pembrolizumabe: 10 coortes tumorais em KEYNOTE-158. Correlação entre TMB ≥10 mut/Mb e ORR: na maioria dos tumores, TMB-H correlaciona com resposta, mas não uniformemente.

  • CCR: TMB-H ≥10 sem MSI-H → fraca correlação com resposta (diferente de MSI-H que correlaciona bem). POLE/POLD1 mutados em CCR MSS: TMB muito alta (>100 mut/Mb) → boa resposta a IO.
  • CPNPC: TMB-H associado a melhor resposta a IO, mas sem aprovação isolada (PD-L1 é o marcador primário).
  • Aprovação FDA: junho 2020 para tumor-agnóstico TMB-H ≥10 mut/Mb pré-tratado — baseado em ORR 29% em TMB-H vs. 6% em TMB-baixo em pooled análise de KEYNOTE-158.

Controvérsia do TMB-H como biomarcador: Limites: cutoff de 10 mut/Mb é arbitrário (Foundation One CDx). Heterogeneidade tumoral. Painel vs. WES (sequenciamento de exoma completo). Métodos diferentes dão valores diferentes. Correlação varia por tumor. Endométrio: TMB-H sem MSI-H tem pior resposta que MSI-H (POLE mutado tem TMB altíssima mas também MSI-H). CPNPC: TMB-H adjuva PD-L1 mas TMB isolada não é critério NCCN de seleção. Debate: TMB-H pode ser marcador de tumores muito mutados mas microambiente muito inflamatório é necessário para resposta — nem todo TMB-H é "quente" imunologicamente.

POLE/POLD1 — ultramutadores: Mutações em POLE ou POLD1 (exonuclease de correção da DNA polimerase ε/δ) → falha na revisão → >100-200 mut/Mb → MSI-H + TMB-ultralto. Resposta a IO excelente mesmo em tumores normalmente refratários (glioblastoma POLE mutado com IO: respostas sustentadas relatadas). Em endométrio: POLE/POLD1 mutados = excelente prognóstico mesmo sem IO.

Terapias agnósticas ao tumor além de MSI-H: NTRK (TRK fusions), RET, NRG1

NTRK (Neurotrophic Tyrosine Receptor Kinase) fusions — a 3ª aprovação tumor-agnóstica: NTRK1/2/3 fusions (fusões com ETV6, LMNA, etc.) ativam TrkA/B/C constitutivamente → proliferação/sobrevida independente de ligante. Prevalência: rara (0,2-0,5%) na maioria dos cânceres adultos comuns, mas ~95% em carcinoma secretório (glândula salivar, mama), fibrossarcoma infantil, glicoma pilocítico.

Larotrectinibe (Vitrakvi®, LOXO-101): Inibidor seletivo pan-TRK. 55 adultos/crianças com tumores NTRK fusion+ (17 tipos diferentes). ORR: 75%. Respostas em carcinoma salivar, fibrossarcoma, pulmão, CCR, tireóide, GIST, glicoma. Aprovação FDA: novembro 2018 — 3ª aprovação tumor-agnóstica (após MSI-H e TMB-H).

Entrectinibe (Rozlytrek®, RG6268): Pan-TRK + ROS1 + ALK inibidor. STARTRK-2 + STARTRK-1 + ALKA-372-001 pooled: NTRK fusion+ adultos: ORR 57%, SLP 11,2 meses. Diferencial: maior penetração SNC → respostas em metástases cerebrais NTRK+. Aprovação FDA: agosto 2019 para tumores NTRK fusion+ e CPNPC ROS1+.

RET fusions — selpercatinibe e pralsetinibe em CPNPC e tireóide: RET fusão em CPNPC: 1-2%. RET fusão/mutação pontual em carcinoma de tireóide medular: 60-70% (germline em NEM2, somático em esporádico). Selpercatinibe (LOXO-292/Retevmo): RET fusão CPNPC ORR 64% (LIBRETTO-001). RET fusão tireóide: ORR 79%. Aprovação FDA: maio 2020 tumor-agnóstico-like (CPNPC + tireóide medular + outros tumores RET).

NRG1 fusions: NRG1 é um ligante de ERBB3/4 (família HER). NRG1 fusions ativam HER3 constitutivamente → PI3K/AKT. Ocorre em ~0,2% de tumores sólidos (pulmão, pâncreas, mama, bexiga). Zenocutuzumabe (MCLA-128): bispecífico anti-HER2/HER3 → bloqueia NRG1-HRR3 interaction → ORR 34% em NRG1+ CPNPC/pâncreas. Aprovação FDA: dezembro 2023 para pulmão NRG1+ e pâncreas NRG1+ (tumor-agnóstico tipo 2).

