Classificação molecular TCGA do endométrio e implicações terapêuticas
Carcinoma de endométrio — epidemiologia: CCE é o câncer ginecológico mais comum nos países desenvolvidos (pós-menopausais, sangramento pós-menopausa como sintoma precoce). >90% são endometrióides de baixo grau → excelente prognóstico com cirurgia. Subtipos de mau prognóstico: seroso (~10%), células claras, carcinosarcoma (MMMT — tumor mülleriano misto maligno).
Classificação molecular TCGA (2013) — 4 grupos:
- POLE ultramutado (~7-10%): mutações em exonuclease de POLE → TMB extremamente alta (>100 mut/Mb) + MSI-H. Paradoxalmente: ÓTIMO prognóstico mesmo em estágio avançado. Máxima resposta a IO (vacinas neoantígeno, IO padrão).
- MSI-H/dMMR (~30%): hipermetilação de MLH1 ou mutações germline MMR (Lynch). TMB alta. IO eficaz (pembrolizumabe/dostarlimabe ORR ~50-57%). Prognóstico intermediário-favorável.
- Cópia baixa não-específica (CNL) — "serous-like" (~40%): CTNNB1 (β-catenina) mutado em endometrióide, PTEN, PIK3CA. Prognóstico intermediário.
- CNH (cópia alta) / TP53-mutado (~20%): seroso, células claras, carcinosarcoma. TP53 mutado em quase 100%. Pior prognóstico. Similar ao câncer seroso de ovário molecularmente.
Aplicação clínica dos subtipos TCGA: ProMisE (Proactive Molecular Risk Classifier for Endometrial Cancer): classificação prática em 4 grupos usando IHC MMR + POLE + p53. POLE mutado: omissão de radioterapia adjuvante explorada em estudos (recorrências raras mesmo sem tratamento adjuvante). dMMR/MSI-H: menos benefício de QT adjuvante (já melhor prognóstico que TP53), IO em recidiva eficaz. CNH/TP53-anormal: mais benefício de QT adjuvante, pior resposta a IO isolada.
Biomarkers: dMMR/MSI-H: IHC MMR (MLH1/PMS2/MSH2/MSH6) ou PCR MSI. POLE: sequenciamento exon 9/10/13 de POLE. p53: IHC p53 (pattern anormal: ausente ou superexpresso).
KEYNOTE-158 dMMR endometrial e GARNET — dostarlimabe em CCE recorrente
KEYNOTE-158 coorte D — pembrolizumabe em endométrio MSI-H pré-tratado: 49 pacientes carcinoma de endométrio avançado MSI-H pré-tratados. Pembrolizumabe 200 mg q3sem. ORR: 57,1%. CR: 12,2%. Duração mediana de resposta: 24 meses+. SLP: 13,1 meses. SG: mediana não atingida. Aprovação FDA: setembro 2017 para endométrio MSI-H/dMMR pré-tratado (como parte da aprovação tumor-agnóstica).
KEYNOTE-158 coorte E (endometrial proficiente em MMR, MSS): ORR apenas ~3% com pembrolizumabe monoterapia → IO isolada não funciona em endometrial MMR-proficiente.
GARNET (Oaknin et al., Lancet Oncol 2022) — dostarlimabe em endométrio e outros tumores r/r: Dostarlimabe (TSR-042): anti-PD-1 humanizado. Dois coortes de endométrio no GARNET: Coorte A1 (dMMR/MSI-H): 129 pacientes. ORR: 41,6%. CR: 9,3%. Duração mediana: 34,7 meses. Coorte A2 (MMRp/MSS): 173 pacientes. ORR: 13,3% — maior que pembrolizumabe isolado, mas ainda modesto. Aprovação FDA: abril 2021 para endométrio r/r (acelerada), 2023 (regular) para dMMR recorrente.
Nivolumabe + ipilimumabe em endometrial MSI-H: CheckMate-10174: nivolumabe + ipilimumabe em CCE e outros tumores gynecológicos MSI-H. ORR: ~36%. Dados menores.
Pembrolizumabe em 1ª linha endometrial (RUBY — dostarlimabe, NRG-GY018): Ruby (Mirza et al., NEJM 2023): 494 pacientes CCE avançado/recorrente 1ª linha. Dostarlimabe + carboplatina + paclitaxel vs. placebo + QT. dMMR: PFS HR 0,28 (2 anos PFS: 61% vs. 16%). pMMR: PFS HR 0,76 (P NS — não significativo em pMMR isolado).
NRG-GY018 (Eskander et al., NEJM 2023): 816 pacientes CCE avançado/recorrente 1ª linha. Pembrolizumabe + carbo + paclitaxel vs. placebo + QT. dMMR: PFS HR 0,30. pMMR: PFS HR 0,54 (P<0,001 — positivo até em pMMR!).