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é MSI-H e por que faz diferença no tratamento do câncer?+

MSI-H (alta instabilidade de microssatélites) significa que o tumor tem um defeito no sistema que normalmente corrige erros de replicação do DNA — chamado sistema MMR (mismatch repair). Sem esse sistema funcionando, o tumor acumula milhares de erros genéticos que geram proteínas anormais ('neoantigênios') não presentes em células normais. O sistema imune reconhece essas proteínas como estranhas, mas normalmente é suprimido pelo tumor via PD-L1/PD-1. Quando anti-PD-1 (pembrolizumabe) remove essa supressão, os linfócitos T combatem ativamente o tumor. É por isso que MSI-H prevê excelente resposta à imunoterapia: esses tumores têm a 'matéria-prima' para uma resposta imune forte que só precisava ser liberada. Tumores MSS (microssatélites estáveis), com poucos neoantigênios, geralmente não respondem da mesma forma.

Pembrolizumabe pode tratar qualquer tipo de câncer se for MSI-H?+

Sim, em princípio — e esse foi o marco revolucionário da aprovação do FDA em 2017: pembrolizumabe foi o primeiro medicamento aprovado baseado em um marcador molecular independente do local anatômico do tumor. Na prática, em praticamente todos os tipos de tumor MSI-H testados no estudo KEYNOTE-158, houve alguma taxa de resposta — de 19% no câncer de mama até 57% no endométrio. A exceção notável foi o glioblastoma (câncer cerebral) MSI-H, que não respondeu, provavelmente por causa do ambiente imunossupressor único do cérebro. Então, enquanto MSI-H é um excelente biomarcador preditivo de resposta à imunoterapia na maioria dos tumores, não é garantia universal — o contexto imunológico do microambiente tumoral também importa.

MSI-H e dMMR são a mesma coisa?+

São duas formas de identificar o mesmo problema pelo ensaio clínico: dMMR (deficiência do reparo de pareamento) é detectado por imuno-histoquímica — examina se as proteínas MLH1, PMS2, MSH2 e MSH6 estão presentes nas células tumorais; ausência de qualquer uma = dMMR. MSI-H (alta instabilidade de microssatélites) é detectado por PCR ou sequenciamento — examina o tamanho dos fragmentos de regiões repetitivas do DNA; variação anormal = MSI-H. Os dois testes identificam o mesmo estado biológico de diferentes formas e têm concordância de ~95%. Na prática clínica, IHC (dMMR) é mais simples e barato, realizado rotineiramente em CCR e endométrio. A aprovação do pembrolizumabe cobre ambos os termos: 'MSI-H/dMMR'.

Qual é a diferença entre imunoterapia para MSI-H e imunoterapia para PD-L1 positivo?+

PD-L1 e MSI-H são dois biomarcadores distintos que predizem resposta à imunoterapia por mecanismos diferentes: PD-L1 (expresso na superfície das células tumorais ou imunes) indica que o tumor já está sendo 'visto' e suprimindo ativamente a resposta imune — anti-PD-L1/PD-1 libera esses linfócitos T já presentes. MSI-H indica que o tumor tem muitos neoantigênios únicos que atraem linfócitos T para dentro do tumor. Um tumor pode ser MSI-H mesmo com PD-L1 baixo — e ainda responder muito bem à imunoterapia (porque tem muitos alvos para o sistema imune quando liberado). Em CCRm MSI-H, pembrolizumabe funciona independentemente do nível de PD-L1. Em CPNPC, PD-L1 alto (≥50%) é o marcador primário de seleção, e MSI-H é mais raro mas também prediz boa resposta.

O que é TMB-H e como difere de MSI-H?+

TMB-H (alta carga mutacional tumoral, ≥10 mutações por megabase) e MSI-H medem coisas relacionadas mas distintas: MSI-H é um mecanismo específico de defeito no reparo de DNA (dMMR) que gera frameshifts e neoantigênios de frameshift. TMB-H mede o número total de mutações, independente do mecanismo — pode ser causado por dMMR (e aí MSI-H e TMB-H coexistem), ou por outras causas como dano de UV (melanoma), tabagismo (CPNPC), mutações POLE/POLD1. Na prática: MSI-H é um preditor mais robusto e consistente de resposta ao pembrolizumabe do que TMB-H isolado. Para CCRm por exemplo, MSI-H prevê resposta (~43% ORR com pembrolizumabe) mas TMB-H sem MSI-H prevê muito menos. A aprovação FDA de pembrolizumabe para TMB-H ≥10 mut/Mb foi mais controversa — o benefício varia muito por tipo tumoral e o corte de 10 mut/Mb é considerado arbitrário por alguns especialistas.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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