Aprovação FDA: dezembro 2022 (pembrolizumabe + carbo + paclitaxel em CCE avançado/recorrente, qualquer MMR).
KEYNOTE-775 e Study 309: lenvatinibe + pembrolizumabe para endometrial pMMR
Racional de lenvatinibe + pembrolizumabe em CCE pMMR: Lenvatinibe (VEGFR1/2/3, FGFR, RET, KIT): inibe angiogênese → pode reduzir VEGF imunossupressor no microambiente → torna tumor mais imunogênico ("normalização vascular + imune"). Pembrolizumabe + lenvatinibe: sinergismo potencial — lenvatinibe reduz supressão imune induzida por VEGF + pembrolizumabe libera T CD8+.
KEYNOTE-775 / Study 309 (Makker et al., NEJM 2022) — lenvatinibe + pembrolizumabe vs. quimio em CCE avançado pré-tratado: 827 pacientes CCE avançado/recorrente pós-1 linha de platina. Lenvatinibe 20 mg/dia + pembrolizumabe 200 mg q3sem vs. quimio padrão (doxorrubicina ou paclitaxel — escolha do investigador).
Todos os pacientes: SLP: 7,2 vs. 3,8 meses (HR 0,56; P<0,001). SG: 18,3 vs. 11,4 meses (HR 0,62; P<0,001). ORR: 31,5% vs. 14,7%.
dMMR (n=130): SLP 13,1 vs. 4,2 meses (HR 0,34). SG: 30,4 vs. 15,5 meses. pMMR (n=697): SLP 6,6 vs. 3,8 meses (HR 0,60; P<0,001). SG: 17,4 vs. 12,0 meses (HR 0,68; P<0,001).
Aprovação FDA: março 2021 para endometrial avançado, pMMR ou dMMR, pós-platina.
Importância do KEYNOTE-775: mostrou que lenvatinibe+pembro funciona MESMO em pMMR/MSS — onde IO isolada falha. Isso deve-se ao sinergismo VEGFR+PD-1. Tornou-se o padrão de 2ª linha em CCE independente de MMR.
Toxicidade específica de lenvatinibe: Hipertensão: 60% qualquer grau, grau 3 ~38%. Necessita monitoramento de PA e anti-hipertensivos. Fadiga, proteinúria, diarreia, disfonia, hipotireoidismo (TSH q8 semanas). Ajuste de dose a 14 mg ou 10 mg se toxicidade grau 2-3 persistente.
Carcinosarcoma e células claras uterinos — tratamento e perspectivas
Carcinosarcoma uterino (tumor mülleriano misto maligno — MMMT): Composto de componente carcinomatoso (glandular) + sarcomatoso (heterólogo ou homólogo). Tumor raro, altamente agressivo, >70% apresentam-se estágio III-IV. TP53 mutado em >90% (grupo CNH). Resposta à IO: limitada vs. dMMR CCE. Sem alvo molecular estabelecido além de MSI-H (raro em MMMT).
TRATAMENTO: ifosfamida + paclitaxel (padrão por décadas — GOG 232B). Carboplatin + paclitaxel aceito (melhor tolerado). IO + QT (Study 309/KEYNOTE-775 incluiu carcinosarcoma): benefício modesto em pMMR.
HER2: amplificado em 30-60% dos carcinosarcomas e de células claras. Trastuzumabe + platinum + paclitaxel: GOG 3056 fase II (resultados aguardados). T-DXd em estudo para HER2+ endometrial.
Células claras uterinas: <5% dos CCE mas alto risco de metástase. TP53-mutado geralmente. MSI-H raro. ARID1A mutado (proteína SWI/SNF) em ~30% → sinalização WNT. Sem alvo aprovado específico. Tratamento: platina + taxano → lenvatinibe+pembro 2ª linha (KEYNOTE-775 incluiu células claras).
Selinexor (XPO1 inibidor) em CCE: SIENDO: selinexor 80 mg semanal em CCE avançado pMMR pós-platina. PFS: 3,8 vs. 3,0 meses (HR 0,70; P=0,11 — NS). Análise pré-especificada: CTNNB1 mutado (β-catenina ativado): PFS HR 0,33 (positivo) — potencial biomarcador. Sem aprovação, mas dado interessante em CTNNB1-mutado.
Perspectivas em CCE avançado (2025): 1ª linha qualquer MMR: carboplatin + paclitaxel + pembrolizumabe (NRG-GY018) ou dostarlimabe (RUBY). 2ª linha pós-platina: lenvatinibe + pembrolizumabe (KEYNOTE-775) — qualquer MMR. 2ª linha dMMR: pembrolizumabe ou dostarlimabe monoterapia. HER2+: trastuzumabe em estudos. BRCA/HRD: olaparibe em estudos.